estudos:arendt:arendt-lm-vontade

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

Both sides previous revisionPrevious revision
estudos:arendt:arendt-lm-vontade [16/01/2026 06:37] mccastroestudos:arendt:arendt-lm-vontade [16/01/2026 06:37] (current) mccastro
Line 7: Line 7:
 A palavra final de Heidegger sobre essa faculdade diz respeito à destrutividade da VONTADE, assim como a palavra final de Nietzsche dizia respeito à sua “criatividade” e superabundância. Tal destrutividade manifesta-se na obsessão da VONTADE pelo futuro, que leva necessariamente o homem ao esquecimento. Para que possa querer o futuro, no sentido de ser senhor do futuro, o homem deve esquecer e finalmente destruir o passado. Da descoberta de Nietzsche de que a VONTADE não pode “querer retroativamente”, segue-se não só a frustração e o ressentimento, mas também a VONTADE positiva e ativa de aniquilar o que foi. E já que tudo o que é real “veio a ser”, isto é, incorpora um passado, essa destrutividade relaciona-se em última instância a tudo o que é. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] A palavra final de Heidegger sobre essa faculdade diz respeito à destrutividade da VONTADE, assim como a palavra final de Nietzsche dizia respeito à sua “criatividade” e superabundância. Tal destrutividade manifesta-se na obsessão da VONTADE pelo futuro, que leva necessariamente o homem ao esquecimento. Para que possa querer o futuro, no sentido de ser senhor do futuro, o homem deve esquecer e finalmente destruir o passado. Da descoberta de Nietzsche de que a VONTADE não pode “querer retroativamente”, segue-se não só a frustração e o ressentimento, mas também a VONTADE positiva e ativa de aniquilar o que foi. E já que tudo o que é real “veio a ser”, isto é, incorpora um passado, essa destrutividade relaciona-se em última instância a tudo o que é. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Heidegger sintetiza isso em What is Called Thinking?: Diante daquilo que ‘foi’, a VONTADE não tem mais nada a dizer [...], o “foi” resiste ao querer da VONTADE [...] o ‘foi’ reage e é contrário à VONTADE. [...] Mas, por meio dessa reação, o contrário cria raízes dentro da própria VONTADE. A VONTADE [...] padece disso — ou seja, a VONTADE padece de si mesma [...] do que passou, do passado. Mas o que passou origina-se do passar... Assim, a **VONTADE** quer ela mesma o passar [...]. A reação da **VONTADE** contra todo “foi-se” mostra-se como a **VONTADE** de fazer com que tudo passe, de querer, portanto, que tudo mereça passar. A reação que surge na **VONTADE** é, então, a **VONTADE** contra tudo o que passa — tudo, isto é, tudo o que vem a ser a partir de um vir-a-ser, e que perdura (grifos nossos). [Pp. 92-93. Trad. da autora] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+Heidegger sintetiza isso em What is Called Thinking?: Diante daquilo que ‘foi’, a VONTADE não tem mais nada a dizer [...], o “foi” resiste ao querer da VONTADE [...] o ‘foi’ reage e é contrário à VONTADE. [...] Mas, por meio dessa reação, o contrário cria raízes dentro da própria VONTADE. A VONTADE [...] padece disso — ou seja, a VONTADE padece de si mesma [...] do que passou, do passado. Mas o que passou origina-se do passar... Assim, a VONTADE quer ela mesma o passar [...]. A reação da VONTADE contra todo “foi-se” mostra-se como a VONTADE de fazer com que tudo passe, de querer, portanto, que tudo mereça passar. A reação que surge na VONTADE é, então, a VONTADE contra tudo o que passa — tudo, isto é, tudo o que vem a ser a partir de um vir-a-ser, e que perdura (grifos nossos). [Pp. 92-93. Trad. da autora] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Nessa compreensão radical de Nietzsche, a **VONTADE** é essencialmente destrutiva; e é a essa destrutividade que a reversão original de Heidegger se contrapõe. Seguindo essa interpretação, a própria natureza da tecnologia é a **VONTADE** de querer, ou seja, de sujeitar o mundo todo à sua dominação e jugo, cujo fim natural só pode ser a destruição total. A alternativa a esse jugo é “deixar-ser, e o deixar-ser como atividade é o pensamento que obedece ao chamado do Ser”. A disposição que permeia o deixar-ser do pensamento é o oposto da disposição de finalidade no querer; mais tarde, em sua reinterpretação da “reviravolta”, Heidegger a chama de “Gelassenheit”, uma serenidade que corresponde ao deixar — ser e que “nos prepara” para “um pensamento que não é uma **VONTADE**” [Gelassenheit, p. 33; Discourse on Thinking, p. 60]. Esse pensamento está “além da distinção entre atividade e passividade” porque está além do “domínio da **VONTADE**”, isto é, além da categoria da causalidade, que Heidegger, concordando com Nietzsche, deriva da experiência que o ego volitivo tem de produzir efeitos e, portanto, de uma ilusão produzida pela consciência. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+Nessa compreensão radical de Nietzsche, a VONTADE é essencialmente destrutiva; e é a essa destrutividade que a reversão original de Heidegger se contrapõe. Seguindo essa interpretação, a própria natureza da tecnologia é a VONTADE de querer, ou seja, de sujeitar o mundo todo à sua dominação e jugo, cujo fim natural só pode ser a destruição total. A alternativa a esse jugo é “deixar-ser, e o deixar-ser como atividade é o pensamento que obedece ao chamado do Ser”. A disposição que permeia o deixar-ser do pensamento é o oposto da disposição de finalidade no querer; mais tarde, em sua reinterpretação da “reviravolta”, Heidegger a chama de “Gelassenheit”, uma serenidade que corresponde ao deixar — ser e que “nos prepara” para “um pensamento que não é uma VONTADE” [Gelassenheit, p. 33; Discourse on Thinking, p. 60]. Esse pensamento está “além da distinção entre atividade e passividade” porque está além do “domínio da VONTADE”, isto é, além da categoria da causalidade, que Heidegger, concordando com Nietzsche, deriva da experiência que o ego volitivo tem de produzir efeitos e, portanto, de uma ilusão produzida pela consciência. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
/home/mccastro/public_html/ereignis/data/pages/estudos/arendt/arendt-lm-vontade.txt · Last modified: by mccastro