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| + | ====== O problema do " | ||
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| + | //Data: 2025-10-31 06:54// | ||
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| + | ==== Do ser do fenômeno ==== | ||
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| + | === O Outro === | ||
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| + | * A importância da questão de outrem na obra de Merleau-Ponty não pode ser exagerada, podendo sua totalidade ser interpretada como uma meditação sobre o que está implicado pela experiência incontestável dos outros. | ||
| + | * Longe de outrem ser abordado apenas como um momento do mundo, ele informa desde logo a descrição do mundo percebido: este é primariamente o que responde à possibilidade de outrem, o lugar onde outros são suscetíveis de aparecer. | ||
| + | * É necessário distinguir a ordem da exposição da ordem heurística na Fenomenologia da Percepção. | ||
| + | * Embora na Fenomenologia da Percepção o estudo do percebido se encerre com um capítulo consagrado ao mundo humano, no qual este é retomado como uma dimensão que se sobrepõe à da coisa, e cuja doação se enraíza na do mundo percebido, essa experiência original orienta a análise desde o início. | ||
| + | * Ao longo de toda a Fenomenologia da Percepção, | ||
| + | * Não há um capítulo desta obra onde Merleau-Ponty não ponha, de certa forma, à prova suas conclusões, | ||
| + | * A explicitação do mundo percebido é conduzida desde logo sob o horizonte da percepção de outrem. | ||
| + | * A abordagem de Merleau-Ponty é, portanto, finalmente circular: porque outrem informa secretamente o estudo do mundo sensível, porque o mundo percebido é abordado a partir da possibilidade da intersubjetividade, | ||
| + | * Quando Merleau-Ponty aborda por fim explicitamente a questão de outrem, o essencial de sua análise consiste em remeter o leitor às conclusões a que ele chegou no plano do sensível e da coisa. | ||
| + | * A análise de outrem, de certa forma, precede a si mesma: segundo a ordem constitutiva, | ||
| + | * É em todo caso do ponto de vista dessa experiência que é conduzida, desde A Estrutura do Comportamento, | ||
| + | * Merleau-Ponty explica em uma nota de trabalho: " | ||
| + | * O estudo do comportamento se efetua, na primeira obra, de um ponto de vista externo: trata-se de se apoiar nas descrições da psicologia, implícita ou explicitamente conduzidas sob o pressuposto de uma ontologia naturalista, | ||
| + | * A irredutibilidade do comportamento à hipótese de constância é evidenciada tanto no nível da relação do observador com o comportamento observado quanto no da relação do comportamento com seu mundo. | ||
| + | * A percepção é primeiramente retomada através da prova que o psicólogo faz de um comportamento significante: | ||
| + | * A inadequação do esquema estímulo-resposta se verifica primeiramente no plano dessa intersubjetividade singular em vez de no plano objetivo da relação entre o comportamento e seu mundo. | ||
| + | * O organismo testemunha uma unidade irredutível, | ||
| + | * Desde que a experiência é retomada como experiência de um outro organismo e, de maneira geral, de uma outra existência, | ||
| + | * Inicia-se aqui um procedimento que estrutura todas as obras de Merleau-Ponty: | ||
| + | * Ao pensar a consciência como uma subjetividade empírica, reduzindo-a a essa propriedade que alguns seres da natureza possuem de existir para si, e ao determinar, de maneira correlativa, | ||
| + | * A característica de outrem é, de fato, remeter a mim, confundir-se com a significação que ele apresenta a uma consciência. | ||
| + | * A alteridade de outrem significa, portanto, primeiramente sua diferença em relação ao mundo, entendido no sentido realista: ele excede todo conteúdo sensível, escapa ao em si, confunde-se com o sentido que oferece a uma subjetividade. | ||
| + | * É por isso que, em A Estrutura do Comportamento, | ||
| + | * Mais do que a da coisa, a experiência de outrem comprova a evidência do cogito. | ||
| + | * A filosofia realista tenta reconstituir a certeza de outrem de maneira indireta, recorrendo ao raciocínio por analogia. | ||
| + | * A consciência do outro, por princípio impenetrável, | ||
| + | * Merleau-Ponty, | ||
| + | * A crítica se desenvolve simultaneamente no plano do fato e no plano do princípio. | ||
| + | * Primeiramente, | ||
| + | * O corpo da criança e o do outro com quem ela se relaciona manifestam uma fraca semelhança objetiva; não podem, por outro lado, ser comparados, na medida em que a criança não possui uma imagem objetiva de seu próprio corpo; e está excluído, por fim, que a criança, que ainda não está de posse do pensamento discursivo, seja capaz de efetuar tal raciocínio. | ||
| + | * A relação com outrem é imediata: longe de este ser inferido a partir de conteúdos sensíveis, ele já está presente em e como esses conteúdos, isto é, como seu próprio corpo. | ||
| + | * A originalidade da percepção de outrem de fato exclui que essa percepção se baseie em uma inferência. | ||
| + | * A prioridade genética, evidenciada pela observação psicológica, | ||
| + | * Por outro lado, mesmo supondo que os elementos nos quais o raciocínio se baseia estejam disponíveis, | ||
| + | * Assim, o pressuposto que anima o recurso à inferência analógica, a saber, a dualidade entre a consciência de outrem, fechada em si mesma, e o conteúdo sensível, conduz essa inferência ao fracasso. | ||
| + | * Se se tratasse realmente de concluir outrem, nada seria suficiente para me convencer de sua presença, nenhum signo poderia me conduzir a essa significação, | ||
| + | * Em outras palavras, toda teoria da projeção supõe o que pretende demonstrar: não poderíamos projetar nossos próprios vividos em uma aparência sensível se algo nesta não nos sugerisse a inferência. | ||
| + | * Mas então, a inferência se torna inútil no instante em que se revela possível. | ||
| + | * Na realidade, a analogia não fundamenta a experiência de outrem, ela procede dela: ela vem apenas confirmá-la e nutrir um conhecimento metódico do outro. | ||
| + | * Pode-se errar quanto ao sentido de uma expressão, mas não quanto ao fato de que se trata de uma expressão humana. | ||
| + | * A percepção de outrem é, aos olhos de Merleau-Ponty, | ||
| + | * O outro se doa a mim como uma significação irredutível. | ||
| + | * A objetividade do mundo se baseia nessa presença imediata de outrem: longe de eu estar confinado em uma subjetividade privada, o mundo se manifesta a mim como o que é imediatamente acessível a outros, ele comporta a exigência de que o que se oferece a mim se ofereça igualmente a eles. | ||
| + | * A consciência evidenciada no nível da experiência de outrem aparece como aberta desde logo para uma realidade objetiva, em vez de esta se explicar pela incompreensível relação intermonádica entre subjetividades privadas. | ||
| + | * É no seio dessa realidade objetiva que se deverá buscar a possibilidade de outrem. | ||
| + | * A insistência no problema de outrem não tem, contudo, por função primeira descobrir aquilo de que "um instante de reflexão" | ||
| + | * A experiência de outrem não pode, de fato, ter estatuto no seio de um idealismo transcendental: | ||
| + | * O alter ego encontra-se desmembrado pela cisão com a qual o intelectualismo se inaugura: enquanto outro, outrem está do lado do objeto, enquanto ego, confunde-se comigo. | ||
| + | * Assim, se o sentido de ser do que é consiste em sua apresentação a uma consciência sob a forma de uma unidade de sentido, o surgimento de um ser cujo sentido de ser é ser outro revela-se incompreensível. | ||
| + | * A imanência própria ao sentido proíbe a doação de um ser que é transcendente por princípio. | ||
| + | * A experiência de outrem é compartilhada entre um mundo que não pode abrir-se para nenhuma subjetividade e uma subjetividade que em caso algum é do mundo, visto que o faz aparecer. | ||
| + | * O realismo falhava na comunicação das consciências por carência: ele pensava a subjetividade como uma realidade insular, o sentir como um evento mundano, de modo que ela estava por princípio cortada de qualquer outra consciência, | ||
| + | * É por isso que somente a doação de um mundo objetivo permite compreender a possibilidade do aparecimento de outrem. | ||
| + | * O idealismo falha nessa comunicação por excesso: porque a objetividade é determinada desde logo como idealidade e o mundo é despojado de sua faticidade, a alteridade da subjetividade torna-se impensável e a comunicação das consciências se reduz à sua identidade no seio de um único sujeito constituinte. | ||
| + | * "A análise reflexiva ignora o problema de outrem como o problema do mundo porque faz aparecer em mim, com a primeira luz da consciência, | ||
| + | * O realismo compreende a faticidade sob a forma de uma pertença objetiva ao mundo, de modo que, por falta de pensar a ordem da verdade, falha na intersubjetividade; | ||
| + | * É por isso que, se, por um lado, a experiência de outrem supõe que seja evidenciada a possibilidade de uma realidade objetiva, esta deve, por sua vez, ser retomada a partir do fato comprovado da intersubjetividade. | ||
| + | * O intelectualismo deve então recorrer também à analogia: trata-se ainda de buscar no seio do mundo objetivo as marcas de uma única subjetividade transcendental. | ||
| + | * O intelectualismo esbarra, consequentemente, | ||
| + | * Visto que diante de uma pura consciência só há objetos, é no seio dos objetos que se devem encontrar os sinais de uma subjetividade transcendental. | ||
| + | * Contudo, como se viu, nada nessa aparência pode motivar tal inferência: | ||
| + | * A vida da subjetividade está inteiramente refugiada do lado da única consciência transcendental, | ||
| + | * A cisão que o intelectualismo opera entre constituinte e constituído cava um abismo entre a consciência de outrem e seu corpo: enquanto consciência, | ||
| + | * É, portanto, finalmente uma de duas coisas: ou o intelectualismo mantém sua interpretação da doação de sentido como posse intelectual, | ||
| + | * Ou o intelectualismo reconhece a irredutibilidade da experiência de outrem, mas deve admitir então que um corpo pode significar uma subjetividade, | ||
| + | * Para que uma subjetividade faça seu aparecimento no mundo, é preciso que, por essência, a consciência esteja fora de si mesma, escape em vez de se possuir na imanência. | ||
| + | * Assim como permitia denunciar o realismo em favor de uma consciência doadora de sentido, a experiência de outrem conduz, portanto, a refutar um idealismo que retomasse essa doação de sentido sob a forma de uma posse intelectual, | ||
| + | * As duas perspectivas evocadas são profundamente solidárias: | ||
| + | * A relação com outrem é então duplamente falhada: pertencendo ao mundo natural, a consciência não está em condições de desdobrar um universo objetivo no seio do qual uma comunicação com os outros possa se estabelecer; | ||
| + | * Em outras palavras, "O naturalismo da ciência e o espiritualismo do sujeito constituinte universal, aos quais a reflexão sobre a ciência conduzia, tinham isto em comum: nivelavam a experiência: | ||
| + | * Assim, desde que transcende a esfera subjetiva, outrem faz obstáculo à interpretação idealista da percepção, | ||
| + | * Outrem aparece: sua transcendência não pode, portanto, corresponder à presença de fato de um transcendente. | ||
| + | * Mas ele aparece de tal sorte que não se doa a si mesmo nesse aparecer, que ele permanece transcendente à sua doação, ou melhor, se doa como essa transcendência mesma. | ||
| + | * Outrem é exatamente presença de uma não-presença. | ||
| + | * O que não significa que sua ausência encubra uma outra presença — isso seria recair nas aporias do pensamento objetivo e buscar em uma presença corporal os sinais de uma consciência — mas que ele se apresenta como ausente, que nele, manifestação e retirada são idênticas. | ||
| + | * Desde que se toma a medida do que está implicado na experiência de outrem, somos compelidos a ultrapassar a oposição, que é também conivência, | ||
| + | * A relação com outrem exige uma unidade significante do percebido, ela supõe que este seja situado "mais alto" do que o existente desdobrado no plano da pura multiplicidade, | ||
| + | * Mas essa unidade significante não pode, no entanto, ser reduzida à pura identidade da idealidade: a relação com outrem exige que o percebido seja situado "mais baixo" do que a essência, seja apreendido de tal sorte que as consciências possam permanecer situadas nele, ser capazes de alteridade. | ||
| + | * Trata-se, portanto, com outrem, de pensar o mundo de tal forma que nele se esboce a possibilidade de uma comunicação das consciências, | ||
| + | * Evidentemente, | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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