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| | ====== O idealismo de Merleau-Ponty (1991) ====== |
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| | //Data: 2025-10-31 06:38// |
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| | ==== Do ser do fenômeno ==== |
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| | === O dualismo da Fenomenologia da Percepção === |
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| | * Muitos comentadores criticaram Merleau-Ponty por ter ido longe demais na crítica ao intelectualismo, dissolvendo a reflexão na vida irrefletida, impedindo-se de dar conta da reflexão e da objetivação e, consequentemente, de fundamentar a possibilidade do seu próprio discurso, o que faria tal filosofia só ser coerente se coincidisse com o silêncio do mundo vivido e se abolisse como filosofia. |
| | * Julga-se, pelo contrário, que, conduzida sob o pressuposto da consciência, //Fenomenologia da percepção// permanece profundamente tributária do intelectualismo que denuncia. |
| | * A afirmação do //cogito//, que é correlativa à perspectiva transcendental delineada em //A estrutura do comportamento//, onera a descrição do mundo vivido, que acaba por ser sempre já compreendido como uma natureza. |
| | * Ao determinar a teleologia a partir da consciência, em vez de a consciência como teleologia (não pensando a teleologia enquanto tal), Merleau-Ponty é de certa forma envolvido por ela, dependente da sua direção objetivante. |
| | * O fenômeno está sempre já subordinado à consciência, o mundo sempre já identificado à natureza, e, por fim, a percepção à razão, em vez de a inscrição da razão no mundo (a própria teleologia) ser explicitada. |
| | * Neste sentido, a intervenção de J. Beaufret no debate após a conferência sobre o primado da percepção é premonitória: "Dizer que Merleau-Ponty se detém numa fenomenologia sem possível superação é desconhecer que a superação do empírico pertence ao próprio fenômeno, no sentido em que a fenomenologia o entende. Neste sentido, com efeito, o fenômeno não é o empírico, mas o que se manifesta realmente, aquilo de que podemos verdadeiramente ter a experiência, por oposição ao que seria apenas construção de conceitos. A fenomenologia não é uma queda no fenomenismo, mas a manutenção do contato com 'a própria coisa.' Se a fenomenologia repele as explicações 'intelectualistas' da percepção, não é para abrir a porta ao irracional, mas para a fechar ao verbalismo". |
| | * A crítica de Beaufret a Merleau-Ponty é de que este não foi "suficientemente radical": "As descrições fenomenológicas que nos propõe mantêm, com efeito, o vocabulário do idealismo. Estão, nisto, ordenadas às descrições //husserlianas//. Mas todo o problema é precisamente saber se a fenomenologia levada a fundo não exige que se saia da subjetividade e do vocabulário do idealismo subjetivo como, partindo de Husserl, o fez Heidegger". |
| | * Contudo, não se deve concluir que a censura dos comentadores (sobre o irracionalismo do vivido) é infundada, pois não há alternativa entre censurar Merleau-Ponty pelos seus pressupostos intelectualistas e denunciar nele um irracionalismo do vivido. |
| | * É precisamente por não ir longe o suficiente na descrição do mundo vivido que ele é simultaneamente levado a ir longe demais: a manutenção do vocabulário do intelectualismo obriga a que a descrição do mundo se realize sob a forma de uma pura e simples negação da consciência intelectual, aparecendo então como um regresso à irracionalidade do vivido ou, mais precisamente, como uma identificação do vivido com o empírico. |
| | * O reparo de Beaufret (a acusação de desconhecimento da fenomenologia) pode ser dirigido ao próprio Merleau-Ponty: ao abordar o fenômeno pelas categorias do idealismo, situando-se a montante ou para além da fenomenalidade, o regresso ao fenômeno consuma-se como negação imediata desse idealismo e aparenta ser um refluxo ao empírico, aquém e a jusante do fenômeno. |
| | * A leitura imediata, atenta à descrição do mundo percebido, toma a crítica ao intelectualismo ao pé da letra e resulta na censura de irracionalismo, pois //Fenomenologia da percepção// não foca o problema da reflexão e da razão, não contendo o necessário para evitar a interpretação de uma assimilação do fenomenal ao empírico. |
| | * A leitura fenomenológica, como a de Beaufret, posiciona-se desde o início no plano do fenômeno (distinto do empírico) e atenta à incapacidade de Merleau-Ponty em desvelar a sua originalidade, dada a sua dependência do vocabulário da subjetividade. |
| | * Merleau-Ponty permanece aprisionado à dualidade entre reflexão e irrefletido: dominado pelo pressuposto do primado de uma ordem reflexiva autônoma, ele só consegue caracterizar o fenomenal como o próprio irrefletido, no sentido de uma negação de toda a reflexão. |
| | * Inversamente, ao questionar a autonomia da ordem reflexiva, interrogando o enraizamento da consciência intelectual na vida perceptiva, ele será levado a superar a própria noção de irrefletido. |
| | * Para que a reflexão se possa enraizar no irrefletido, este não pode ser o outro da reflexão, mas o seu local de nascimento, uma reflexão incipiente. |
| | * A posição acrítica de uma ordem reflexiva conduzia à apreensão do fenômeno como a sua negação imediata, o irrefletido: inversamente, uma crítica genuína da reflexão, apreendendo-a no seu próprio fenômeno, impõe uma crítica do irrefletido. |
| | * Ao denunciar toda a autonomia da reflexão, reconhecendo profundamente o seu caráter de reflexão //sobre// um irrefletido, Merleau-Ponty deve descobrir que o irrefletido só tem sentido como irrefletido para a reflexão. |
| | * À ideia de negação imediata, deve-se substituir um outro sentido da negação: "negação-referência (//zero de//...)" que só existe como o começo (no lado do irrefletido) ou como a conservação (no lado da reflexão) daquilo de que é a negação. |
| | * Nesse caso, a noção de consciência, longe de ser evidente, será o título de um problema (o da fenomenalidade, ou seja, do mundo), devendo ser apreendida como um momento do mundo em vez de o seu oposto. |
| | * Em //Fenomenologia da percepção//, Merleau-Ponty permanece aquém dessas conclusões, pois o terreno fenomenal é abordado através de categorias que encobrem a sua originalidade, originando interpretações contraditórias. |
| | * Merleau-Ponty apercebeu-se disso, declarando no seu dossiê de candidatura ao //Collège de France// que a necessidade era fixar o sentido filosófico das suas primeiras investigações, pois "O estudo da percepção só podia ensinar-nos uma 'má ambiguidade,' a mistura da finitude e da universalidade, da interioridade e da exterioridade.". |
| | * Isto não significa renunciar aos resultados de //Fenomenologia da percepção//, cujo único defeito é permanecer no plano descritivo, contentando-se em desvelar um domínio que carece de ser pensado. |
| | * Esta clarificação, que consiste em passar da descrição do mundo percebido à filosofia da percepção que ela implica, será o tema dos textos subsequentes, sendo a amplitude da remodelação imposta evidente apenas em //O visível e o invisível//. |
| | * Numa nota de trabalho, ele esclarece: "Resultados de //Fenomenologia da percepção// — Necessidade de os levar à explicitação ontológica.". |
| | * A insuficiência de //Fenomenologia da percepção// deve-se, aos olhos de Merleau-Ponty, às categorias através das quais os seus resultados são explicitados: "Os problemas que persistem após esta primeira descrição: prendem-se ao fato de ter conservado em parte a filosofia da consciência"; e mais explicitamente: "Os problemas postos em //Fenomenologia da percepção// são insolúveis porque parto nela da distinção 'consciência' — 'objeto'". |
| | * O que se aplica a //Fenomenologia da percepção// como um todo, é especialmente verdadeiro para a parte relativa ao problema do outro. |
| | * É por isso que a descrição da experiência do outro manifesta, mais do que em qualquer outro lugar, a insuficiência da perspectiva adotada nesta obra e, consequentemente, a necessidade de uma passagem à ontologia. |
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| | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// |
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