estudos:barbaras:vida:ruyer
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| + | ====== Ruyer ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. Introducción a una fenomenología de la vida: intencionalidad y deseo. Madrid: Ediciones Encuentro, S.A., 2013// | ||
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| + | **As três vias de acesso às superfícies absolutas** | ||
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| + | **A via fenomênica** | ||
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| + | * A filosofia de Raymond Ruyer enfrenta a relação entre vida e consciência partindo do campo visual e dissolve a distinção ontológica entre corpo vivo e consciência ao concebê-los como modalidades de uma realidade originária denominada domínio absoluto de sobrevoo ou superfície absoluta. | ||
| + | * A consciência não pode ser compreendida como começo acósmico e condição idealista do ser dos entes. | ||
| + | * O corpo vivo também não pode ser reduzido a fragmento de matéria organizada do qual a consciência emergiria como epifenômeno. | ||
| + | * [[lx> | ||
| + | * A consciência é inseparável do cérebro sem ser produzida por processos cerebrais objetivos, e a única solução para essa correlação consiste em reconhecer que as sensações são a própria realidade do cérebro, enquanto o cérebro percebido é a aparência exterior dessa consciência para outro observador. | ||
| + | * O cérebro, como fragmento material, somente recebe e transmite movimentos e não pode produzir representações ou estados conscientes. | ||
| + | * As sensações encontram-se espacialmente situadas na cabeça e são correlativas aos movimentos nervosos, mas não podem ser confundidas com os objetos percebidos. | ||
| + | * A consciência não existe ao lado do cérebro nem como luz que o envolveria, mas constitui a realidade própria do sistema nervoso. | ||
| + | * O cérebro objetivo é a forma sob a qual essa realidade consciente aparece a outra consciência situada externamente. | ||
| + | * O problema psicofísico perde o sentido quando o dualismo entre corpo e consciência é substituído pela diferença epistemológica entre realidade e aparência objetiva. | ||
| + | * O corpo enquanto objeto constitui um subproduto da percepção de um ser por outro, pois aquilo que é percebido aparece necessariamente como objeto exterior, sem que essa aparência corresponda ao ser real daquele que aparece. | ||
| + | * A reorganização ontológica de Ruyer separa o ser-objeto do ser real e reduz o fenômeno percebido à aparência de uma realidade que, não podendo ser dada exteriormente, | ||
| + | * O objeto é ser-para-outro, | ||
| + | * A percepção não oferece diretamente a realidade em si, mas a aparência que ela assume para uma consciência exterior. | ||
| + | * O cérebro pode ser considerado produto fenomênico da consciência, | ||
| + | * O epifenomenismo invertido atribui toda realidade e eficácia ao subjetivo e converte o objetivo em manifestação desprovida de atuação própria. | ||
| + | * A identificação entre consciência e cérebro exige abandonar a concepção cartesiana de uma consciência transparente, | ||
| + | * A consciência somente pode aparecer externamente como matéria cerebral porque não é inteiramente alheia à espacialidade. | ||
| + | * As sensações estão situadas ou são sua própria situação, de modo que a realidade do tecido vivo ultrapassa a oposição entre sensação imanente e cérebro objetivo. | ||
| + | * O projeto de Ruyer combate simultaneamente a concepção da consciência como interioridade sem extensão e a concepção do corpo como matéria puramente objetiva, articulando um acesso fenomenológico à experiência e um acesso científico ao organismo. | ||
| + | * O método pressupõe que tanto a análise fenomênica quanto os resultados científicos possuam alcance ontológico. | ||
| + | * A convergência entre as duas vias exige mostrar que a consciência envolve espacialidade e que o corpo vivo manifesta uma forma originária de consciência. | ||
| + | * A validade desse duplo acesso permanece problemática porque o alcance ontológico da experiência dependeria de sua abertura efetiva à realidade exterior. | ||
| + | * O campo visual não é dado a um sujeito exterior colocado diante dele, pois sua subjetividade pertence ao próprio campo e não remete a uma entidade separada que funcionaria como espectador. | ||
| + | * A distância entre corpo e objetos pertence às condições físicas da sensação, não à estrutura da sensação já constituída. | ||
| + | * A hipótese de um sujeito exterior ao campo exigiria uma super-retina psíquica e conduziria a uma regressão infinita. | ||
| + | * O campo visual aparece e é visto sem uma dimensão perpendicular que exigisse um ponto metafísico exterior como condição de sua manifestação. | ||
| + | * A subjetividade do campo visual consiste em sua capacidade de possuir-se e sobrevoar-se sem distância, estando presente a si mesmo em todas as suas partes sem depender de um centro exterior de perspectiva. | ||
| + | * As partes permanecem espacialmente exteriores umas às outras, mas são dadas conjuntamente sem que um sujeito separado as unifique. | ||
| + | * O campo visual é sua própria consciência, | ||
| + | * O domínio de sobrevoo constitui uma superfície absoluta porque somente é relativo a si mesmo e é seu próprio aparecer. | ||
| + | * A posição de um sujeito positivo separado do campo resulta de uma transposição metafísica das condições corporais da percepção para o interior da própria experiência. | ||
| + | * O campo de consciência não oferece conhecimento intuitivo nem de uma realidade exterior distinta dele nem de um sujeito separado. | ||
| + | * A consciência caracteriza-se pela identidade entre aparição e aparecer, excluindo qualquer distância entre aquilo que é dado e sua presença a si, mas Ruyer introduz a originalidade de conceber essa imanência como essencialmente espacial. | ||
| + | * Os domínios absolutos são simultaneamente autossubjetivos e extensos. | ||
| + | * A consciência pode ser descrita como extensão imanente ou autoafecção espacializada, | ||
| + | * A natureza da consciência coincide com a natureza da extensão real, pois toda extensão verdadeira constitui um domínio consciente de si. | ||
| + | * A extensão não pode ser reduzida à exterioridade absoluta das partes, pois essa definição a pulverizaria em pontos isolados e destruiria a unidade que permite reconhecê-las como partes de um mesmo espaço. | ||
| + | * A definição bergsoniana do espaço como completa exterioridade e independência das partes somente convém ao espaço geométrico abstrato. | ||
| + | * A extensão real exige uma unidade imanente capaz de reunir a multiplicidade sem suprimi-la. | ||
| + | * Essa unidade não pode resultar de um ato espiritual exterior, pois uma consciência sobrevoante dissolveria a relativa exterioridade das partes em uma identidade puramente ideal. | ||
| + | * A unidade da extensão somente pode ser preservada se a consciência coincidir com aquilo que reúne e se deixar distender ou dividir pela multiplicidade cuja coesão assegura. | ||
| + | * A extensão não é objeto para uma consciência externa, mas é consciência, | ||
| + | * Não há consciência do espaço senão como consciência espacializada. | ||
| + | * O domínio unitário articula a reunião das partes com sua exterioridade sem recorrer a uma unidade transcendente. | ||
| + | * A copertença entre consciência e extensão prolonga para o espaço a relação reconhecida entre consciência e duração, pois tanto o espaço quanto o tempo exigem uma consciência que não os sobrevoe exteriormente, | ||
| + | * Não haveria duração sem experiência do passado e afastamento do presente. | ||
| + | * Uma consciência exterior ao tempo o transformaria em simultaneidade e eliminaria sua passagem. | ||
| + | * A consciência do tempo deve temporalizar-se e ser atravessada pelo fluxo que reúne. | ||
| + | * A teoria dos domínios de sobrevoo estende à espacialidade a solidariedade entre consciência e duração evidenciada por [[sofia> | ||
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| + | **As vias biológica e metafísica** | ||
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| + | * A análise do campo fenomênico permite compreender a consciência como princípio de unidade imanente a uma multiplicidade extensa e torna concebível que o próprio cérebro exista como domínio absoluto capaz de possuir-se e sobrevoar-se sem distância. | ||
| + | * O cérebro objetivo não explica a geração da consciência. | ||
| + | * A extensão absoluta da consciência exige uma localização física, indicada pelo cérebro. | ||
| + | * Nada obriga a reduzir a realidade cerebral ao modo como ela aparece como objeto. | ||
| + | * Os tecidos vivos das áreas cerebrais podem possuir em si mesmos a realidade de domínio absoluto revelada pela experiência fenomênica. | ||
| + | * A identificação entre cérebro e consciência não deve atribuir ao sistema nervoso a mediação exclusiva entre vida e psiquismo, pois o cérebro torna possível a consciência sensível não por sua especialização fisiológica, | ||
| + | * A consciência vivida é modalidade derivada de uma consciência originária idêntica à vida. | ||
| + | * O cérebro não produz a consciência em geral, mas determina o conteúdo específico da consciência sensível. | ||
| + | * A tradição dualista restringe indevidamente o significado psicológico aos comportamentos regulados pelo sistema nervoso. | ||
| + | * O comportamento da ameba demonstra que a unidade, a autocondução, | ||
| + | * A enorme simplicidade estrutural da ameba não a impede de exibir caracteres fundamentais dos comportamentos animais superiores. | ||
| + | * O sistema nervoso constitui uma riqueza funcional conveniente, | ||
| + | * A finalidade e a unidade do comportamento devem ser atribuídas à própria vida, não exclusivamente ao tecido nervoso. | ||
| + | * A distinção entre o psíquico e o físico não pode resultar da especialização de algumas células em neurônios, pois a consciência não poderia surgir subitamente de uma realidade inteiramente inconsciente. | ||
| + | * O psíquico deve estar antecipado no interior da vida. | ||
| + | * Ruyer identifica diretamente o vital e o consciente, substituindo o problema da emergência por distinções internas à própria consciência. | ||
| + | * A embriologia confirma que o organismo está presente a si mesmo espacial e temporalmente, | ||
| + | * A equipotencialidade permite que diferentes regiões assumam funções inicialmente atribuídas a outras. | ||
| + | * A continuidade entre embrião, organismo e cérebro prevalece sobre as diferenças anatômicas e fisiológicas. | ||
| + | * O embrião deve corresponder a um domínio de consciência primeira, porque seu tema significativo ultrapassa as estruturas observáveis que o exprimem. | ||
| + | * A consciência primeira do organismo não é percepção ou conhecimento, | ||
| + | * O vivente possui-se enquanto se produz e age, sendo para si porque é por si. | ||
| + | * A consciência é originariamente ativa, dinâmica e organizadora das estruturas espaço-temporais de seu domínio. | ||
| + | * A equipotencialidade constitui a aparência objetiva dessa autossubjetividade para um observador exterior. | ||
| + | * As vias fenomênica e biológica convergem para um modo de ser único no qual a consciência é extensa e a vida possui interioridade, | ||
| + | * A consciência está enraizada na vida porque a vida é consciência em seu fundo. | ||
| + | * O organismo objetivo manifesta uma presença ativa a si que excede a exterioridade de suas partes. | ||
| + | * A interioridade vital não depende de um sujeito positivo, mas consiste no dobramento do vivente sobre si mesmo. | ||
| + | * O domínio de sobrevoo pode ser denominado inmanência realizada ou extensão presente a si. | ||
| + | * A recusa da emergência da consciência conduz igualmente à recusa da emergência da vida, pois o auto-sobrevoo caracteriza toda realidade dotada de unidade autêntica, desde o organismo até a célula, a molécula e o átomo. | ||
| + | * A divisão ontológica fundamental não separa consciência e vida nem matéria e vida. | ||
| + | * Os seres primários possuem unidade por auto-sobrevoo, | ||
| + | * A verdadeira diferença encontra-se entre extensão dominada e extensão fragmentada segundo o partes extra partes. | ||
| + | * A análise da união mostra que nenhuma coesão verdadeira pode ser explicada por colagem de elementos exteriores, pois a necessidade de unir os próprios elementos de ligação conduziria a uma regressão infinita. | ||
| + | * Enquanto a realidade for concebida apenas como partes externas umas às outras, nenhuma unidade poderá ser verdadeiramente fundada. | ||
| + | * Dois termos formam unidade somente quando são conjuntamente auto-sobrevoados. | ||
| + | * Toda unidade autêntica possui caráter subjetivo, e há consciência onde existe verdadeira integração. | ||
| + | * A generalização do modo vital de ser a toda realidade unitária amplia excessivamente os conceitos de vida e consciência e corre o risco de perder as propriedades fenomenológicas específicas que se pretendia explicar. | ||
| + | * A vida testemunha de modo privilegiado um modo de ser que a ultrapassa e se estende aos seres primários em geral. | ||
| + | * O ganho em extensão conceitual pode significar perda de compreensão da singularidade do vivente. | ||
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| + | **Consciência primeira e consciência segunda** | ||
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| + | **O problema da intencionalidade perceptiva** | ||
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| + | * A metafísica de Ruyer recusa a emergência da consciência a partir da vida e restringe a função do cérebro à produção da modalidade sensorial de uma consciência primeira já presente em todo organismo. | ||
| + | * A consciência primeira corresponde ao auto-sobrevoo do organismo. | ||
| + | * A consciência segunda corresponde ao auto-sobrevoo das áreas cerebrais moduladas por estímulos externos. | ||
| + | * A consciência sensível apresenta a forma dos objetos exteriores, mas esse conteúdo não pertence à essência universal da consciência ou da vida. | ||
| + | * A derivação da consciência segunda a partir da consciência primeira permanece problemática porque o sobrevoo do tecido cerebral não explica por que a consciência deixa de apresentar esse tecido e passa a manifestar somente os efeitos dos estímulos externos. | ||
| + | * A modulação cortical continua sendo um acontecimento cerebral ocorrido na massa do organismo. | ||
| + | * Não se compreende por que o cérebro sobrevoado se ocultaria e deixaria aparecer exclusivamente o conteúdo do estímulo. | ||
| + | * Atribuir ao cérebro o poder de desprender-se de si para remeter ao objeto em forma de imagem apenas desloca a dificuldade. | ||
| + | * Ruyer tenta explicar o desprendimento da consciência sensível pela abertura adaptativa do organismo ao outro, mas não demonstra como essa relação com a alteridade deriva do auto-sobrevoo vital. | ||
| + | * O psiquismo primário já se dirige à subsistência em um ambiente recortado segundo a organização do vivente. | ||
| + | * A sensação tornar-se-ia independente por ser procurada como meio de adaptação ao mundo. | ||
| + | * A intencionalidade é pressuposta como finalidade vital sem ser articulada ao modo de ser imanente da consciência primeira. | ||
| + | * A consciência segunda distingue-se da primeira não apenas pelo conteúdo cerebral sobrevoado, mas por sua modalidade intencional, | ||
| + | * Uma diferença de conteúdo não pode produzir por si mesma a capacidade de relacionar-se com algo. | ||
| + | * A introdução da exterioridade na consciência cerebral pressuporia inserir no próprio cérebro uma intencionalidade que o auto-sobrevoo não consegue explicar. | ||
| + | * Ruyer acaba fazendo surgir a intencionalidade do tecido nervoso de modo tão inexplicável quanto as teorias por ele criticadas faziam surgir a consciência. | ||
| + | * A modulação das células nervosas por causas externas não transforma sua autopresença em representação do objeto que provocou essa modulação. | ||
| + | * A consciência celular pode possuir a modificação cerebral sem percorrer inversamente a cadeia causal até sua fonte exterior. | ||
| + | * Uma propriedade recebida do exterior continua sendo conteúdo cerebral e não se torna espontaneamente consciência de exterioridade. | ||
| + | * A sensação somente seria possível se a relação com o mundo já estivesse realizada no cérebro, hipótese que permanece incompreensível. | ||
| + | * O sacrifício da intencionalidade compromete o próprio sentido da consciência que se pretendia enraizar na vida. | ||
| + | * A consciência sensível ruyeriana permanece imanente e oferece apenas formas correspondentes aos objetos exteriores, sem abrir-se verdadeiramente à exterioridade concreta e transcendente do mundo. | ||
| + | * A consciência encontra-se confinada às imagens e separada da realidade que supostamente representam. | ||
| + | * As sensações estão na cabeça e não podem apontar para além do lugar em que se produzem. | ||
| + | * A espacialização da inmanência não basta para estabelecer relação com aquilo que existe a distância. | ||
| + | * O domínio de sobrevoo constitui uma superfície absoluta sem profundidade e incapaz de ser atravessada pela transcendência. | ||
| + | * A impossibilidade da intencionalidade invalida o método de duplo acesso de Ruyer, pois o alcance ontológico da descrição fenomênica exigiria que a consciência perceptiva abrisse efetivamente para o mundo objetivo. | ||
| + | * A investigação científica da realidade pressupõe uma experiência perceptiva capaz de alcançar essa realidade. | ||
| + | * O campo consciente, porém, é definido como incapaz de sair de si e de conhecer intuitivamente uma exterioridade. | ||
| + | * O procedimento ruyeriano pressupõe um realismo perceptivo que sua própria teoria da consciência desmente. | ||
| + | * A metafísica oscila entre preservar o método mediante a abertura da consciência ao outro, abandonando os domínios absolutos, ou conservar a teoria dos domínios e perder toda justificação para recorrer à exterioridade objetiva. | ||
| + | * A contradição entre método e conteúdo decorre da confusão entre o ponto de vista fenomenológico e a perspectiva realista. | ||
| + | * Uma teoria da consciência intencional seria necessária para justificar o acesso ao mundo e sua elaboração científica, | ||
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| + | **Consciência e extensão** | ||
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| + | * Ruyer procura contornar a dificuldade da percepção identificando o objeto percebido a um tema ou essência transespacial refletida pelas áreas cerebrais, reduzindo a intencionalidade à apreensão geral de significações. | ||
| + | * Os domínios espaço-temporais organizam-se segundo temas transespaciais e transtemporais. | ||
| + | * A consciência primeira unifica o organismo segundo um tema vital, enquanto a consciência segunda unificaria as modulações cerebrais segundo temas objetivos. | ||
| + | * A área sensorial funcionaria como um espelho que recebe fisicamente as imagens e reflete as essências correspondentes. | ||
| + | * O recurso às essências não explica a percepção porque pressupõe que o conteúdo cerebral já tenha sido apreendido como referência a um objeto exterior. | ||
| + | * A essência somente pode ser aplicada a algo previamente reconhecido como objeto. | ||
| + | * O reconhecimento inteligível pressupõe a percepção em vez de fundá-la. | ||
| + | * A percepção é indevidamente assimilada à captação de sentido e valor, apagando sua especificidade como relação com um existente concreto. | ||
| + | * A única exterioridade admitida pelo domínio de sobrevoo passa a ser a essência transespacial, | ||
| + | * A identidade ruyeriana entre consciência e vida supera a oposição entre idealismo e materialismo e permite pensar a existência natural da consciência, | ||
| + | * Ruyer supera a oscilação de Merleau-Ponty entre corporeidade mundana e propriedade consciente do corpo. | ||
| + | * A consciência deve ser pensada a partir da vida para que sua pertença ao mundo seja restituída. | ||
| + | * A consciência segunda não pode ser satisfatoriamente derivada do auto-sobrevoo vital. | ||
| + | * A dualidade entre corpo e psiquismo reaparece no interior da vida como oposição entre consciência primeira e consciência segunda. | ||
| + | * A percepção torna-se uma riqueza cerebral conveniente, | ||
| + | * A dificuldade central encontra-se na articulação entre consciência e extensão, pois o domínio de sobrevoo identifica a consciência à espacialidade sem explicar como uma interioridade autossubjetiva pode ser extensa ou como a exterioridade espacial pode concentrar-se em autopresença. | ||
| + | * A autoafecção, | ||
| + | * A extensão exige consciência para não se pulverizar em partes isoladas, mas isso não implica que a consciência espacial seja uma superfície auto-sobrevoada. | ||
| + | * O espaço caracteriza-se primordialmente pela profundidade que escapa à consciência e resiste à apropriação. | ||
| + | * A consciência do espaço é uma consciência excedida pelo espaço, não uma consciência que o reúne inteiramente em si. | ||
| + | * A extensão não deve ser concebida nem como alteridade absoluta da consciência nem como consciência realizada, pois constitui uma transcendência que se desdobra, recua em profundidade e se oferece precisamente ao escapar da apreensão integral. | ||
| + | * A exterioridade não se apoia em uma substância transcendente positiva, mas apresenta-se como retirada e ausência no interior do que é dado. | ||
| + | * A copertença entre consciência e extensão exige a intencionalidade, | ||
| + | * Ser consciência de algo significa poder dirigir-se ao que a excede e abrir uma exterioridade não dominável. | ||
| + | * O paralelismo com o tempo conduz à mesma conclusão, pois a consciência temporal não produz nem sobrevoa o tempo, mas é carregada e despossuída pelo surgimento temporal que continuamente a ultrapassa. | ||
| + | * A consciência somente possui o tempo como aquilo que a despossui. | ||
| + | * Do mesmo modo, somente há consciência do espaço como consciência rebaixada pela profundidade espacial. | ||
| + | * O excesso indissoluvelmente espacial e temporal constitui a essência da consciência. | ||
| + | * A filosofia de Ruyer oferece uma saída decisiva para a oposição entre consciência e corpo ao identificar consciência e vida, mas reduz a consciência ao auto-sobrevoo e perde a intencionalidade que a caracteriza como percepção de um mundo. | ||
| + | * A consciência não emerge do corpo vivo porque o corpo vivo já é consciência em seu fundo. | ||
| + | * Não existe vida totalmente inconsciente nem consciência inteiramente desvinculada da vida. | ||
| + | * A identificação pura entre ambas torna incompreensível a abertura para aquilo que não é a própria consciência. | ||
| + | * A alternativa entre uma filosofia da percepção incapaz de enraizar a consciência na vida e uma filosofia da vida incapaz de preservar a intencionalidade somente parece inevitável quando a concepção ruyeriana é tomada como única filosofia possível do viver. | ||
| + | * A teoria dos domínios de sobrevoo não parte propriamente da vitalidade, mas do problema geral da união e da individualidade. | ||
| + | * A vida é reduzida a modalidade de um modo de ser mais amplo compartilhado por átomos, moléculas, células, tecidos, órgãos e organismos. | ||
| + | * A metafísica de Ruyer constitui mais uma teoria da mônada e um monismo da subjetividade do que uma fenomenologia específica da vida. | ||
| + | * A abordagem da consciência e da vida pela unidade conduz Ruyer a defini-las como posse de si e clausura, impedindo a abertura a uma verdadeira alteridade e esclarecendo mais a unidade do vivente do que sua vitalidade. | ||
| + | * A investigação biológica não basta para alcançar a essência da vida quando a questão fundamental permanece a das condições gerais da unidade. | ||
| + | * Continua aberta a possibilidade de uma filosofia da vida centrada na consciência perceptiva que ela torna possível. | ||
| + | * A vitalidade deve ser compreendida não pela unidade fechada do organismo, mas pela relação da consciência com o espaço e com aquilo que a ultrapassa. | ||
| + | * A vida deverá ser caracterizada como falta de unidade, dilaceramento, | ||
| + | * O reconhecimento ruyeriano da identidade entre vida e consciência permanece uma aquisição incontornável, | ||
| + | * A perda da intencionalidade não justifica o retorno à separação clássica entre consciência e vida. | ||
| + | * O excesso da consciência em direção ao mundo não precisa depender de uma superioridade ontológica em relação à vida. | ||
| + | * A vida deve ser pensada como realidade cuja própria vitalidade abre o sujeito à exterioridade verdadeira do mundo. | ||
| + | * A questão decisiva consiste em determinar o sentido do ser da vida capaz de enraizar a intencionalidade da consciência em seu dinamismo próprio. | ||
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