estudos:barbaras:vida:movimento
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| + | ====== Movimento ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. Introducción a una fenomenología de la vida: intencionalidad y deseo. Madrid: Ediciones Encuentro, S.A., 2013// | ||
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| + | **III. A DIVISÃO DO MOVIMENTO** | ||
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| + | **A estrutura do aparecer e a encarnação do [[lx> | ||
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| + | **Supraobjetividade e hiperpertencimento** | ||
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| + | * A fenomenologia de Jan Patocka determina o sentido do ser do sujeito no interior de uma reflexão mais ampla sobre a legalidade própria do aparecer, cuja estrutura ternária compreende a totalidade universal daquilo que aparece, a subjetividade para a qual algo aparece e o modo como a aparição se realiza segundo a polaridade entre preenchimento e esvaziamento. | ||
| + | * A totalidade universal denominada imensidão inaparente pertence à própria estrutura do aparecer, pois toda aparição singular implica a coaparição de um todo que jamais se oferece plenamente, mas torna possível a antecipação perceptiva e a continuidade infinita dos perfis da coisa. | ||
| + | * A coisa percebida apresenta-se em carne e osso, mas nunca em plenitude, porque cada perfil remete a outros perfis capazes de confirmar ou desfazer sua unidade presumida. | ||
| + | * A explicitação perceptiva dos objetos pressupõe uma certeza originária de que algo existe, anterior à constituição da unidade objetiva. | ||
| + | * O singular somente pode aparecer no interior de uma infinitude não atual, mas atualizável, | ||
| + | * O mundo constitui o aparecer último pressuposto por toda percepção, | ||
| + | * O mundo não aparece por si mesmo como um ente, mas somente nas coisas cuja aparição possibilita. | ||
| + | * O mundo empírico, entendido como conjunto de seres, distingue-se do mundo transcendental como forma articuladora que torna possível toda experiência dos seres. | ||
| + | * O horizonte constitui o modo pelo qual a pertença de cada aparição à totalidade abrangente se manifesta, oferecendo um saber prévio e atemático do uno abarcador que acompanha cada experiência singular e possibilita sua continuação. | ||
| + | * A ausência não se torna presente, mas torna-se presente o fato de que toda presença pertence a uma única presença abrangente. | ||
| + | * A horizontalidade constitui a forma concreta pela qual se experimenta o a priori do mundo. | ||
| + | * O mundo possui um estatuto supraobjetivo porque ultrapassa toda objetividade sem constituir uma realidade de outra ordem, permanecendo no coração dos entes como condição transcendental sustentada precisamente por aquilo que condiciona. | ||
| + | * O mundo não é coisa nem relação entre coisas, mas também não é vida ou vivência. | ||
| + | * O mundo constitui um terceiro domínio, distinto dos entes e da subjetividade, | ||
| + | * O sujeito capaz de um mundo supraobjetivo deve igualmente constituir um terceiro domínio, subtraído tanto à mera inserção intramundana quanto ao sobrevoo transcendental, | ||
| + | * O sujeito não produz o mundo, pois o mundo constitui a condição dos entes e da própria aparição do sujeito. | ||
| + | * A um mundo supraobjetivo corresponde um sujeito infraconsciente, | ||
| + | * O sujeito do aparecer deve ser compreendido segundo a lei da correlação, | ||
| + | * O aparecer exige a dualidade irredutível entre o que aparece e aquilo para o qual aparece. | ||
| + | * O sujeito e o aparecente dependem reciprocamente um do outro, sem que nenhum deles possa ser reduzido à condição unilateral do outro. | ||
| + | * O mundo toma a iniciativa do aparecer, enquanto o sujeito o polariza ou cristaliza sem constituí-lo. | ||
| + | * O sujeito somente pode cocondicionar a aparição porque mantém uma relação originária com o mundo como totalidade inaparente, transcendendo cada manifestação singular em direção ao todo de onde ela procede. | ||
| + | * Sob a consciência que recolhe as aparições particulares encontra-se um sujeito mais originário, | ||
| + | * Essa relação com o todo não pode assumir a forma de uma contemplação serena ou de uma representação objetiva. | ||
| + | * O mundo constitui uma totalidade aberta e intotalizável que excede e envolve o sujeito, de modo que a relação subjetiva com ele deve ser buscada na negatividade, | ||
| + | * Somente um ente pertencente ao mundo pode alcançar sua abertura supraobjetiva sem transformá-lo em objeto. | ||
| + | * A intramundanidade do sujeito constitui a condição negativa de seu acesso à totalidade que o abrange. | ||
| + | * O sujeito cocondiciona a aparição do mundo ao mesmo tempo que é condicionado por ele como ente que aparece em seu interior. | ||
| + | * A subjetividade reúne três condições inseparáveis: | ||
| + | * A diferença fenomenizadora do sujeito e sua pertença ao mundo possuem a mesma raiz. | ||
| + | * O sujeito somente pode fazer aparecer as coisas porque pertence ao mundo de maneira mais profunda do que os entes simplesmente situados nele. | ||
| + | * O hiperpertencimento do sujeito constitui a condição da supraobjetividade do mundo, conciliando a univocidade de sua inscrição mundana com a equivocidade de sua função fenomenizadora. | ||
| + | |||
| + | **O sentido do ser do ego** | ||
| + | |||
| + | * A determinação patočkiana do sujeito nasce de uma crítica a Husserl, cuja fenomenologia subordina o campo autônomo do aparecer a um ente singular chamado consciência e reduz sua dimensão ostensiva às vivências imanentes que supostamente o constituem. | ||
| + | * O campo fenomênico é simultaneamente subjetivo e transcendente, | ||
| + | * A redução do subjetivo às vivências rompe sua ligação originária com a transcendência e torna incompreensível a função ostensiva da noese e da hylé. | ||
| + | * Husserl não submete a própria consciência à [[lx> | ||
| + | * A fenomenologia assubjetiva de Patočka não elimina o sujeito, mas rejeita sua interpretação subjetivista como esfera fechada de vivências. | ||
| + | * A certeza do ego não exige que sua existência corresponda a um objeto dado integralmente à reflexão. | ||
| + | * A interpretação da certeza de si como presença intuitiva leva Husserl a supor atos de consciência apreensíveis em reflexão e a converter a relação do campo fenomênico com o sujeito em constituição das aparições no interior das vivências. | ||
| + | * O ser-para um sujeito não implica um ser-dentro da consciência. | ||
| + | * A certeza do ego cogito constitui uma certeza vazia de existência, | ||
| + | * A epoché patočkiana deve estender-se sem redução a tudo o que aparece, inclusive à subjetividade egológica, para revelar o mundo como a priori da aparição tanto dos entes quanto do próprio ego. | ||
| + | * O fato de as aparições pertencerem ao ego não significa que estejam contidas nele como vivências. | ||
| + | * O mundo como forma universal antecede a manifestação do sujeito, em vez de ser constituído por uma consciência previamente dada. | ||
| + | * A epoché conduz ao a priori que abre simultaneamente o espaço do aparecer para a realidade e para o sujeito da experiência. | ||
| + | * A universalização da epoché inverte e complica a relação husserliana entre ego e mundo, pois o mundo constitui a condição da aparição do sujeito, enquanto o sujeito permanece cocondição da aparição dos entes mundanos. | ||
| + | * O mundo como horizonte originário condiciona o aparecimento do si-mesmo. | ||
| + | * O si-mesmo condiciona o aparecimento do mundo empírico, sem produzir a totalidade originária na qual ele próprio aparece. | ||
| + | * Ego e mundo entrelaçam-se em uma correlação na qual cada polo condiciona um aspecto distinto do aparecer. | ||
| + | * A existência certa do ego não possui a positividade de um ente intuitivamente contemplável, | ||
| + | * O si-mesmo não constitui um conteúdo, mas uma relação concreta com o mundo. | ||
| + | * Essa relação assume necessariamente a forma de ação, avanço e realização prática. | ||
| + | * O sujeito torna-se acessível nas transformações que efetua no mundo e na configuração que este adquire por meio de sua atividade. | ||
| + | * O sentido originário das aparições é práxico, pois as coisas se oferecem como solicitações, | ||
| + | * A presença das coisas não se destina inicialmente à contemplação, | ||
| + | * O campo fenomênico revela o sujeito ao apresentar-lhe as possibilidades de seu agir. | ||
| + | * O ego é ação e não substância, | ||
| + | * O sujeito está presente no funcionamento dos meios e fins de sua ação sem ser objetivamente dado nesse funcionamento. | ||
| + | * Os cumprimentos subjetivos tornam-se visíveis somente no mundo que fazem aparecer mediante sua relação ativa com ele. | ||
| + | * O fenômeno não é o ego, mas encontra-se repleto de caracteres que tornam o ego visível ao confrontá-lo com suas possibilidades, | ||
| + | * O campo fenomênico é plenamente transcendente e, ao mesmo tempo, inteiramente subjetivo. | ||
| + | * A subjetividade não designa conteúdos interiores, mas a dependência das aparições em relação ao agir que nelas se manifesta. | ||
| + | * A compreensão do sujeito como ação satisfaz conjuntamente sua função fenomenizadora e sua pertença ao mundo, pois as ações que configuram o campo fenomênico pressupõem a inserção efetiva naquele mesmo mundo que fazem aparecer. | ||
| + | * Patočka aproxima-se de Heidegger ao rejeitar o subjetivismo husserliano e afirmar a intramundanidade do sujeito. | ||
| + | * Diferentemente de Heidegger, a pertença do sujeito é fundada na própria estrutura do aparecer, e não apenas afirmada como característica existencial. | ||
| + | * A descrição heideggeriana da existência permanece insuficiente porque não esclarece o traço ontológico que permite ao Dasein encontrar outros entes intramundanos segundo o modo de ser deles, lacuna relacionada à negligência da corporalidade. | ||
| + | * A relação com o outro e a mundaneidade do mundo exigem uma determinação da encarnação do Dasein. | ||
| + | * A ausência do corpo impede que a analítica existencial explique plenamente o comércio com os demais entes. | ||
| + | * A queda do Dasein no mundo não constitui verdadeira entrada na intramundanidade, | ||
| + | * A analítica heideggeriana apresenta um déficit de mundaneidade. | ||
| + | * Esse déficit exprime a ausência da corporalidade entre os existenciais fundamentais. | ||
| + | * A existência como poder-ser e autorrealização exige um sujeito corporal, pois somente o corpo permite passar das possibilidades projetadas à realização efetiva que lhes confere realidade. | ||
| + | * Existir em possibilidades não significa representá-las, | ||
| + | * A corporalidade constitui a possibilidade originária que funda a identidade entre possibilidade e cumprimento. | ||
| + | * A corporalidade não é um elemento empírico acrescentado à existência, | ||
| + | * O corpo não constitui uma circunstância contingente da realização humana do Dasein. | ||
| + | * A estrutura existencial exige originariamente a corporeidade como meio de efetuação da vida. | ||
| + | * A corporalidade prepara tanto o encontro com os entes que não vivem como o comércio com os outros viventes que realizam seu ser juntamente com o sujeito. | ||
| + | * O corpo torna possíveis a percepção, | ||
| + | * A omissão heideggeriana da corporeidade impede a compreensão da possibilidade primeira sobre a qual repousam todas as demais possibilidades. | ||
| + | * A corporalidade constitui o primeiro existencial porque é a possibilidade fundamental de mover-se, sem a qual as outras possibilidades permaneceriam suspensas, desprovidas de sentido e incapazes de realização. | ||
| + | * O movimento corporal não é uma possibilidade entre outras, mas a base ontológica que codetermina a totalidade da existência. | ||
| + | * O corpo deve ser compreendido a partir da existência como possibilidade de movimento, e não como coisa subsistente. | ||
| + | * A determinação existencial da corporalidade permite compreender o corpo como movimento e a intramundanidade como efetuação de possibilidades, | ||
| + | * A pertença mundana do sujeito repousa em sua corporeidade, | ||
| + | * Heidegger não integra a corporeidade entre os existenciais porque permanece preso à oposição rígida entre existência e subsistência. | ||
| + | * A práxis originária somente pode ser atividade de um sujeito corporal, cuja corporeidade possui estatuto ontológico distinto da simples presença de um corpo localizado aqui e agora. | ||
| + | * A encarnação da existência exige uma concepção existencial do corpo. | ||
| + | * Como o movimento procede de um vivente, o sentido originário do Dasein deve ser investigado no plano da vida. | ||
| + | * A corporeidade substancial constitui o resultado secundário de uma tematização, | ||
| + | * O corpo não deve reintroduzir um substrato substancial incompatível com a estrutura existencial. | ||
| + | * Sua exterioridade espacial deriva de uma relação mundana mais originária e dinâmica. | ||
| + | * Uma fenomenologia que parte do corpo como fragmento de extensão oscila inevitavelmente entre a substancialidade corporal e sua negação pela consciência ou pelo sentir, reduzindo a diferença do corpo próprio à propriedade de pertencer a uma consciência. | ||
| + | * A fenomenologia do corpo próprio nega a corporeidade no momento em que tenta explicar sua singularidade pela consciência. | ||
| + | * Merleau-Ponty permanece preso a essa oscilação mesmo em sua obra tardia. | ||
| + | * Patočka supera conjuntamente Heidegger e Merleau-Ponty ao conservar a perspectiva existencial, | ||
| + | * Heidegger reconhece a existência, | ||
| + | * Merleau-Ponty reconhece a corporeidade, | ||
| + | * Uma fenomenologia da vida deve substituir a fenomenologia do corpo e integrar a encarnação na estrutura total do Dasein. | ||
| + | |||
| + | **A fenomenologia dinâmica** | ||
| + | |||
| + | **O movimento e o corpo da existência** | ||
| + | |||
| + | * O corpo define-se existencialmente como o conjunto das possibilidades não escolhidas nas quais o sujeito já se encontra inserido e que deve ser, especialmente a possibilidade de mover-se que antecede e funda sua liberdade. | ||
| + | * A atividade enraíza-se em uma passividade originária diante da própria capacidade de movimento. | ||
| + | * A vida consiste nos movimentos realizados, mas esses movimentos pressupõem uma força ou aptidão vital que não produzem por si mesmos. | ||
| + | * A ambiguidade da vida reside em ser constituída por movimentos que, ao mesmo tempo, recebem dela sua potência. | ||
| + | * A existência não projeta suas possibilidades como objetos representados, | ||
| + | * A existência é movimento em toda a sua natureza. | ||
| + | * A determinação dinâmica do sujeito satisfaz as exigências de pertença e diferença impostas pela correlação. | ||
| + | * O movimento pertence inteiramente ao mundo e somente acontece nele, mas distingue-se dos entes subsistentes por constituir a negação concreta de toda permanência e por existir como ser-adiante-de-si e diferença em relação a si mesmo. | ||
| + | * O repouso constitui uma modalidade do movimento, não sua simples ausência. | ||
| + | * O movimento não é um ente diferente dos demais, mas a própria diferença convertida em modo de ser. | ||
| + | * A não intuitividade do ego corresponde à negatividade concreta de um ser que se nega continuamente como posição estável. | ||
| + | * O movimento existencial radicaliza a concepção aristotélica porque não consiste na atualização de uma potência pertencente a um substrato previamente dado, mas na constituição do próprio sujeito por meio de seu movimento. | ||
| + | * O corpo não é o sujeito imóvel ao qual o movimento sobrevém como atributo. | ||
| + | * O existente torna-se sujeito no próprio processo em que se realiza. | ||
| + | * O movimento reúne surgimento e precedência, | ||
| + | * A unidade do sujeito não precede o movimento, mas surge mediante ele, de modo que o existente somente pode ser sujeito de seu movimento tornando-se aquilo que é no processo de realizá-lo. | ||
| + | * A determinação alcançada pelo movimento não estava previamente disponível como realidade pronta. | ||
| + | * O surgimento produz inclusive o ser-já-aí do sujeito em uma circularidade comparável ao movimento retroativo do verdadeiro. | ||
| + | * A radicalização patočkiana concebe o movimento como vida originária que cria sua própria unidade e a unidade daquilo que se move, tomando o surgimento e o desaparecimento como matriz de todo movimento ontogenético. | ||
| + | * O movimento faz com que uma realidade singular encontre temporariamente lugar no mundo. | ||
| + | * O ente chega a ser aquilo que é mediante a síntese dinâmica de suas determinações. | ||
| + | * O movimento constitui um fator ontológico fundamental porque reúne e atualiza simultaneamente as determinações pelas quais uma coisa é reconhecida como aquilo que é. | ||
| + | * A maturação da maçã reúne no mesmo processo doçura, tamanho, cor e odor. | ||
| + | * O substrato não existe separado de suas determinações, | ||
| + | * A realidade advém por meio das manifestações que parecem proceder dela, tal como uma composição musical cuja unidade não está pronta no início, mas permanece por vir enquanto cada elemento a prepara e a realiza. | ||
| + | * O devir da realidade é simultaneamente seu advir. | ||
| + | * Cada momento singular pertence a uma totalidade que somente existe no processo de sua constituição. | ||
| + | * A caracterização da existência como movimento exige uma teoria geral do movimento que preserve a comunidade entre o movimento existencial e os movimentos dos demais entes sem dissolver a diferença específica da existência. | ||
| + | * Uma equivocidade absoluta reduziria o movimento da existência a analogia ou metáfora. | ||
| + | * A fenomenologia dinâmica do sujeito remete a uma dinâmica fenomenológica do movimento em geral. | ||
| + | * A fenomenologia dinâmica supera a concepção moderna do movimento como mero deslocamento de um substrato e o compreende como realização, | ||
| + | * A motilidade constitui a efetividade do ser-com-vistas-a-si. | ||
| + | * A existência é necessariamente encarnada porque somente o movimento realiza suas possibilidades. | ||
| + | * A encarnação pode ser deduzida da existência: | ||
| + | * A corporalidade da existência não significa que um corpo cósico funcione como substrato dos movimentos, mas designa uma corporalidade viva e vivida que constitui ação real e enraíza a existência no mundo das forças atuantes. | ||
| + | * O corpo não é substrato imutável, mas episódio vivido composto por uma trama de mudanças. | ||
| + | * Seu sentido próprio deve ser recuperado a partir do movimento e da vida. | ||
| + | * O corpo é vivo não por ser um organismo dotado de funções, mas porque corresponde à vertente afetiva e intramundana de uma existência cujo ser originário é movimento. | ||
| + | * A encarnação não decorre de se possuir previamente um corpo. | ||
| + | * O sujeito é encarnado porque está vivo e porque sua vida consiste em relacionar-se dinamicamente com o mundo. | ||
| + | * A corporalidade ultrapassa a oposição entre o vivente e o vivido, pois somente pode ser vivida sendo uma trama viva de mudanças. | ||
| + | * O corpo pessoal não é coisa situada no espaço objetivo, mas vida que se espacializa por si mesma, produz sua localização e se relaciona consigo somente mediante o desvio por entes estranhos. | ||
| + | * O corpo existe como relação e autorrelação mundana, não como entidade fechada. | ||
| + | * Sua espacialidade é produzida por sua própria atividade vital. | ||
| + | * A encarnação deve ser compreendida dinamicamente como espacialização da vida, e não como passagem de uma vida inicialmente incorpórea para um corpo já constituído. | ||
| + | * Ter corpo significa implicar-se no espaço e ocupar ativamente um lugar. | ||
| + | * A vida não entra no espaço graças ao corpo, mas adquire corpo ao espacializar-se. | ||
| + | * O corpo constitui o outro nome de uma espacialização continuamente renovada. | ||
| + | * O espaço originário da vida não se confunde com a extensão geométrica, | ||
| + | * A espacialidade vital é lugar de mudança, não sistema de coordenadas para deslocamentos. | ||
| + | * Esse espaço preserva profundidade e interioridade porque nunca se encontra completamente desdobrado. | ||
| + | * A vida somente é espacializada enquanto permanece espacializante e reabre continuamente seu campo de realização. | ||
| + | * A vida se encarna por uma pertença originária ao mundo, de modo que seu corpo não é fragmento extenso que a introduz no espaço, mas o próprio adentrar-se ativo pelo qual se relaciona com o mundo. | ||
| + | * A pertença precede a localização geométrica. | ||
| + | * O corpo próprio constitui o modo dinâmico dessa entrada e dessa relação. | ||
| + | * O espaço originário da vida é inseparável de sua temporalidade e remete a uma dimensão anterior à separação entre espaço e tempo, na qual a profundidade espacial orienta a temporalização do vivente. | ||
| + | * A vida abre um espaço não inteiramente desdobrado porque possui um poder temporal inesgotável. | ||
| + | * A corporalidade deve ser compreendida a partir da história singular do organismo. | ||
| + | * O vivente constitui sua própria história porque a totalidade orgânica somente existe como realização incessante que regula suas relações com o meio sem alcançar conclusão definitiva. | ||
| + | * Nenhuma parte do organismo possui realidade separada da totalidade temporal em que funciona. | ||
| + | * O corpo não constitui substrato acabado cuja vida fosse atributo, mas realidade que existe renovando-se temporalmente. | ||
| + | * A análise existencial do corpo reconduz a espacialidade, | ||
| + | * O corpo permanece porque se renova e somente conserva sua identidade transformando-se. | ||
| + | * A identidade corporal possui caráter histórico e dinâmico. | ||
| + | * A concepção patočkiana exige distinguir o movimento originário da existência dos deslocamentos locais dos corpos, pois o primeiro constitui a força mediante a qual o sujeito se realiza, abre possibilidades e faz aparecer o mundo. | ||
| + | * O movimento local representa apenas uma modalidade derivada de uma motilidade mais profunda. | ||
| + | * A existência não transporta simplesmente um corpo já constituído, | ||
| + | * O movimento originário pode ser compreendido como força, não no sentido físico de uma causa mensurável, | ||
| + | * A corporalidade do ego manifesta-se inicialmente como domínio e exercício de forças. | ||
| + | * O corpo não é somente aquilo que se move, mas aquilo que pode mover e transformar o campo no qual se encontra. | ||
| + | * A percepção pressupõe o movimento corporal e deve ser entendida como contato dinâmico com as coisas, pelo qual a vida se dirige ao mundo e faz surgir diferenciações no interior de sua totalidade inaparente. | ||
| + | * Perceber não é receber passivamente representações, | ||
| + | * O corpo vidente constitui uma força capaz de aproximar, explorar e articular o campo sensível. | ||
| + | * O movimento perceptivo não se reduz ao deslocamento objetivo nem à intenção consciente, pois o corpo já se encontra de algum modo em seu objetivo antes de alcançá-lo geometricamente ou representá-lo intelectualmente. | ||
| + | * O objetivo existe como aproximação e orientação motora. | ||
| + | * O corpo supera a oposição entre extensão e consciência ao relacionar-se praticamente com aquilo que percebe. | ||
| + | * A percepção é movimento porque sua abertura ao mundo modifica simultaneamente a situação do sujeito e a configuração do campo fenomênico, | ||
| + | * O movimento da percepção não acrescenta imagens a uma consciência, | ||
| + | * O sujeito perceptivo constitui uma força vidente inseparável de seu avanço corporal. | ||
| + | * A fenomenologia dinâmica permite definir o sujeito como movimento pertencente ao mundo e capaz de fazê-lo aparecer, reunindo na mesma estrutura a encarnação, | ||
| + | * A existência fenomeniza porque se dirige para a imensidão inaparente do mundo. | ||
| + | * A corporalidade constitui o aspecto efetivo desse movimento perceptivo. | ||
| + | |||
| + | **A divisão dos movimentos** | ||
| + | |||
| + | * A existência compreendida como movimento parece satisfazer as exigências do a priori da correlação ao conciliar a intramundanidade do sujeito com sua função fenomenizadora e ao superar tanto a analítica desencarnada de Heidegger quanto a fenomenologia substancialista do corpo. | ||
| + | * O movimento pertence ao mundo e, ao dirigir-se à sua imensidão inaparente, governa as aparições por meio da percepção. | ||
| + | * O corpo não é algo possuído pela existência, | ||
| + | * A existência que se implica no mundo mediante movimentos efetivos parece identificar-se à vida, e o corpo que se constitui e se conserva nesses movimentos aparece como corpo vivo, enquanto a força vidente representa o viver anterior à separação entre Leben e Erleben. | ||
| + | * A especificidade humana poderia ser compreendida a partir de seu núcleo vital, sem oposição metafísica entre vida e existência. | ||
| + | * O movimento constituiria o nome originário de uma vida simultaneamente encarnada e significativa. | ||
| + | * A superação das divisões tradicionais depende de uma concepção da vida capaz de incluir as formas mais elevadas da experiência e de evitar sua redução à necessidade, | ||
| + | * O viver deve dar razão de todo [[lx> | ||
| + | * O movimento vital deve permanecer simultaneamente pertença corporal e realização significativa. | ||
| + | * A teoria patočkiana tende a distinguir um movimento geral da existência e os movimentos particulares do corpo, introduzindo uma hierarquia na qual a motricidade corporal pode tornar-se simples condição de uma autorrealização existencial mais elevada. | ||
| + | * O movimento de conjunto orienta e confere sentido aos movimentos parciais. | ||
| + | * A diferença entre ambos ameaça restaurar a divisão entre existência e corpo que a concepção dinâmica pretendia superar. | ||
| + | * A teoria dos três movimentos da existência confirma a presença de uma divisão interna, pois associa a corporalidade e a vida instintiva ao primeiro movimento, enquanto reserva às modalidades posteriores as formas propriamente humanas de realização. | ||
| + | * O círculo da existência contém o círculo da vida, que cumpre suas funções para permitir que a existência se volte para si mesma. | ||
| + | * A vida aparece como base necessária do ser-com-vistas-a-si, | ||
| + | * O primeiro movimento constitui o movimento fundamental da vida instintiva, no qual o ser humano, como o animal, abre-se passiva, afetiva e sensivelmente ao mundo e responde reflexamente aos estímulos recebidos. | ||
| + | * A corporeidade corresponde inicialmente ao basamento vital e instintivo da existência. | ||
| + | * A satisfação das necessidades e a autoconservação parecem funcionar como condições relativamente autônomas da autorrealização humana. | ||
| + | * O primeiro movimento continua sendo movimento da existência e não simples funcionamento orgânico, pois o enraizamento expressa uma consonância global com o mundo e uma tendência ao apego, ao calor, à proximidade, | ||
| + | * Os movimentos corporais realizam uma orientação existencial fundamental. | ||
| + | * A atividade repetida e a ação resoluta constituem ritmos de um mesmo impulso de enraizamento. | ||
| + | * A vida deve ser compreendida existencialmente como tendência ao enraizamento e à proximidade, | ||
| + | * Viver não significa somente conservar-se, | ||
| + | * A tendência à proximidade permanece como base contínua da polifonia existencial. | ||
| + | * Mesmo no plano vital, o movimento ultrapassa a mera atividade corporal e a orienta. | ||
| + | * A vida permanece, contudo, limitada ao primeiro movimento, de modo que a diferença entre vida e existência não é abolida, mas deslocada para o interior da própria existência como distinção entre seus diferentes movimentos. | ||
| + | * A vida é considerada existência, | ||
| + | * A separação entre plano vital e plano humano reaparece como divisão dinâmica, em vez de oposição substancial. | ||
| + | * O primeiro movimento, orientado pela Terra, pelo prazer e pela satisfação das necessidades, | ||
| + | * O vivente encontra proteção, calor e continuidade na totalidade que o acolhe. | ||
| + | * A relação com o mundo permanece governada pela dependência e pela satisfação imediata. | ||
| + | * O segundo movimento prolonga a vida instintiva por meio da reprodução, | ||
| + | * A ruptura com a satisfação imediata introduz a relação instrumental com os entes. | ||
| + | * O homem se reproduz e se conserva socialmente mediante atividades nas quais permanece inevitavelmente alienado. | ||
| + | * Esse movimento aproxima-se da existência inautêntica heideggeriana, | ||
| + | * O terceiro movimento constitui a abertura ou autocompreensão propriamente humana, mediante a qual os dois primeiros são reconhecidos como possibilidades parciais que não esgotam a realidade da existência. | ||
| + | * O sujeito já não se relaciona apenas com entes estranhos, funções vitais ou tarefas sociais, mas com a possibilidade total que ele próprio é. | ||
| + | * A existência pode dispersar-se nas possibilidades particulares ou reencontrar-se em sua natureza propriamente humana. | ||
| + | * O terceiro movimento rompe com a submissão da vida às atividades singulares e permite modificar a relação com o universo, abrindo o ente para o ser em vez de permanecer encadeado às necessidades e aos objetos úteis. | ||
| + | * A abertura exige não deixar que a multiplicidade das possibilidades particulares oculte a possibilidade fundamental da existência. | ||
| + | * O ser humano pode transformar sua ligação ao singular e relacionar-se de outro modo com a totalidade. | ||
| + | * A existência realizada no sacrifício e na abnegação efetua um giro que não abandona o mundo, mas o descobre plenamente ao libertar o sujeito de sua sujeição aos entes e abri-lo à luz do ser. | ||
| + | * O sujeito ultrapassa sua condição de ser necessitado e sua função social. | ||
| + | * O conhecimento objetivo do ente substitui a implicação cega própria dos movimentos vitais e laboriosos. | ||
| + | * A oposição entre o terceiro movimento e os dois primeiros restaura, no interior da fenomenologia da existência, | ||
| + | * O terceiro movimento torna-se o herdeiro privilegiado da humanidade autêntica. | ||
| + | * O primeiro movimento é correlativamente reduzido à esfera inferior da atividade vital. | ||
| + | * A afirmação de que os três movimentos coexistem na polifonia da existência e se pressupõem mutuamente não elimina a hierarquia introduzida pelo giro que separa a abertura humana do enraizamento vital. | ||
| + | * A distinção metafísica reaparece sob a forma de polaridade tendencial entre o movimento de ancoragem e o movimento de abertura. | ||
| + | * A diferença entre o transcendental e o mundano ressurge no interior da própria existência. | ||
| + | * A identificação consequente entre vida e existência exige que a vida corresponda à existência inteira, e não apenas ao primeiro de seus movimentos, pois a vida somente pode ser existencial se a existência for inteiramente vital. | ||
| + | * O movimento de enraizamento não deve constituir uma etapa inferior entre outras, mas o movimento único capaz de assumir diferentes modalidades. | ||
| + | * A vida precisa ser descrita de maneira suficientemente ampla para fundamentar a abertura, a liberdade e a diferença humana. | ||
| + | * A questão decisiva consiste em compreender o enraizamento e a relação do vivente com a totalidade de modo que o giro existencial e a diferença antropológica possam surgir do próprio movimento da vida, sem exigir uma ruptura que restaure a oposição entre o vital e o propriamente humano. | ||
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