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 Desde suas origens a filosofia constitui contemplação e meditação sobre a essência da realidade e principalmente sobre a essência da Natureza (Physis) nos filósofos anteriores à época socrática. A inocente atitude que consiste em perguntar porque algo é, ou porque uma cousa é o que ela é, está na base de toda a filosofia. Ambas as perguntas se reduzem a uma só, porque, quando se pergunta porque algo é, pergunta-se também porque a cousa é o que ela é. Pergunta-se pela essência da realidade. A filosofia se põe, desde seu início, como ciência das essências. Desde suas origens a filosofia constitui contemplação e meditação sobre a essência da realidade e principalmente sobre a essência da Natureza (Physis) nos filósofos anteriores à época socrática. A inocente atitude que consiste em perguntar porque algo é, ou porque uma cousa é o que ela é, está na base de toda a filosofia. Ambas as perguntas se reduzem a uma só, porque, quando se pergunta porque algo é, pergunta-se também porque a cousa é o que ela é. Pergunta-se pela essência da realidade. A filosofia se põe, desde seu início, como ciência das essências.
  
-Mas a filosofia tem, ao mesmo tempo, um sentido estrito, como ciência da essência e da existência de todos os seres; e um sentido lato, como sabedoria da vida e como visão do mundo. De todo modo, a filosofia se distingue do saber vulgar, inclusive do saber científico. A filosofia é sophia e não episteme. Os pitagóricos faziam claramente essa distinção entre sabedoria e saber e distinguiam entre a mente, a sabedoria e a “ira” ((D. Laércio, L.VIII. O conhecimento vulgar e o instinto se distinguem do entendimento e da racionalidade (estes se distinguem da sabedoria e da contemplação).)). — Mas é claro que se a filosofia procura saber como as cousas são, procura também como devemos ser; o conhecimento de como as cousas são, implica no como devemos ser. De toda filosofia como ciência da essência e da existência, ainda mesmo da mais abstrata, deriva um conjunto de noções de como devemos ser. Toda filosofia, em certo sentido, é sabedoria da vida. Como sabedoria da vida, a filosofia exerce uma ação catharctica, ou de purificação; tal era o sentido do orfismo, para o qual a filosofia não saiu do âmbito da contemplação religiosa. Tal é o motivo pelo qual os pitagóricos, quando estudavam matemática ou música, medicina ou ginástica, o que viam nesses estudos era, em graus diferentes, meios de purificar as almas e correlativamente os corpos ((Como também observa Léon Robin, La Pensée Grecque, 1948, pág. 65)). O chamado “paradoxo socrático” consistia em identificar a sabedoria e a virtude, levando ao exagero o pressuposto segundo o qual o conhecimento do bem produz necessariamente a virtude. Este paradoxo sublinha o fato pelo qual não se pode traçar um limite entre a ciência das essências e a sabedoria da vida. A filosofia, mesmo enquanto abstração, está profundamente ligada ao destino da vida e ao sentido das cousas. Mesmo enquanto abstrata, a filosofia está profundamente ligada ao concreto. O saber vulgar, ao contrário, estabelece o domínio do abstrato sobre o concreto. O saber vulgar não vai além do que os gregos denominavam opinião (doxa) e, num grau mais alto do que denominavam ciência (episteme); só a filosofia procura a verdade profunda; Parmênides, no seu poema sobre A Natureza estabelece a oposição que há entre Verdade e opinião, esta última não sendo mais que ilusão e erro; a verdade não é outra cousa senão o Ser Absoluto, objeto da filosofia de Parmênides. A mesma distinção entre Verdade e Opinião está fortemente marcada nos fragmentos de Demócrito e Leucipo, onde o conhecimento autêntico se opõe ao convencional. Tal é a distinção que se desenvolve em toda a obra platônica entre o mundo das Ideias e o mundo dos sentidos. É uma distinção vivamente assinalada por Plotino, que separa radicalmente o saber e a sabedoria, sendo o saber a negação da Sabedoria. Diz Plotino, em sua [Sexta Eneada->http://platon.hyperlogos.info/Eneada-VI], que a alma se afasta da unidade e deixa de ser una quando apreende um objeto pela ciência; porque ciência é discurso e discurso é multiplicidade; é preciso portanto superar a ciência, abandonar a ciência e seus objetos, se não se quer perder a unidade de si mesmo, caindo no múltiplo que é o caminho da matéria e portanto do nada. — Do mesmo modo, Santo Agostinho separa a ciência e a sabedoria; a sabedoria e a verdade segundo Santo Agostinho estão acima da razão e portanto da ciência; são explícitas neste sentido várias passagens de Santo Agostinho, principalmente no De Trinitate e no De Magistro.+Mas a filosofia tem, ao mesmo tempo, um sentido estrito, como ciência da essência e da existência de todos os seres; e um sentido lato, como sabedoria da vida e como visão do mundo. De todo modo, a filosofia se distingue do saber vulgar, inclusive do saber científico. A filosofia é sophia e não episteme. Os pitagóricos faziam claramente essa distinção entre sabedoria e saber e distinguiam entre a mente, a sabedoria e a “ira” ((D. Laércio, L.VIII. O conhecimento vulgar e o instinto se distinguem do entendimento e da racionalidade (estes se distinguem da sabedoria e da contemplação).)). — Mas é claro que se a filosofia procura saber como as cousas são, procura também como devemos ser; o conhecimento de como as cousas são, implica no como devemos ser. De toda filosofia como ciência da essência e da existência, ainda mesmo da mais abstrata, deriva um conjunto de noções de como devemos ser. Toda filosofia, em certo sentido, é sabedoria da vida. Como sabedoria da vida, a filosofia exerce uma ação catharctica, ou de purificação; tal era o sentido do orfismo, para o qual a filosofia não saiu do âmbito da contemplação religiosa. Tal é o motivo pelo qual os pitagóricos, quando estudavam matemática ou música, medicina ou ginástica, o que viam nesses estudos era, em graus diferentes, meios de purificar as almas e correlativamente os corpos ((Como também observa Léon Robin, La Pensée Grecque, 1948, pág. 65)). O chamado “paradoxo socrático” consistia em identificar a sabedoria e a virtude, levando ao exagero o pressuposto segundo o qual o conhecimento do bem produz necessariamente a virtude. Este paradoxo sublinha o fato pelo qual não se pode traçar um limite entre a ciência das essências e a sabedoria da vida. A filosofia, mesmo enquanto abstração, está profundamente ligada ao destino da vida e ao sentido das cousas. Mesmo enquanto abstrata, a filosofia está profundamente ligada ao concreto. O saber vulgar, ao contrário, estabelece o domínio do abstrato sobre o concreto. O saber vulgar não vai além do que os gregos denominavam opinião (doxa) e, num grau mais alto do que denominavam ciência (episteme); só a filosofia procura a verdade profunda; Parmênides, no seu poema sobre A Natureza estabelece a oposição que há entre Verdade e opinião, esta última não sendo mais que ilusão e erro; a verdade não é outra cousa senão o Ser Absoluto, objeto da filosofia de Parmênides. A mesma distinção entre Verdade e Opinião está fortemente marcada nos fragmentos de Demócrito e Leucipo, onde o conhecimento autêntico se opõe ao convencional. Tal é a distinção que se desenvolve em toda a obra platônica entre o mundo das Ideias e o mundo dos sentidos. É uma distinção vivamente assinalada por Plotino, que separa radicalmente o saber e a sabedoria, sendo o saber a negação da Sabedoria. Diz Plotino, em sua Sexta Eneada, que a alma se afasta da unidade e deixa de ser una quando apreende um objeto pela ciência; porque ciência é discurso e discurso é multiplicidade; é preciso portanto superar a ciência, abandonar a ciência e seus objetos, se não se quer perder a unidade de si mesmo, caindo no múltiplo que é o caminho da matéria e portanto do nada. — Do mesmo modo, Santo Agostinho separa a ciência e a sabedoria; a sabedoria e a verdade segundo Santo Agostinho estão acima da razão e portanto da ciência; são explícitas neste sentido várias passagens de Santo Agostinho, principalmente no De Trinitate e no De Magistro.
  
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