estudos:arendt:arendt-ve-alma
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| ====== Arendt (VE) – alma ====== | ====== Arendt (VE) – alma ====== | ||
| - | Segundo as tradições da Era Cristã, quando a filosofia se tornou serva da teologia, o pensamento passou a ser meditação, | + | Segundo as tradições da Era Cristã, quando a filosofia se tornou serva da teologia, o pensamento passou a ser meditação, |
| - | Se era um axioma para Platão que o olho invisível da **alma** era o órgão adequado para contemplar a verdade invisível com a certeza do conhecimento, | + | Se era um axioma para Platão que o olho invisível da alma era o órgão adequado para contemplar a verdade invisível com a certeza do conhecimento, |
| - | E ele acreditava realmente que com esse tipo de pensamento — que Hobbes denominava “cálculo de consequências” — poderia produzir conhecimento seguro sobre a existência de Deus, da natureza da **alma** e de outros assuntos do gênero. ARENDTVE I O Pensar Introdução | + | E ele acreditava realmente que com esse tipo de pensamento — que Hobbes denominava “cálculo de consequências” — poderia produzir conhecimento seguro sobre a existência de Deus, da natureza da alma e de outros assuntos do gênero. ARENDTVE I O Pensar Introdução |
| - | Mas independentemente do interesse existencial que os homens tomaram por essas questões, e embora Kant ainda acreditasse que “nunca houve uma **alma** honesta que tenha suportado pensar que tudo termina com a morte”, ele também estava bastante consciente de que a “necessidade urgente” da razão não só é diferente, mas é “mais do que a mera busca e o desejo de conhecimento”. ARENDTVE I O Pensar Introdução | + | Mas independentemente do interesse existencial que os homens tomaram por essas questões, e embora Kant ainda acreditasse que “nunca houve uma alma honesta que tenha suportado pensar que tudo termina com a morte”, ele também estava bastante consciente de que a “necessidade urgente” da razão não só é diferente, mas é “mais do que a mera busca e o desejo de conhecimento”. ARENDTVE I O Pensar Introdução |
| - | Elas estão intimamente ligadas às crenças problemáticas que mantemos com referência à nossa vida psíquica e à relação entre corpo e **alma**. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | Elas estão intimamente ligadas às crenças problemáticas que mantemos com referência à nossa vida psíquica e à relação entre corpo e alma. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | De fato, inclinamo-nos a concordar em que nenhuma parte do interior de nosso corpo jamais aparece autenticamente, | + | De fato, inclinamo-nos a concordar em que nenhuma parte do interior de nosso corpo jamais aparece autenticamente, |
| - | Locke apoia-se aqui no velho pressuposto tácito da identidade entre **alma** e espírito segundo o qual ambos opõem-se ao corpo em virtude da invisibilidade que os caracteriza. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | Locke apoia-se aqui no velho pressuposto tácito da identidade entre alma e espírito segundo o qual ambos opõem-se ao corpo em virtude da invisibilidade que os caracteriza. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | Se olharmos mais de perto, entretanto, verificamos que o que é verdadeiro para o espírito, a saber, que a linguagem metafórica é a única maneira que ele tem de “aparecer externamente para os sentidos” — mesmo essa atividade muda, que não aparece, já constitui uma espécie de discurso, o diálogo silencioso de mim comigo mesmo —, não é verdadeiro para a vida da **alma**. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | Se olharmos mais de perto, entretanto, verificamos que o que é verdadeiro para o espírito, a saber, que a linguagem metafórica é a única maneira que ele tem de “aparecer externamente para os sentidos” — mesmo essa atividade muda, que não aparece, já constitui uma espécie de discurso, o diálogo silencioso de mim comigo mesmo —, não é verdadeiro para a vida da alma. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | O discurso metafórico conceitual é, de fato, adequado para a atividade do pensamento, para as operações do nosso espírito; mas a vida da **alma**, em sua enorme intensidade, | + | O discurso metafórico conceitual é, de fato, adequado para a atividade do pensamento, para as operações do nosso espírito; mas a vida da alma, em sua enorme intensidade, |
| - | É verdade que todas as atividades espirituais retiram-se do mundo das aparências, | + | É verdade que todas as atividades espirituais retiram-se do mundo das aparências, |
| - | Mas as nossas experiências de **alma** são de tal modo corporalmente limitadas, que falar de uma “vida interna” da **alma** é tão pouco metafórico quanto falar de um sentido interno graças ao qual temos claras sensações sobre o funcionamento ou o não funcionamento dos órgãos interiores. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | Mas as nossas experiências de alma são de tal modo corporalmente limitadas, que falar de uma “vida interna” da alma é tão pouco metafórico quanto falar de um sentido interno graças ao qual temos claras sensações sobre o funcionamento ou o não funcionamento dos órgãos interiores. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | A linguagem da **alma** em seu estágio meramente expressivo, anterior à sua transformação e transfiguração pelo pensamento, não é metafórica; | + | A linguagem da alma em seu estágio meramente expressivo, anterior à sua transformação e transfiguração pelo pensamento, não é metafórica; |
| - | Merleau-Ponty, | + | Merleau-Ponty, |
| - | Mas o que é verdadeiro para o espírito não é verdadeiro para a **alma**, e vice-versa. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | Mas o que é verdadeiro para o espírito não é verdadeiro para a alma, e vice-versa. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | A **alma**, embora talvez mais obscura do que qualquer coisa que o espírito possa sonhar ser, não é desprovida de fundo; ela realmente “transborda” do corpo; “ultrapassa seus limites, esconde-se nele — e ao mesmo tempo precisa dele, termina nele, está ancorada nele”. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | A alma, embora talvez mais obscura do que qualquer coisa que o espírito possa sonhar ser, não é desprovida de fundo; ela realmente “transborda” do corpo; “ultrapassa seus limites, esconde-se nele — e ao mesmo tempo precisa dele, termina nele, está ancorada nele”. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | Discutindo tais temas de um modo incerto e peculiar, Aristóteles declara: “[…] parece que não há caso em que a **alma** possa atuar ou ser atuada sem o corpo; verifiquem-se os exemplos de cólera, coragem, apetite e sensação em geral. [ ARENDTVE I O Pensar 4 | + | Discutindo tais temas de um modo incerto e peculiar, Aristóteles declara: “[…] parece que não há caso em que a alma possa atuar ou ser atuada sem o corpo; verifiquem-se os exemplos de cólera, coragem, apetite e sensação em geral. [ ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | E, mais adiante, resumindo: “Nada é evidente sobre o espírito [noûs] e a faculdade teórica, mas ele parece ser um tipo diferente de **alma**, e só esse tipo pode ser separado , como o eterno é separável do perecível”. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | E, mais adiante, resumindo: “Nada é evidente sobre o espírito [noûs] e a faculdade teórica, mas ele parece ser um tipo diferente de alma, e só esse tipo pode ser separado , como o eterno é separável do perecível”. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | E em um dos tratados biológicos, | + | E em um dos tratados biológicos, |
| - | Em outras palavras, não há sensações que correspondam às atividades espirituais; | + | Em outras palavras, não há sensações que correspondam às atividades espirituais; |
| - | O que é proferido”, | + | O que é proferido”, |
| - | Entretanto aquilo de que estas são símbolos, as afecções | + | Entretanto aquilo de que estas são símbolos, as afecções |
| - | Distinção e individuação ocorrem no discurso, no uso de verbos e substantivos, | + | Distinção e individuação ocorrem no discurso, no uso de verbos e substantivos, |
| - | As paixões e emoções de nossa **alma** não estão apenas restritas ao corpo, mas parecem ter as mesmas funções de sustentação da vida e da preservação de nossos órgãos internos, com os quais compartilham a circunstância de que apenas a desordem e a anormalidade podem individualizá-los. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | As paixões e emoções de nossa alma não estão apenas restritas ao corpo, mas parecem ter as mesmas funções de sustentação da vida e da preservação de nossos órgãos internos, com os quais compartilham a circunstância de que apenas a desordem e a anormalidade podem individualizá-los. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | O homem corajoso não é aquele cuja **alma** carece dessa emoção, ou que a pode superar de uma vez por todas; mas aquele que decidiu que não a quer demonstrar. ARENDTVE I O Pensar 4 | + | O homem corajoso não é aquele cuja alma carece dessa emoção, ou que a pode superar de uma vez por todas; mas aquele que decidiu que não a quer demonstrar. ARENDTVE I O Pensar 4 |
| - | Há uma observação incidental em Tomás de Aquino — uma das de que tanto dependemos em nossa pesquisa — que soa de forma misteriosa, a não ser quando se está consciente dessa distinção entre o ego pensante e o eu: “Minha | + | Há uma observação incidental em Tomás de Aquino — uma das de que tanto dependemos em nossa pesquisa — que soa de forma misteriosa, a não ser quando se está consciente dessa distinção entre o ego pensante e o eu: “Minha alma não sou eu; e se apenas as almas forem salvas, nem eu nem homem algum estará salvo”. ARENDTVE I O Pensar 6 |
| - | Nesse contexto, ele distingue a “noção que a **alma** do homem tem de si mesma como espírito , por meio de uma intuição imaterial, e a consciência por meio da qual ela se apresenta como homem, utilizando-se de uma imagem que tem sua origem na sensação dos órgãos físicos e que é concebida em relação a coisas materiais. ARENDTVE I O Pensar 6 | + | Nesse contexto, ele distingue a “noção que a alma do homem tem de si mesma como espírito , por meio de uma intuição imaterial, e a consciência por meio da qual ela se apresenta como homem, utilizando-se de uma imagem que tem sua origem na sensação dos órgãos físicos e que é concebida em relação a coisas materiais. ARENDTVE I O Pensar 6 |
| - | E, em uma estranha nota de rodapé, Kant fala de uma “certa dupla personalidade que é própria da **alma**, mesmo nesta vida”; ele compara o estado do ego pensante ao estado do sono profundo, “quando os sentidos externos encontram-se em total repouso”. ARENDTVE I O Pensar 6 | + | E, em uma estranha nota de rodapé, Kant fala de uma “certa dupla personalidade que é própria da alma, mesmo nesta vida”; ele compara o estado do ego pensante ao estado do sono profundo, “quando os sentidos externos encontram-se em total repouso”. ARENDTVE I O Pensar 6 |
| - | Seu interesse | + | Seu interesse |
| - | Não obstante, algumas páginas depois, Kant irá admitir que o “interesse meramente especulativo da razão” com relação aos três objetos principais do pensamento — “a liberdade da vontade, a imortalidade da **alma** e a existência de Deus” — “é muito pequeno; e apenas por causa dele dificilmente nos daríamos ao trabalho das investigações transcendentais […], já que quaisquer que fossem as descobertas sobre esses temas, não seria possível que delas extraíssemos alguma utilidade, algum uso in concreto”. ARENDTVE I O Pensar 8 | + | Não obstante, algumas páginas depois, Kant irá admitir que o “interesse meramente especulativo da razão” com relação aos três objetos principais do pensamento — “a liberdade da vontade, a imortalidade da alma e a existência de Deus” — “é muito pequeno; e apenas por causa dele dificilmente nos daríamos ao trabalho das investigações transcendentais […], já que quaisquer que fossem as descobertas sobre esses temas, não seria possível que delas extraíssemos alguma utilidade, algum uso in concreto”. ARENDTVE I O Pensar 8 |
| - | Denominei essas atividades espirituais de básicas porque elas são autônomas; cada uma delas obedece às leis inerentes à própria atividade, embora todas elas dependam de uma certa quietude das paixões que movem a **alma**, daquela “tranquilidade desapaixonada” (“leidenschaftslose Stille”) que Hegel atribuiu à “cognição meramente pensante”. ARENDTVE I O Pensar 9 | + | Denominei essas atividades espirituais de básicas porque elas são autônomas; cada uma delas obedece às leis inerentes à própria atividade, embora todas elas dependam de uma certa quietude das paixões que movem a alma, daquela “tranquilidade desapaixonada” (“leidenschaftslose Stille”) que Hegel atribuiu à “cognição meramente pensante”. ARENDTVE I O Pensar 9 |
| - | A incapacidade da razão para mobilizar a vontade, mais o fato de que o pensamento só pode “compreender” o que já é passado, sem removê-lo ou “rejuvenescê-lo” — “a coruja de Minerva só começa o seu voo quando cai o crepúsculo” —, deu origem a várias doutrinas que afirmam a impotência do espírito e a força do irracional, em suma, deu origem ao famoso pronunciamento de Hume segundo o qual “a Razão é e deve ser somente a escrava das paixões”; | + | A incapacidade da razão para mobilizar a vontade, mais o fato de que o pensamento só pode “compreender” o que já é passado, sem removê-lo ou “rejuvenescê-lo” — “a coruja de Minerva só começa o seu voo quando cai o crepúsculo” —, deu origem a várias doutrinas que afirmam a impotência do espírito e a força do irracional, em suma, deu origem ao famoso pronunciamento de Hume segundo o qual “a Razão é e deve ser somente a escrava das paixões”; |
| - | Pois a “tranquilidade desapaixonada” da **alma** não é, propriamente falando, uma condição; a mera tranquilidade não apenas jamais produz a atividade espiritual, a premência de pensar, como também a “necessidade da razão”, na maior parte das vezes, silencia as paixões, e não o contrário. ARENDTVE I O Pensar 9 | + | Pois a “tranquilidade desapaixonada” da alma não é, propriamente falando, uma condição; a mera tranquilidade não apenas jamais produz a atividade espiritual, a premência de pensar, como também a “necessidade da razão”, na maior parte das vezes, silencia as paixões, e não o contrário. ARENDTVE I O Pensar 9 |
| - | Sobre o mundo das aparências, | + | Sobre o mundo das aparências, |
| - | Nesse e em outros aspectos, o espírito é decisivamente diferente da **alma**, o seu principal competidor ao cargo de legislador de nossa vida não-visível interior. ARENDTVE I O Pensar 9 | + | Nesse e em outros aspectos, o espírito é decisivamente diferente da alma, o seu principal competidor ao cargo de legislador de nossa vida não-visível interior. ARENDTVE I O Pensar 9 |
| - | A **alma**, em que surgem nossas paixões, sentimentos e emoções, é um torvelinho de acontecimentos mais ou menos caóticos que não encenamos ativamente, mas que sofremos (paschein) e que, nos casos de grande intensidade, | + | A alma, em que surgem nossas paixões, sentimentos e emoções, é um torvelinho de acontecimentos mais ou menos caóticos que não encenamos ativamente, mas que sofremos (paschein) e que, nos casos de grande intensidade, |
| - | Podemos avaliar isso pela estranha indisposição de toda a nossa tradição em traçar nítidas fronteiras entre **alma**, espírito e consciência, | + | Podemos avaliar isso pela estranha indisposição de toda a nossa tradição em traçar nítidas fronteiras entre alma, espírito e consciência, |
| - | Desse modo, Platão concluiu que a **alma** é invisível porque ela é feita para a cognição do invisível em um mundo de coisas visíveis. ARENDTVE I O Pensar 9 | + | Desse modo, Platão concluiu que a alma é invisível porque ela é feita para a cognição do invisível em um mundo de coisas visíveis. ARENDTVE I O Pensar 9 |
| - | E mesmo Kant, o mais crítico dos filósofos em relação aos preconceitos metafísicos tradicionais, | + | E mesmo Kant, o mais crítico dos filósofos em relação aos preconceitos metafísicos tradicionais, |
| - | Faz-se uma analogia em relação à exterioridade da experiência sensível baseada na suposição de que um espaço interno abriga o que está em nosso interior do mesmo modo que o espaço externo faz com os nossos corpos — de modo que um “sentido interno”, a saber, a intuição da introspecção, | + | Faz-se uma analogia em relação à exterioridade da experiência sensível baseada na suposição de que um espaço interno abriga o que está em nosso interior do mesmo modo que o espaço externo faz com os nossos corpos — de modo que um “sentido interno”, a saber, a intuição da introspecção, |
| Uma vez que sentimentos e emoções não são autocriados, | Uma vez que sentimentos e emoções não são autocriados, | ||
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