estudos:barbaras:vida:desejo
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| estudos:barbaras:vida:desejo [11/07/2026 05:56] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:barbaras:vida:desejo [11/09/2026 04:01] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ====== Desejo ====== | ||
| + | |||
| + | //BARBARAS, Renaud. Introducción a una fenomenología de la vida: intencionalidad y deseo. Madrid: Ediciones Encuentro, S.A., 2013// | ||
| + | |||
| + | **I. O DESEJO COMO ESSÊNCIA DO VIVER** | ||
| + | |||
| + | **Introdução** | ||
| + | |||
| + | * O a priori universal da correlação exige compreender o sujeito como uma realidade constitutivamente transitiva que pertence ao mundo e simultaneamente faz aparecer seus entes, razão pela qual seu modo de ser deve ser caracterizado como vida na unidade originária entre [[lx> | ||
| + | * O sujeito não constitui uma substância fechada, mas um movimento de ostensão do ente transcendente. | ||
| + | * Sua abertura ao mundo somente é possível porque já se encontra inserido nele segundo uma conivência ontológica com aquilo que aparece. | ||
| + | * A vida não é mera ação intramundana, | ||
| + | * A fenomenologia da correlação deve tornar-se fenomenologia da vida, superando a separação entre organismo vivo e consciência. | ||
| + | * A ontologia da morte mantém a divisão entre vida orgânica e existência consciente, fazendo do homem um animal acrescido de uma faculdade que os demais viventes não possuem e impedindo que a atividade vital seja pensada como capaz de verdadeira transitividade. | ||
| + | * A vida é descrita de modo que seu próprio ser-dado não possa abrir a doação de algo. | ||
| + | * Mesmo as fenomenologias atentas ao fundamento vital da consciência introduzem uma ruptura entre vida pura e constituição do mundo. | ||
| + | * A tentativa de estender a vida à humanidade acaba frequentemente limitando a consciência e sacrificando sua abertura autêntica ao mundo. | ||
| + | * [[Jonas]] e [[Ruyer]] não conseguem atribuir à vida uma transitividade capaz de alcançar um mundo não reduzido à satisfação das necessidades. | ||
| + | * A incapacidade de compreender a humanidade a partir da vida decorre do pressuposto aditivo segundo o qual o homem seria vida acrescida de outra coisa, tomando-se a vida vegetal ou elementar como testemunho suficiente da essência de todo viver. | ||
| + | * A humanidade é situada no ponto de culminação, | ||
| + | * A ontologia da morte concebe o vivente como exceção ameaçada de retorno à matéria inerte. | ||
| + | * A vida passa a significar autoconservação, | ||
| + | * A clausura do viver sobre o vivente impede a abertura gratuita ao outro e a consideração da coisa por ela mesma. | ||
| + | * A suspensão da ontologia da morte permite compreender a humanidade e a consciência como possibilidades internas da vida e abre a via para uma antropologia privativa na qual a diferença humana não significa exterioridade em relação ao viver. | ||
| + | * A vida deve ser caracterizada por profusão, generosidade e transitividade originárias, | ||
| + | * A abertura fenomenizadora atribuída ao homem enraíza-se no movimento ekstático e despossessivo próprio da vida. | ||
| + | * A humanidade não acrescenta à vida uma dimensão inteiramente nova, mas limita uma abertura já constitutiva do viver. | ||
| + | * A antropologia privativa somente evita o retorno ao humanismo quando compreende a limitação humana como possibilidade constitutiva da própria vida e não como surgimento inexplicável de uma negação exterior. | ||
| + | * A humanidade procede de uma autolimitação do viver, cuja profusão originária já se encontra sempre interrompida ou suspensa. | ||
| + | * Essa negação não elimina a vida em benefício de seu outro, mas constitui uma modalidade de sua própria vitalidade. | ||
| + | * A vida continua plenamente vida ao limitar-se como humanidade, pois sua profusão não exclui a retenção. | ||
| + | * A afirmação vital deve comportar simultaneamente inacabamento, | ||
| + | * A dinâmica do viver não se dirige a um termo intramundano, | ||
| + | * O Aberto constitui o fundo indistinto e não espacial do mundo, a dimensão do advento e do ter lugar. | ||
| + | * Como hiância sem fundo na qual nada está ainda determinado, | ||
| + | * Entrar no Aberto significa êxodo e errância, pois ele permanece diante do movimento como aquilo que ainda deve ser alcançado. | ||
| + | * A relação da vida com o Aberto implica necessariamente a interrupção de seu êxtase originário, | ||
| + | * A inibição da vida não se opõe à sua afirmação, | ||
| + | * O [[lx> | ||
| + | * A consciência nasce como retenção, suspensão, reserva ou dobra no movimento do viver. | ||
| + | * A consciência não constitui uma substância reflexiva transparente a si mesma, mas a vacilação pela qual o movimento vital retorna sobre si em consequência de sua errância constitutiva no Aberto. | ||
| + | * A reflexividade não é conhecimento de um eu por si mesmo. | ||
| + | * O si-mesmo procede de uma involução do viver correlativa à profundidade inalcançável do Aberto. | ||
| + | * A consciência não causa a interrupção da vida, mas é o próprio dobrar produzido por essa interrupção. | ||
| + | * O Aberto e o mundo não constituem realidades separadas, pois o mundo surge no interior do Aberto e simultaneamente o delimita, oculta e nega, enquanto o Aberto somente adquire existência como fundo do surgimento mundano. | ||
| + | * O Aberto é a dimensão anterior ao mundo, mas essa anterioridade somente aparece retrospectivamente no próprio surgimento do mundo. | ||
| + | * Ocultação e desvelamento são inseparáveis, | ||
| + | * A involução do Leben em Erleben corresponde ao recuo do Aberto na figura do mundo. | ||
| + | * A correlação entre consciência e mundo revela e oculta a correlação mais originária entre viver e Aberto. | ||
| + | * A vida não se reduz à sobrevivência, | ||
| + | * O viver é movimento no Aberto, mas esse movimento sempre já se curva em visão porque o Aberto se retira atrás do mundo. | ||
| + | * O avanço vital é simultaneamente visão e o agir sempre já contém um conhecer. | ||
| + | * A vida deve ser definida como visibilização, | ||
| + | * A atividade orgânica de conservação constitui dimensão derivada e abstrata, subordinada à obra de apresentação do mundo. | ||
| + | * A vida reduzida à autopreservação é uma vida diminuída ou patológica, | ||
| + | |||
| + | **A experiência que somos** | ||
| + | |||
| + | **A experiência como liberdade** | ||
| + | |||
| + | * A investigação da unidade do viver exige abandonar o vocabulário dualista entre Leben e Erleben, agir e conhecer, para interrogar diretamente o sentido do ser da vida e reformar as categorias tradicionais do pensamento. | ||
| + | * O viver não constitui apenas novo objeto de investigação, | ||
| + | * Como o viver é o próprio modo de ser do sujeito da correlação, | ||
| + | * A atividade filosófica oferece uma via interna para a essência da vida, porque a interrogação autêntica retorna sobre sua própria possibilidade e revela o modo de ser que a sustenta. | ||
| + | * A filosofia não é simplesmente conhecimento de um estado de coisas, mas expressão da dimensão prévia que torna possível toda expressão. | ||
| + | * O filosofar pode testemunhar a vida de onde procede e manifestar a modalidade mais realizada do viver. | ||
| + | * Patočka supera a metafísica não pela simples rejeição positivista, | ||
| + | * A experiência que temos dirige-se a fatos e objetos, legitimando enunciados segundo a recepção sensível. | ||
| + | * A experiência que somos é a experiência da liberdade, não relativa a um objeto, mas ao risco que pode ser assumido ou evitado. | ||
| + | * Nela, o sujeito não encontra algo exterior, mas expõe e realiza a si mesmo. | ||
| + | * A experiência da liberdade constitui atividade, conquista e risco, em oposição à passividade e à posse características da experiência objetiva, revelando uma dimensão do sujeito mais profunda que o conhecimento. | ||
| + | * A liberdade manifesta-se como insatisfação diante do dado e compreensão de que o sensível não constitui nem a totalidade nem o decisivo. | ||
| + | * As experiências negativas permitem suspender a crença no sensível e deixar para trás o próprio ego enquanto dado submetido à passividade. | ||
| + | * A liberdade é experiência de transcendência, | ||
| + | * A insatisfação e a transcendência não constituem momentos separados, pois a nulidade do dado somente aparece no movimento que o ultrapassa e esse movimento é simultaneamente experiência de sua limitação. | ||
| + | * A liberdade situa-se aquém da oposição entre afeto e ação. | ||
| + | * Ela constitui indistintamente decepção diante do ente e transcendência ativa. | ||
| + | * A experiência da liberdade oferece a motivação imanente da [[lx> | ||
| + | * A atitude natural não pode motivar sua própria suspensão quando a experiência é reduzida à recepção do dado. | ||
| + | * O fato efetivo de que o sujeito consegue ultrapassar o dado exige ampliar o sentido da experiência. | ||
| + | * A epoché enraíza-se na experiência negativa da insuficiência do ente e no poder natural de libertar-se dele. | ||
| + | * A fronteira entre vida natural e transcendental torna-se menos rígida quando a liberdade é reconhecida como dimensão da existência humana. | ||
| + | * A possibilidade da epoché revela que o sujeito não é o resíduo positivo obtido ao final da redução, mas o poder originário de distanciar-se de todo dado, inclusive de si mesmo enquanto ego. | ||
| + | * O sujeito não é uma vivência transparente dada em percepção interna. | ||
| + | * Seu ser consiste em insatisfação, | ||
| + | * A experiência de si não pertence fundamentalmente ao conhecimento, | ||
| + | * A negatividade da liberdade não deve ser subordinada a uma realidade superior que compensaria a insuficiência do sensível, pois isso reconduziria a experiência que somos ao modelo da experiência que temos. | ||
| + | * O platonismo nasce da experiência legítima do distanciamento, | ||
| + | * Platão reconhece a relação com o não ente, mas interpreta o rebaixamento segundo categorias mundanas. | ||
| + | * O platonismo negativo conserva o khorismós como separação pura e experiência da distância diante das coisas, sem transformá-lo em acesso a um ente transcendente. | ||
| + | * A Ideia deve ser entendida como emblema da separação, | ||
| + | * A liberdade não conduz a outro mundo, mas exprime uma insatisfação constitutiva que já pertence à própria orientação da vida. | ||
| + | |||
| + | **A liberdade como condição da experiência** | ||
| + | |||
| + | * A experiência que somos não apenas difere da experiência que temos, mas constitui sua condição originária, | ||
| + | * A experiência objetiva somente é compreensível a partir de uma retirada em relação à objetualidade. | ||
| + | * A liberdade configura a região dos objetos ao afastar-se de todo conteúdo e substrato. | ||
| + | * A doação do ente depende de uma distância que não é o reverso de uma proximidade possível, pois somente no vazio aberto pela insatisfação algo pode aparecer como delimitado. | ||
| + | * A experiência não é originariamente saturação ou adequação, | ||
| + | * A epoché não constitui apenas via de acesso à consciência, | ||
| + | * O objeto somente aparece ao ser apreendido como limitado e superado por uma dimensão que o excede. | ||
| + | * Todo objeto é dado como momento de uma totalidade não aditiva e não positiva, cuja abertura resulta do khorismós e cujo excesso permite que o objeto seja reconhecido como este ente determinado. | ||
| + | * O dado deriva do não dado, que constitui sua condição. | ||
| + | * A experiência que somos é poder de distanciamento e prova da carência do ente. | ||
| + | * Os sonhos e aspirações humanas antecedem suas realizações, | ||
| + | * A filosofia manifesta de modo privilegiado a essência do viver porque nasce da ruptura com o dado e da insatisfação que o ultrapassa, sem abandonar o campo da experiência em direção a uma realidade suprassensível. | ||
| + | * A verdadeira ruptura não se encontra entre experiência e filosofia, mas entre receptividade e liberdade. | ||
| + | * O poder de distanciamento é uma possibilidade existencial tão originária quanto a recepção do sensível. | ||
| + | * A experiência que temos deriva da experiência que somos, e o conhecimento deriva de um modo mais profundo de existir. | ||
| + | * A filosofia não se opõe à vida, mas revela sua essência ao realizar de maneira eminente o poder de transcendência do viver. | ||
| + | * O viver deve ser compreendido como movimento em sentido anterior à divisão entre deslocamento espacial e gesto espiritual, capaz de abranger tanto a vida orgânica quanto a interrogação filosófica. | ||
| + | * Movimento e sentimento não constituem dimensões independentes. | ||
| + | * O movimento do viver é neutro diante das oposições entre corporal e espiritual, próprio e metafórico. | ||
| + | * A vida do organismo, o ato de pensar, a mudança afetiva e o deslocamento espacial pertencem a um mesmo sentido originário de motilidade. | ||
| + | * A insatisfação que sustenta a transcendência não é uma vivência desencadeada por um objeto frustrante, mas a condição de possibilidade da própria doação do objeto. | ||
| + | * Ela faz aparecer aquilo que parece suscitá-la. | ||
| + | * Não possui conteúdo determinado, | ||
| + | * As frustrações e necessidades particulares constituem especificações da falta originária aberta pela insatisfação. | ||
| + | * A insatisfação e o movimento de ultrapassagem são uma única realidade, pois o dado somente aparece como limitado no próprio ato que o supera. | ||
| + | * A insatisfação não é efeito afetivo de uma presença, mas o ato de ultrapassá-la. | ||
| + | * O finito surge como limitação de uma dimensão infinita que somente existe no movimento de exceder o finito. | ||
| + | * O viver põe finito e infinito em relação, fazendo com que ambos se constituam por sua negação recíproca. | ||
| + | |||
| + | **O desejo** | ||
| + | |||
| + | **Vida e desejo** | ||
| + | |||
| + | * O modo de ser revelado pela atividade filosófica é o desejo, pois reúne carência sem objeto positivo, transcendência ativa, insatisfação e movimento dirigido àquilo que sempre se subtrai. | ||
| + | * A fenomenologia do viver exige, portanto, uma fenomenologia do desejo. | ||
| + | * O desejo tende a algo sem encontrar termo positivo capaz de completar sua tensão. | ||
| + | * Sua relação é exploração e avanço despossessivo, | ||
| + | * O desejo situa-se aquém da separação entre vida e consciência, | ||
| + | * Ele constitui a raiz comum entre estar vivo e sentir. | ||
| + | * Sua tensão orienta a profusão vital e nela introduz a negatividade de uma carência. | ||
| + | * O sentido é esboçado sem converter-se em posse tranquila de um objeto. | ||
| + | * O Aberto somente pode ser dado ao desejo, pois se manifesta como ausência no mundo que dele procede e se retira sempre atrás da figura mundana que o revela. | ||
| + | * O Aberto é o desejado como lugar de um cumprimento impossível de possuir diretamente. | ||
| + | * A vida recebe dele sua força, embora somente o encontre sob a forma de sua falta. | ||
| + | * A relação adequada com o mundo deve assumir a forma do desejo, porque o mundo manifesta e simultaneamente vela o fundo do qual surge. | ||
| + | * O desejo relaciona mundo e Aberto ao transcender os entes em direção à dimensão que eles ocultam, delimitando o mundo como apresentação da falta do próprio Aberto. | ||
| + | * A insaciabilidade da vida corresponde ao excesso irredutível do Aberto sobre os entes. | ||
| + | * A visibilidade do mundo é cercada pela invisibilidade que alimenta o desejo. | ||
| + | * O Erleben assume a forma de desejo porque procede de um Leben em relação com o Aberto. | ||
| + | * O desejo manifesta-se de modo privilegiado no amor, no qual o movimento em direção a outro vivente não se esgota na posse de qualidades ou na satisfação de necessidades determinadas. | ||
| + | * O amado aparece como lugar mundano de uma profundidade que nenhuma propriedade particular consegue exaurir. | ||
| + | * O amor deseja no outro algo que o excede sem existir separado de sua presença concreta. | ||
| + | * A satisfação amorosa mantém e aprofunda o desejo em vez de extingui-lo. | ||
| + | * O desejo amoroso confirma que aquilo que se pretende concretamente não coincide com o desejado, pois cada presença determinada oferece satisfação e simultaneamente revela uma profundidade que a ultrapassa. | ||
| + | * A insatisfação não resulta de defeito acidental do objeto, mas da transcendência que nele se manifesta. | ||
| + | * O desejo renasce porque o prazer não elimina a distância entre aquilo que se alcança e aquilo que se deseja. | ||
| + | * O outro é desejado como manifestação finita de uma dimensão que não pode ser reduzida às suas determinações. | ||
| + | |||
| + | **Desejo e necessidade** | ||
| + | |||
| + | * Desejo e necessidade diferem radicalmente, | ||
| + | * A necessidade dirige-se a um objeto determinado cuja obtenção pode suprimi-la. | ||
| + | * O desejo é movimento em direção a uma alteridade que nenhum objeto consegue esgotar. | ||
| + | * A elaboração rigorosa do desejo exige abandonar a definição da vida como simples luta pela conservação. | ||
| + | * O desejo não carece de relação com a exterioridade, | ||
| + | * Os entes mundanos constituem condições possíveis de satisfação, | ||
| + | * O pretendido é aquilo que o desejo alcança, enquanto o desejado é a profundidade que nele permanece inalcançada. | ||
| + | * A satisfação não suprime o desejo, mas o intensifica ao revelar o excesso daquilo que era buscado. | ||
| + | * A necessidade resolve-se pela presença adequada de seu objeto, ao passo que o desejo permanece insaciável porque seu horizonte não constitui ente determinado cuja posse pudesse concluí-lo. | ||
| + | * A fome cessa com o alimento, mas o desejo não possui objeto capaz de extinguir sua tensão. | ||
| + | * A necessidade é centrípeta e reconduz o vivente à conservação de si. | ||
| + | * O desejo é centrífugo e despossessivo, | ||
| + | * A ausência de objeto determinado não significa que o desejo não deseje nada nem que aspire à própria insatisfação, | ||
| + | * O desejo conserva uma ingenuidade constitutiva pela qual toma o pretendido como se fosse o desejado. | ||
| + | * Somente depois da satisfação se revela que o objeto alcançado não correspondia inteiramente àquilo que movia o desejo. | ||
| + | * Sem expectativa de satisfação, | ||
| + | * A insatisfação constitutiva do desejo não anula o prazer, mas faz com que toda satisfação seja simultaneamente abertura de uma nova distância. | ||
| + | * O prazer constitui cumprimento real, embora parcial e não conclusivo. | ||
| + | * A negatividade do desejo encontra-se no interior da satisfação como profundidade que a impede de encerrar-se. | ||
| + | * O desejo não busca fracassar, mas encontra em cada realização a revelação de um excesso. | ||
| + | |||
| + | **O desejo metafísico** | ||
| + | |||
| + | * Levinas distingue a necessidade, | ||
| + | * O vocabulário da pureza revela uma decisão normativa sobre o autêntico desejo. | ||
| + | * O desejo metafísico não poderia ser satisfeito nem sequer aspiraria verdadeiramente à satisfação. | ||
| + | * A relação com o Outro torna-se responsabilidade, | ||
| + | * Um desejo que se dirige desde o início ao impossível e sabe que nada poderá satisfazê-lo perde o movimento e a aspiração que constituem sua essência. | ||
| + | * Todo desejo deve visar algo considerado realizável. | ||
| + | * A impossibilidade absoluta do desejado transforma o desejo em renúncia. | ||
| + | * A preservação da alteridade radical compromete a própria desejabilidade do Outro. | ||
| + | * Levinas amplia a necessidade até incluir toda tendência suscetível de satisfação e expulsa o desejo do campo do movimento em direção a algo, reduzindo-o a receptividade diante de uma distância infinita. | ||
| + | * O desejo não aproxima nem descobre seu objeto, mas apenas reconhece seu afastamento. | ||
| + | * A transcendência deixa de ser movimento e converte-se em preservação passiva da alteridade. | ||
| + | * A negatividade do desejo não deve ser separada da satisfação concreta e projetada em um além absoluto, pois ela constitui a profundidade do próprio fenômeno que se manifesta no prazer sem ser esgotada por ele. | ||
| + | * Levinas transforma a frustração interna ao desejo em prova de outro mundo inacessível. | ||
| + | * O excesso do desejado deve ser pensado relativamente ao pretendido e revelado nele. | ||
| + | * A insatisfação é momento constitutivo da satisfação, | ||
| + | * A oposição levinasiana entre o Mesmo mundano e o absolutamente Outro permanece presa a um dualismo que não reconhece a alteridade interna ao próprio mundo. | ||
| + | * O mundo é reduzido ao conjunto dos entes apropriáveis e consumíveis. | ||
| + | * Toda alteridade intramundana é considerada falsa por ser reabsorvível na identidade. | ||
| + | * O desejo metafísico torna-se contraditório, | ||
| + | * O desejo dirige-se originariamente ao Mundo e ao Aberto que nele se manifesta, não a um além do mundo, razão pela qual somente pode visar entes mundanos sem jamais ser inteiramente satisfeito por eles. | ||
| + | * O excesso do desejado corresponde à profundidade indefinida do mundo. | ||
| + | * O Aberto não é negação dos entes, mas seu fundo e reverso inaparente. | ||
| + | * A insaciabilidade do desejo manifesta a diferença irredutível entre o Aberto e os entes que o revelam. | ||
| + | * Se viver é viver no Aberto, o desejo constitui a essência desse viver. | ||
| + | |||
| + | **Desejo e afetividade** | ||
| + | |||
| + | * O desejo deve permanecer no campo da afetividade e manifesta-se exemplarmente no amor, ao contrário do desejo levinasiano sem dinâmica nem satisfação, | ||
| + | * O desejo existe somente ao ser experimentado. | ||
| + | * A experiência de si e a afetividade devem ser compreendidas a partir do desejo. | ||
| + | * A vida e a afetividade são cooriginárias, | ||
| + | * A articulação entre sentir e poder mover-se mostra que a afetividade não constitui coincidência fechada consigo mesma, pois o impulso nasce da incapacidade do sentir de completar-se em pura autopresença. | ||
| + | * O sentir é simultaneamente um “eu posso” porque aquilo que nele é sentido sempre se ausenta parcialmente. | ||
| + | * O dinamismo da vida corresponde à impotência constitutiva da afeição para coincidir integralmente consigo. | ||
| + | * O movimento inerente ao sentir contradiz sua definição como autoafecção pura. | ||
| + | * A sucessão das impressões revela uma lógica afetiva interna marcada por busca e deficiência, | ||
| + | * As afecções não são produzidas por uma Vida transcendente separada. | ||
| + | * Cada afeição contém uma distância interior que a impede de abraçar-se plenamente. | ||
| + | * O excesso da Vida manifesta-se como carência da afeição em relação a si mesma. | ||
| + | * A transcendência da vida ocorre como movimento ativo de cada afeição para além de si. | ||
| + | * A dimensão propriamente afetiva de toda afeição consiste na experiência de uma carência que é simultaneamente demanda de novo cumprimento e condição da passagem para outra afeição. | ||
| + | * Mais profundamente que qualquer conteúdo afetivo encontra-se a espera que ele vem provisoriamente preencher. | ||
| + | * As afecções particulares pressupõem um Afeto originário que torna possíveis seu surgimento e desaparecimento. | ||
| + | * Esse Afeto originário é o Desejo, condição transcendental de toda afetividade. | ||
| + | * A identidade entre vida e afetividade somente pode ser fundada quando a vida é concebida como busca, separação e heteroafecção, | ||
| + | * O desejo não é afeição particular, mas afetibilidade originária. | ||
| + | * Como não se dirige a nenhum ente determinado, | ||
| + | * Sua insatisfação radical constitui disponibilidade universal e pura receptividade. | ||
| + | * A atividade do desejo converte-se continuamente em passividade porque sua busca não é governada por objeto definido e permanece aberta àquilo que pode aparecer. | ||
| + | * O avanço desejante é simultaneamente espera. | ||
| + | * Sua inquietude sem objeto determinado coincide com uma tranquilidade receptiva. | ||
| + | * O desejo realiza a identidade entre atividade e passividade, | ||
| + | * O desejo constitui a forma da receptividade porque o vazio ativo da busca permite que algo apareça ao preenchê-lo, | ||
| + | * A separação entre aspiração e conteúdo recebido funda a motilidade da afetividade. | ||
| + | * Cada satisfação reabre a disponibilidade para uma nova afeição. | ||
| + | * Todo afeto é atravessado pela busca e deve ser compreendido como heteroafecção. | ||
| + | * Em sua condição de Desejo, a vida é o lugar de todo sentir e de toda experiência, | ||
| + | |||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
