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estudos:barbaras:vida:desejo-correlacao

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 +====== Desejo e Correlação ======
 +
 +//BARBARAS, Renaud. Introducción a una fenomenología de la vida: intencionalidad y deseo. Madrid: Ediciones Encuentro, S.A., 2013//
 +
 +**II. DESEJO E CORRELAÇÃO**
 +
 +**A falta do sujeito**
 +
 +**A busca de si no outro**
 +
 +  * A investigação da correlação universal entre o ente e seus modos subjetivos de doação conduz ao sujeito como viver e ao viver como Desejo, entendido não como sentimento empírico, mas como condição ontológica da experiência, da intencionalidade e da aparição de uma realidade transcendente.
 +    * O sujeito da correlação não pode ser consciência extramundana nem ente intramundano entre outros.
 +    * A correlação não reúne polos previamente constituídos, pois dela procede a possibilidade do sujeito e do mundo.
 +    * O Desejo dá nome à modalidade efetiva da correlação e ao sentido originário da intencionalidade.
 +  * O sujeito não possui o desejo como atributo ou estado passageiro, pois o próprio sujeito se encontra implicado, constituído e posto em questão no movimento desejante.
 +    * A necessidade corresponde a uma carência delimitada, destinada a desaparecer quando determinado objeto é obtido.
 +    * A necessidade pressupõe um sujeito completo e autônomo cuja continuidade pretende preservar.
 +    * Seu movimento reconduz o sujeito ao que já era, repetindo sua identidade e impedindo o advento de algo verdadeiramente novo.
 +  * O desejo permanece insaciável porque aquilo que nele falta não é apenas determinado objeto, mas o próprio sujeito, cujo ser está em jogo naquilo que deseja.
 +    * A relação entre sujeito e desejo pertence à ordem do ser, e não à do ter.
 +    * No desejo, o sujeito não retorna ao que já era, mas busca tornar-se aquilo que é.
 +    * O desejo é sempre desejo de si porque o sujeito procura sua própria realização no desejado.
 +  * A busca de si no outro distingue o desejo da necessidade, pois o outro não funciona como mediação consumível para o retorno do sujeito a si, mas como lugar no qual o si-mesmo pode surgir e simultaneamente faltar.
 +    * O outro manifesta o sujeito como ausente, já que permanece irredutivelmente outro e nunca se converte inteiramente em si-mesmo.
 +    * Cada satisfação renova a busca porque aquilo que se alcança anuncia o sujeito sem realizá-lo plenamente.
 +    * A insaciabilidade exprime a irredutibilidade do si ao outro e o excesso do desejado sobre aquilo que concretamente satisfaz.
 +  * Desejar significa procurar-se em uma realidade na qual o sujeito necessariamente falta, de modo que o desejo é experiência da própria carência e não tentativa acidentalmente frustrada de alcançar uma completude.
 +    * O sujeito encontra-se no outro apenas sob a figura de sua ausência.
 +    * O outro constitui simultaneamente lugar da revelação de si como carente e lugar da decepção.
 +    * O desejo dá acesso ao sujeito como falta, em vez de conduzi-lo a uma identidade positiva.
 +  * A necessidade relaciona-se com o outro no modo da posse, da apropriação e do consumo, enquanto o desejo experimenta a inconsumibilidade da alteridade como condição do próprio advento do sujeito.
 +    * O objeto da necessidade deve ser possuído para que o sujeito permaneça aquilo que já é.
 +    * No desejo, o outro é aquilo por meio do qual o sujeito pode vir a ser e, por isso, sua alteridade deve ser preservada.
 +    * Destruir ou absorver completamente o outro significaria destruir a própria possibilidade de realização de si.
 +  * O desejo constitui uma relação ativa com o outro que não pode transformar-se em apropriação, razão pela qual seu agir permanece inseparável de um padecer e sua receptividade conserva caráter dinâmico.
 +    * O desejo distingue-se do conhecimento porque envolve realização e atuação.
 +    * Distingue-se também da necessidade porque seu fazer não nega nem consome a alteridade.
 +    * Seu movimento é indeciso e hesitante, preso entre a aproximação ativa e a preservação do outro.
 +    * A impossibilidade de concluir esse fazer determina a retomada indefinida do movimento desejante.
 +
 +**Sujeito que falta e falta subjetiva**
 +
 +  * O desejo pode ser definido como falta do sujeito nos dois sentidos da expressão, pois é falta experimentada pelo sujeito e, ao mesmo tempo, falta do próprio sujeito que a experimenta.
 +    * O sujeito parece ser simultaneamente origem e objeto da falta, presente como aquele que sente e ausente como aquilo que falta.
 +    * Essa aparente duplicação desaparece quando o sujeito deixa de ser concebido como substância submetida à alternativa entre presença e ausência.
 +  * O sujeito existe como sua própria carência, não como consciência substancial que possuiria uma vivência de ausência, mas como modalidade de experiência cujo próprio ser consiste em faltar.
 +    * A ausência de si não constitui conteúdo interno de uma experiência.
 +    * A experiência é a própria falta, em vez de ser experiência de algo ausente.
 +    * A ipseidade realiza-se na carência e por meio dela.
 +  * A carência não é simples ausência objetiva que pudesse ser constatada, pois nesse caso o sujeito não existiria, mas o modo pelo qual ele se refere a si e se encontra apenas na figura de sua própria ausência.
 +    * O sujeito não se percebe interiormente como carente de si.
 +    * Sua própria maneira de existir consiste em ausência de conteúdo e abertura.
 +    * Não há experiência de uma falta anterior, mas falta que já é experiência.
 +  * O desejo é mais profundo que qualquer afecção particular porque constitui a forma da receptividade e a condição de possibilidade de todo sentir.
 +    * Não é vivência positiva determinada por objeto específico.
 +    * É abertura indeterminada a nenhuma coisa particular e, por isso, abertura real para qualquer coisa.
 +    * O desejo empiricamente sentido constitui apenas reflexo particular dessa estrutura originária.
 +    * Sentir significa desejar e carecer, pois toda experiência pressupõe a abertura de uma falta.
 +  * O desejo responde à questão do modo de ser das cogitationes e do cogito ao deslocar a investigação do plano do conhecimento para o ser que torna possível toda experiência.
 +    * A consciência não é originariamente presença, coincidência, adequação ou preenchimento.
 +    * Algo somente pode aparecer no elemento da distância, da incompletude e da insatisfação.
 +    * A aparição é sempre advento daquilo que permanece ausente ou inacabado em sua própria presença.
 +  * A falta sentida e a ausência do sujeito constituem as duas faces do mesmo modo de ser, pois o sujeito somente acolhe o outro ao existir como falta de si.
 +    * A subjetividade é pura acolhida porque não possui identidade positiva concluída.
 +    * A ausência de si governa a receptividade à alteridade.
 +    * Toda relação de conhecimento repousa em uma relação de ser na qual o sujeito está em jogo no que aparece.
 +    * Somente aparece aquilo em que o sujeito procura preencher sua falta de ser, de modo que toda aparição se produz sobre fundo de Desejo.
 +
 +**A instauração da proximidade**
 +
 +**O problema da correlação**
 +
 +  * Determinar o sujeito como Desejo significa rejeitar sua autonomia ontológica, pois o sujeito não precede o movimento desejante, mas surge nele como uma possibilidade constituída pelo próprio desejo.
 +    * O sujeito do desejo é aquele que está submetido e constituído pelo desejo.
 +    * O sujeito da correlação não sustenta exteriormente a relação, mas advém nela e extrai dela sua possibilidade.
 +    * O Desejo constitui a modalidade originária da intencionalidade.
 +  * A correlação articula o ente transcendente e seus modos subjetivos de doação de maneira que cada polo depende essencialmente do outro sem poder ser reduzido a ele.
 +    * Não há consciência sem mundo nem ente que possua estatuto fenomenal sem aparecer a uma consciência.
 +    * A relação prevalece sobre os termos, dissolvendo tanto o realismo da coisa autônoma quanto o idealismo da consciência absoluta.
 +    * A fenomenicidade constitui o elemento mais profundo de copertença entre sujeito e realidade.
 +  * A correlação não pode ser transformada em terceira substância ou realidade autônoma, pois permanece relação entre polos diferentes e perderia sua natureza relacional caso sua unidade anulasse essa diferença.
 +    * O monismo fenomenológico reconhece a irredutibilidade do campo fenomênico sem substancializá-lo.
 +    * O monismo ontológico converte a relação em ser autônomo e dissolve os termos que deveria articular.
 +    * A correlação deve unir preservando a diferença e aproximar mantendo a distância.
 +  * Pensar a correlação exige conceber um vínculo cuja continuidade implique separação, uma proximidade que mantenha afastados os termos e uma intimidade que preserve a estranheza.
 +    * A relação não pode depender exclusivamente dos polos nem absorvê-los em uma unidade superior.
 +    * Seu modo de existir produz um deslocamento permanente entre o excesso de unidade e a insuficiência da mera relação extrínseca.
 +  * As fenomenologias que partem do sujeito e do ente transcendente tendem a atribuir-lhes positividade suficiente para comprometer a relação originária que pretendem explicar.
 +    * Mesmo quando reformulam profundamente o sentido dos polos, permanecem inclinadas à reificação.
 +    * Pensam a correlação como objeto, mas não pensam segundo a correlação.
 +    * A reificação da consciência constitui o obstáculo fundamental à compreensão fenomenológica.
 +  * Sartre procura evitar a reificação definindo a consciência como nada inteiramente dirigida ao ser, mas transforma a correlação em oposição dialética que termina na identidade.
 +    * A consciência como nada não subsiste senão aderindo ao em-si.
 +    * A oposição extrema entre ser e nada exige uma operação dialética que dissolve a relação em unidade.
 +    * A correlação escapa por deficiência quando os termos são radicalmente estranhos e por excesso quando são finalmente identificados.
 +    * A intimidade na distância e a proximidade na estranheza permanecem impensadas.
 +  * Merleau-Ponty aproxima-se do sentido rigoroso da correlação ao compreender a não coincidência, a separação e a profundidade como condições positivas da experiência.
 +    * A verdade não deve ser definida por coincidência total.
 +    * A distância não constitui falha contingente, mas abertura à própria coisa.
 +    * A experiência é uma coincidência de longe, uma separação que permite o acesso em vez de impedi-lo.
 +  * A doação perceptiva exige opacidade e inatualidade, pois a coisa somente se apresenta em sua plenitude como realidade inesgotável que nunca está integralmente atual para o olhar.
 +    * A doação por perfis manifesta uma proximidade que inclui transcendência.
 +    * A presença corporal da coisa reclama aspectos ausentes e indeterminados.
 +    * A coisa é plena porque permanece inesgotável e promete mais do que atualmente oferece.
 +  * Merleau-Ponty não resolve o problema porque tenta explicar a correlação a partir do corpo próprio e da carne, em vez de determinar o sujeito à luz das exigências da própria fenomenicidade.
 +    * O corpo próprio permanece sujeito positivo cuja insularidade ameaça reificar o polo subjetivo.
 +    * A Carne do mundo converte a relação em elemento ontológico comum e dissolve a diferença entre sujeito e objeto.
 +    * A passagem da carne própria à Carne universal oscila entre equivocidade e univocidade.
 +    * A correlação escapa por deficiência como relação entre corpo e mundo e por excesso como Ser comum que absorve ambos.
 +  * A forma efetiva da correlação somente pode ser o Desejo, pois nele proximidade e distância, intimidade e estranheza, coincidência e separação articulam-se sem contradição.
 +    * A vida constitui aquilo pelo qual há sujeito e mundo, e sua essência é Desejo.
 +    * O Desejo não é relação empírica de alguém com algo, pois nele sujeito e objeto deixam de ser termos previamente constituídos.
 +    * Trata-se de relação pura na qual o sujeito surge sem jamais completar-se e o objeto se oferece sem tornar-se posse definitiva.
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 +**O sentido da proximidade**
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 +  * O Desejo instaura a Proximidade originária, não como aproximação mensurável de um objeto distante, mas como abertura da dimensão na qual proximidade e distância podem aparecer.
 +    * Antes que algo seja considerado próximo ou distante, deve existir uma relação originária que permita sua comparecência.
 +    * A Proximidade não é predicado de realidades situadas em campo previamente dado, mas a dimensão do próprio já-aí desse campo.
 +  * As proximidades espaciais e temporais dependem de uma proximidade afetiva e existencial, determinada pelo grau em que algo envolve, mobiliza ou recebe a investidura do sujeito.
 +    * Não existe próximo ou distante em sentido absoluto, pois toda medida depende de perspectiva e implicação.
 +    * Lugares espacialmente remotos podem permanecer próximos por sua importância biográfica ou afetiva.
 +    * Realidades fisicamente vizinhas podem ser distantes quando nenhuma relação existencial as investe.
 +    * A investidura delimita as regiões nas quais as distâncias objetivas recebem significado.
 +  * Duas realidades somente podem ser próximas ou distantes porque pertencem previamente a um mesmo elemento e conservam um parentesco ontológico anterior a qualquer relação determinada.
 +    * A Proximidade é condição de possibilidade das relações e não relação adicional entre indivíduos.
 +    * A distância constitui modalidade da Proximidade, pois somente o que pertence a um mesmo campo pode afastar-se.
 +    * Toda relação extrínseca enraíza-se em comunidade mais profunda inscrita no ser dos termos.
 +  * A Proximidade escapa à alternativa entre unidade e multiplicidade porque constitui um fundo comum que não é ente uno nem pluralidade de entes.
 +    * Situa-se aquém do múltiplo por ser o elemento comum que possibilita as relações.
 +    * Não pode converter-se em Uno positivo, pois somente existe dispersando-se na pluralidade.
 +    * Seu ser consiste em já ter sido ultrapassado e multiplicado nos entes.
 +    * As relações constituem os vestígios da Proximidade originária no interior do múltiplo.
 +  * A Proximidade designa comunidade ontológica não positiva, unidade existente apenas na multiplicidade que unifica e corrente secreta que introduz intimidade entre entes aparentemente exteriores.
 +    * Não é ser nem simples relação, mas mais que relação e menos que substância.
 +    * Aproxima-se do conceito fenomenológico de mundo como totalidade não aditiva.
 +    * Corresponde mais precisamente à mundaneidade do mundo, isto é, à dimensão pela qual os entes formam mundo.
 +  * A mundaneidade deve ser referida à relação originária entre sujeito e mundo, pois a proximidade entre os entes repousa em sua pertença comum ao campo aberto pela investidura primordial do Desejo.
 +    * As coisas comunicam porque todas são reunidas por uma mesma aspiração.
 +    * O Desejo investe sem dirigir-se a objeto determinado e, por isso, circunscreve uma totalidade aberta.
 +    * A multiplicidade ôntica torna presente e simultaneamente oculta a comunidade originária.
 +    * A Proximidade instaurada pelo Desejo inclui desde o início uma Distância irredutível.
 +  * Desejar significa aproximar-se incessantemente de algo que permanece além de tudo aquilo em que se apresenta, de modo que o desejado nunca é possuído e o próximo jamais se torna suficientemente próximo.
 +    * O Desejo não se relaciona com algo já próximo, mas abre a dimensão da aproximação.
 +    * Cada conquista é ultrapassada em direção ao desejado que excede aquilo que a satisfaz.
 +    * O Desejo constitui intimidade ao reunir sujeito e mundo em um estar-juntos anterior às distâncias mensuráveis.
 +  * A Proximidade não é calculada a partir de um sujeito já constituído, pois o Desejo instaura simultaneamente o sujeito, o desejado e a comunidade entre ambos.
 +    * A coisa não é desejada por estar próxima, mas torna-se próxima porque é desejada.
 +    * A investidura desejante reúne realidades múltiplas em uma totalidade aberta e não positiva.
 +    * O Desejo retira o Ser da indeterminação noturna ao fazê-lo próximo e ao abrir o campo de todos os encontros.
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 +**Tato e visão**
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 +**Caráter primordial do tato**
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 +  * O tato adquire significado primordial porque o Desejo instaura a Proximidade originária e o contato constitui a modalidade sensível que melhor expressa esse movimento de aproximação.
 +    * A sensibilidade não deve ser reduzida à reação entre estímulo e órgão corporal objetivo.
 +    * Cada sentido constitui modalidade específica da relação vital com o mundo e oferece uma dimensão própria da realidade.
 +    * Sentir é viver o mundo segundo determinada orientação.
 +  * Cada modalidade sensorial concretiza um fenômeno vital e cosmológico mais amplo, razão pela qual tocar não se limita ao contato físico, mas inclui alcançar uma meta, atingir o sublime ou afetar alguém por palavras.
 +    * A atividade sensorial ultrapassa a função objetiva dos órgãos.
 +    * Os sentidos expressam direções fundamentais da existência.
 +  * O contato significa estabelecer vínculo e proximidade, de modo que o tocar físico depende de uma tendência vital mais originária à aproximação.
 +    * O tato não produz a proximidade, mas concretiza e expressa seu movimento.
 +    * O amor realiza-se privilegiadamente no abraço porque já constitui instauração de proximidade.
 +    * A significação metafísica do contato precede sua explicação biológica.
 +  * O tato é necessariamente recíproco, pois tocar implica ser tocado e a proximidade do sujeito às coisas corresponde simultaneamente à proximidade das coisas ao sujeito.
 +    * A Proximidade não parte de um polo fixo.
 +    * O Desejo reúne os termos em um elemento comum no qual ambos podem surgir para si mesmos.
 +    * A reversibilidade do tato exprime a estrutura correlacional do viver.
 +  * O caráter primordial do tato não decorre apenas de sua difusão corporal, mas de sua função ontológica de garantir a inserção no mundo e o sentimento de realidade.
 +    * O tato oferece densidade, consistência e resistência às coisas.
 +    * Sua ausência comprometeria a certeza da pertença corporal ao mundo.
 +    * O contato não informa apenas sobre ameaças imediatas, mas testemunha a proximidade fundamental do ente.
 +  * O privilégio do tato permanece unilateral quando é compreendido apenas como redução da distância, pois a aproximação desejante revela ao mesmo tempo uma profundidade que não pode ser abolida.
 +    * O contato alcançado nunca elimina inteiramente a separação.
 +    * O próximo permanece atravessado por distância interna.
 +    * O tato exige, portanto, a dimensão da visão.
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 +**A experiência do limite**
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 +  * O Desejo instaura a Proximidade somente porque aquilo de que se aproxima recua diante da aproximação, fazendo com que toda redução da distância revele um limite e uma profundidade irredutíveis.
 +    * A aproximação nunca se completa em coincidência.
 +    * O Desejo experimenta o limite daquilo que alcança e o excesso daquilo que continua desejando.
 +    * A Distância não sobrevém depois da Proximidade, mas constitui sua estrutura interna.
 +  * O limite não separa duas realidades positivas previamente constituídas, pois nasce no próprio movimento pelo qual algo se aproxima e simultaneamente se subtrai.
 +    * O Desejo produz proximidade e distância no mesmo gesto.
 +    * A profundidade corresponde ao recuo da coisa no interior de sua presença.
 +    * O objeto desejado aparece como aquilo que se dá retirando-se.
 +  * A satisfação e a insatisfação não constituem momentos sucessivos, pois o objeto satisfaz precisamente ao revelar sua limitação e aprofundar o desejo que parecia preencher.
 +    * A satisfação faz surgir a falta em vez de simplesmente suprimi-la.
 +    * O alcançado oferece o desejado ao mesmo tempo que manifesta seu excesso.
 +    * A decepção pertence ao próprio cumprimento do desejo.
 +  * O Desejo prova uma negação ativa que descobre aquilo que nega como dimensão de excesso, e não como ausência de objeto determinado.
 +    * A falta não precede a presença nem se opõe exteriormente a ela.
 +    * O negativo manifesta-se na própria satisfação como abertura para além do objeto.
 +    * A insaciabilidade nasce da positividade limitada daquilo que se apresenta.
 +  * O objeto do Desejo não constitui termo autônomo capaz de preenchê-lo, mas lugar em que o desejado se anuncia como excesso sobre o que é concretamente pretendido.
 +    * O objeto preenche e aprofunda simultaneamente o desejo.
 +    * Sua presença é atravessada pela ausência daquilo que não consegue esgotar.
 +    * O objeto somente aparece ao abrir em si uma dimensão que o transcende.
 +  * A proximidade do objeto desejado inclui sua distância porque o Desejo se dirige, por meio dele, à profundidade do mundo que nele se manifesta e se oculta.
 +    * O objeto não é simples obstáculo ao desejo nem representação inadequada de um além separado.
 +    * Ele oferece realmente o desejado, mas apenas segundo a modalidade de uma apresentação incompleta.
 +    * A correlação conserva proximidade e transcendência no mesmo fenômeno.
 +
 +**Entrelaçamento da visão e do tato**
 +
 +  * Tato e visão correspondem às direções fundamentais da proximidade e da distância, mas pertencem ao mesmo movimento desejante e não podem ser separados em funções independentes.
 +    * O tato procura presença e densidade.
 +    * A visão oferece distância, síntese e abertura de um campo.
 +    * Cada sentido contém virtualmente a orientação expressa pelo outro.
 +  * A aproximação tátil é simultaneamente descoberta de uma distância, pois o contato reduz a separação sem eliminá-la e faz surgir a profundidade da coisa.
 +    * Um tato sem visão seria incapaz de apreender o excesso do objeto.
 +    * A visão encontra-se virtualmente presente no próprio contato.
 +    * O cego desenvolve no tato, especialmente pelo uso da bengala, uma apreensão sintética da distância comparável à visão.
 +  * A visão também permanece inseparável da proximidade, pois toda experiência da distância ocorre no interior de um movimento de aproximação.
 +    * A coisa torna-se visível ao recuar diante do desejo de contato.
 +    * O campo visual pode ser compreendido como resultado de um tato impedido ou fracassado.
 +    * A visibilidade exprime a resistência que impede a fusão e abre a distância entre vida e mundo.
 +  * O tato pode ser descrito como visão incipiente e limitada, enquanto a visão pode ser compreendida como tato interrompido, dispersão da densidade do objeto pela impossibilidade de possuí-lo integralmente.
 +    * O tato é concentrado e cego.
 +    * A visão é ampla, fria e difusa.
 +    * O campo visual dilata o campo tátil ao preço da perda de concentração e densidade.
 +  * O desejo amoroso manifesta exemplarmente o entrelaçamento entre tato e visão, pois o outro se torna visível ao escapar da aproximação e a visão renova o impulso de contato.
 +    * O tocar transforma-se em ver quando o outro recua.
 +    * O ver reabre uma possibilidade de proximidade e suscita a carícia.
 +    * O movimento entre aproximação e afastamento permanece indefinidamente reativado.
 +  * As duas direções sensoriais constituem concretizações de um único Desejo, pois a experiência da distância na proximidade faz com que aproximação e retirada sejam reversos do mesmo movimento vital.
 +    * Os sentidos podem compartilhar funções e compensar-se.
 +    * A unidade da vida precede a diversidade dos campos sensoriais.
 +  * Patočka reconhece dois campos sensoriais fundamentais, um de contato e outro de distância, correspondentes à tendência à presença imediata e à tendência à visão de conjunto.
 +    * A força vidente lança-se nos campos sensoriais como energia centrífuga.
 +    * O contato procura a coisa em sua presença própria.
 +    * A visão busca síntese e totalidade antecipadora.
 +  * A manutenção patočkiana da dualidade entre aproximação e retirada revela uma determinação insuficiente da vida e do movimento, pois não reconhece que ambas são direções de um único Desejo.
 +    * A oposição entre movimento de enraizamento e movimento de abertura preserva implicitamente a diferença entre vida instintiva e existência autorrealizadora.
 +    * Essa separação conserva um eco da oposição cartesiana entre corpo e espírito.
 +  * A vida compreendida como Desejo permite unificar o enraizamento e a abertura, pois a aproximação ao mundo já implica exposição à profundidade, risco, insegurança e descoberta de si.
 +    * O enraizamento não é fusão protetora, mas acesso à totalidade como aquilo que simultaneamente acolhe e escapa.
 +    * A abertura filosófica e a responsabilidade ética pertencem ao próprio movimento desejante.
 +    * O desejo inclui perda, despossessão e afastamento, não apenas impulso de apropriação.
 +    * O movimento pelo qual o mundo se torna próximo é o mesmo pelo qual ele se distancia e se abre como totalidade.
 +    * O primeiro movimento de enraizamento e o terceiro movimento de abertura constituem, portanto, um único movimento da vida.
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 +{{tag>Barbaras vida desejo pathos}}