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 Séculos mais tarde, Nietzsche, ainda pensando na mesma linha, suspeitou que foi a nossa “crença [cartesiana] no ‘EGO’ [pensante] [...] como única realidade [que nos fez] [...] atribuir realidade às coisas em geral” [The Will To Power, n° 487, p. 269]. Com efeito, nada se tornou mais característico das últimas fases da metafísica do que essa espécie de inversão de papéis na qual Nietzsche, com seus experimentos de pensamento de uma honestidade implacável, era um mestre. Mas esse jogo — ainda um jogo de pensamento, mais do que um jogo de linguagem — só se tornou possível quando, com o surgimento do idealismo alemão, romperam-se todas as pontes, “a não ser a ponte arco-íris de conceitos” [Ibidem, n° 419, p. 225], ou, para falar menos poeticamente, quando ficou claro para os filósofos que a “novidade de nossa posição contemporânea em filosofia baseia-se na convicção, que nenhuma época teve antes de nós, de que não possuímos a verdade. Todas as gerações anteriores ‘possuíam a verdade’, até mesmo os céticos” [Heidegger, in “Überwindung der Metaphysik”, op. cit., p. 83]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13] Séculos mais tarde, Nietzsche, ainda pensando na mesma linha, suspeitou que foi a nossa “crença [cartesiana] no ‘EGO’ [pensante] [...] como única realidade [que nos fez] [...] atribuir realidade às coisas em geral” [The Will To Power, n° 487, p. 269]. Com efeito, nada se tornou mais característico das últimas fases da metafísica do que essa espécie de inversão de papéis na qual Nietzsche, com seus experimentos de pensamento de uma honestidade implacável, era um mestre. Mas esse jogo — ainda um jogo de pensamento, mais do que um jogo de linguagem — só se tornou possível quando, com o surgimento do idealismo alemão, romperam-se todas as pontes, “a não ser a ponte arco-íris de conceitos” [Ibidem, n° 419, p. 225], ou, para falar menos poeticamente, quando ficou claro para os filósofos que a “novidade de nossa posição contemporânea em filosofia baseia-se na convicção, que nenhuma época teve antes de nós, de que não possuímos a verdade. Todas as gerações anteriores ‘possuíam a verdade’, até mesmo os céticos” [Heidegger, in “Überwindung der Metaphysik”, op. cit., p. 83]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]
  
-Provavelmente foi por pura coincidência que a geração amadurecida sob o impacto das revoluções do século XVIII tenha também tido o espírito formado pela liberação kantiana do pensamento, por sua resolução do antigo dilema entre o dogmatismo e o ceticismo, ao introduzir uma autocrítica da Razão. E como a revolução encorajou essa geração a transportar a noção de Progresso do avanço científico para o campo dos assuntos humanos e a compreendê-la como progresso da História, era mais do que natural que sua atenção se voltasse para a Vontade como fonte da ação e como o órgão do Futuro. O resultado foi que “a ideia de fazer da liberdade a parte essencial da filosofia emancipou o espírito humano em todas as suas relações”, emancipou o EGO pensante para a especulação livre nas cadeias de pensamento cujo fim último era “provar [...] que não só o EGO é tudo, mas também, ao contrário, tudo é **EGO**” [Schelling, Of Human Freedom, p. 351]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]+Provavelmente foi por pura coincidência que a geração amadurecida sob o impacto das revoluções do século XVIII tenha também tido o espírito formado pela liberação kantiana do pensamento, por sua resolução do antigo dilema entre o dogmatismo e o ceticismo, ao introduzir uma autocrítica da Razão. E como a revolução encorajou essa geração a transportar a noção de Progresso do avanço científico para o campo dos assuntos humanos e a compreendê-la como progresso da História, era mais do que natural que sua atenção se voltasse para a Vontade como fonte da ação e como o órgão do Futuro. O resultado foi que “a ideia de fazer da liberdade a parte essencial da filosofia emancipou o espírito humano em todas as suas relações”, emancipou o EGO pensante para a especulação livre nas cadeias de pensamento cujo fim último era “provar [...] que não só o EGO é tudo, mas também, ao contrário, tudo é EGO” [Schelling, Of Human Freedom, p. 351]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]
  
-Aquilo que aparecera de forma restrita e provisória no conceito personificado de Humanidade de Pascal começava agora a proliferar com uma incrível intensidade. As atividades dos homens, seja de pensar seja de agir, foram transformadas em atividades de conceitos personificados — que tornavam a filosofia tanto infinitamente mais difícil (a dificuldade principal em Hegel é seu teor de abstração, suas pistas somente ocasionais sobre os dados e fenômenos reais que ele tinha em mente) quanto incrivelmente mais viva. Era uma verdadeira orgia de pura especulação que, em contraste nítido com a razão crítica de Kant, estava repleta de dados históricos disfarçados de abstração radical. Uma vez que é o próprio conceito personificado que deve supostamente agir, é como se (nas palavras de Schelling) a filosofia “se erguesse a um ponto de vista mais alto”, a um “maior realismo” em que as simples coisas-pensamento — os noumena de Kant, produtos desmaterializados da reflexão do **EGO** pensante sobre dados reais (dados históricos em Hegel e mitológicos ou religiosos em Schelling) — dessem início à sua curiosa dança incorpórea e espectral, cujos passos e ritmos não se regulam nem se limitam por qualquer ideia da razão. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]+Aquilo que aparecera de forma restrita e provisória no conceito personificado de Humanidade de Pascal começava agora a proliferar com uma incrível intensidade. As atividades dos homens, seja de pensar seja de agir, foram transformadas em atividades de conceitos personificados — que tornavam a filosofia tanto infinitamente mais difícil (a dificuldade principal em Hegel é seu teor de abstração, suas pistas somente ocasionais sobre os dados e fenômenos reais que ele tinha em mente) quanto incrivelmente mais viva. Era uma verdadeira orgia de pura especulação que, em contraste nítido com a razão crítica de Kant, estava repleta de dados históricos disfarçados de abstração radical. Uma vez que é o próprio conceito personificado que deve supostamente agir, é como se (nas palavras de Schelling) a filosofia “se erguesse a um ponto de vista mais alto”, a um “maior realismo” em que as simples coisas-pensamento — os noumena de Kant, produtos desmaterializados da reflexão do EGO pensante sobre dados reais (dados históricos em Hegel e mitológicos ou religiosos em Schelling) — dessem início à sua curiosa dança incorpórea e espectral, cujos passos e ritmos não se regulam nem se limitam por qualquer ideia da razão. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]
  
-Esta é, então, minha justificativa para ter omitido de nossas considerações esse corpo de pensamento, o idealismo alemão, no qual a especulação pura no campo da metafísica talvez tenha alcançado seu clímax junto com o fim. Não quis atravessar a “ponte arco-íris de conceitos” talvez porque não seja suficientemente nostálgica; em todo caso, porque não acredito em um mundo, quer seja um mundo passado ou um futuro, em que o espírito humano, equipado para retirar-se do mundo das aparências, poderia ou deveria chegar a sentir-se confortavelmente em casa. Além disso, pelo menos nos casos de Nietzsche e de Heidegger, foi precisamente um confronto com a Vontade como faculdade humana, e não como categoria ontológica, que os instou originalmente a repudiar a faculdade e, então, a se converter e depositar sua confiança nessa casa fantasmagórica de conceitos personificados que foi tão obviamente “construída” e decorada pelo **EGO** pensante, em oposição ao volitivo. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]+Esta é, então, minha justificativa para ter omitido de nossas considerações esse corpo de pensamento, o idealismo alemão, no qual a especulação pura no campo da metafísica talvez tenha alcançado seu clímax junto com o fim. Não quis atravessar a “ponte arco-íris de conceitos” talvez porque não seja suficientemente nostálgica; em todo caso, porque não acredito em um mundo, quer seja um mundo passado ou um futuro, em que o espírito humano, equipado para retirar-se do mundo das aparências, poderia ou deveria chegar a sentir-se confortavelmente em casa. Além disso, pelo menos nos casos de Nietzsche e de Heidegger, foi precisamente um confronto com a Vontade como faculdade humana, e não como categoria ontológica, que os instou originalmente a repudiar a faculdade e, então, a se converter e depositar sua confiança nessa casa fantasmagórica de conceitos personificados que foi tão obviamente “construída” e decorada pelo EGO pensante, em oposição ao volitivo. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13]
  
-Ele explica em detalhes em Para além do bem e do mal: Aquele que quer dá ordens a alguma coisa que nele obedece [...]. O aspecto mais estranho deste fenômeno múltiplo a que chamamos de “Vontade” é que só tenhamos uma palavra para ele, e, em especial, que tenhamos só uma palavra para o fato de que somos, em cada caso particular, ao mesmo tempo quem dá as ordens e quem lhes obedece; ao obedecermos, experimentamos os sentimentos de coerção, ânsia, pressão, resistência, que normalmente começaram a se manifestar imediatamente após o ato de querer; por estarmos, entretanto, [...] no comando [...] experimentamos uma sensação de prazer, e isso ainda mais intensamente porque estamos habituados a superar a dicotomia pela noção do Eu, o **EGO**, e isso de um modo que tomamos como certa em nós a obediência, e que identificamos querer e executar, querer e agir [grifos nossos]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]+Ele explica em detalhes em Para além do bem e do mal: Aquele que quer dá ordens a alguma coisa que nele obedece [...]. O aspecto mais estranho deste fenômeno múltiplo a que chamamos de “Vontade” é que só tenhamos uma palavra para ele, e, em especial, que tenhamos só uma palavra para o fato de que somos, em cada caso particular, ao mesmo tempo quem dá as ordens e quem lhes obedece; ao obedecermos, experimentamos os sentimentos de coerção, ânsia, pressão, resistência, que normalmente começaram a se manifestar imediatamente após o ato de querer; por estarmos, entretanto, [...] no comando [...] experimentamos uma sensação de prazer, e isso ainda mais intensamente porque estamos habituados a superar a dicotomia pela noção do Eu, o EGO, e isso de um modo que tomamos como certa em nós a obediência, e que identificamos querer e executar, querer e agir [grifos nossos]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]
  
-Aqui, a princípio, é como se estivéssemos lidando com uma metáfora perfeita, uma “semelhança perfeita de duas relações entre coisas completamente diferentes” [Ver O Pensar, cap. II]. A relação entre as ondas e o mar, do qual elas se erguem sem intenção ou meta, criando uma euforia enorme e sem propósito, assemelha-se e, portanto, ilumina o turbilhão que a Vontade provoca na morada da alma — parecendo estar sempre em busca de algo, até que se acalma, ainda que sem se extinguir, sempre pronta para um novo levante. A Vontade aprecia o querer assim como o oceano aprecia as ondas, pois “a não querer, o homem prefere ainda querer o nada” [Toward a Genealogy of Morals, n° 28]. Em um exame mais detido, entretanto, parece que algo bastante decisivo aconteceu àquilo que era originalmente uma metáfora homérica. Aquelas metáforas, como vimos, eram sempre irreversíveis: olhando para as tempestades no oceano, nos lembraríamos de nossas emoções interiores; mas aquelas emoções nada nos informavam sobre o mar. Na metáfora nietzschiana, as duas coisas diferentes que a metáfora reúne não apenas se assemelham; para Nietzsche, elas são idênticas; e o “segredo” do qual ele tanto se orgulha é precisamente seu conhecimento dessa identidade. Vontade e Onda são a mesma coisa, e pode-se mesmo ficar tentado a supor que as experiências do **EGO** volitivo fizeram com que Nietzsche descobrisse o turbilhão do mar. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]+Aqui, a princípio, é como se estivéssemos lidando com uma metáfora perfeita, uma “semelhança perfeita de duas relações entre coisas completamente diferentes” [Ver O Pensar, cap. II]. A relação entre as ondas e o mar, do qual elas se erguem sem intenção ou meta, criando uma euforia enorme e sem propósito, assemelha-se e, portanto, ilumina o turbilhão que a Vontade provoca na morada da alma — parecendo estar sempre em busca de algo, até que se acalma, ainda que sem se extinguir, sempre pronta para um novo levante. A Vontade aprecia o querer assim como o oceano aprecia as ondas, pois “a não querer, o homem prefere ainda querer o nada” [Toward a Genealogy of Morals, n° 28]. Em um exame mais detido, entretanto, parece que algo bastante decisivo aconteceu àquilo que era originalmente uma metáfora homérica. Aquelas metáforas, como vimos, eram sempre irreversíveis: olhando para as tempestades no oceano, nos lembraríamos de nossas emoções interiores; mas aquelas emoções nada nos informavam sobre o mar. Na metáfora nietzschiana, as duas coisas diferentes que a metáfora reúne não apenas se assemelham; para Nietzsche, elas são idênticas; e o “segredo” do qual ele tanto se orgulha é precisamente seu conhecimento dessa identidade. Vontade e Onda são a mesma coisa, e pode-se mesmo ficar tentado a supor que as experiências do EGO volitivo fizeram com que Nietzsche descobrisse o turbilhão do mar. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]
  
-Em outras palavras, as aparências do mundo transformaram-se em um mero símbolo das experiências interiores, com a consequência de que a metáfora, originalmente concebida para servir de ponte sobre o abismo entre o **EGO** pensante ou o volitivo e o mundo das aparências, entra em colapso. O colapso ocorreu não por causa de um peso superior dado aos “objetos” que confrontam a vida humana, mas sim por uma adesão sectária ao aparato da alma humana, cujas experiências são entendidas como tendo absoluta primazia. Há inúmeras passagens em Nietzsche que apontam para este antropomorfismo fundamental. Para citar apenas um exemplo: “Todas as pressuposições da teoria mecanicista [que em Nietzsche é idêntica às “hipóteses científicas”] — matéria, átomo, gravidade, pressão e força — não são ‘fatos-em-si’, mas sim interpretações feitas com o auxílio de ficções físicas.” [The Will to Power, n° 689, p. 368] A ciência moderna chegou a suspeitas estranhamente semelhantes nas reflexões especulativas sobre seus próprios resultados: os “astrofísicos [de hoje] [...] devem considerar a possibilidade de que seu mundo exterior seja somente o nosso mundo interior virado ao avesso” (Lewis Mumford). [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]+Em outras palavras, as aparências do mundo transformaram-se em um mero símbolo das experiências interiores, com a consequência de que a metáfora, originalmente concebida para servir de ponte sobre o abismo entre o EGO pensante ou o volitivo e o mundo das aparências, entra em colapso. O colapso ocorreu não por causa de um peso superior dado aos “objetos” que confrontam a vida humana, mas sim por uma adesão sectária ao aparato da alma humana, cujas experiências são entendidas como tendo absoluta primazia. Há inúmeras passagens em Nietzsche que apontam para este antropomorfismo fundamental. Para citar apenas um exemplo: “Todas as pressuposições da teoria mecanicista [que em Nietzsche é idêntica às “hipóteses científicas”] — matéria, átomo, gravidade, pressão e força — não são ‘fatos-em-si’, mas sim interpretações feitas com o auxílio de ficções físicas.” [The Will to Power, n° 689, p. 368] A ciência moderna chegou a suspeitas estranhamente semelhantes nas reflexões especulativas sobre seus próprios resultados: os “astrofísicos [de hoje] [...] devem considerar a possibilidade de que seu mundo exterior seja somente o nosso mundo interior virado ao avesso” (Lewis Mumford). [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]
  
-Na confusão de aforismos, observações e experimentos de pensamento que constituem a coletânea póstuma intitulada Vontade de potência, a importância desta última passagem que citei um tanto extensamente é difícil de ser definida. A julgar por sua evidência interna, tendo a pensá-la como a palavra final de Nietzsche sobre o assunto; e essa última palavra significa claramente um repúdio à Vontade e ao **EGO** volitivo, cujas experiências internas levaram os homens pensantes ao engano de supor que há algo como causa e efeito, intenção e meta, na realidade. O super-homem é aquele que supera essas falácias, aquele cujos insights são fortes o bastante para resistir às urgências da Vontade ou para alterar o seu rumo, redimi-la de todas as oscilações, acalmá-la, levando-a àquela imobilidade em que “desviar o olhar” é “a única negação” [The Gay Science, livro IV, n° 276, p. 223] porque nada resta senão almejar ser “aquele que diz sim”, bendizer tudo o que é por ser, “bendizer e dizer Amém”. [Thus Spoke Zarathustra, parte III, “Before Sunrise”, também “The Seven Seals (or: The Yes and Amen Song)”, in The Portable Nietzsche, pp. 276-279 e 340-343.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]+Na confusão de aforismos, observações e experimentos de pensamento que constituem a coletânea póstuma intitulada Vontade de potência, a importância desta última passagem que citei um tanto extensamente é difícil de ser definida. A julgar por sua evidência interna, tendo a pensá-la como a palavra final de Nietzsche sobre o assunto; e essa última palavra significa claramente um repúdio à Vontade e ao EGO volitivo, cujas experiências internas levaram os homens pensantes ao engano de supor que há algo como causa e efeito, intenção e meta, na realidade. O super-homem é aquele que supera essas falácias, aquele cujos insights são fortes o bastante para resistir às urgências da Vontade ou para alterar o seu rumo, redimi-la de todas as oscilações, acalmá-la, levando-a àquela imobilidade em que “desviar o olhar” é “a única negação” [The Gay Science, livro IV, n° 276, p. 223] porque nada resta senão almejar ser “aquele que diz sim”, bendizer tudo o que é por ser, “bendizer e dizer Amém”. [Thus Spoke Zarathustra, parte III, “Before Sunrise”, também “The Seven Seals (or: The Yes and Amen Song)”, in The Portable Nietzsche, pp. 276-279 e 340-343.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14]
  
-Em outras palavras, o Esquecimento do Ser (Seinsvergessenheit) pertence à própria natureza da relação entre Homem e Ser. Heidegger agora não se satisfaz mais em eliminar o **EGO** volitivo em favor do **EGO** pensante — sustentando, por exemplo, como faz ainda em Nietzsche, que a insistência da Vontade no futuro força o homem ao esquecimento do passado, que rouba do pensamento a sua atividade mais importante, que é an-denken, lembrança: “A Vontade nunca possuiu o começo, ela o deixou e o abandonou essencialmente através do esquecimento.” [Vol. II, p. 468] Agora ele dessubjetiviza o pensamento em si, rouba-o de seu Sujeito, o homem como ser pensante, e transforma-o em uma função do Ser, no qual “reside toda eficácia [...], fluindo daí em direção ao ente [das Seiende]”, determinando assim o curso real do mundo. “O Pensamento, por sua vez, deixa-se chamar pelo Ser [que é o significado real do que acontece através dos entes] para dar expressão à verdade do Ser.” [“Brief über den ‘Humanismus”’, p. 53; trad. citada de Mehta, op. cit., p. 114] Essa reinterpretação da “reviravolta”, mais do que a reviravolta em si, determina o desenvolvimento inteiro da filosofia final de Heidegger. Contida de forma resumida na Brief über den Humanismus (Sobre o humanismo), que interpreta Ser e Tempo como uma antecipação necessária e uma preparação para a “reviravolta”, ela centra-se na noção de que pensar, a saber, “dizer a palavra não dita do Ser”, é o único autêntico “fazer” (Tun) do homem; é aí que a “História do Ser” (Seinsgeschichte), que transcende todos os atos meramente humanos e é superior a eles, se passa na verdade. Este pensar é recordação, já que ouve a voz do Ser nas expressões dos grandes filósofos do passado; mas o passado vem a ele da direção oposta, de modo que a “descida” (Abstieg) ao passado coincida com a “expectativa paciente e pensativa pela chegada do futuro, o avenant” [“Brief über den ‘Humanismus’”, pp. 46-47]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+Em outras palavras, o Esquecimento do Ser (Seinsvergessenheit) pertence à própria natureza da relação entre Homem e Ser. Heidegger agora não se satisfaz mais em eliminar o EGO volitivo em favor do EGO pensante — sustentando, por exemplo, como faz ainda em Nietzsche, que a insistência da Vontade no futuro força o homem ao esquecimento do passado, que rouba do pensamento a sua atividade mais importante, que é an-denken, lembrança: “A Vontade nunca possuiu o começo, ela o deixou e o abandonou essencialmente através do esquecimento.” [Vol. II, p. 468] Agora ele dessubjetiviza o pensamento em si, rouba-o de seu Sujeito, o homem como ser pensante, e transforma-o em uma função do Ser, no qual “reside toda eficácia [...], fluindo daí em direção ao ente [das Seiende]”, determinando assim o curso real do mundo. “O Pensamento, por sua vez, deixa-se chamar pelo Ser [que é o significado real do que acontece através dos entes] para dar expressão à verdade do Ser.” [“Brief über den ‘Humanismus”’, p. 53; trad. citada de Mehta, op. cit., p. 114] Essa reinterpretação da “reviravolta”, mais do que a reviravolta em si, determina o desenvolvimento inteiro da filosofia final de Heidegger. Contida de forma resumida na Brief über den Humanismus (Sobre o humanismo), que interpreta Ser e Tempo como uma antecipação necessária e uma preparação para a “reviravolta”, ela centra-se na noção de que pensar, a saber, “dizer a palavra não dita do Ser”, é o único autêntico “fazer” (Tun) do homem; é aí que a “História do Ser” (Seinsgeschichte), que transcende todos os atos meramente humanos e é superior a eles, se passa na verdade. Este pensar é recordação, já que ouve a voz do Ser nas expressões dos grandes filósofos do passado; mas o passado vem a ele da direção oposta, de modo que a “descida” (Abstieg) ao passado coincida com a “expectativa paciente e pensativa pela chegada do futuro, o avenant” [“Brief über den ‘Humanismus’”, pp. 46-47]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Nessa compreensão radical de Nietzsche, a Vontade é essencialmente destrutiva; e é a essa destrutividade que a reversão original de Heidegger se contrapõe. Seguindo essa interpretação, a própria natureza da tecnologia é a vontade de querer, ou seja, de sujeitar o mundo todo à sua dominação e jugo, cujo fim natural só pode ser a destruição total. A alternativa a esse jugo é “deixar-ser, e o deixar-ser como atividade é o pensamento que obedece ao chamado do Ser”. A disposição que permeia o deixar-ser do pensamento é o oposto da disposição de finalidade no querer; mais tarde, em sua reinterpretação da “reviravolta”, Heidegger a chama de “Gelassenheit”, uma serenidade que corresponde ao deixar — ser e que “nos prepara” para “um pensamento que não é uma vontade” [Gelassenheit, p. 33; Discourse on Thinking, p. 60]. Esse pensamento está “além da distinção entre atividade e passividade” porque está além do “domínio da Vontade”, isto é, além da categoria da causalidade, que Heidegger, concordando com Nietzsche, deriva da experiência que o **EGO** volitivo tem de produzir efeitos e, portanto, de uma ilusão produzida pela consciência. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+Nessa compreensão radical de Nietzsche, a Vontade é essencialmente destrutiva; e é a essa destrutividade que a reversão original de Heidegger se contrapõe. Seguindo essa interpretação, a própria natureza da tecnologia é a vontade de querer, ou seja, de sujeitar o mundo todo à sua dominação e jugo, cujo fim natural só pode ser a destruição total. A alternativa a esse jugo é “deixar-ser, e o deixar-ser como atividade é o pensamento que obedece ao chamado do Ser”. A disposição que permeia o deixar-ser do pensamento é o oposto da disposição de finalidade no querer; mais tarde, em sua reinterpretação da “reviravolta”, Heidegger a chama de “Gelassenheit”, uma serenidade que corresponde ao deixar — ser e que “nos prepara” para “um pensamento que não é uma vontade” [Gelassenheit, p. 33; Discourse on Thinking, p. 60]. Esse pensamento está “além da distinção entre atividade e passividade” porque está além do “domínio da Vontade”, isto é, além da categoria da causalidade, que Heidegger, concordando com Nietzsche, deriva da experiência que o EGO volitivo tem de produzir efeitos e, portanto, de uma ilusão produzida pela consciência. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-A diferença entre a posição de Heidegger e a de seus predecessores reside no seguinte: o espírito do homem, chamado pelo Ser para transpor para a linguagem a verdade do Ser, está sujeito a uma História do Ser (Seinsgeschichte), e essa História determina se os homens respondem ao Ser em termos de querer ou em termos de pensar. É a História do Ser, funcionando por trás dos homens de ação, que, como o Espírito do Mundo de Hegel, determina os destinos humanos e revela-se ao **EGO** pensante caso este último consiga superar a vontade e realizar o deixar-ser. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+A diferença entre a posição de Heidegger e a de seus predecessores reside no seguinte: o espírito do homem, chamado pelo Ser para transpor para a linguagem a verdade do Ser, está sujeito a uma História do Ser (Seinsgeschichte), e essa História determina se os homens respondem ao Ser em termos de querer ou em termos de pensar. É a História do Ser, funcionando por trás dos homens de ação, que, como o Espírito do Mundo de Hegel, determina os destinos humanos e revela-se ao EGO pensante caso este último consiga superar a vontade e realizar o deixar-ser. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Mas se isso se aplica à coincidência entre pensar e agradecer, dificilmente aplica-se à fusão entre pensar e agir. Em Heidegger, ela não é só a eliminação da separação sujeito-objeto com a finalidade de dessubjetivizar o **EGO** Cartesiano, mas é a fusão real das mudanças na “História do Ser” (Seinsgeschichte) com a atividade de pensamento dos pensadores. “A história do Ser” inspira e guia secretamente o que se passa na superfície, enquanto os pensadores, escondidos e protegidos por “Eles”, respondem ao Ser e o realizam. Aqui o conceito personificado, cuja existência fantasmagórica produziu o último grande avivamento da filosofia no Idealismo Alemão, torna-se completamente encarnado; há um Alguém que transforma em ação o significado oculto do Ser, originando no curso desastroso dos eventos uma contracorrente salutar. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]+Mas se isso se aplica à coincidência entre pensar e agradecer, dificilmente aplica-se à fusão entre pensar e agir. Em Heidegger, ela não é só a eliminação da separação sujeito-objeto com a finalidade de dessubjetivizar o EGO Cartesiano, mas é a fusão real das mudanças na “História do Ser” (Seinsgeschichte) com a atividade de pensamento dos pensadores. “A história do Ser” inspira e guia secretamente o que se passa na superfície, enquanto os pensadores, escondidos e protegidos por “Eles”, respondem ao Ser e o realizam. Aqui o conceito personificado, cuja existência fantasmagórica produziu o último grande avivamento da filosofia no Idealismo Alemão, torna-se completamente encarnado; há um Alguém que transforma em ação o significado oculto do Ser, originando no curso desastroso dos eventos uma contracorrente salutar. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15]
  
-Tais pensamentos e re-pensamentos não são, é claro, enunciados científicos; não pretendem fornecer verdades demonstráveis ou teoremas experimentais que seus autores possam ter a esperança de traduzir em proposições suscetíveis de prova. São reflexões inspiradas por uma busca de significado e, portanto, não são menos especulativas do que outros produtos do **EGO** pensante. O próprio Einstein, em uma observação muito citada, traçou bastante claramente o limite entre enunciados cognitivos e proposições especulativas: “O fato mais incompreensível da natureza é o fato de a natureza ser compreensível.” Aqui podemos quase observar o modo como o **EGO** pensante interfere na atividade cognitiva, interrompe-a e paralisa-a com suas reflexões. Coloca-se “fora de ordem” com a atividade habitual dos cientistas, repercutindo sobre si mesmo, meditando sobre a ininteligibilidade fundamental daquilo que está fazendo — ininteligibilidade que permanece um enigma sobre o qual vale a pena pensar, embora não possa ser resolvido. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]+Tais pensamentos e re-pensamentos não são, é claro, enunciados científicos; não pretendem fornecer verdades demonstráveis ou teoremas experimentais que seus autores possam ter a esperança de traduzir em proposições suscetíveis de prova. São reflexões inspiradas por uma busca de significado e, portanto, não são menos especulativas do que outros produtos do EGO pensante. O próprio Einstein, em uma observação muito citada, traçou bastante claramente o limite entre enunciados cognitivos e proposições especulativas: “O fato mais incompreensível da natureza é o fato de a natureza ser compreensível.” Aqui podemos quase observar o modo como o EGO pensante interfere na atividade cognitiva, interrompe-a e paralisa-a com suas reflexões. Coloca-se “fora de ordem” com a atividade habitual dos cientistas, repercutindo sobre si mesmo, meditando sobre a ininteligibilidade fundamental daquilo que está fazendo — ininteligibilidade que permanece um enigma sobre o qual vale a pena pensar, embora não possa ser resolvido. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]
  
-Mas isso não nos interessa aqui. Quando dirigimos nossa atenção para os homens de ação esperando encontrar neles uma noção de liberdade purgada das perplexidades causadas nos espíritos humanos pela reflexividade das atividades do espírito — a inevitável repercussão do **EGO** volitivo sobre si mesmo —, esperávamos mais do que finalmente alcançamos. O abismo de pura espontaneidade, que nas lendas fundadoras é superado pelo hiato entre liberação e constituição da liberdade, foi coberto com o mecanismo típico da tradição ocidental (a única tradição em que a liberdade sempre foi a raison d’être de toda política), através do qual compreendemos o novo como uma reafirmação melhorada do velho. A liberdade só sobreviveu em sua integridade original na teoria política — isto é, na teoria concebida com a finalidade da ação política — apenas nas promessas utópicas e infundadas de um “reino de liberdade” final que, na sua versão marxista, em todo caso, significaria de fato “o fim de todas as coisas”, uma paz eterna na qual todas as atividades especificamente humanas desapareceriam. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]+Mas isso não nos interessa aqui. Quando dirigimos nossa atenção para os homens de ação esperando encontrar neles uma noção de liberdade purgada das perplexidades causadas nos espíritos humanos pela reflexividade das atividades do espírito — a inevitável repercussão do EGO volitivo sobre si mesmo —, esperávamos mais do que finalmente alcançamos. O abismo de pura espontaneidade, que nas lendas fundadoras é superado pelo hiato entre liberação e constituição da liberdade, foi coberto com o mecanismo típico da tradição ocidental (a única tradição em que a liberdade sempre foi a raison d’être de toda política), através do qual compreendemos o novo como uma reafirmação melhorada do velho. A liberdade só sobreviveu em sua integridade original na teoria política — isto é, na teoria concebida com a finalidade da ação política — apenas nas promessas utópicas e infundadas de um “reino de liberdade” final que, na sua versão marxista, em todo caso, significaria de fato “o fim de todas as coisas”, uma paz eterna na qual todas as atividades especificamente humanas desapareceriam. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16]
  
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