estudos:barbaras:experiencia:sentir
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| + | ====== Sentir ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: | ||
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| + | **O poder do visível** | ||
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| + | **O sentir em Merleau-Ponty e Aristóteles** | ||
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| + | * A primeira frase de O visível e o invisível enuncia o paradoxo do sentir, pois a percepção abre ao mundo mesmo sem que este seja um em si estranho às sensações, | ||
| + | * a sensação anunciando, ao menos como horizonte, um mundo que escapa à atualidade do sentir e um senciente que não se reduz à prova atual que dele faz | ||
| + | * a tensão remetendo em última análise ao afastamento entre vivido e dito, exprimindo a continuidade entre viver e pensar | ||
| + | * Uma filosofia autêntica do sentir deve pensar juntas a indivisão do senciente e do sentido e sua diferença, problema que Aristóteles enfrenta magistralmente no De Anima recorrendo à teoria do ato e da potência | ||
| + | * a citação segundo a qual o ato do sensível e o do sentido são um único e mesmo ato, embora sua quididade não seja a mesma | ||
| + | * o silêncio surpreendente de Merleau-Ponty a respeito de Aristóteles, | ||
| + | * Aristóteles parte da opinião de que a sensação é alteração, | ||
| + | * a distinção entre alteração destrutiva, transformação sob a ação do contrário, e alteração conservadora, | ||
| + | * a citação segundo a qual, para o ser sensitivo, a primeira mudança se produz sob a ação do gerador, possuindo então a sensação à maneira de uma ciência | ||
| + | * a conclusão de que a faculdade sensitiva é, em potência, tal como o sensível já é em enteléquia, | ||
| + | * Aristóteles define a sensação como o ato comum, isto é, idêntico, do senciente e do sensível, ilustrado pelo exemplo da audição e da ressonância que se produzem simultaneamente | ||
| + | * a comparação com a cera que recebe a marca do anel sem o ferro nem o ouro, recebendo o sentido não a matéria mas a forma sensível da coisa | ||
| + | * a citação de Malherbe segundo a qual entre o sentido e o sensível nenhuma mediação se interpõe, sendo a ação do sensível sobre o sentido o ato pelo qual o sentido passa da potência ao ato | ||
| + | * A abordagem aristotélica permite superar oposições que estruturarão a concepção clássica da experiência, | ||
| + | * a teoria do ato e da potência permitindo conciliar a unidade do sentir como evento com a dualidade que ele implica como experiência | ||
| + | * É difícil não notar a proximidade do projeto merleau-pontiano com a teoria aristotélica da sensação, afirmando Malherbe que a dívida de Merleau-Ponty para com Aristóteles é evidente | ||
| + | * a citação de Rodrigo segundo a qual a passagem das potências à realização conjunta releva do que Merleau-Ponty analisa em termos de entrecruzamento | ||
| + | * a citação segundo a qual ver é ver algo, ver vermelho é ver vermelho existente em ato, não havendo alternativa entre presença a si e presença de um mundo | ||
| + | * a crítica ao intelectualismo e ao empirismo, que refazem essa unidade originária a partir de momentos supostamente respeitosos da experiência mas tornam impensável ou o sentir ativo ou o momento próprio da sensação | ||
| + | * A solução de Merleau-Ponty consiste em apoiar-se na especificidade do corpo próprio, subjetividade desabada na exterioridade que escapa à alternativa simples do subjetivo e do objetivo | ||
| + | * a citação segundo a qual, sob todas as acepções da palavra sentido, reencontramos a mesma noção fundamental de um ser orientado para o que não é, sendo o mundo inseparável do sujeito | ||
| + | * a citação sobre o sujeito da sensação, que não é nem pensador nem meio inerte, mas uma potência que co-nasce a um certo meio de existência | ||
| + | * a citação sobre o sensível que vai ser sentido colocando ao corpo um problema confuso, sendo necessário encontrar a atitude que lhe dará meio de se determinar | ||
| + | * a citação sobre contemplar o azul do céu, não sendo um sujeito acósmico face a ele mas abandonando-se nele, sendo o próprio céu que se pensa | ||
| + | * A descrição da sensação na Fenomenologia da percepção restitui uma cumplicidade originária da consciência e do mundo idêntica à que Aristóteles tematiza, retomando Merleau-Ponty, | ||
| + | * a crítica de Malherbe segundo a qual apenas Aristóteles fora suficientemente fino para pôr a diferença do sentido e do sensível sem atentar contra a identidade simples de seu ato, faltando a Merleau-Ponty essa conceitualidade | ||
| + | * Esse diagnóstico deve ser matizado, havendo de fato um descompasso na Fenomenologia da percepção entre descrições que restituem a unidade do sentir e tentativas de tematização tributárias das filosofias racionalistas do sensível | ||
| + | * Merleau-Ponty continuando implicitamente a pensar em termos de consciência e objeto, o que o conduz a reconstruir o aparecer sensível a partir de uma relação entre termos já constituídos | ||
| + | * a questão que permanece em suspenso ao término da Fenomenologia da percepção sendo como conciliar o viver e o dizer, como pensar juntas a unidade do sentir como evento e a dualidade que ele implica como experiência dizível | ||
| + | * As pesquisas que seguem a Fenomenologia da percepção visam mostrar que a vida perceptiva caracteriza toda vida possível, exigindo um duplo aprofundamento de onde procede o projeto de uma ontologia | ||
| + | * Merleau-Ponty descobrindo que as categorias de consciência e objeto que utilizava espontaneamente já são idealizações remetendo a um solo mais primitivo | ||
| + | * no Visível e o invisível, o sensível sendo concebido em e por si mesmo, dotado de sentido de ser originário, | ||
| + | * não havendo visão possível senão se o Ser se presta a essa visão sob a forma de uma visibilidade em si, sendo essa visibilidade intrínseca que porta a possibilidade da subjetividade | ||
| + | * a citação segundo a qual a carne do mundo é Ser-visto, eminentemente percipi, sendo por ela que se pode compreender o percipere | ||
| + | * O objetivo de Merleau-Ponty é pensar juntos os traços aparentemente contraditórios do sentir, caracterizado pela unidade de uma prova subjetiva e de uma transcendência efetiva, sendo a experiência abertura a uma transcendência que não remete a uma positividade | ||
| + | * a citação segundo a qual ver é sempre ver mais do que se vê, sendo a visão o que existe como abertura ao que a engloba | ||
| + | * a citação segundo a qual o sentido é ao mesmo tempo cúmulo de subjetividade e cúmulo de materialidade | ||
| + | * Merleau-Ponty define o visível como o que comporta uma dimensão de invisibilidade absoluta, não distinta do visível, sendo a própria visibilidade que comporta uma não visibilidade | ||
| + | * a citação segundo a qual o invisível está ali sem ser objeto, transcendência pura sem máscara ôntica | ||
| + | * a possibilidade de afirmar que não há identidade nem não identidade, havendo dentro e fora girando um em torno do outro, definindo-se a transcendência pura como identidade na diferença | ||
| + | * É legítimo tentar apreender positivamente o sentido de ser desse Ser sensível, devendo ser reintroduzida no cerne do Ser sensível a dimensão da potência que Aristóteles colocava no princípio de sua filosofia do sensível | ||
| + | * existir em potência sendo existir como negação e já anúncio do que se será, permanecendo em retraimento sobre si mesmo | ||
| + | * a citação da nota inédita de 17 de setembro de 1958 sobre a reabilitação de um novo possível, ingrediente como tal do ser, contra o atualismo e o possibilismo | ||
| + | * Essa potência excede o quadro aristotélico dominado pela ontologia da substância, | ||
| + | * a citação de Patočka sobre a radicalização do conceito aristotélico de movimento que já não é definido por um suporte comum | ||
| + | * a potência passiva se confundindo com a potência ativa, que se confunde ela mesma com sua obra, não havendo prenhez senão como parturição | ||
| + | * a citação sobre a explosão estabilizada ou o único estalar de ser que é para sempre, mantendo em si a obscuridade de que procede | ||
| + | * a citação de F. Rouger sobre a atualização indefinida cuja infinidade paradoxal exclui toda passagem à atualidade plena | ||
| + | * A filosofia de Merleau-Ponty não é retomada poética mas radicalização especulativa da abordagem aristotélica, | ||
| + | * Merleau-Ponty situando-se no próprio cerne do processo de atualização, | ||
| + | * situando-se assim além da alternativa, | ||
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