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| estudos:arendt:arendt-lm-liberdade [16/01/2026 06:34] – mccastro | estudos:arendt:arendt-lm-liberdade [16/01/2026 06:34] (current) – mccastro |
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| Quando os homens de ação, homens que queriam mudar o mundo, conscientizaram-se de que tal mudança poderia realmente postular uma nova ordem das eras, o início de algo sem precedentes, começaram a vasculhar a história à procura de ajuda. Começaram a repensar coisas-pensamento tais como o Pentateuco e a Eneida, lendas fundadoras que pudessem dizer-lhes como resolver o problema do começo — um problema, porque a própria natureza do começo é trazer em si um elemento de completa arbitrariedade. Foi só então que eles se depararam com o abismo da LIBERDADE, sabendo que tudo o que se fizesse agora poderia também deixar de ser feito, e tendo também a crença clara e precisa de que uma vez que uma coisa é feita não pode ser desfeita, de que a memória humana, contando a história, sobrevive ao arrependimento e à destruição. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | Quando os homens de ação, homens que queriam mudar o mundo, conscientizaram-se de que tal mudança poderia realmente postular uma nova ordem das eras, o início de algo sem precedentes, começaram a vasculhar a história à procura de ajuda. Começaram a repensar coisas-pensamento tais como o Pentateuco e a Eneida, lendas fundadoras que pudessem dizer-lhes como resolver o problema do começo — um problema, porque a própria natureza do começo é trazer em si um elemento de completa arbitrariedade. Foi só então que eles se depararam com o abismo da LIBERDADE, sabendo que tudo o que se fizesse agora poderia também deixar de ser feito, e tendo também a crença clara e precisa de que uma vez que uma coisa é feita não pode ser desfeita, de que a memória humana, contando a história, sobrevive ao arrependimento e à destruição. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| Isso aplica-se apenas ao campo das ações, ao “muitos-em-um dos seres humanos” [Tomei de empréstimo esse termo oportuno para comunidades do ensaio altamente instrutivo “The Character of the Modern European State”, in On Human Conduct, de Michael Oakeshott, Oxford, 1975, p. 199.], isto é, às comunidades em que o “Nós” é devidamente estabelecido para sua jornada através do tempo histórico. As lendas fundadoras, com seu hiato entre a liberação e a constituição da **LIBERDADE**, indicam o problema sem resolvê-lo. Apontam para o abismo do nada que se abre antes de qualquer ação que não pode ser explicada por uma cadeia segura de causa e efeito e que tampouco se explica pelas categorias aristotélicas de potência e ato. No contínuo de tempo normal, todo efeito transforma-se imediatamente em uma causa de futuras ocorrências; mas quando a cadeia causal é quebrada — o que ocorre depois que se alcança a liberação, já que a liberação, ainda que seja a conditio sine qua non da **LIBERDADE**, jamais é a conditio per quam que causa a **LIBERDADE** — não resta nada em que o “iniciante” possa se agarrar. O pensamento de um começo absoluto — creatio ex nihilo — elimina a sequência de temporalidade tanto quanto o pensamento de um fim absoluto, que agora se designa corretamente como “pensar o impensável”. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | Isso aplica-se apenas ao campo das ações, ao “muitos-em-um dos seres humanos” [Tomei de empréstimo esse termo oportuno para comunidades do ensaio altamente instrutivo “The Character of the Modern European State”, in On Human Conduct, de Michael Oakeshott, Oxford, 1975, p. 199.], isto é, às comunidades em que o “Nós” é devidamente estabelecido para sua jornada através do tempo histórico. As lendas fundadoras, com seu hiato entre a liberação e a constituição da LIBERDADE, indicam o problema sem resolvê-lo. Apontam para o abismo do nada que se abre antes de qualquer ação que não pode ser explicada por uma cadeia segura de causa e efeito e que tampouco se explica pelas categorias aristotélicas de potência e ato. No contínuo de tempo normal, todo efeito transforma-se imediatamente em uma causa de futuras ocorrências; mas quando a cadeia causal é quebrada — o que ocorre depois que se alcança a liberação, já que a liberação, ainda que seja a conditio sine qua non da LIBERDADE, jamais é a conditio per quam que causa a LIBERDADE — não resta nada em que o “iniciante” possa se agarrar. O pensamento de um começo absoluto — creatio ex nihilo — elimina a sequência de temporalidade tanto quanto o pensamento de um fim absoluto, que agora se designa corretamente como “pensar o impensável”. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| Seja como for, sempre que homens de ação impulsionados pelo próprio momentum do processo de liberação começaram seriamente a se preparar para um começo inteiramente novo, a novus ordum seclorum, em vez de se voltarem para a Bíblia (“No princípio, Deus criou o Céu e a Terra”) eles vasculharam os arquivos da Antiguidade romana em busca da “prudência antiga” para guiá-los no estabelecimento de uma República, isto é, de um governo “de leis e não de homens” (Harrington). Eles não só precisavam familiarizar-se com uma nova forma de governo, como também com uma lição sobre a arte de fundação, sobre como superar as perplexidades inerentes a todo começo. Estavam bem conscientes, é claro, da espontaneidade desconcertante de um ato livre. Como sabiam, um ato somente pode ser chamado de livre se não for afetado ou causado por alguma coisa que o precede, exigindo, ainda assim, à medida que se transforma imediatamente em uma causa do que quer que venha a se seguir, uma justificativa que, se vier a ter êxito, terá que apresentar o ato como a continuação de uma série precedente, isto é, virá a negar a própria experiência de **LIBERDADE** e novidade. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | Seja como for, sempre que homens de ação impulsionados pelo próprio momentum do processo de liberação começaram seriamente a se preparar para um começo inteiramente novo, a novus ordum seclorum, em vez de se voltarem para a Bíblia (“No princípio, Deus criou o Céu e a Terra”) eles vasculharam os arquivos da Antiguidade romana em busca da “prudência antiga” para guiá-los no estabelecimento de uma República, isto é, de um governo “de leis e não de homens” (Harrington). Eles não só precisavam familiarizar-se com uma nova forma de governo, como também com uma lição sobre a arte de fundação, sobre como superar as perplexidades inerentes a todo começo. Estavam bem conscientes, é claro, da espontaneidade desconcertante de um ato livre. Como sabiam, um ato somente pode ser chamado de livre se não for afetado ou causado por alguma coisa que o precede, exigindo, ainda assim, à medida que se transforma imediatamente em uma causa do que quer que venha a se seguir, uma justificativa que, se vier a ter êxito, terá que apresentar o ato como a continuação de uma série precedente, isto é, virá a negar a própria experiência de LIBERDADE e novidade. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| É espantoso, além disso, que a noção do futuro — justamente um futuro prenhe da salvação final —, que traz de volta uma espécie de Idade do Ouro inicial, tenha se tornado popular em um tempo em que o Progresso tornara-se o conceito dominante na explicação do movimento da história. E o mais impressionante exemplo da persistência daquele sonho muito antigo é, obviamente, a fantasia marxista de um “reino de **LIBERDADE**” sem classes e sem guerras, tal como foi prefigurado no “comunismo original”, um reino que tem mais do que uma semelhança superficial com o reino original de Saturno sobre a Itália, quando nenhuma lei “acorrentava os [homens] à justiça”. Em sua forma original antiga, como o início da história, a Idade do Ouro é um pensamento melancólico. É como se, há milhares de anos, nossos ancestrais houvessem tido um pressentimento da descoberta eventual do princípio da entropia, que surgiria em um século XIX embriagado de progresso — uma descoberta que, se não tivesse sido questionada, teria destituído a ação de qualquer significado. [R. J. E. Clausius (1822-1888), físico e matemático alemão que enunciou a segunda lei da termodinâmica, introduziu o princípio da entropia (energia não disponível para trabalho útil em um sistema termodinâmico, representada pelo símbolo Ø): “Postulando que a entropia do universo está aumentando continuamente, ele previu que o universo se extinguiria pela ‘morte do calor’, quando tudo dentro dele chegasse à mesma temperatura.” Columbia Encyclopedia, 3ª ed. (Ed.).] O que fez na verdade o princípio da entropia desaparecer para os homens que realizaram as revoluções dos séculos XIX e XX foi não tanto a refutação “científica” de Engels, mas o retorno de Marx — e obviamente também o de Nietzsche — ao conceito cíclico de tempo, em que a inocência pré-histórica do começo finalmente reapareceria, tão triunfante quanto a segunda vinda de Jesus à Terra. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | É espantoso, além disso, que a noção do futuro — justamente um futuro prenhe da salvação final —, que traz de volta uma espécie de Idade do Ouro inicial, tenha se tornado popular em um tempo em que o Progresso tornara-se o conceito dominante na explicação do movimento da história. E o mais impressionante exemplo da persistência daquele sonho muito antigo é, obviamente, a fantasia marxista de um “reino de LIBERDADE” sem classes e sem guerras, tal como foi prefigurado no “comunismo original”, um reino que tem mais do que uma semelhança superficial com o reino original de Saturno sobre a Itália, quando nenhuma lei “acorrentava os [homens] à justiça”. Em sua forma original antiga, como o início da história, a Idade do Ouro é um pensamento melancólico. É como se, há milhares de anos, nossos ancestrais houvessem tido um pressentimento da descoberta eventual do princípio da entropia, que surgiria em um século XIX embriagado de progresso — uma descoberta que, se não tivesse sido questionada, teria destituído a ação de qualquer significado. [R. J. E. Clausius (1822-1888), físico e matemático alemão que enunciou a segunda lei da termodinâmica, introduziu o princípio da entropia (energia não disponível para trabalho útil em um sistema termodinâmico, representada pelo símbolo Ø): “Postulando que a entropia do universo está aumentando continuamente, ele previu que o universo se extinguiria pela ‘morte do calor’, quando tudo dentro dele chegasse à mesma temperatura.” Columbia Encyclopedia, 3ª ed. (Ed.).] O que fez na verdade o princípio da entropia desaparecer para os homens que realizaram as revoluções dos séculos XIX e XX foi não tanto a refutação “científica” de Engels, mas o retorno de Marx — e obviamente também o de Nietzsche — ao conceito cíclico de tempo, em que a inocência pré-histórica do começo finalmente reapareceria, tão triunfante quanto a segunda vinda de Jesus à Terra. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| Mas isso não nos interessa aqui. Quando dirigimos nossa atenção para os homens de ação esperando encontrar neles uma noção de **LIBERDADE** purgada das perplexidades causadas nos espíritos humanos pela reflexividade das atividades do espírito — a inevitável repercussão do ego volitivo sobre si mesmo —, esperávamos mais do que finalmente alcançamos. O abismo de pura espontaneidade, que nas lendas fundadoras é superado pelo hiato entre liberação e constituição da **LIBERDADE**, foi coberto com o mecanismo típico da tradição ocidental (a única tradição em que a **LIBERDADE** sempre foi a raison d’être de toda política), através do qual compreendemos o novo como uma reafirmação melhorada do velho. A **LIBERDADE** só sobreviveu em sua integridade original na teoria política — isto é, na teoria concebida com a finalidade da ação política — apenas nas promessas utópicas e infundadas de um “reino de **LIBERDADE**” final que, na sua versão marxista, em todo caso, significaria de fato “o fim de todas as coisas”, uma paz eterna na qual todas as atividades especificamente humanas desapareceriam. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | Mas isso não nos interessa aqui. Quando dirigimos nossa atenção para os homens de ação esperando encontrar neles uma noção de LIBERDADE purgada das perplexidades causadas nos espíritos humanos pela reflexividade das atividades do espírito — a inevitável repercussão do ego volitivo sobre si mesmo —, esperávamos mais do que finalmente alcançamos. O abismo de pura espontaneidade, que nas lendas fundadoras é superado pelo hiato entre liberação e constituição da LIBERDADE, foi coberto com o mecanismo típico da tradição ocidental (a única tradição em que a LIBERDADE sempre foi a raison d’être de toda política), através do qual compreendemos o novo como uma reafirmação melhorada do velho. A LIBERDADE só sobreviveu em sua integridade original na teoria política — isto é, na teoria concebida com a finalidade da ação política — apenas nas promessas utópicas e infundadas de um “reino de LIBERDADE” final que, na sua versão marxista, em todo caso, significaria de fato “o fim de todas as coisas”, uma paz eterna na qual todas as atividades especificamente humanas desapareceriam. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| Estou bem consciente de que o argumento, mesmo na versão agostiniana, é um tanto opaco, e não nos parece dizer nada além de que estamos condenados a ser livres porque nascemos, não importando se apreciamos a **LIBERDADE** ou abominamos sua arbitrariedade, se ela nos “apraz” ou se preferimos escapar à sua terrível responsabilidade, elegendo alguma forma de fatalismo. Esse impasse, se é que é um impasse, só pode ser desfeito ou resolvido pelo apelo a uma outra faculdade do espírito, não menos misteriosa do que a faculdade de começar: a faculdade do Juízo, cuja análise poderia no mínimo nos dizer o que está em jogo em nossos prazeres e desprazeres. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | Estou bem consciente de que o argumento, mesmo na versão agostiniana, é um tanto opaco, e não nos parece dizer nada além de que estamos condenados a ser livres porque nascemos, não importando se apreciamos a LIBERDADE ou abominamos sua arbitrariedade, se ela nos “apraz” ou se preferimos escapar à sua terrível responsabilidade, elegendo alguma forma de fatalismo. Esse impasse, se é que é um impasse, só pode ser desfeito ou resolvido pelo apelo a uma outra faculdade do espírito, não menos misteriosa do que a faculdade de começar: a faculdade do Juízo, cuja análise poderia no mínimo nos dizer o que está em jogo em nossos prazeres e desprazeres. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| Uma vez que Kant não escreveu sua filosofia política, a melhor maneira de descobrir o que ele pensava sobre este assunto é nos debruçarmos sobre a sua Crítica do juízo estético, em que, ao discutir a produção de obras de arte em suas relações com o gosto, que julga e decide sobre elas, ele se depara com um problema análogo, semelhante. Somos inclinados a pensar que, para julgar um espetáculo, deve-se ter, em primeiro lugar, o espetáculo; que o espectador é secundário em relação ao ator — sem levar em conta que ninguém em seu juízo perfeito poria em cartaz um espetáculo sem estar seguro de haver espectadores para assistir a ele. Kant está convencido de que o mundo sem o homem seria um deserto, e um mundo sem o homem significa: sem espectador. Na discussão do juízo estético, a distinção é que é necessário o gênio para a produção das obras de arte, enquanto para julgar e decidir se os objetos são belos ou não, não é preciso “nada além” (nós diríamos, mas não Kant) do gosto. “Para julgar objetos belos, o gosto é necessário [...] para sua produção, o gênio é preciso.” O gênio, segundo Kant, é uma questão de imaginação produtiva e de originalidade; o gosto é uma... questão de juízo. Ele propõe a questão: qual das duas é a faculdade “mais nobre”, qual é a condição sine qua non “que devemos observar no julgar da arte como arte bela?” — e o faz pressupondo, é claro, que embora a maioria dos juízes da beleza não tenha a faculdade de imaginação produtiva que ele chama gênio, aos poucos dotados com o gênio não falta a faculdade do gosto. E a resposta é a seguinte: A abundância e a originalidade de ideias são menos necessárias à beleza do que o acordo entre a imaginação, em sua **LIBERDADE**, e a conformidade à lei do entendimento [que se chama gosto]. Pois toda a abundância das primeiras só produz [...], na **LIBERDADE** sem lei, absurdos; por outro lado, o juízo é a faculdade pela qual elas são ajustadas ao entendimento. [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar ] | Uma vez que Kant não escreveu sua filosofia política, a melhor maneira de descobrir o que ele pensava sobre este assunto é nos debruçarmos sobre a sua Crítica do juízo estético, em que, ao discutir a produção de obras de arte em suas relações com o gosto, que julga e decide sobre elas, ele se depara com um problema análogo, semelhante. Somos inclinados a pensar que, para julgar um espetáculo, deve-se ter, em primeiro lugar, o espetáculo; que o espectador é secundário em relação ao ator — sem levar em conta que ninguém em seu juízo perfeito poria em cartaz um espetáculo sem estar seguro de haver espectadores para assistir a ele. Kant está convencido de que o mundo sem o homem seria um deserto, e um mundo sem o homem significa: sem espectador. Na discussão do juízo estético, a distinção é que é necessário o gênio para a produção das obras de arte, enquanto para julgar e decidir se os objetos são belos ou não, não é preciso “nada além” (nós diríamos, mas não Kant) do gosto. “Para julgar objetos belos, o gosto é necessário [...] para sua produção, o gênio é preciso.” O gênio, segundo Kant, é uma questão de imaginação produtiva e de originalidade; o gosto é uma... questão de juízo. Ele propõe a questão: qual das duas é a faculdade “mais nobre”, qual é a condição sine qua non “que devemos observar no julgar da arte como arte bela?” — e o faz pressupondo, é claro, que embora a maioria dos juízes da beleza não tenha a faculdade de imaginação produtiva que ele chama gênio, aos poucos dotados com o gênio não falta a faculdade do gosto. E a resposta é a seguinte: A abundância e a originalidade de ideias são menos necessárias à beleza do que o acordo entre a imaginação, em sua LIBERDADE, e a conformidade à lei do entendimento [que se chama gosto]. Pois toda a abundância das primeiras só produz [...], na LIBERDADE sem lei, absurdos; por outro lado, o juízo é a faculdade pela qual elas são ajustadas ao entendimento. [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar ] |
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