User Tools

Site Tools


estudos:arendt:arendt-ve-alma

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

estudos:arendt:arendt-ve-alma [16/01/2026 04:28] – created - external edit 127.0.0.1estudos:arendt:arendt-ve-alma [16/01/2026 06:37] (current) mccastro
Line 1: Line 1:
 ====== Arendt (VE) – alma ====== ====== Arendt (VE) – alma ======
  
-Segundo as tradições da Era Cristã, quando a filosofia se tornou serva da teologia, o pensamento passou a ser meditação, e a meditação passou novamente a terminar na contemplação, uma espécie de estado abençoado da **alma** em que o espírito não mais se esforçava por conhecer a verdade, mas por antecipar um estado futuro, recebendo-o temporariamente na intuição (Descartes, de modo característico, ainda influenciado por essa tradição, chamou o tratado no qual se dispôs a demonstrar a existência de Deus de Méditations). ARENDTVE I O Pensar Introdução+Segundo as tradições da Era Cristã, quando a filosofia se tornou serva da teologia, o pensamento passou a ser meditação, e a meditação passou novamente a terminar na contemplação, uma espécie de estado abençoado da alma em que o espírito não mais se esforçava por conhecer a verdade, mas por antecipar um estado futuro, recebendo-o temporariamente na intuição (Descartes, de modo característico, ainda influenciado por essa tradição, chamou o tratado no qual se dispôs a demonstrar a existência de Deus de Méditations). ARENDTVE I O Pensar Introdução
  
-Se era um axioma para Platão que o olho invisível da **alma** era o órgão adequado para contemplar a verdade invisível com a certeza do conhecimento, tornou-se axiomático para Descartes — durante a famosa noite de sua “revelação” — que havia “um acordo fundamental entre as leis da natureza e as leis da matemática”; ou seja, entre as leis do pensamento discursivo em seu nível mais elevado e abstrato e as leis do que quer que se encontre na natureza por trás da mera “semblância”. ARENDTVE I O Pensar Introdução+Se era um axioma para Platão que o olho invisível da alma era o órgão adequado para contemplar a verdade invisível com a certeza do conhecimento, tornou-se axiomático para Descartes — durante a famosa noite de sua “revelação” — que havia “um acordo fundamental entre as leis da natureza e as leis da matemática”; ou seja, entre as leis do pensamento discursivo em seu nível mais elevado e abstrato e as leis do que quer que se encontre na natureza por trás da mera “semblância”. ARENDTVE I O Pensar Introdução
  
-E ele acreditava realmente que com esse tipo de pensamento — que Hobbes denominava “cálculo de consequências” — poderia produzir conhecimento seguro sobre a existência de Deus, da natureza da **alma** e de outros assuntos do gênero. ARENDTVE I O Pensar Introdução+E ele acreditava realmente que com esse tipo de pensamento — que Hobbes denominava “cálculo de consequências” — poderia produzir conhecimento seguro sobre a existência de Deus, da natureza da alma e de outros assuntos do gênero. ARENDTVE I O Pensar Introdução
  
-Mas independentemente do interesse existencial que os homens tomaram por essas questões, e embora Kant ainda acreditasse que “nunca houve uma **alma** honesta que tenha suportado pensar que tudo termina com a morte”, ele também estava bastante consciente de que a “necessidade urgente” da razão não só é diferente, mas é “mais do que a mera busca e o desejo de conhecimento”. ARENDTVE I O Pensar Introdução+Mas independentemente do interesse existencial que os homens tomaram por essas questões, e embora Kant ainda acreditasse que “nunca houve uma alma honesta que tenha suportado pensar que tudo termina com a morte”, ele também estava bastante consciente de que a “necessidade urgente” da razão não só é diferente, mas é “mais do que a mera busca e o desejo de conhecimento”. ARENDTVE I O Pensar Introdução
  
-Elas estão intimamente ligadas às crenças problemáticas que mantemos com referência à nossa vida psíquica e à relação entre corpo e **alma**. ARENDTVE I O Pensar 4+Elas estão intimamente ligadas às crenças problemáticas que mantemos com referência à nossa vida psíquica e à relação entre corpo e alma. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-De fato, inclinamo-nos a concordar em que nenhuma parte do interior de nosso corpo jamais aparece autenticamente, por si mesma; mas, se falamos de uma vida interior que se expressa em aparências exteriores, referimo-nos à vida da **alma**; a relação interior-exterior, verdadeira para nossos corpos, não é verdadeira para nossas almas, mesmo que falemos de nossa vida psíquica e de sua localização “interna” a nós por meio de metáforas obviamente retiradas de informações e experiências corporais. ARENDTVE I O Pensar 4+De fato, inclinamo-nos a concordar em que nenhuma parte do interior de nosso corpo jamais aparece autenticamente, por si mesma; mas, se falamos de uma vida interior que se expressa em aparências exteriores, referimo-nos à vida da alma; a relação interior-exterior, verdadeira para nossos corpos, não é verdadeira para nossas almas, mesmo que falemos de nossa vida psíquica e de sua localização “interna” a nós por meio de metáforas obviamente retiradas de informações e experiências corporais. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Locke apoia-se aqui no velho pressuposto tácito da identidade entre **alma** e espírito segundo o qual ambos opõem-se ao corpo em virtude da invisibilidade que os caracteriza. ARENDTVE I O Pensar 4+Locke apoia-se aqui no velho pressuposto tácito da identidade entre alma e espírito segundo o qual ambos opõem-se ao corpo em virtude da invisibilidade que os caracteriza. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Se olharmos mais de perto, entretanto, verificamos que o que é verdadeiro para o espírito, a saber, que a linguagem metafórica é a única maneira que ele tem de “aparecer externamente para os sentidos” — mesmo essa atividade muda, que não aparece, já constitui uma espécie de discurso, o diálogo silencioso de mim comigo mesmo —, não é verdadeiro para a vida da **alma**. ARENDTVE I O Pensar 4+Se olharmos mais de perto, entretanto, verificamos que o que é verdadeiro para o espírito, a saber, que a linguagem metafórica é a única maneira que ele tem de “aparecer externamente para os sentidos” — mesmo essa atividade muda, que não aparece, já constitui uma espécie de discurso, o diálogo silencioso de mim comigo mesmo —, não é verdadeiro para a vida da alma. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-O discurso metafórico conceitual é, de fato, adequado para a atividade do pensamento, para as operações do nosso espírito; mas a vida da **alma**, em sua enorme intensidade, é muito melhor expressa em um olhar, em um som, em um gesto, do que em um discurso. ARENDTVE I O Pensar 4+O discurso metafórico conceitual é, de fato, adequado para a atividade do pensamento, para as operações do nosso espírito; mas a vida da alma, em sua enorme intensidade, é muito melhor expressa em um olhar, em um som, em um gesto, do que em um discurso. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-É verdade que todas as atividades espirituais retiram-se do mundo das aparências, mas essa retirada não se dá em direção a um interior, seja ele do eu, seja da **alma**. ARENDTVE I O Pensar 4+É verdade que todas as atividades espirituais retiram-se do mundo das aparências, mas essa retirada não se dá em direção a um interior, seja ele do eu, seja da alma. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Mas as nossas experiências de **alma** são de tal modo corporalmente limitadas, que falar de uma “vida interna” da **alma** é tão pouco metafórico quanto falar de um sentido interno graças ao qual temos claras sensações sobre o funcionamento ou o não funcionamento dos órgãos interiores. ARENDTVE I O Pensar 4+Mas as nossas experiências de alma são de tal modo corporalmente limitadas, que falar de uma “vida interna” da alma é tão pouco metafórico quanto falar de um sentido interno graças ao qual temos claras sensações sobre o funcionamento ou o não funcionamento dos órgãos interiores. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-A linguagem da **alma** em seu estágio meramente expressivo, anterior à sua transformação e transfiguração pelo pensamento, não é metafórica; ela não se afasta dos sentidos, nem usa analogias quando fala em termos de sensações físicas. ARENDTVE I O Pensar 4+A linguagem da alma em seu estágio meramente expressivo, anterior à sua transformação e transfiguração pelo pensamento, não é metafórica; ela não se afasta dos sentidos, nem usa analogias quando fala em termos de sensações físicas. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Merleau-Ponty, que eu saiba, o único filósofo que não só tentou dar conta da estrutura orgânica da existência humana, mas que tentou firmemente dar início a uma “filosofia da carne”, confundiu-se ainda com a antiga identificação entre espírito e **alma** quando definiu “o espírito como o outro lado do corpo”, já que “há um corpo do espírito e um espírito do corpo e um quiasma entre eles”. ARENDTVE I O Pensar 4+Merleau-Ponty, que eu saiba, o único filósofo que não só tentou dar conta da estrutura orgânica da existência humana, mas que tentou firmemente dar início a uma “filosofia da carne”, confundiu-se ainda com a antiga identificação entre espírito e alma quando definiu “o espírito como o outro lado do corpo”, já que “há um corpo do espírito e um espírito do corpo e um quiasma entre eles”. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Mas o que é verdadeiro para o espírito não é verdadeiro para a **alma**, e vice-versa. ARENDTVE I O Pensar 4+Mas o que é verdadeiro para o espírito não é verdadeiro para a alma, e vice-versa. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-**alma**, embora talvez mais obscura do que qualquer coisa que o espírito possa sonhar ser, não é desprovida de fundo; ela realmente “transborda” do corpo; “ultrapassa seus limites, esconde-se nele — e ao mesmo tempo precisa dele, termina nele, está ancorada nele”. ARENDTVE I O Pensar 4+A alma, embora talvez mais obscura do que qualquer coisa que o espírito possa sonhar ser, não é desprovida de fundo; ela realmente “transborda” do corpo; “ultrapassa seus limites, esconde-se nele — e ao mesmo tempo precisa dele, termina nele, está ancorada nele”. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Discutindo tais temas de um modo incerto e peculiar, Aristóteles declara: “[…] parece que não há caso em que a **alma** possa atuar ou ser atuada sem o corpo; verifiquem-se os exemplos de cólera, coragem, apetite e sensação em geral. [ ARENDTVE I O Pensar 4+Discutindo tais temas de um modo incerto e peculiar, Aristóteles declara: “[…] parece que não há caso em que a alma possa atuar ou ser atuada sem o corpo; verifiquem-se os exemplos de cólera, coragem, apetite e sensação em geral. [ ARENDTVE I O Pensar 4
  
-E, mais adiante, resumindo: “Nada é evidente sobre o espírito [noûs] e a faculdade teórica, mas ele parece ser um tipo diferente de **alma**, e só esse tipo pode ser separado , como o eterno é separável do perecível”. ARENDTVE I O Pensar 4+E, mais adiante, resumindo: “Nada é evidente sobre o espírito [noûs] e a faculdade teórica, mas ele parece ser um tipo diferente de alma, e só esse tipo pode ser separado , como o eterno é separável do perecível”. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-E em um dos tratados biológicos, sugere que a **alma** — sua parte vegetativa, bem como suas partes nutritiva e sensitiva — “veio a ser no embrião, não existindo previamente fora dele, mas o nous entrou na **alma** vindo de fora, garantindo assim ao homem um tipo de atividade sem conexão com as atividades do corpo”. ARENDTVE I O Pensar 4+E em um dos tratados biológicos, sugere que a alma — sua parte vegetativa, bem como suas partes nutritiva e sensitiva — “veio a ser no embrião, não existindo previamente fora dele, mas o nous entrou na alma vindo de fora, garantindo assim ao homem um tipo de atividade sem conexão com as atividades do corpo”. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Em outras palavras, não há sensações que correspondam às atividades espirituais; e as sensações da psique, da **alma**, são realmente sentimentos que experimentamos como nossos órgãos corporais. ARENDTVE I O Pensar 4+Em outras palavras, não há sensações que correspondam às atividades espirituais; e as sensações da psique, da alma, são realmente sentimentos que experimentamos como nossos órgãos corporais. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-O que é proferido”, diz ele [Aristóteles], “são símbolos de afecções da **alma**, e o que é escrito são símbolos de palavras faladas. ARENDTVE I O Pensar 4+O que é proferido”, diz ele [Aristóteles], “são símbolos de afecções da alma, e o que é escrito são símbolos de palavras faladas. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Entretanto aquilo de que estas  são símbolos, as afecções  da **alma**, são as mesmas para todos”. ARENDTVE I O Pensar 4+Entretanto aquilo de que estas  são símbolos, as afecções  da alma, são as mesmas para todos”. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Distinção e individuação ocorrem no discurso, no uso de verbos e substantivos, e esses não são produtos ou “símbolos” da **alma**, mas do espírito: “Os substantivos e os verbos assemelham-se  […] aos pensamentos ”. ARENDTVE I O Pensar 4+Distinção e individuação ocorrem no discurso, no uso de verbos e substantivos, e esses não são produtos ou “símbolos” da alma, mas do espírito: “Os substantivos e os verbos assemelham-se  […] aos pensamentos ”. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-As paixões e emoções de nossa **alma** não estão apenas restritas ao corpo, mas parecem ter as mesmas funções de sustentação da vida e da preservação de nossos órgãos internos, com os quais compartilham a circunstância de que apenas a desordem e a anormalidade podem individualizá-los. ARENDTVE I O Pensar 4+As paixões e emoções de nossa alma não estão apenas restritas ao corpo, mas parecem ter as mesmas funções de sustentação da vida e da preservação de nossos órgãos internos, com os quais compartilham a circunstância de que apenas a desordem e a anormalidade podem individualizá-los. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-O homem corajoso não é aquele cuja **alma** carece dessa emoção, ou que a pode superar de uma vez por todas; mas aquele que decidiu que não a quer demonstrar. ARENDTVE I O Pensar 4+O homem corajoso não é aquele cuja alma carece dessa emoção, ou que a pode superar de uma vez por todas; mas aquele que decidiu que não a quer demonstrar. ARENDTVE I O Pensar 4
  
-Há uma observação incidental em Tomás de Aquino — uma das de que tanto dependemos em nossa pesquisa — que soa de forma misteriosa, a não ser quando se está consciente dessa distinção entre o ego pensante e o eu: “Minha **alma**  não sou eu; e se apenas as almas forem salvas, nem eu nem homem algum estará salvo”. ARENDTVE I O Pensar 6+Há uma observação incidental em Tomás de Aquino — uma das de que tanto dependemos em nossa pesquisa — que soa de forma misteriosa, a não ser quando se está consciente dessa distinção entre o ego pensante e o eu: “Minha alma  não sou eu; e se apenas as almas forem salvas, nem eu nem homem algum estará salvo”. ARENDTVE I O Pensar 6
  
-Nesse contexto, ele distingue a “noção que a **alma** do homem tem de si mesma como espírito , por meio de uma intuição imaterial, e a consciência por meio da qual ela se apresenta como homem, utilizando-se de uma imagem que tem sua origem na sensação dos órgãos físicos e que é concebida em relação a coisas materiais. ARENDTVE I O Pensar 6+Nesse contexto, ele distingue a “noção que a alma do homem tem de si mesma como espírito , por meio de uma intuição imaterial, e a consciência por meio da qual ela se apresenta como homem, utilizando-se de uma imagem que tem sua origem na sensação dos órgãos físicos e que é concebida em relação a coisas materiais. ARENDTVE I O Pensar 6
  
-E, em uma estranha nota de rodapé, Kant fala de uma “certa dupla personalidade que é própria da **alma**, mesmo nesta vida”; ele compara o estado do ego pensante ao estado do sono profundo, “quando os sentidos externos encontram-se em total repouso”. ARENDTVE I O Pensar 6+E, em uma estranha nota de rodapé, Kant fala de uma “certa dupla personalidade que é própria da alma, mesmo nesta vida”; ele compara o estado do ego pensante ao estado do sono profundo, “quando os sentidos externos encontram-se em total repouso”. ARENDTVE I O Pensar 6
  
-Seu interesse  principal era encontrar algo — o ego pensante ou, em suas próprias palavras, “la chose pensante”, que ele identificava à **alma** — cuja realidade estivesse para além de qualquer suspeita, para além das ilusões da percepção sensorial. ARENDTVE I O Pensar 7+Seu interesse  principal era encontrar algo — o ego pensante ou, em suas próprias palavras, “la chose pensante”, que ele identificava à alma — cuja realidade estivesse para além de qualquer suspeita, para além das ilusões da percepção sensorial. ARENDTVE I O Pensar 7
  
-Não obstante, algumas páginas depois, Kant irá admitir que o “interesse meramente especulativo da razão” com relação aos três objetos principais do pensamento — “a liberdade da vontade, a imortalidade da **alma** e a existência de Deus” — “é muito pequeno; e apenas por causa dele dificilmente nos daríamos ao trabalho das investigações transcendentais […], já que quaisquer que fossem as descobertas sobre esses temas, não seria possível que delas extraíssemos alguma utilidade, algum uso in concreto”. ARENDTVE I O Pensar 8+Não obstante, algumas páginas depois, Kant irá admitir que o “interesse meramente especulativo da razão” com relação aos três objetos principais do pensamento — “a liberdade da vontade, a imortalidade da alma e a existência de Deus” — “é muito pequeno; e apenas por causa dele dificilmente nos daríamos ao trabalho das investigações transcendentais […], já que quaisquer que fossem as descobertas sobre esses temas, não seria possível que delas extraíssemos alguma utilidade, algum uso in concreto”. ARENDTVE I O Pensar 8
  
-Denominei essas atividades espirituais de básicas porque elas são autônomas; cada uma delas obedece às leis inerentes à própria atividade, embora todas elas dependam de uma certa quietude das paixões que movem a **alma**, daquela “tranquilidade desapaixonada” (“leidenschaftslose Stille”) que Hegel atribuiu à “cognição meramente pensante”. ARENDTVE I O Pensar 9+Denominei essas atividades espirituais de básicas porque elas são autônomas; cada uma delas obedece às leis inerentes à própria atividade, embora todas elas dependam de uma certa quietude das paixões que movem a alma, daquela “tranquilidade desapaixonada” (“leidenschaftslose Stille”) que Hegel atribuiu à “cognição meramente pensante”. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-A incapacidade da razão para mobilizar a vontade, mais o fato de que o pensamento só pode “compreender” o que já é passado, sem removê-lo ou “rejuvenescê-lo” — “a coruja de Minerva só começa o seu voo quando cai o crepúsculo” —, deu origem a várias doutrinas que afirmam a impotência do espírito e a força do irracional, em suma, deu origem ao famoso pronunciamento de Hume segundo o qual “a Razão é e deve ser somente a escrava das paixões”; isto é, levou a uma inversão bastante ingênua da noção platônica de reinado incontestável da razão no domínio da **alma**. ARENDTVE I O Pensar 9+A incapacidade da razão para mobilizar a vontade, mais o fato de que o pensamento só pode “compreender” o que já é passado, sem removê-lo ou “rejuvenescê-lo” — “a coruja de Minerva só começa o seu voo quando cai o crepúsculo” —, deu origem a várias doutrinas que afirmam a impotência do espírito e a força do irracional, em suma, deu origem ao famoso pronunciamento de Hume segundo o qual “a Razão é e deve ser somente a escrava das paixões”; isto é, levou a uma inversão bastante ingênua da noção platônica de reinado incontestável da razão no domínio da alma. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-Pois a “tranquilidade desapaixonada” da **alma** não é, propriamente falando, uma condição; a mera tranquilidade não apenas jamais produz a atividade espiritual, a premência de pensar, como também a “necessidade da razão”, na maior parte das vezes, silencia as paixões, e não o contrário. ARENDTVE I O Pensar 9+Pois a “tranquilidade desapaixonada” da alma não é, propriamente falando, uma condição; a mera tranquilidade não apenas jamais produz a atividade espiritual, a premência de pensar, como também a “necessidade da razão”, na maior parte das vezes, silencia as paixões, e não o contrário. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-Sobre o mundo das aparências, que afeta os nossos sentidos bem como a nossa **alma** e o nosso senso comum, Heráclito falou verdadeiramente em palavras ainda não limitadas pela terminologia: “O espírito é separado de todas as coisas” (sophon esti pantón kechórismenon). ARENDTVE I O Pensar 9+Sobre o mundo das aparências, que afeta os nossos sentidos bem como a nossa alma e o nosso senso comum, Heráclito falou verdadeiramente em palavras ainda não limitadas pela terminologia: “O espírito é separado de todas as coisas” (sophon esti pantón kechórismenon). ARENDTVE I O Pensar 9
  
-Nesse e em outros aspectos, o espírito é decisivamente diferente da **alma**, o seu principal competidor ao cargo de legislador de nossa vida não-visível interior. ARENDTVE I O Pensar 9+Nesse e em outros aspectos, o espírito é decisivamente diferente da alma, o seu principal competidor ao cargo de legislador de nossa vida não-visível interior. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-**alma**, em que surgem nossas paixões, sentimentos e emoções, é um torvelinho de acontecimentos mais ou menos caóticos que não encenamos ativamente, mas que sofremos (paschein) e que, nos casos de grande intensidade, pode nos dominar, como a dor ou o prazer; sua invisibilidade assemelha-se à dos nossos órgãos internos, cujo funcionamento ou não-funcionamento também percebemos, sem controlar. ARENDTVE I O Pensar 9+A alma, em que surgem nossas paixões, sentimentos e emoções, é um torvelinho de acontecimentos mais ou menos caóticos que não encenamos ativamente, mas que sofremos (paschein) e que, nos casos de grande intensidade, pode nos dominar, como a dor ou o prazer; sua invisibilidade assemelha-se à dos nossos órgãos internos, cujo funcionamento ou não-funcionamento também percebemos, sem controlar. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-Podemos avaliar isso pela estranha indisposição de toda a nossa tradição em traçar nítidas fronteiras entre **alma**, espírito e consciência, elementos frequentemente equiparados como objetos do nosso sentido interno pela simples razão de que não se manifestam para os sentidos externos. ARENDTVE I O Pensar 9+Podemos avaliar isso pela estranha indisposição de toda a nossa tradição em traçar nítidas fronteiras entre alma, espírito e consciência, elementos frequentemente equiparados como objetos do nosso sentido interno pela simples razão de que não se manifestam para os sentidos externos. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-Desse modo, Platão concluiu que a **alma** é invisível porque ela é feita para a cognição do invisível em um mundo de coisas visíveis. ARENDTVE I O Pensar 9+Desse modo, Platão concluiu que a alma é invisível porque ela é feita para a cognição do invisível em um mundo de coisas visíveis. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-E mesmo Kant, o mais crítico dos filósofos em relação aos preconceitos metafísicos tradicionais, enumera ocasionalmente dois tipos de objetos: ‘‘‘Eu’, como pensamento, sou um objeto de sentido interno, e me chamam ‘**alma**’. ARENDTVE I O Pensar 9+E mesmo Kant, o mais crítico dos filósofos em relação aos preconceitos metafísicos tradicionais, enumera ocasionalmente dois tipos de objetos: ‘‘‘Eu’, como pensamento, sou um objeto de sentido interno, e me chamam ‘alma’. ARENDTVE I O Pensar 9
  
-Faz-se uma analogia em relação à exterioridade da experiência sensível baseada na suposição de que um espaço interno abriga o que está em nosso interior do mesmo modo que o espaço externo faz com os nossos corpos — de modo que um “sentido interno”, a saber, a intuição da introspecção, é concebido como capaz de determinar o que quer que ocorra “internamente” com a mesma segurança dos nossos sentidos externos ao lidarem com o mundo exterior. No que diz respeito à **alma**, a analogia não é totalmente ilusória. ARENDTVE I O Pensar 9+Faz-se uma analogia em relação à exterioridade da experiência sensível baseada na suposição de que um espaço interno abriga o que está em nosso interior do mesmo modo que o espaço externo faz com os nossos corpos — de modo que um “sentido interno”, a saber, a intuição da introspecção, é concebido como capaz de determinar o que quer que ocorra “internamente” com a mesma segurança dos nossos sentidos externos ao lidarem com o mundo exterior. No que diz respeito à alma, a analogia não é totalmente ilusória. ARENDTVE I O Pensar 9
  
 Uma vez que sentimentos e emoções não são autocriados, mas são “paixões” provocadas por eventos externos que afetam a **alma** e produzem certas reações, a saber, as pathemata da **alma** — seus humores e estados passivos —, essas experiências internas podem de fato estar abertas ao sentido interno da introspecção precisamente porque são possíveis, como observou Kant, “somente com base na suposição da experiência externa”. ARENDTVE I O Pensar 9 Uma vez que sentimentos e emoções não são autocriados, mas são “paixões” provocadas por eventos externos que afetam a **alma** e produzem certas reações, a saber, as pathemata da **alma** — seus humores e estados passivos —, essas experiências internas podem de fato estar abertas ao sentido interno da introspecção precisamente porque são possíveis, como observou Kant, “somente com base na suposição da experiência externa”. ARENDTVE I O Pensar 9
/home/mccastro/public_html/ereignis/data/pages/estudos/arendt/arendt-ve-alma.txt · Last modified: by mccastro