estudos:arendt:arendt-lm-morte

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 A MORTE, por outro lado, que originalmente era real para o homem somente como a possibilidade mais extrema — “se fosse realizada [por exemplo, no suicídio], o homem obviamente perderia a possibilidade que tem de existir em face da MORTE” [Ibidem, n° 53, p. 261] —, transforma-se agora na “redoma” que “reúne”, “protege” e “salva” a essência dos mortais, que são mortais não porque sua vida tenha um fim, mas porque estar morto pertence ainda ao seu ser mais íntimo [Vorträge und Aufsätze, pp. 177 e 256]. (Essas descrições, que soam estranhas, referem-se a experiências bem conhecidas, atestadas, por exemplo, pela antiga máxima de mortuis nil nisi bonum. Não é a dignidade da MORTE enquanto tal que nos faz temê-la e respeitá-la, mas sim a curiosa mudança de vida para MORTE que acomete a personalidade dos mortos. Na lembrança — o modo como os mortais vivos pensam sobre seus mortos —, é como se todas as qualidades não essenciais perecessem com o desaparecimento do corpo em que estavam encarnadas. Os mortos são postos na “redoma” da lembrança como relíquias preciosas deles mesmos.) [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] A MORTE, por outro lado, que originalmente era real para o homem somente como a possibilidade mais extrema — “se fosse realizada [por exemplo, no suicídio], o homem obviamente perderia a possibilidade que tem de existir em face da MORTE” [Ibidem, n° 53, p. 261] —, transforma-se agora na “redoma” que “reúne”, “protege” e “salva” a essência dos mortais, que são mortais não porque sua vida tenha um fim, mas porque estar morto pertence ainda ao seu ser mais íntimo [Vorträge und Aufsätze, pp. 177 e 256]. (Essas descrições, que soam estranhas, referem-se a experiências bem conhecidas, atestadas, por exemplo, pela antiga máxima de mortuis nil nisi bonum. Não é a dignidade da MORTE enquanto tal que nos faz temê-la e respeitá-la, mas sim a curiosa mudança de vida para MORTE que acomete a personalidade dos mortos. Na lembrança — o modo como os mortais vivos pensam sobre seus mortos —, é como se todas as qualidades não essenciais perecessem com o desaparecimento do corpo em que estavam encarnadas. Os mortos são postos na “redoma” da lembrança como relíquias preciosas deles mesmos.) [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Mencionei de passagem a mudança radical que o conceito de MORTE sofreu nos últimos escritos de Heidegger, em que a **MORTE** aparece como redentora final da essência do homem, o Gebirg des Seins in dem Spiel der Welt, o “abrigo do Ser no jogo do mundo” [Poema inédito, escrito por volta de 1950]. E tentei explicar e de certo modo justificar a estranheza disso com um testemunho bem conhecido de certas experiências familiares que, ao que eu saiba, nunca foram conceitualizadas. No ensaio sobre Anaximandro, a palavra “**MORTE**” não aparece, mas o conceito tem, é claro, presença bem transparente na ideia de vida entre duas ausências, antes de se chegar pelo nascimento e depois de se desaparecer com a **MORTE**. E aqui temos de fato um esclarecimento conceitual sobre a **MORTE** como abrigo para a essência da existência humana, cuja presença temporal e transitória é compreendida como o demorar-se entre duas ausências e como uma estada no reino da errância. Pois a fonte desse “errar” — e aqui podemos, é claro, enxergar até que ponto essa variante continua sendo simples variante das convicções filosóficas básicas e permanentes de Heidegger — é o fato de que, de um ser que “se demora um pouco em presença” entre duas ausências e tem a habilidade de transcender sua própria presença, só se pode dizer que está realmente “presente enquanto se deixa pertencer ao não-presente” [P. 611]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+Mencionei de passagem a mudança radical que o conceito de MORTE sofreu nos últimos escritos de Heidegger, em que a MORTE aparece como redentora final da essência do homem, o Gebirg des Seins in dem Spiel der Welt, o “abrigo do Ser no jogo do mundo” [Poema inédito, escrito por volta de 1950]. E tentei explicar e de certo modo justificar a estranheza disso com um testemunho bem conhecido de certas experiências familiares que, ao que eu saiba, nunca foram conceitualizadas. No ensaio sobre Anaximandro, a palavra “MORTE” não aparece, mas o conceito tem, é claro, presença bem transparente na ideia de vida entre duas ausências, antes de se chegar pelo nascimento e depois de se desaparecer com a MORTE. E aqui temos de fato um esclarecimento conceitual sobre a MORTE como abrigo para a essência da existência humana, cuja presença temporal e transitória é compreendida como o demorar-se entre duas ausências e como uma estada no reino da errância. Pois a fonte desse “errar” — e aqui podemos, é claro, enxergar até que ponto essa variante continua sendo simples variante das convicções filosóficas básicas e permanentes de Heidegger — é o fato de que, de um ser que “se demora um pouco em presença” entre duas ausências e tem a habilidade de transcender sua própria presença, só se pode dizer que está realmente “presente enquanto se deixa pertencer ao não-presente” [P. 611]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Esses enunciados trazem-nos de volta a território familiar, como fica evidente quando lemos aí que a desordem é “trágica” e não uma coisa pela qual se pode responsabilizar o homem. Com certeza, não há mais qualquer “chamado da consciência” convocando o homem de volta ao seu eu autêntico, ao insight de que, não importa o que tenha feito ou se omitido de fazer, era já schuldig (“culpado”), já que sua existência era algo que ele “devia”, depois de ter sido lançado no mundo. Mas, assim como em Ser e Tempo este eu “culpado” podia salvar-se antecipando sua **MORTE**, aqui também o Dasein “errante”, enquanto “demora-se um pouco” no reino da errância, pode, através da atividade do pensamento, juntar-se ao que está ausente. Há entretanto a diferença de que aqui o ausente (o Ser em sua permanente retirada) não tem história no reino da errância, e de que pensar e agir não coincidem. Agir é errar, perder-se. Deveríamos considerar também de que modo a definição inicial do ser-culpado como traço primordial do Dasein, independentemente de qualquer ato específico, foi substituída por “errar” como a marca decisiva de toda a história humana. (Ambas as formulações, a propósito, lembrarão curiosamente para quem lê alemão o “Der Handelnde wird immer schuldig” e o “Es irrt der Mensch solang er strebt” de Goethe.) [Para evitar equívocos: ambas as citações são tão famosas que já fazem parte da língua alemã. Todo falante de alemão pensa geralmente nesses termos sem necessariamente ter sido influenciado por Goethe.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+Esses enunciados trazem-nos de volta a território familiar, como fica evidente quando lemos aí que a desordem é “trágica” e não uma coisa pela qual se pode responsabilizar o homem. Com certeza, não há mais qualquer “chamado da consciência” convocando o homem de volta ao seu eu autêntico, ao insight de que, não importa o que tenha feito ou se omitido de fazer, era já schuldig (“culpado”), já que sua existência era algo que ele “devia”, depois de ter sido lançado no mundo. Mas, assim como em Ser e Tempo este eu “culpado” podia salvar-se antecipando sua MORTE, aqui também o Dasein “errante”, enquanto “demora-se um pouco” no reino da errância, pode, através da atividade do pensamento, juntar-se ao que está ausente. Há entretanto a diferença de que aqui o ausente (o Ser em sua permanente retirada) não tem história no reino da errância, e de que pensar e agir não coincidem. Agir é errar, perder-se. Deveríamos considerar também de que modo a definição inicial do ser-culpado como traço primordial do Dasein, independentemente de qualquer ato específico, foi substituída por “errar” como a marca decisiva de toda a história humana. (Ambas as formulações, a propósito, lembrarão curiosamente para quem lê alemão o “Der Handelnde wird immer schuldig” e o “Es irrt der Mensch solang er strebt” de Goethe.) [Para evitar equívocos: ambas as citações são tão famosas que já fazem parte da língua alemã. Todo falante de alemão pensa geralmente nesses termos sem necessariamente ter sido influenciado por Goethe.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Em resumo, o que temos aqui é um esforço efêmero da parte do governo secular para manter não a fé hebraico-cristã, mas sim instrumentos políticos de governo, que tinham sido tão eficientes na proteção das comunidades medievais contra a criminalidade. Retrospectivamente, isso quase pode parecer um expediente engenhoso dos poucos que eram instruídos para persuadir a maioria a não seguir a trilha escorregadia em direção ao Iluminismo. De qualquer forma, a tentativa fracassou totalmente (no início do nosso século, poucos eram os que ainda acreditavam em “um futuro estado de recompensas e punições”), e estava provavelmente fadada a fracassar. Entretanto a perda da crença e, com ela, de uma boa parte do antigo medo aterrador da **MORTE** certamente contribuiu para a maciça invasão da criminalidade na vida política de comunidades altamente civilizadas que nosso século testemunhou. Há uma estranha e inerente impotência nos sistemas legais de comunidades inteiramente secularizadas; sua pena máxima, a pena de **MORTE**, somente data e acelera um destino a que todos os mortais estão sujeitos. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]+Em resumo, o que temos aqui é um esforço efêmero da parte do governo secular para manter não a fé hebraico-cristã, mas sim instrumentos políticos de governo, que tinham sido tão eficientes na proteção das comunidades medievais contra a criminalidade. Retrospectivamente, isso quase pode parecer um expediente engenhoso dos poucos que eram instruídos para persuadir a maioria a não seguir a trilha escorregadia em direção ao Iluminismo. De qualquer forma, a tentativa fracassou totalmente (no início do nosso século, poucos eram os que ainda acreditavam em “um futuro estado de recompensas e punições”), e estava provavelmente fadada a fracassar. Entretanto a perda da crença e, com ela, de uma boa parte do antigo medo aterrador da MORTE certamente contribuiu para a maciça invasão da criminalidade na vida política de comunidades altamente civilizadas que nosso século testemunhou. Há uma estranha e inerente impotência nos sistemas legais de comunidades inteiramente secularizadas; sua pena máxima, a pena de MORTE, somente data e acelera um destino a que todos os mortais estão sujeitos. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]
  
-É espantoso, além disso, que a noção do futuro — justamente um futuro prenhe da salvação final —, que traz de volta uma espécie de Idade do Ouro inicial, tenha se tornado popular em um tempo em que o Progresso tornara-se o conceito dominante na explicação do movimento da história. E o mais impressionante exemplo da persistência daquele sonho muito antigo é, obviamente, a fantasia marxista de um “reino de liberdade” sem classes e sem guerras, tal como foi prefigurado no “comunismo original”, um reino que tem mais do que uma semelhança superficial com o reino original de Saturno sobre a Itália, quando nenhuma lei “acorrentava os [homens] à justiça”. Em sua forma original antiga, como o início da história, a Idade do Ouro é um pensamento melancólico. É como se, há milhares de anos, nossos ancestrais houvessem tido um pressentimento da descoberta eventual do princípio da entropia, que surgiria em um século XIX embriagado de progresso — uma descoberta que, se não tivesse sido questionada, teria destituído a ação de qualquer significado. [R. J. E. Clausius (1822-1888), físico e matemático alemão que enunciou a segunda lei da termodinâmica, introduziu o princípio da entropia (energia não disponível para trabalho útil em um sistema termodinâmico, representada pelo símbolo Ø): “Postulando que a entropia do universo está aumentando continuamente, ele previu que o universo se extinguiria pela ‘**MORTE** do calor’, quando tudo dentro dele chegasse à mesma temperatura.” Columbia Encyclopedia, 3ª ed. (Ed.).] O que fez na verdade o princípio da entropia desaparecer para os homens que realizaram as revoluções dos séculos XIX e XX foi não tanto a refutação “científica” de Engels, mas o retorno de Marx — e obviamente também o de Nietzsche — ao conceito cíclico de tempo, em que a inocência pré-histórica do começo finalmente reapareceria, tão triunfante quanto a segunda vinda de Jesus à Terra. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]+É espantoso, além disso, que a noção do futuro — justamente um futuro prenhe da salvação final —, que traz de volta uma espécie de Idade do Ouro inicial, tenha se tornado popular em um tempo em que o Progresso tornara-se o conceito dominante na explicação do movimento da história. E o mais impressionante exemplo da persistência daquele sonho muito antigo é, obviamente, a fantasia marxista de um “reino de liberdade” sem classes e sem guerras, tal como foi prefigurado no “comunismo original”, um reino que tem mais do que uma semelhança superficial com o reino original de Saturno sobre a Itália, quando nenhuma lei “acorrentava os [homens] à justiça”. Em sua forma original antiga, como o início da história, a Idade do Ouro é um pensamento melancólico. É como se, há milhares de anos, nossos ancestrais houvessem tido um pressentimento da descoberta eventual do princípio da entropia, que surgiria em um século XIX embriagado de progresso — uma descoberta que, se não tivesse sido questionada, teria destituído a ação de qualquer significado. [R. J. E. Clausius (1822-1888), físico e matemático alemão que enunciou a segunda lei da termodinâmica, introduziu o princípio da entropia (energia não disponível para trabalho útil em um sistema termodinâmico, representada pelo símbolo Ø): “Postulando que a entropia do universo está aumentando continuamente, ele previu que o universo se extinguiria pela ‘MORTE do calor’, quando tudo dentro dele chegasse à mesma temperatura.” Columbia Encyclopedia, 3ª ed. (Ed.).] O que fez na verdade o princípio da entropia desaparecer para os homens que realizaram as revoluções dos séculos XIX e XX foi não tanto a refutação “científica” de Engels, mas o retorno de Marx — e obviamente também o de Nietzsche — ao conceito cíclico de tempo, em que a inocência pré-histórica do começo finalmente reapareceria, tão triunfante quanto a segunda vinda de Jesus à Terra. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]
  
-A questão que surge agora é a seguinte: quais são os padrões da operação de reflexão?... Chama-se gosto [o sentido interno] porque, assim como o gosto, ele escolhe. Mas essa escolha sujeita-se ela mesma, mais uma vez, a outra escolha: podemos aprovar ou desaprovar o simples fato de aprazer; ele está sujeito à “aprovação e desaprovação”. Kant dá exemplos: “A alegria de um homem necessitado, mas bem-intencionado, ao tornar-se herdeiro de um pai afetuoso mas avarento”; ou, ao contrário, “uma dor profunda pode satisfazer a pessoa que a experimenta (a angústia de uma viúva na **MORTE** de seu excelente marido); ou... algo que é gratificante pode também aprazer (como nas ciências que buscamos); ou um pesar (por exemplo, ódio, inveja, vingança) pode ademais desaprazer”. Todas essas aprovações e desaprovações são re-pensamentos; enquanto estamos fazendo pesquisa científica, podemos estar vagamente conscientes de estarmos felizes nesta atividade — mas só quando refletirmos sobre isso mais tarde... é que seremos capazes de ter esse “prazer” adicional; o prazer de aprovar. Neste prazer adicional, não é mais o objeto o que apraz, mas o fato de que o julgamos prazeroso: se relacionamos isto ao todo da natureza ou ao mundo, podemos dizer: nos apraz o fato de o mundo da natureza nos aprazer. O próprio ato de aprovação dá prazer; o próprio ato de desaprovação causa desprazer. Daí a questão: como escolher entre a aprovação e a desaprovação? Um critério podemos arriscar, considerando os exemplos: o critério é a comunicabilidade ou o caráter público. Não ficaremos ultra-ansiosos para anunciar nossa alegria na **MORTE** de nosso pai ou nossos sentimentos de ódio e inveja; não sentiremos, por outro lado, remorsos ao dizer que gostamos de fazer o trabalho científico e tampouco ocultaremos nossa dor na **MORTE** de um excelente marido. [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar ]+A questão que surge agora é a seguinte: quais são os padrões da operação de reflexão?... Chama-se gosto [o sentido interno] porque, assim como o gosto, ele escolhe. Mas essa escolha sujeita-se ela mesma, mais uma vez, a outra escolha: podemos aprovar ou desaprovar o simples fato de aprazer; ele está sujeito à “aprovação e desaprovação”. Kant dá exemplos: “A alegria de um homem necessitado, mas bem-intencionado, ao tornar-se herdeiro de um pai afetuoso mas avarento”; ou, ao contrário, “uma dor profunda pode satisfazer a pessoa que a experimenta (a angústia de uma viúva na MORTE de seu excelente marido); ou... algo que é gratificante pode também aprazer (como nas ciências que buscamos); ou um pesar (por exemplo, ódio, inveja, vingança) pode ademais desaprazer”. Todas essas aprovações e desaprovações são re-pensamentos; enquanto estamos fazendo pesquisa científica, podemos estar vagamente conscientes de estarmos felizes nesta atividade — mas só quando refletirmos sobre isso mais tarde... é que seremos capazes de ter esse “prazer” adicional; o prazer de aprovar. Neste prazer adicional, não é mais o objeto o que apraz, mas o fato de que o julgamos prazeroso: se relacionamos isto ao todo da natureza ou ao mundo, podemos dizer: nos apraz o fato de o mundo da natureza nos aprazer. O próprio ato de aprovação dá prazer; o próprio ato de desaprovação causa desprazer. Daí a questão: como escolher entre a aprovação e a desaprovação? Um critério podemos arriscar, considerando os exemplos: o critério é a comunicabilidade ou o caráter público. Não ficaremos ultra-ansiosos para anunciar nossa alegria na MORTE de nosso pai ou nossos sentimentos de ódio e inveja; não sentiremos, por outro lado, remorsos ao dizer que gostamos de fazer o trabalho científico e tampouco ocultaremos nossa dor na MORTE de um excelente marido. [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar ]
  
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