estudos:beaufret:poema-parmenides-1973
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| + | ====== POEMA DE PARMÊNIDES (1973) ====== | ||
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| + | * O Poema de Parmênides é pouco estudado na França, mas sua interpretação é uniformizada por uma tradição que vai de Platão à filologia moderna | ||
| + | * A interpretação clássica opõe Parmênides a Heráclito: um defende a imobilidade do ser, o outro o fluxo universal | ||
| + | * Essa leitura baseia-se na suposta rejeição, por Parmênides, | ||
| + | * As controvérsias interpretativas concentram-se na natureza da segunda parte do Poema, sobre o mundo da ilusão ou erro | ||
| + | * Diels (1897) vê dois níveis de erro: a confusão comum e o erro filosófico de Heráclito | ||
| + | * Wilamowitz (1899) argumenta que Parmênide não fala contra ninguém; as opiniões (doxa) são uma verdade inferior para quem não atinge o pleno verdadeiro | ||
| + | * Reinhardt (1916) rejeita ambas: a doxa não é mera justaposição à verdade (aletheia), mas parte integrante de um todo unitário, ligada a um " | ||
| + | * A interpretação de Reinhardt é mantida por estudiosos como Fränkel e Lohmann, e reconhecida por Heidegger como um avanço, embora incompleta | ||
| + | * A novidade da interpretação de Reinhardt é a percepção de uma tripartição no discurso da Deusa, e não uma simples bipartição | ||
| + | * Tradicionalmente, | ||
| + | * Reinhardt propõe uma tripartição: | ||
| + | * Heidegger, em //Ser e Tempo// (1927), assinala a importância da descoberta de Reinhardt, mas aponta a falta de fundamentação ontológica da conexão entre aletheia e doxa | ||
| + | * A questão permanece: qual é a natureza exata dessa tripartição? | ||
| + | * A leitura filológica é insuficiente se carregada de pressupostos filosóficos não examinados | ||
| + | * Exemplo: quando Fränkel diz que Parmênides " | ||
| + | * Propõe-se uma leitura filosófica, | ||
| + | * A leitura dos fragmentos iniciais do Poema confirma a tripartição | ||
| + | * A Deusa anuncia que o jovem deve aprender tudo: tanto o " | ||
| + | * Essa terceira tarefa é distinta e não pode ser reduzida a uma paráfrase das anteriores | ||
| + | * Diante da tripartição, | ||
| + | * Diels altera o texto para salvar o sentido, lendo que se deve aprender como o erro deve ser retificado | ||
| + | * Wilamowitz, preservando o texto, enfraquece a oposição, sugerindo que a doxa, por não ser contraditória, | ||
| + | * Reinhardt oferece uma terceira possibilidade: | ||
| + | * Propõe-se uma quarta possibilidade de leitura, distinta da de Reinhardt e filologicamente viável | ||
| + | * "Tendo penetrado até o coração da verdade e bem compreendido a que erros os homens se deixam levar, aprende também em que as coisas, tais como se dão a ver, não se portam menos, à sua maneira, muito bem" | ||
| + | * Os // | ||
| + | * A tarefa é aprender a vê-los " | ||
| + | * A aletheia (Aberto-sem-retração) e sua contraparte, | ||
| + | * Aletheia não é simplesmente " | ||
| + | * Lethe não é simples " | ||
| + | * O não-ser é o caminho do retraimento total, um não-caminho | ||
| + | * A questão do nada (não-ser) é intrínseca à questão do ser desde a origem | ||
| + | * Heidegger destacará que a questão do nada acompanha e indica o nível da questão do ser em cada época | ||
| + | * O fragmento que afirma a identidade do pensar e do ser é central | ||
| + | * "O mesmo, em verdade, é ao mesmo tempo pensar e ser" | ||
| + | * Não se trata de uma identidade numérica, mas de uma comum pertença numa Identidade (Mesmidade) mais alta | ||
| + | * O ser pertence a uma Identidade com o pensar, que é anterior ao princípio de identidade lógica | ||
| + | * Esta Identidade pré-lógica é o tema mais constante do pensamento ocidental, subjacente às oscilações entre realismo e idealismo | ||
| + | * Kant, na //Crítica da Razão Pura//, ecoa esta identidade ao afirmar que as condições da possibilidade da experiência são também condições dos objetos da experiência | ||
| + | * Contudo, em Kant, o foco está no pensamento que dita condições ao ser. Em Parmênides, | ||
| + | * O ser é a dimensão que acolhe o jogo da presença e da ausência | ||
| + | * Os prefixos //para-// (proximidade) e //apo-// (afastamento) são essenciais para entender o ser grego (einai) | ||
| + | * O ser é o jogo incessante presença-ausência no íntimo do ente | ||
| + | * Mesmo os ausentes são, num sentido, solidamente presentes para o pensamento | ||
| + | * O pensamento de Parmênides não é teológico nem ontológico no sentido posterior | ||
| + | * O ser não é o divino, mas a dimensão onde o divino também está presente e ausente | ||
| + | * O ser não é o predicado mais comum e vazio, mas a singularidade única do ajuntamento que dá medida a tudo | ||
| + | * A interpretação do caminho dos mortais (fragmentos VI e VII) é crucial | ||
| + | * Os mortais são " | ||
| + | * O erro não está em ver presença e ausência, mas em separá-las absolutamente, | ||
| + | * A " | ||
| + | * Os //me onta// (não-entes) não são o nada absoluto, mas os entes em sua diversidade, | ||
| + | * Heidegger chamará mais tarde a isso de " | ||
| + | * A interpretação tradicional de Parmênides como pensador abstrato de um ser-esfera além do mundo é uma caricatura | ||
| + | * Diels chega a dizer que Parmênides, | ||
| + | * Essa leitura perde completamente o sentido do Poema como palavra da aurora | ||
| + | * A apresentação do ser no fragmento VIII é feita por epítetos que traçam seus " | ||
| + | * O ser é ingênito, imperecível, | ||
| + | * Esses sinais contrastam com o caminho dos // | ||
| + | * O fundamento da aletheia é a //moira// (Destino, Necessidade) | ||
| + | * Moira não é um fardo externo, mas o partilhar originário que mantém o ser em seus liames | ||
| + | * É por causa da moira que a doxa se apega a simples representações denominativas, | ||
| + | * A segunda parte do Poema, sobre o // | ||
| + | * A interpretação tradicional vê aqui um "mundo da ilusão" | ||
| + | * Propõe-se que o diakosmos é a exposição do mundo tal como se desdobra em sua verdade, para quem sabe pensar a unidade dos opostos (luz e noite, presença e ausência) | ||
| + | * O diakosmos é o //kosmos// (joia, ornamento) que brilha em tudo, o ajuntamento secreto que sustenta todo ajuntamento visível | ||
| + | * Heráclito e Parmênides dizem o mesmo | ||
| + | * A oposição entre eles é uma construção da tradição, já presente em Platão | ||
| + | * Ambos pensam a unidade dos contrários, | ||
| + | * A diferença de palavras não esconde a escuta de um mesmo Logos | ||
| + | * O Poema culmina com a gênese e a nomeação das coisas | ||
| + | * O fragmento XIX introduz a fórmula //kata doxan//, tradicionalmente lida como " | ||
| + | * Propõe-se uma leitura objetiva: //kata doxan// como "ao filo da aparência" | ||
| + | * As coisas nascem e são nomeadas pelos homens, que separam e designam. Mas o saber verdadeiro pensa a identidade onde os mortais veem disjunção | ||
| + | * O saber grego do ser, em sua aurora, é um saber-ser que se desdobra no elemento da presença sem violência | ||
| + | * É a graça e a desenvoltura do homem do ser, que supera a fascinação unilateral pelo ente | ||
| + | * Esse saber se manifesta no ritmo (rythmos), na justeza do //kairos// (o momento oportuno, o que há de melhor em tudo) | ||
| + | * Aristóteles reprovará a Platão ter desertado esse sentido do ritmo, reduzindo a sinfonia a uníssono | ||
| + | * A leitura do Poema de Parmênides permite entrever essa maravilha | ||
| + | * O mesmo, em verdade, é ao mesmo tempo pensar e ser | ||
| + | * O ser é para o ser ao mais próximo | ||
| + | * A esfera perfeita, radiante a partir do centro | ||
| + | * Esta é a palavra ouvida por Parmênides, | ||
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