estudos:beneval-de-oliveira:em-busca-da-verdade-do-ser
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| + | ====== Beneval de Oliveira: Em busca da verdade do Ser ====== | ||
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| + | ==== A Fenomenologia no Brasil ==== | ||
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| + | === Temática do Existencialismo Brasileiro === | ||
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| + | //A Fenomenologia no Brasil, Beneval de Oliveira, Pallas, 1983 | ||
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| + | O presente trabalho tem como objetivo enfocar a temática do existencialismo brasileiro. Neste sentido, procuramos pesquisar as origens dessa temática, a partir de uma reinterpretação da filosofia grega, dando ênfase, sobretudo, à ontologia de Martin Heidegger, justamente por ter esse filósofo despertado maior atenção que os demais filósofos existencialistas entre os nossos estudiosos da matéria. | ||
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| + | De outro lado, procuramos analisar a frio, o pensamento de nossos pesquisadores, | ||
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| + | Como reinterpretação da filosofia existencial na antiga filosofia grega não vemos como dissociada do sentido de finitude e temporalidade, | ||
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| + | Antes de mais nada é preciso explicitar, embora em rápidos traços, o pensamento desvelante, apofântico do “Ser-Ai” heideggeriano. | ||
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| + | No “Ser e Tempo”, Heidegger inicia o seu discurso, assinalando que a questão do ser caiu no esquecimento, | ||
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| + | Mas assinalamos, | ||
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| + | Por sua vez, na “Introdução à Metafísica ((NA: Introdução à Metafísica. Tradução de E. Carneiro Leão. T. B. p. 33.)) Heidegger começa esta pergunta, “Porque há simplesmente o ente e não antes o Nada? Eis a questão. Certamente não se trata de uma questão qualquer, essa é evidentemente a primeira de todas as questões. A primeira, sem dúvida, não na ordem da sequência cronológica das questões. Em sua caminhada histórica através do tempo o homem e os povos investigam muito. Pesquisam, procuram e examinam muitas coisas antes de se depararem com a questão, “Porque há simplesmente o ente e não antes o Nada”. Muitos nunca a . encontram, não no sentido de a lerem e ouvirem formulada, mas no sentido de investigarem a questão, isto é, de a levantarem, de a colocarem, de se porem no estado de questão. E não obstante todos são atingidos uma vez por outra, talvez mesmo de quando em vez, por sua força secreta, sem saberem ao certo o que lhes acontece. Assim, num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão. Talvez apenas insinuada, como uma badalada surda, que ecoa na existência e aos poucos de novo se esboroa”. | ||
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| + | Respondendo à questão, Heidegger ele mesmo assegura que “no sentido correto de sua investigação, | ||
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| + | Sim, porque até agora, a metafísica entificava o ser. Ela não levava o ser mesmo a falar, porque não considerava o ser em sua verdade e a verdade como o seu desvelamento. A essência da verdade para a metafísica clássica sempre apareceu apenas na forma derivada da verdade do conhecimento. Jamais respondeu a verdade do ser porque nem a suscitou como questão, ela não o problematizou, | ||
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| + | Mas já é tempo de se perguntar o que é o Ser, como se diferencia do ente? Preferimos aqui dar a palavra a Emmanuel Lévinas, quando no seu “En decouvrant L’existence avec Husserl et Heidegger”, | ||
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| + | Já Carneiro Leão em capítulo de seu livro já referido, ((NA: Carneiro Leão, Em. op. cit. p. 114.)) observava, “O Ser nunca é diretamente acessível. Como diferença ontológica, | ||
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| + | Mas deixemos os comentadores e passemos diretamente ao autor de “Sein und Zeit”, que explica a constituição do Ser do Ser Aí, isto que quer dizer a seu turno : “O Ser aí” se compreende sempre de qualquer maneira e mais ou menos explicitamente em seu ser. Ele é característico deste ente que com seu ser e por seu ser lhe seja revelado. A compreensão do ser é ele mesmo uma determinação de ser do -”ser ai”. O caráter ôntico próprio ao “ser aí” assegura isto é que o “ser aí” é ontológico. | ||
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| + | Chamamos existência o ser mesmo a respeito do qual o ser se comporta de tal ou de tal maneira e sempre de qualquer maneira. Compreende-se, | ||
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| + | Após assinalar, em várias considerações o problema da ambigüidade da palavra “mundo” do qual o “Ser Aí” é inseparável em vista da pluralidade de entes, e da condição do ente ser um “Ser com Outro” Mitsein, Heidegger observa o seguinte no Ser e Tempo, na página 88: | ||
| + | -* 1) O mundo pode ser tomado como um conceito ôntico. Ele significa então a totalidade dos entes que podem subsistir no interior do mundo; | ||
| + | -* 2) O mundo pode fazer função do termo ontológico. Ele significa, neste caso, o ser dos entes visados. O “mundo” pode ser então o título de uma região englobando uma pluralidade de entes. É o sentido visado pela expressão : o “mundo” do matemático, | ||
| + | -* 3) O mundo pode ser ainda uma vez, tomado em um sentido ôntico. Ele não designa mais, ao presente, o ente que o “Ser Aí” não é essencialmente visto em que vive um “Ser aí” existente de fato. O mundo tem aqui. uma significação existencial e pré-ontológica. Esta última significação comporta novamente diversas possibilidades que ela designa o mundo onde vivemos, seja que designa um mundo privado e imediato, um mundo ambiente. | ||
| + | -* 4) O mundo designa, enfim, o conceito ontológico e existencial da mundanidade, | ||
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| + | Prosseguindo, | ||
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| + | Vejamos, agora, os resultados das análises existenciais de Heidegger que vão mostrar a existência humana como uma existência finita, limitada e humilhada. A preocupação, | ||
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| + | O sentimento de situação tão bem conhecida como Befindlichkeit, | ||
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| + | Resumindo, a analítica fenomenológica da existência humana começa por uma descrição da existência cotidiana ((NA: Gurvitch, Georges - Las Tendencias actuales de la Filosofia Alemana - pp. 20/21 - Aguilar, Editor – Madrid, 1932)) Alltag, donde reina “todo o mundo”. O homem existe no mundo In der Welt Sein. Encontra-se nele, observa Georges Gurvitch, antes de conhecê-lo; | ||
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| + | Gurvitch um dos primeiros filósofos que comentaram Heidegger e os demais filósofos alemães de seu tempo, como Husserl, Scheler, Lask, Hartman, distingue na preocupação dois aspectos diferentes, 1) na existência banal se identifica com a preocupação de todo o mundo e este procura acalmá-la e tranquilizá-la, | ||
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| + | O sentimento de situação ainda que a despeito da compreensão não escapa à visão perdida do mundo, que a anuncia como uma existência degradada Verfallen, não há nesta concepção heideggeriana nenhum pressuposto de que o homem começa a degradar-se pelo pecado, ela é simplesmente compreensível pela tomada de consciência de que o homem é um “ser para a morte”, isto é, um ser finito, destinado a perecer, ir remediavelmente. | ||
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| + | A morte é assim encarada como característica essencial da existência” que é a existência, | ||
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| + | Passando-se da finitude para a temporalidade Zeitlichkeit vê-se que, em Heidegger, uma e continuação da outra, já que o ser da existência humana é essencialmente histórico. | ||
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| + | A posição do homem no mundo é a de temporalizar-se como resultado de seus ex-tases e de sua condição de “ser no mundo”. | ||
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| + | O ser da existência humana é essencialmente histórico, mas a história não é um objeto da ciência histórica formado por um método particular, pois a história é um setor do ser mesmo e esse setor é idêntico à existência humana. | ||
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| + | Nas Questões I, Heidegger salienta que “o desvelamento -inicial do ente em sua totalidade, a interrogação sobre o ente como tal, e o começo da história ocidental, são uma só e mesmo coisa, elas se efetuam ao mesmo “tempo”, | ||
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| + | Em Holzwege, ao cuidar do problema estético, Heidegger salienta que o desvelamento do ser, a desocultação do ente ao temporalizar-se, | ||
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| + | -* 01) BINSWANGER, Ludwig - Discours, parcours, et Freud - Éditións Gallimard - Paris - 1970. Ensaios que entrelaçam uma série de discursos acerca da aplicação do Da-sein heideggeriano na Psicanálise. | ||
| + | -* 02) BINSWANGER, Ludwig - Introduction a L’Analyse Existencielle - Les Éditions de Minuit - Paris - 1971. Novos ensaios do autor da Daseinanalyse, | ||
| + | -* 03) BORNHEIM, Gerd A. - Dialética, Teoria, Praxis - Editora Globo - Editora da Universidade de São Paulo - Ensaio crítico da fundamentação ontológica da dialética. O autor faz uma crítica do problema da finitude em Heidegger, sobretudo, na questão da praxis. | ||
| + | -* 04) CARNEIRO Leão, Emanuel - Aprendendo a pensar - Vozes - Coletânea de artigos tendo como base o sentido existencial da vida. | ||
| + | -* 05) DUFRENNE, Mikel - Estética e Filosofia. Persepctiva - São Paulo. Estudo da estética fenomenológica com um capítulo destinado ao estudo do poeta grego Pindaro, através do livro de Jacqueline Duchemin Pindare poeta et prophète. | ||
| + | -* 06) DILTHEY, W. - Escritos Reunidos - E. Weniger, 1944 Leipzig - Embora sendo considerado um filósofo da vida, Dilthey pode figurar como um historiador da existência humana. Sua posição de filósofo histórico está bem definida neste trabalho. | ||
| + | -* 07) FERREIRA DA SILVA, Vicente - Obras Completas vol. 1. Edição da R.B.F. São Paulo, Coletânea de artigos de filosofia, dentre os quais se destacam os que estudam a filosofia existencial de M. Heidegger. | ||
| + | -* 08) GURWITCH, Georges - Las Tendências Atuales de La Filosofia Alemana - Aguilar Editores - Madrid. 1928. Estudos filosóficos em torno de Husserl, Sheler, Lask, Hartman e Heidegger, fazendo clara exposição dos temas da filosofia contemporânea. | ||
| + | -* 09) HEIDEGGER, Martin - L’Étre et le Temps - Gallimard - 1964 - Estudo da primeira obra de Martin Heidegger em que são expostos os principies básicos da sua filosofia do sentido do ser. | ||
| + | -* 10) HEIDEGGER, Martin - Chemins qui ne ménent nulle pari - alemão Holswege - Gallimard, Paris. Estudo de vários temas de filosofia existencial de Heidegger, incluindo “A origem da obra de arte” e a Palavra de Anaximandro. | ||
| + | -* 11) HEIDEGGER, Martin - Que é Metafísica. Duas Cidades. São Paulo, 1969. Textos de Heidegger desenvolvendo temas relacionados com a ontologia do prof. de Friburg. | ||
| + | -* 12) HEIDEGGER, Martin - Introdução à Metafísica. Tempo Brasileiro. Tradução de Emanuel Carneiro Leão. Livro básico para a compreensão do problema do esquecimento do Ser. Porque o ser e não apenas, o Nada? | ||
| + | -* 13) HEIDEGGER, Martin - Ensaios I. II e III Gallimard - Novos Artigos em torno da temática heideggeriana sobre finitude, temporalidade, | ||
| + | -* 14) LÉVINAS, Eminanuel - En Découvrant L’Existence avec Husserl et Heidegger - Vrin - Paris, 1974 - Conferências e Estudos em torno da fenomenologia de Husserl e Heidegger. | ||
| + | -* 15) RICOEUR, Paul - O Conflito das Interpretações Imago Editora, 1978 - Seu objetivo central consiste em enfrentar os grandes desafios do pensamento contemporâneo. Trata-se de assumir filosoficamente a tensão dos conflitos que nos envolvem no plano do pensamento. | ||
| + | -* 16) STEIN, Ernildo - Em busca de uma ontologia da Finitude. Este trabalho é parte de um Curso de Metafísica instituído pelo autor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1969. Pub. na Revista Brasileira de Filosofia.// | ||
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