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 A concepção unívoca do ser, tal como a elaborou Parmênides (homem digno de temor e de respeito, como disse Platão no Theetéte) influiu de modo decisivo na posterior formação da ontologia das essências, nas quais grandes correntes do pensar filosófico buscaram a realidade verdadeira, por oposição ao mundo das existências, onde apenas se encontraria uma realidade aparente, ilusória. A realidade platônica não é a existência, mas a essentia - ousia - e o mundo sensível no qual nós nos movemos não é mais que uma sombra, como nos diz o mito platônico da caverna. Mas, como se há de conciliar a pluralidade dos seres, com a unidade unívoca do Ser parmenídico? Não se pergunta já como se há de conciliar o vir-a-ser com o Ser, mas os seres com o Ser. Inutilmente Platão multiplica as essências, que constituem os archétypos dos fenômenos sensíveis. A noção unívoca do Ser não deixou nunca de marcar a ontologia platônica, a qual em vários lugares se pergunta claramente: “Qual é o ser eterno que não nasce, e qual é o ser que nasce sempre e não existe nunca?” (Timée, 27 d). O que significa que entre o ser e o existir há uma radical distinção (como a distinção entre o inteligível e o sensível) e que atrás da ilusão do existir, deve-se procurar o “realmente real”, o Ser. Este Ser será então a Essência das Essências, ou Ideia das Ideias (noção de cujo caráter contraditório Platão tinha consciência), teoria refutada com veemência por Aristóteles, com a verificação de que as ideias são absolutamente incapazes de produzir o movimento, porque —pensamos— de duas uma: ou as ideias são e existem e neste caso foi um movimento fora delas que as trouxe à existência, ou então as ideias são, mas não existem. Esta última alternativa parece ter sido a de Platão mesmo, para quem importa o que é, e não o que existe, pois o que existe é mito, sombra. O que existe não é objeto de ciência, de conhecimento, mas de “opinião” — doxa —. Tal se realiza aqui uma ontologia das essências que absolutamente não reconhece a existência e o devenir. A concepção unívoca do ser, tal como a elaborou Parmênides (homem digno de temor e de respeito, como disse Platão no Theetéte) influiu de modo decisivo na posterior formação da ontologia das essências, nas quais grandes correntes do pensar filosófico buscaram a realidade verdadeira, por oposição ao mundo das existências, onde apenas se encontraria uma realidade aparente, ilusória. A realidade platônica não é a existência, mas a essentia - ousia - e o mundo sensível no qual nós nos movemos não é mais que uma sombra, como nos diz o mito platônico da caverna. Mas, como se há de conciliar a pluralidade dos seres, com a unidade unívoca do Ser parmenídico? Não se pergunta já como se há de conciliar o vir-a-ser com o Ser, mas os seres com o Ser. Inutilmente Platão multiplica as essências, que constituem os archétypos dos fenômenos sensíveis. A noção unívoca do Ser não deixou nunca de marcar a ontologia platônica, a qual em vários lugares se pergunta claramente: “Qual é o ser eterno que não nasce, e qual é o ser que nasce sempre e não existe nunca?” (Timée, 27 d). O que significa que entre o ser e o existir há uma radical distinção (como a distinção entre o inteligível e o sensível) e que atrás da ilusão do existir, deve-se procurar o “realmente real”, o Ser. Este Ser será então a Essência das Essências, ou Ideia das Ideias (noção de cujo caráter contraditório Platão tinha consciência), teoria refutada com veemência por Aristóteles, com a verificação de que as ideias são absolutamente incapazes de produzir o movimento, porque —pensamos— de duas uma: ou as ideias são e existem e neste caso foi um movimento fora delas que as trouxe à existência, ou então as ideias são, mas não existem. Esta última alternativa parece ter sido a de Platão mesmo, para quem importa o que é, e não o que existe, pois o que existe é mito, sombra. O que existe não é objeto de ciência, de conhecimento, mas de “opinião” — doxa —. Tal se realiza aqui uma ontologia das essências que absolutamente não reconhece a existência e o devenir.
  
-E se por um lado Platão estabelece uma espécie de analogia proporcional do ser, pela multiplicação das essências, por outro a univocidade do Ser platônico ressalta claramente quando se pensa na teoria da unidade da Essência, em face da multiplicidade dos indivíduos particulares que dela participam. Se a essência se divide nesses indivíduos, então ela não terá unidade e não tendo unidade, não é Ser, não é Essência. E o que “realmente é” voltará a ser uma contradição do que existe. Mesmo que não se leve em conta esta dificuldade, admitindo que a unidade, por exemplo, da essência — anthropos — (homem) não se destrua pela divisão na existência dos múltiplos homens, esta essência não poderá ser senão uma unidade em si mesma, tem que ser una e se converterá no Um de Plotino e dos demais neoplatônicos((Plotino extraiu as últimas consequências da ontologia das essências em Platão, consequências já indicadas em várias passagens platônicas: No Sofista onde se chega ao ser unívoco, pela verificação de que o idêntico a si próprio se reduz ao Um. Na Republica, onde o realmente real se apresenta como além do próprio Ser.)). Haverá somente um único “realmente real”, o Um do qual advirão todos os seres, consubstanciais ao Um e que do Um derivariam por uma processão e ao qual retornariam por uma reabsorção, num processo circular. Deste modo o Um é o Ser. O Ser é o Um: eis aqui uma concepção do Ser verdadeiramente unívoca e que se destrói a si mesma, quando em Plotino o Um se apresenta ao mesmo tempo como Ser e como não-ser, e como incognoscível, porque quando o supomos cognoscível o supomos múltiplo. O objeto da inteligência platônica que era a inteligibilidade essencial, desaparece aqui na ininteligibilidade do Um. ((Particularmente, [Va. Ennéade. III parte.->http://platon.hyperlogos.info/Eneada-V-3], col. Budé, trad. E. Bréhier.))+E se por um lado Platão estabelece uma espécie de analogia proporcional do ser, pela multiplicação das essências, por outro a univocidade do Ser platônico ressalta claramente quando se pensa na teoria da unidade da Essência, em face da multiplicidade dos indivíduos particulares que dela participam. Se a essência se divide nesses indivíduos, então ela não terá unidade e não tendo unidade, não é Ser, não é Essência. E o que “realmente é” voltará a ser uma contradição do que existe. Mesmo que não se leve em conta esta dificuldade, admitindo que a unidade, por exemplo, da essência — anthropos — (homem) não se destrua pela divisão na existência dos múltiplos homens, esta essência não poderá ser senão uma unidade em si mesma, tem que ser una e se converterá no Um de Plotino e dos demais neoplatônicos((Plotino extraiu as últimas consequências da ontologia das essências em Platão, consequências já indicadas em várias passagens platônicas: No Sofista onde se chega ao ser unívoco, pela verificação de que o idêntico a si próprio se reduz ao Um. Na Republica, onde o realmente real se apresenta como além do próprio Ser.)). Haverá somente um único “realmente real”, o Um do qual advirão todos os seres, consubstanciais ao Um e que do Um derivariam por uma processão e ao qual retornariam por uma reabsorção, num processo circular. Deste modo o Um é o Ser. O Ser é o Um: eis aqui uma concepção do Ser verdadeiramente unívoca e que se destrói a si mesma, quando em Plotino o Um se apresenta ao mesmo tempo como Ser e como não-ser, e como incognoscível, porque quando o supomos cognoscível o supomos múltiplo. O objeto da inteligência platônica que era a inteligibilidade essencial, desaparece aqui na ininteligibilidade do Um. ((Particularmente, Va. Ennéade. III parte., col. Budé, trad. E. Bréhier.))
  
 Esta concepção unívoca do Ser, fonte verdadeira de todo panteísmo, terá que explicar a realidade do múltiplo por um processo circular de divisão e depois de reunificação. Uma teoria deste gênero foi defendida no século IX por Johannes Scotus Erigeno, em seu tratado De Divisione Naturae: a divisão da natureza é como a divisão de um gênero em espécies, tudo derivando de um único princípio e sendo a exteriorização em graus diversos desse princípio, que é o Ser único, unívoco, sendo tudo o mesmo Deus, de onde vimos por uma difusão e para onde voltamos por uma reabsorpção. Esta concepção unívoca do Ser, fonte verdadeira de todo panteísmo, terá que explicar a realidade do múltiplo por um processo circular de divisão e depois de reunificação. Uma teoria deste gênero foi defendida no século IX por Johannes Scotus Erigeno, em seu tratado De Divisione Naturae: a divisão da natureza é como a divisão de um gênero em espécies, tudo derivando de um único princípio e sendo a exteriorização em graus diversos desse princípio, que é o Ser único, unívoco, sendo tudo o mesmo Deus, de onde vimos por uma difusão e para onde voltamos por uma reabsorpção.
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