estudos:barbaras:fenomeno:palavra-a-ser
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| + | ====== Palavra a Ser ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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| + | **§ 1 A inscrição da significação nos signos** | ||
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| + | * Ao empreender a redação de La prose du monde, Merleau-Ponty concebe esse trabalho como prolongamento das pesquisas anteriores sobre comportamentos simbólicos e conhecimento, | ||
| + | * A redação de La prose du monde é interrompida, | ||
| + | * A filosofia da expressão, concebida a princípio como prolongamento da fenomenologia da percepção, | ||
| + | * O período que segue imediatamente a Phénoménologie de la perception é dominado pela questão da linguagem, não mais apreendida como forma de expressividade corporal fundada obscuramente numa significação emocional, mas abordada instalando-se no próprio cerne da operação expressiva | ||
| + | * O risco de pensar a linguagem em termos intelectualistas é agudo porque é próprio da palavra dissimular sua operação significante, | ||
| + | * A linguística desempenha, em relação ao sujeito da expressão, o papel que a psicologia da forma desempenhava em relação ao sujeito do comportamento, | ||
| + | * O estudo da linguagem aproxima do problema da idealidade e do idealismo, pois a palavra se esquece como operação em virtude de sua própria operação, dissimulando a camada de expressão primordial de que procede, o que conforta o idealismo em sua certeza de reencontrar nas próprias coisas significações preexistentes | ||
| + | * A concepção clássica reconstrói a linguagem segundo a correspondência unívoca entre signo e significação, | ||
| + | * Se dizer fosse apenas colocar uma palavra sob cada pensamento, nada seria jamais dito, pois o signo se apagaria diante de um sentido já seu, de modo que é necessário reconhecer uma potência significante do signo que é sua própria obra, e que por isso o signo não se esgota na exibição de uma significação | ||
| + | * A dificuldade é comparável à que Merleau-Ponty encontra em Husserl na análise da intencionalidade, | ||
| + | * Descrito a partir da significação, | ||
| + | * A linguística reconhece isso ao acentuar o caráter diacrítico do signo, ponto ao qual Merleau-Ponty retorna incessantemente: | ||
| + | * O sentido operante é implicado pelo edifício das palavras mais do que designado por elas, dimensão que não subsiste fora das variantes em que se dá, logrando-se entre elas como princípio secreto de sua variação, de modo que os signos são habitados por um princípio de equivalência sem jamais abolir sua materialidade numa significação transparente | ||
| + | * Ao nível da palavra viva descobre-se que o sentido do sentido é jamais estar presente em pessoa, implicado nela como horizonte que a anima à distância e solicita retomada indefinida, pois a palavra joga sempre sobre fundo de palavra, sendo apenas uma prega no imenso tecido do falar | ||
| + | * Nesse estágio a reflexão ainda aborda a linguagem a partir das categorias da percepção, | ||
| + | * As [[lx> | ||
| + | * A não presença do sentido é de princípio, sinônimo da quase-materialidade do signo, revelando o ser da linguagem um modo de infinidade que não admite a clausura da Ideia kantiana e exige superar a oposição entre matéria e forma, descoberta da historicidade infinita do sentido que determinará a pensée do mundo como transcendência pura | ||
| + | * Uma nota do término da segunda parte de La prose du monde antecipa já Le visible et l' | ||
| + | * Essa descrição conclui a uma opacidade essencial da linguagem, selado o sentido nos signos como dimensão de sua diferenciação ativa, sempre iminente, de modo que a visada própria da palavra deve ser definida como nada qualificado, | ||
| + | * A significação se dá no modo da falta, não como entidade positiva a restaurar mas por seu próprio modo de ser consistir em escapar à ordem da presença, o que permite comparar a linguagem à pintura e reconhecer no sentido um silêncio insuperável, | ||
| + | * Com a presença do sentido põe-se em questão a presença a si pela qual a consciência se define, pois se a significação advém na expressão apenas de maneira diferida, o sujeito deve ser concebido como o que se conquista e se realiza na expressão mesma, e não como portador de unidades de sentido já constituídas | ||
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| + | **§ 2 Sincronia e diacronia** | ||
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| + | * O segundo eixo da análise instala-se não mais no ato singular de expressão, mas no rapport entre língua e palavra, pois a linguística parte de tratar a linguagem como objeto submetido a leis, fazendo da sincronia um corte sobre a diacronia | ||
| + | * Se estivéssemos encerrados nas significações inconciliáveis que as palavras herdam de sua história, a própria vontade de expressão se esvairia, de modo que a linguística não pode dispensar o ponto de vista do sujeito que, a cada instante, fala essa língua e supera de fato os acidentes nela incorporados pela história | ||
| + | * O ponto de vista subjetivo envolve o ponto de vista objetivo, a sincronia envolve a diacronia, pois os acidentes históricos só têm perenidade e se integram à língua na medida em que são retomados por uma única vontade de expressão, o que implica que a lógica interna da língua transcenda também o presente e desenhe uma unidade além de cada fase sincrônica | ||
| + | * Saussure inaugura assim, ao lado de uma linguística da língua como caos de eventos, uma linguística da palavra que evidencia, em cada período, uma unidade sem a qual comunicação e comunidade linguística seriam impossíveis, | ||
| + | * Essa unidade não é distinta de seus modos de advento, dos atos de retomada que anima e orienta, havendo aí opacidade fundamental da expressão, pois se a sincronia envolve a diacronia sem absorvê-la, | ||
| + | * Considerada segundo corte longitudinal, | ||
| + | * Os fatos só têm incidência e perenidade se retomados por uma intenção de significar, mas essa intenção é ela mesma portada pelos fatos, sem realidade fora das contingências que transforma em acontecimentos, | ||
| + | * Não se trata de estabelecer relação dialética entre sincronia e diacronia mas de mostrar seu ultrapassamento efetivo, o que confirmam as análises de Vendryes sobre as exigências contrárias de expressividade e comunicação que atravessam a língua, de modo que a expressão não utiliza a história mas se faz história | ||
| + | * Essa análise aprofunda a do ato de expressão: a opacidade do sentido não corresponde a um fracasso mas é inerente à obra mesma da expressão, pois a intenção significante que anima os atos, sincrônica e diacronicamente, | ||
| + | * A coexistência dos atos de expressão não se funda em transcendência do sentido, que é rigorosamente apenas a tarefa que liga entre si as tentativas, de modo que reconhecer que passado e futuro envolvem o presente não situa essa visada no eterno, pois ela só se sustenta por ser reativada em cada presente | ||
| + | * Apreendida através do sentido expressivo, a razão não se dá como sobrepairando a história mas como confundindo-se com a historicidade mesma, razão na contingência, | ||
| + | * O estudo da expressão revela assim a dimensão da historicidade: | ||
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| + | **§ 3 O solo da expressão** | ||
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| + | * Essas conclusões exigem uma refundição das categorias da Phénoménologie de la perception, cuja démarche era finalmente progressiva, | ||
| + | * A filosofia da expressão suscita ao contrário uma démarche regressiva que, partindo da cultura e da linguagem, interroga seu solo originário, | ||
| + | * A ontologia de Merleau-Ponty nasce desse movimento regressivo, buscando compreender a natureza em que se enraíza a cultura cuja significação acaba de ser explicitada, | ||
| + | * O intelectualismo pressupõe realizada a obra da expressão em vez de tentar pensá-la, ignorando por sua ingenuidade quanto à linguagem o fato do mundo, ao passo que a descoberta da expressão, da ausência de clausura e da infinidade do sentido implicam o desvelamento do mundo em sua figura autêntica e originária | ||
| + | * Ao fazer retorno ao mundo a partir do fenômeno da expressão, apreendendo o sentido no ato mesmo de seu nascimento em vez de o referir de antemão a um fundo perceptivo, Merleau-Ponty atinge a figura verdadeira do mundo como solo ou fonte da expressão, correspondendo à infinidade do telos a infinidade de uma arché | ||
| + | * Porque nenhuma expressão se apaga atrás de um sentido em estado puro, o mundo só se dará como retraimento, | ||
| + | * O universal não está mais do lado do sentido mas do lado do mundo, aquilo que nutre toda expressão faltando sempre ao que o revela, o mundo sendo o que resta a dizer no seio do que o exprime, conforme a fórmula de Merleau-Ponty sobre o mundo como mais que toda pintura, toda palavra, toda atitude | ||
| + | * Não se deve, porém, confundir essa transcendência com um retorno a um fundo inacessível ou a um em-si, pois se o mundo, como arché infinita, corresponde ao inacabamento do dizer, ele pode ser expresso, sendo exatamente o lugar de enraizamento do dizer em sua dupla dimensão de conquista e incompletude | ||
| + | * Enquanto exprimível, | ||
| + | * O Ser é o que exige de nós criação para que dele tenhamos experiência, | ||
| + | * O campo da linguagem, que a princípio constituía apenas o lugar privilegiado do estudo da expressão, tende a se generalizar, | ||
| + | * O mundo já está na linguagem, ou antes já é linguagem, expressão primordial, fonte originária que exige a expressão e no entanto a retém em sua opacidade, sendo o silêncio do mundo já palavra porque a linguagem, por mais realizada que seja, é ainda silêncio | ||
| + | * Linguagem e percepção, | ||
| + | * O problema da origem da linguagem, que pressupunha sua identificação à ordem da idealidade, perde todo sentido, pois reapreendido com todas as suas raízes a linguagem é a origem, situando-se o ser do mundo além da oposição entre facticidade e essencialidade, | ||
| + | * Com a noção de mundo transforma-se a noção de consciência, | ||
| + | * A atenção à expressão provoca o estilhaçamento do quadro de uma filosofia da consciência e dos polos empírico e transcendental entre os quais oscilava, dando-nos acesso ao lugar mesmo de sua articulação, | ||
| + | * O curso sobre A instituição na história pessoal e pública atesta a necessidade dessa mutação, reconhecendo Merleau-Ponty que uma filosofia da consciência é sempre uma filosofia da constituição, | ||
| + | * Compreendido como instituinte, | ||
| + | * À medida que o sujeito se apaga em proveito da teleologia, o corpo perde suas conotações naturalistas e comportamentais, | ||
| + | * Após descrever longamente a expressão muda da pintura, Merleau-Ponty é levado a perguntar como a expressividade pictórica se enraíza no corpo, pois se os gestos do pintor são possíveis é porque os gestos naturais já estilizam, e se o mundo pode ser pintado é porque nele se recolhe um sentido esparso que já contém tudo o que pintura e linguagem desdobrarão | ||
| + | * Toda percepção, | ||
| + | * Superadas as equívocas da Phénoménologie de la perception, a filosofia da expressão libera uma noção do corpo adequada ao que já se entrevia, confundindo-se a ontologia com a explicitação desse corpo como expressão primordial, corpo da história, isto é, como carne | ||
| + | * Todos os eixos da ontologia de Merleau-Ponty aparecem como realização de uma filosofia da expressão consequente, | ||
| + | * Não se trata de retornar a uma origem velada nem de coincidir com um mundo virgem, pois o mundo bruto ou selvagem não é de modo algum o sítio do irracional, cabendo à reflexão tomar a medida da impossibilidade dessa coincidência, | ||
| + | * A expressão não é véu posto sobre o mundo mas, sendo o próprio devir do mundo, o que pode nos abrir a ele, cabendo à filosofia encontrar uma palavra que se una ao mundo como expressão muda, papel capital que cabe à reflexão sobre a pintura em Le langage indirect et les voix du silence | ||
| + | * Para compreender a linguagem em sua operação de origem é preciso fingir nunca ter falado, submetê-la a uma redução, olhá-la como os surdos olham os que falam, comparar a arte da linguagem às outras artes de expressão, é através da pintura que se poderá liberar o significar originário da linguagem antes que ela o transmude em idealidade | ||
| + | * A pintura, expressão muda de nosso contato com o mundo, reconduz ao silêncio de seu significar primeiro, desempenhando o papel de uma redução fenomenológica que, ao contrário da linguagem, faz aparecer uma camada primordial, um significar que ainda não é significação, | ||
| + | * Com a pintura pode realizar-se uma redução verdadeira, não mais no sentido idealista de retorno à subjetividade transcendental, | ||
| + | * O caminho percorrido de La structure du comportement ao Visible et l' | ||
| + | * A psicologia do comportamento permite a redução do idealismo apenas em proveito de uma forma de naturalismo, | ||
| + | * A linguística libera o campo da expressão e, para além da linguagem, o da historicidade fundamental, | ||
| + | * É somente quando esse pensamento se faz fenomenologia da pintura que ela consegue compreender a inserção da expressão no mundo e, com isso, apreender o ser do mundo como velamento do sentido, logos selvagem | ||
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