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| E enquanto começavam a refletir, com uma lealdade nunca antes vista, sobre o curso da história, não podiam deixar de tomar CONSCIÊNCIA quase imediata do maior enigma que seu novo tema lhes apresentava. Trata-se do simples fato de que nenhuma ação jamais alcança o objetivo pretendido e de que o Progresso — ou qualquer outra significação fixa do processo histórico — surge de uma “mistura” sem sentido “de erro e violência” (Goethe), de uma “casualidade melancólica” no “curso sem sentido dos assuntos humanos” (Kant). Só se pode detectar algum sentido por meio da sabedoria da visão retrospectiva quando os homens deixam de agir e começam a contar a história do que aconteceu; então é como se os homens, ao perseguir seus propósitos sem se entender, sem a menor lógica, tivessem sido levados por uma “intenção da natureza”, pelo “fio condutor da razão” [Ver Kant, Idea for a Universal History from a Cosmopolitan Point of View (1784), Introdução, in Kant on History, ed. Lewis White Beck, Library of Liberal Arts, Indianapolis, Nova York, 1963, pp. 11-12.]. Citei Kant e Goethe, que estacaram, ambos, no limiar da nova geração, aquela dos idealistas alemães, para quem os acontecimentos da Revolução Francesa foram as experiências de vida decisivas. Mas Vico já sabia que os “fatos da história conhecida” tomados em si mesmos “não possuem nem uma base comum nem continuidade nem coerência”; e Hegel, muito depois, ainda insistia em que as “paixões, os propósitos privados e a satisfação de desejos egoístas, são [...] as mais efetivas fontes da ação”. Logo, não é o registro dos eventos passados, mas somente a história o que faz sentido, e o que tanto impressiona nas observações de Kant ao final da vida é ter ele entendido imediatamente que o sujeito da ação da História teria que ser a Humanidade, em vez de o homem ou qualquer comunidade humana constatável. Não menos impressionante é o fato de ter sido capaz de perceber a grande falha no projeto da História: “Continuará sempre sendo desconcertante que as gerações anteriores pareçam levar adiante sua pesada tarefa pelo bem dos que virão [...] e que somente os últimos devam ter a sorte de habitar o edifício [terminado].” [Ibidem, Terceira Tese. Trad. da autora] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13] | E enquanto começavam a refletir, com uma lealdade nunca antes vista, sobre o curso da história, não podiam deixar de tomar CONSCIÊNCIA quase imediata do maior enigma que seu novo tema lhes apresentava. Trata-se do simples fato de que nenhuma ação jamais alcança o objetivo pretendido e de que o Progresso — ou qualquer outra significação fixa do processo histórico — surge de uma “mistura” sem sentido “de erro e violência” (Goethe), de uma “casualidade melancólica” no “curso sem sentido dos assuntos humanos” (Kant). Só se pode detectar algum sentido por meio da sabedoria da visão retrospectiva quando os homens deixam de agir e começam a contar a história do que aconteceu; então é como se os homens, ao perseguir seus propósitos sem se entender, sem a menor lógica, tivessem sido levados por uma “intenção da natureza”, pelo “fio condutor da razão” [Ver Kant, Idea for a Universal History from a Cosmopolitan Point of View (1784), Introdução, in Kant on History, ed. Lewis White Beck, Library of Liberal Arts, Indianapolis, Nova York, 1963, pp. 11-12.]. Citei Kant e Goethe, que estacaram, ambos, no limiar da nova geração, aquela dos idealistas alemães, para quem os acontecimentos da Revolução Francesa foram as experiências de vida decisivas. Mas Vico já sabia que os “fatos da história conhecida” tomados em si mesmos “não possuem nem uma base comum nem continuidade nem coerência”; e Hegel, muito depois, ainda insistia em que as “paixões, os propósitos privados e a satisfação de desejos egoístas, são [...] as mais efetivas fontes da ação”. Logo, não é o registro dos eventos passados, mas somente a história o que faz sentido, e o que tanto impressiona nas observações de Kant ao final da vida é ter ele entendido imediatamente que o sujeito da ação da História teria que ser a Humanidade, em vez de o homem ou qualquer comunidade humana constatável. Não menos impressionante é o fato de ter sido capaz de perceber a grande falha no projeto da História: “Continuará sempre sendo desconcertante que as gerações anteriores pareçam levar adiante sua pesada tarefa pelo bem dos que virão [...] e que somente os últimos devam ter a sorte de habitar o edifício [terminado].” [Ibidem, Terceira Tese. Trad. da autora] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13] |
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| Com essas palavras, Heidegger volta-se resolutamente contra o subjetivismo da Era Moderna; e também contra as análises fenomenológicas, cuja meta principal sempre foi “salvar os fenômenos” assim como eles eram dados à **CONSCIÊNCIA**. E ao entrar na ponte arco-íris de conceitos, ele acaba encaminhando-se para o idealismo alemão e para a sua exclusão engenhosa do homem e das faculdades do homem, em favor de conceitos personificados. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13] | Com essas palavras, Heidegger volta-se resolutamente contra o subjetivismo da Era Moderna; e também contra as análises fenomenológicas, cuja meta principal sempre foi “salvar os fenômenos” assim como eles eram dados à CONSCIÊNCIA. E ao entrar na ponte arco-íris de conceitos, ele acaba encaminhando-se para o idealismo alemão e para a sua exclusão engenhosa do homem e das faculdades do homem, em favor de conceitos personificados. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 13] |
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| Essa operação da vontade, existente apenas em nosso espírito, supera a dualidade espiritual do dois-em-um, que veio a tornar-se uma batalha entre um que comanda e um que supostamente deve obedecer, pela identificação do “Eu” como um todo com a parte que comanda, e antecipando que a outra, a parte que resiste, obedecerá e fará o que lhe disserem para fazer. “Aquilo que é chamado de ‘liberdade da vontade’ é essencialmente uma superioridade passional em relação a alguém que deve obedecer. ‘Eu sou livre; ele deve obedecer’ — a **CONSCIÊNCIA** disso é a própria vontade.” [N° 19] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] | Essa operação da vontade, existente apenas em nosso espírito, supera a dualidade espiritual do dois-em-um, que veio a tornar-se uma batalha entre um que comanda e um que supostamente deve obedecer, pela identificação do “Eu” como um todo com a parte que comanda, e antecipando que a outra, a parte que resiste, obedecerá e fará o que lhe disserem para fazer. “Aquilo que é chamado de ‘liberdade da vontade’ é essencialmente uma superioridade passional em relação a alguém que deve obedecer. ‘Eu sou livre; ele deve obedecer’ — a CONSCIÊNCIA disso é a própria vontade.” [N° 19] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] |
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| Não esperaríamos que Nietzsche acreditasse na graça divina como o poder de cura da dualidade da Vontade. O inesperado na descrição acima é que ele tenha detectado na “**CONSCIÊNCIA**” da luta uma espécie de truque do “Eu” que o capacita para escapar ao conflito identificando-se com a parte que comanda, e para fechar os olhos, por assim dizer, para os sentimentos desagradáveis e paralisantes de se estar sob coerção e, portanto, sempre prestes a resistir. Nietzsche com frequência denuncia esse sentimento de superioridade como uma ilusão, ainda que como uma ilusão saudável. Em outras passagens ele explica a “estranheza” do fenômeno como um todo chamando-o de uma “oscilação [da vontade] entre sim e não”, mas mantém-se preso ao sentimento da superioridade do “Eu”, identificando a oscilação com uma espécie de vaivém entre o prazer e a dor. O prazer, diferente neste e em outros aspectos do deletactio de Scotus, é claramente o júbilo antecipado do “eu-posso” inerente ao próprio ato de querer, independente da performance, do sentimento triunfante que todos conhecemos quando nos desempenhamos bem, independente de exaltação ou de plateia. Em Nietzsche, o que importa é que ele inclui os sentimentos negativos de servidão, de estar sob coação e de resistência ou ressentimento entre os obstáculos necessários sem os quais a Vontade nem sequer conheceria seu próprio poder. Somente ao vencer uma resistência interna é que a Vontade toma **CONSCIÊNCIA** de sua gênese: ela não brotou para adquirir poder; o poder é sua própria fonte. Novamente em Para além do bem e do mal: ‘‘‘Liberdade da vontade’ é a expressão para a condição prazerosa múltipla daquele que quer e que está no comando e simultaneamente se vê como o mesmo que executa o comando — desfrutando, enquanto tal, o triunfo sobre a resistência, mas de posse do juízo de que é sua própria vontade que está superando a resistência. Dessa maneira, aquele que quer acrescenta os sentimentos prazerosos da execução ao sentimento prazeroso que tem como Comandante.” [Ibidem, grifo nosso] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] | Não esperaríamos que Nietzsche acreditasse na graça divina como o poder de cura da dualidade da Vontade. O inesperado na descrição acima é que ele tenha detectado na “CONSCIÊNCIA” da luta uma espécie de truque do “Eu” que o capacita para escapar ao conflito identificando-se com a parte que comanda, e para fechar os olhos, por assim dizer, para os sentimentos desagradáveis e paralisantes de se estar sob coerção e, portanto, sempre prestes a resistir. Nietzsche com frequência denuncia esse sentimento de superioridade como uma ilusão, ainda que como uma ilusão saudável. Em outras passagens ele explica a “estranheza” do fenômeno como um todo chamando-o de uma “oscilação [da vontade] entre sim e não”, mas mantém-se preso ao sentimento da superioridade do “Eu”, identificando a oscilação com uma espécie de vaivém entre o prazer e a dor. O prazer, diferente neste e em outros aspectos do deletactio de Scotus, é claramente o júbilo antecipado do “eu-posso” inerente ao próprio ato de querer, independente da performance, do sentimento triunfante que todos conhecemos quando nos desempenhamos bem, independente de exaltação ou de plateia. Em Nietzsche, o que importa é que ele inclui os sentimentos negativos de servidão, de estar sob coação e de resistência ou ressentimento entre os obstáculos necessários sem os quais a Vontade nem sequer conheceria seu próprio poder. Somente ao vencer uma resistência interna é que a Vontade toma CONSCIÊNCIA de sua gênese: ela não brotou para adquirir poder; o poder é sua própria fonte. Novamente em Para além do bem e do mal: ‘‘‘Liberdade da vontade’ é a expressão para a condição prazerosa múltipla daquele que quer e que está no comando e simultaneamente se vê como o mesmo que executa o comando — desfrutando, enquanto tal, o triunfo sobre a resistência, mas de posse do juízo de que é sua própria vontade que está superando a resistência. Dessa maneira, aquele que quer acrescenta os sentimentos prazerosos da execução ao sentimento prazeroso que tem como Comandante.” [Ibidem, grifo nosso] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] |
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| Seu exame é mais penetrante e mais crítico porque, no lugar do cálculo de utilidades de Hume e de seu “sentimento moral”, ele postula a experiência de um “eu-quero” a que se segue um efeito; isto é, usa o fato de que o homem tem **CONSCIÊNCIA** de si mesmo como um agente causativo mesmo antes de ter feito qualquer coisa. Mas Nietzsche não acredita que isto torne a Vontade menos irrelevante; para Nietzsche, assim como para Hume, a vontade livre é uma ilusão inerente à natureza humana, uma ilusão de que a filosofia, um exame crítico de nossas faculdades, irá nos curar. Só que, para Nietzsche, as consequências morais dessa cura são decididamente mais sérias. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] | Seu exame é mais penetrante e mais crítico porque, no lugar do cálculo de utilidades de Hume e de seu “sentimento moral”, ele postula a experiência de um “eu-quero” a que se segue um efeito; isto é, usa o fato de que o homem tem CONSCIÊNCIA de si mesmo como um agente causativo mesmo antes de ter feito qualquer coisa. Mas Nietzsche não acredita que isto torne a Vontade menos irrelevante; para Nietzsche, assim como para Hume, a vontade livre é uma ilusão inerente à natureza humana, uma ilusão de que a filosofia, um exame crítico de nossas faculdades, irá nos curar. Só que, para Nietzsche, as consequências morais dessa cura são decididamente mais sérias. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] |
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| Se já não podemos atribuir “o valor de uma ação [...] à intenção, o propósito que nos levou a agir ou a viver [...] [se] a ausência de intenção e propósito nos acontecimentos vem cada vez mais para o primeiro plano da **CONSCIÊNCIA**”, fica inevitável concluir que “nada tem qualquer significado”, pois “essa frase melancólica significa ‘Todo significado está na intenção, e se a intenção falta de todo, então falta de todo também o significado’”. Logo: “Por que ‘um propósito’ não poderia ser um epifenômeno na série de mudanças de forças efetivas que produz a ação intencionada — uma pálida imagem em nossa **CONSCIÊNCIA** [...] um indício de ocorrências, e não sua causa? — Mas com isso teremos criticado a vontade em si: não será uma ilusão tomar por causa aquilo que surge para a **CONSCIÊNCIA** como um ato da vontade?” (grifos nossos). [Ibidem, n° 666, pp. 351-352. Trad. da autora.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] | Se já não podemos atribuir “o valor de uma ação [...] à intenção, o propósito que nos levou a agir ou a viver [...] [se] a ausência de intenção e propósito nos acontecimentos vem cada vez mais para o primeiro plano da CONSCIÊNCIA”, fica inevitável concluir que “nada tem qualquer significado”, pois “essa frase melancólica significa ‘Todo significado está na intenção, e se a intenção falta de todo, então falta de todo também o significado’”. Logo: “Por que ‘um propósito’ não poderia ser um epifenômeno na série de mudanças de forças efetivas que produz a ação intencionada — uma pálida imagem em nossa CONSCIÊNCIA [...] um indício de ocorrências, e não sua causa? — Mas com isso teremos criticado a vontade em si: não será uma ilusão tomar por causa aquilo que surge para a CONSCIÊNCIA como um ato da vontade?” (grifos nossos). [Ibidem, n° 666, pp. 351-352. Trad. da autora.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] |
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| Em terceiro lugar, a Vontade — seja quando é vontade retroativa e percebe sua impotência, seja quando é vontade projetiva e percebe sua força — transcende a simples gratuidade [giveness] do mundo. Tal transcendência é espontânea e corresponde à avassaladora superabundância de Vida. O objetivo autêntico da Vontade é, portanto, a abundância: “Com as palavras ‘liberdade da Vontade’ falamos desse sentimento de excesso de força”, e o sentimento é mais do que uma simples ilusão da **CONSCIÊNCIA** porque corresponde de fato à própria superabundância de vida. Seria portanto possível entender toda a Vida como Vontade-de-potência. “Somente onde há vida há também vontade: não vontade de vida mas [...] vontade de potência.” [Thus Spoke Zarathustra, parte II, “On Self-Overcoming”, in The Portable Nietzsche, p. 227] Pois seria bem possível explicar a “alimentação” como a “consequência de apropriação insaciável de vontade de potência, [e] a ‘procriação’ [como] a desagregação que sobrevém quando as células dominantes são incapazes de organizar aquilo que foi apropriado” [The Will to Power, n° 660, p. 349]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] | Em terceiro lugar, a Vontade — seja quando é vontade retroativa e percebe sua impotência, seja quando é vontade projetiva e percebe sua força — transcende a simples gratuidade [giveness] do mundo. Tal transcendência é espontânea e corresponde à avassaladora superabundância de Vida. O objetivo autêntico da Vontade é, portanto, a abundância: “Com as palavras ‘liberdade da Vontade’ falamos desse sentimento de excesso de força”, e o sentimento é mais do que uma simples ilusão da CONSCIÊNCIA porque corresponde de fato à própria superabundância de vida. Seria portanto possível entender toda a Vida como Vontade-de-potência. “Somente onde há vida há também vontade: não vontade de vida mas [...] vontade de potência.” [Thus Spoke Zarathustra, parte II, “On Self-Overcoming”, in The Portable Nietzsche, p. 227] Pois seria bem possível explicar a “alimentação” como a “consequência de apropriação insaciável de vontade de potência, [e] a ‘procriação’ [como] a desagregação que sobrevém quando as células dominantes são incapazes de organizar aquilo que foi apropriado” [The Will to Power, n° 660, p. 349]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 14] |
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| Nessa compreensão radical de Nietzsche, a Vontade é essencialmente destrutiva; e é a essa destrutividade que a reversão original de Heidegger se contrapõe. Seguindo essa interpretação, a própria natureza da tecnologia é a vontade de querer, ou seja, de sujeitar o mundo todo à sua dominação e jugo, cujo fim natural só pode ser a destruição total. A alternativa a esse jugo é “deixar-ser, e o deixar-ser como atividade é o pensamento que obedece ao chamado do Ser”. A disposição que permeia o deixar-ser do pensamento é o oposto da disposição de finalidade no querer; mais tarde, em sua reinterpretação da “reviravolta”, Heidegger a chama de “Gelassenheit”, uma serenidade que corresponde ao deixar — ser e que “nos prepara” para “um pensamento que não é uma vontade” [Gelassenheit, p. 33; Discourse on Thinking, p. 60]. Esse pensamento está “além da distinção entre atividade e passividade” porque está além do “domínio da Vontade”, isto é, além da categoria da causalidade, que Heidegger, concordando com Nietzsche, deriva da experiência que o ego volitivo tem de produzir efeitos e, portanto, de uma ilusão produzida pela **CONSCIÊNCIA**. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Nessa compreensão radical de Nietzsche, a Vontade é essencialmente destrutiva; e é a essa destrutividade que a reversão original de Heidegger se contrapõe. Seguindo essa interpretação, a própria natureza da tecnologia é a vontade de querer, ou seja, de sujeitar o mundo todo à sua dominação e jugo, cujo fim natural só pode ser a destruição total. A alternativa a esse jugo é “deixar-ser, e o deixar-ser como atividade é o pensamento que obedece ao chamado do Ser”. A disposição que permeia o deixar-ser do pensamento é o oposto da disposição de finalidade no querer; mais tarde, em sua reinterpretação da “reviravolta”, Heidegger a chama de “Gelassenheit”, uma serenidade que corresponde ao deixar — ser e que “nos prepara” para “um pensamento que não é uma vontade” [Gelassenheit, p. 33; Discourse on Thinking, p. 60]. Esse pensamento está “além da distinção entre atividade e passividade” porque está além do “domínio da Vontade”, isto é, além da categoria da causalidade, que Heidegger, concordando com Nietzsche, deriva da experiência que o ego volitivo tem de produzir efeitos e, portanto, de uma ilusão produzida pela CONSCIÊNCIA. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| O insight segundo o qual pensar e querer não são somente duas faculdades do ser enigmático chamado “homem”, mas são também opostos, ocorreu tanto a Nietzsche quanto a Heidegger. É a versão de ambos do conflito fatal que se processa quando o dois-em-um da **CONSCIÊNCIA**, realizado no diálogo sem som de mim comigo mesmo, transforma sua harmonia e amizade originais em um conflito contínuo entre vontade e contravontade, entre comando e resistência. Mas encontramos testemunho deste conflito por toda a história desta faculdade. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | O insight segundo o qual pensar e querer não são somente duas faculdades do ser enigmático chamado “homem”, mas são também opostos, ocorreu tanto a Nietzsche quanto a Heidegger. É a versão de ambos do conflito fatal que se processa quando o dois-em-um da CONSCIÊNCIA, realizado no diálogo sem som de mim comigo mesmo, transforma sua harmonia e amizade originais em um conflito contínuo entre vontade e contravontade, entre comando e resistência. Mas encontramos testemunho deste conflito por toda a história desta faculdade. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Nem sequer precisamos de uma demonstração das influências históricas para compreendermos a persistência obstinada da ideia, desde a ficção etérea de Platão até o constructo espiritual de Hegel — que resultou de um repensar sem precedentes sobre a história do mundo que eliminava deliberadamente do registro factual tudo o que é “meramente” factual por ser acidental ou sem importância. A simples verdade é que nenhum homem pode agir sozinho, embora seus motivos para agir possam ser certos projetos, desejos, paixões e objetivos pessoais. Tampouco podemos jamais realizar qualquer coisa completamente conforme o planejado (mesmo quando, como archón, conseguimos liderar e iniciar, e esperamos que nossos seguidores e ajudantes executem aquilo que começamos), e isso se combina com a nossa **CONSCIÊNCIA** de sermos capazes de causar um efeito, gerando a noção de que o resultado real deve ser atribuído a alguma força estranha, sobrenatural, que, sem perturbar-se com pluralidade humana, fornece o resultado final. Essa falácia assemelha-se à que Nietzsche detectou na ideia de um “progresso” necessário da Humanidade. Repetindo: “A ‘Humanidade’ não avança; nem sequer existe [...]. [Mas já que] o tempo marcha para a frente, gostaríamos de acreditar que tudo o que está nele marcha também para a frente — que o desenvolvimento é tal que se move para a frente.” [The Will to Power, n° 90, p. 55] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Nem sequer precisamos de uma demonstração das influências históricas para compreendermos a persistência obstinada da ideia, desde a ficção etérea de Platão até o constructo espiritual de Hegel — que resultou de um repensar sem precedentes sobre a história do mundo que eliminava deliberadamente do registro factual tudo o que é “meramente” factual por ser acidental ou sem importância. A simples verdade é que nenhum homem pode agir sozinho, embora seus motivos para agir possam ser certos projetos, desejos, paixões e objetivos pessoais. Tampouco podemos jamais realizar qualquer coisa completamente conforme o planejado (mesmo quando, como archón, conseguimos liderar e iniciar, e esperamos que nossos seguidores e ajudantes executem aquilo que começamos), e isso se combina com a nossa CONSCIÊNCIA de sermos capazes de causar um efeito, gerando a noção de que o resultado real deve ser atribuído a alguma força estranha, sobrenatural, que, sem perturbar-se com pluralidade humana, fornece o resultado final. Essa falácia assemelha-se à que Nietzsche detectou na ideia de um “progresso” necessário da Humanidade. Repetindo: “A ‘Humanidade’ não avança; nem sequer existe [...]. [Mas já que] o tempo marcha para a frente, gostaríamos de acreditar que tudo o que está nele marcha também para a frente — que o desenvolvimento é tal que se move para a frente.” [The Will to Power, n° 90, p. 55] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Certamente a Seinsgeschichte de Heidegger não pode deixar de nos lembrar o Espírito do Mundo de Hegel. A diferença, entretanto, é decisiva. Quando Hegel viu “o Espírito do Mundo a cavalo” em Napoleão em Jena, sabia que Napoleão não tinha ele próprio **CONSCIÊNCIA** de ser a encarnação do Espírito, sabia que ele estava agindo segundo aquela mistura humana comum de objetivos de curto prazo, desejos e paixões; para Heidegger, contudo, é o próprio Ser que, sempre mudando, se manifesta no pensamento do agente, de modo que agir e pensar coincidem. “Se agir significa dar auxílio à essência do Ser, então pensar é, na verdade, agir. Isto é, preparar-se [construir uma morada] para a essência do Ser em meio aos entes pelos quais o Ser se transpõe, junto com sua essência, à fala. Sem a fala, o simples fazer ressente-se da falta da dimensão em que pode efetivar-se e seguir instruções. A fala, entretanto, nunca é uma simples expressão do pensamento, do sentimento ou da vontade. A fala é a dimensão original na qual o ser humano é capaz de responder ao chamado do Ser e, respondendo, pertencer a ele. O pensamento é a realização dessa correspondência original.” [Die Technik und die Kehre, Pfulllingen, 1962, p. 40] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Certamente a Seinsgeschichte de Heidegger não pode deixar de nos lembrar o Espírito do Mundo de Hegel. A diferença, entretanto, é decisiva. Quando Hegel viu “o Espírito do Mundo a cavalo” em Napoleão em Jena, sabia que Napoleão não tinha ele próprio CONSCIÊNCIA de ser a encarnação do Espírito, sabia que ele estava agindo segundo aquela mistura humana comum de objetivos de curto prazo, desejos e paixões; para Heidegger, contudo, é o próprio Ser que, sempre mudando, se manifesta no pensamento do agente, de modo que agir e pensar coincidem. “Se agir significa dar auxílio à essência do Ser, então pensar é, na verdade, agir. Isto é, preparar-se [construir uma morada] para a essência do Ser em meio aos entes pelos quais o Ser se transpõe, junto com sua essência, à fala. Sem a fala, o simples fazer ressente-se da falta da dimensão em que pode efetivar-se e seguir instruções. A fala, entretanto, nunca é uma simples expressão do pensamento, do sentimento ou da vontade. A fala é a dimensão original na qual o ser humano é capaz de responder ao chamado do Ser e, respondendo, pertencer a ele. O pensamento é a realização dessa correspondência original.” [Die Technik und die Kehre, Pfulllingen, 1962, p. 40] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Para sublinhar a semelhança entre Cuidado (antes da “reviravolta”) e Vontade em um cenário moderno, voltamos-nos para Bergson, que — certamente não influenciado por pensadores anteriores, mas seguindo a evidência imediata da **CONSCIÊNCIA** — propusera, apenas algumas décadas antes de Heidegger, a coexistência de dois eus, um social (o “Eles” de Heidegger) e o outro, o “fundamental” (o “autêntico” de Heidegger). A função da vontade é “recuperar esse eu fundamental das “atribulações da vida social em geral e da linguagem em particular”, isto é, daquela linguagem falada habitualmente em que cada palavra tem um “significado social” [Bergson, Time and Free Will, pp. 128-130, 133]. Trata-se de uma linguagem repleta de clichês, necessária para a comunicação com os outros em “um mundo externo bem distinto de [nós mesmos], que é a propriedade comum a todos os seres conscientes”. A vida em comum com os outros criou seu próprio tipo de fala, que leva à formação de “um segundo eu [...] que obscurece o primeiro”. A tarefa da filosofia é levar de volta esse eu social para “o eu real e concreto [...], cuja atividade não pode ser comparada à de qualquer outra força”, porque essa força é a pura espontaneidade da qual “cada um de nós tem conhecimento imediato”, adquirido pela observação imediata que se faz de si mesmo [Ibidem, pp. 138-143; cf. p. 183]. E Bergson, bem na linha de Nietzsche e também, por assim dizer, em sintonia com Heidegger, enxerga a “prova” dessa espontaneidade na criatividade artística. A geração de uma obra de arte não pode ser explicada por causas antecedentes, como se aquilo que agora é real estivesse antes latente ou potencial, seja na forma de causas externas ou de motivos internos: “Quando um músico compõe uma sinfonia, sua obra era possível antes de ser real?” [Bergson, Creative Mind, trad. Mabelle L. Andison, Nova York, 1946, pp. 27 e 22] Heidegger está bastante alinhado com a posição geral quando escreve, no volume I de Nietzsche (isto é, antes da “reviravolta”): “Querer sempre significa: trazer-se a si mesmo [...]. Querendo, encontramo-nos conosco assim como somos autenticamente.” [Pp. 63-64] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Para sublinhar a semelhança entre Cuidado (antes da “reviravolta”) e Vontade em um cenário moderno, voltamos-nos para Bergson, que — certamente não influenciado por pensadores anteriores, mas seguindo a evidência imediata da CONSCIÊNCIA — propusera, apenas algumas décadas antes de Heidegger, a coexistência de dois eus, um social (o “Eles” de Heidegger) e o outro, o “fundamental” (o “autêntico” de Heidegger). A função da vontade é “recuperar esse eu fundamental das “atribulações da vida social em geral e da linguagem em particular”, isto é, daquela linguagem falada habitualmente em que cada palavra tem um “significado social” [Bergson, Time and Free Will, pp. 128-130, 133]. Trata-se de uma linguagem repleta de clichês, necessária para a comunicação com os outros em “um mundo externo bem distinto de [nós mesmos], que é a propriedade comum a todos os seres conscientes”. A vida em comum com os outros criou seu próprio tipo de fala, que leva à formação de “um segundo eu [...] que obscurece o primeiro”. A tarefa da filosofia é levar de volta esse eu social para “o eu real e concreto [...], cuja atividade não pode ser comparada à de qualquer outra força”, porque essa força é a pura espontaneidade da qual “cada um de nós tem conhecimento imediato”, adquirido pela observação imediata que se faz de si mesmo [Ibidem, pp. 138-143; cf. p. 183]. E Bergson, bem na linha de Nietzsche e também, por assim dizer, em sintonia com Heidegger, enxerga a “prova” dessa espontaneidade na criatividade artística. A geração de uma obra de arte não pode ser explicada por causas antecedentes, como se aquilo que agora é real estivesse antes latente ou potencial, seja na forma de causas externas ou de motivos internos: “Quando um músico compõe uma sinfonia, sua obra era possível antes de ser real?” [Bergson, Creative Mind, trad. Mabelle L. Andison, Nova York, 1946, pp. 27 e 22] Heidegger está bastante alinhado com a posição geral quando escreve, no volume I de Nietzsche (isto é, antes da “reviravolta”): “Querer sempre significa: trazer-se a si mesmo [...]. Querendo, encontramo-nos conosco assim como somos autenticamente.” [Pp. 63-64] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Ainda assim, essa é toda a afinidade que se pode encontrar entre Heidegger e seus predecessores imediatos. Nunca, em Ser e Tempo — exceto por uma observação lateral sobre a fala poética “como desvelamento possível da existência” [N° 34, p. 162] —, a criatividade artística é mencionada. No volume I de Nietzsche, a tensão e a relação íntima entre poesia e filosofia, entre o poeta e o filósofo, é observada em duas ocasiões, mas nunca no sentido, nietzschiano ou bergsoniano, de criatividade pura [Pp. 329 e 470-471]. Em Ser e Tempo, ao contrário, o Eu torna-se manifesto na “voz da **CONSCIÊNCIA**”, que chama o homem para retornar de seu próprio enredamento cotidiano no “man” (em alemão, um elemento que denota impessoalidade, “as pessoas” ou “eles”), retorno que a **CONSCIÊNCIA**, em seu chamado, desvela como “culpa” humana, uma palavra (Schuld) que em alemão quer dizer tanto ser culpado (ser responsável) por algum ato quanto ter dívidas, no sentido de dever algo a alguém [Nos 54-59. Ver especialmente pp. 268 e ss]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Ainda assim, essa é toda a afinidade que se pode encontrar entre Heidegger e seus predecessores imediatos. Nunca, em Ser e Tempo — exceto por uma observação lateral sobre a fala poética “como desvelamento possível da existência” [N° 34, p. 162] —, a criatividade artística é mencionada. No volume I de Nietzsche, a tensão e a relação íntima entre poesia e filosofia, entre o poeta e o filósofo, é observada em duas ocasiões, mas nunca no sentido, nietzschiano ou bergsoniano, de criatividade pura [Pp. 329 e 470-471]. Em Ser e Tempo, ao contrário, o Eu torna-se manifesto na “voz da CONSCIÊNCIA”, que chama o homem para retornar de seu próprio enredamento cotidiano no “man” (em alemão, um elemento que denota impessoalidade, “as pessoas” ou “eles”), retorno que a CONSCIÊNCIA, em seu chamado, desvela como “culpa” humana, uma palavra (Schuld) que em alemão quer dizer tanto ser culpado (ser responsável) por algum ato quanto ter dívidas, no sentido de dever algo a alguém [Nos 54-59. Ver especialmente pp. 268 e ss]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| O ponto principal na “ideia de culpa” de Heidegger é que a existência humana é culpada à medida que “existe factualmente”; não “precisa tornar-se culpada de algo por omissões ou práticas; [apenas é chamada] para realizar autenticamente a ‘culpa’ que, de qualquer forma, ela é” [Ibidem, n° 58, p. 287]. (Aparentemente nunca ocorreu a Heidegger que, fazendo com que todos os homens que escutam o “chamado da **CONSCIÊNCIA**” sejam igualmente culpados, ele estava, na verdade, proclamando a inocência universal: onde todos são culpados, ninguém é culpado.) Essa culpa existencial — dada pela existência humana — se estabelece de duas maneiras. Inspirado na ideia de Goethe de que “aquele que age sempre se torna culpado”, Heidegger mostra que toda ação, ao realizar uma única possibilidade, mata de um só golpe todas as outras dentre as quais teve que fazer a escolha. Todo compromisso acarreta algumas desistências. Mais importante do que isso, entretanto, é que o conceito de “ser lançado no mundo” já implica que a existência humana deve sua existência a algo que não é ela mesma; está endividada em virtude de sua própria existência: o Dasein — a existência humana naquilo que é — “foi lançado; está aí, mas não foi trazido aí por si mesmo” [Ibidem, p. 284]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | O ponto principal na “ideia de culpa” de Heidegger é que a existência humana é culpada à medida que “existe factualmente”; não “precisa tornar-se culpada de algo por omissões ou práticas; [apenas é chamada] para realizar autenticamente a ‘culpa’ que, de qualquer forma, ela é” [Ibidem, n° 58, p. 287]. (Aparentemente nunca ocorreu a Heidegger que, fazendo com que todos os homens que escutam o “chamado da CONSCIÊNCIA” sejam igualmente culpados, ele estava, na verdade, proclamando a inocência universal: onde todos são culpados, ninguém é culpado.) Essa culpa existencial — dada pela existência humana — se estabelece de duas maneiras. Inspirado na ideia de Goethe de que “aquele que age sempre se torna culpado”, Heidegger mostra que toda ação, ao realizar uma única possibilidade, mata de um só golpe todas as outras dentre as quais teve que fazer a escolha. Todo compromisso acarreta algumas desistências. Mais importante do que isso, entretanto, é que o conceito de “ser lançado no mundo” já implica que a existência humana deve sua existência a algo que não é ela mesma; está endividada em virtude de sua própria existência: o Dasein — a existência humana naquilo que é — “foi lançado; está aí, mas não foi trazido aí por si mesmo” [Ibidem, p. 284]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| A **CONSCIÊNCIA** exige que o homem aceite essa “dívida”, e aceitação significa que o Eu consegue uma espécie de “ação” (handeln), entendida polemicamente como o oposto das ações “audíveis” e visíveis da vida pública — a simples espuma daquilo que verdadeiramente é. Esse agir é silencioso, é um “deixar o próprio eu agir em sua dívida”, e essa “ação” completamente interior, na qual o homem se abre para a autêntica realidade de ser lançado [Ibidem, n° 59-60, pp. 294-295], só pode existir na atividade do pensamento. Essa é provavelmente a razão pela qual Heidegger, por toda sua obra, “evitou propositalmente” [Ibidem, n° 60, p. 300] lidar com a ação. O que mais surpreende em sua interpretação da **CONSCIÊNCIA** é a veemente denúncia da “interpretação comum da **CONSCIÊNCIA**”, que sempre concebeu como uma espécie de solilóquio, “o diálogo sem som de mim comigo mesmo”. Tal diálogo, sustenta Heidegger, só pode ser explicado como uma tentativa inautêntica de autojustificação contra as alegações do “Eles”. E isso é ainda mais impressionante porque Heidegger, em um contexto diferente — e, é verdade, apenas de maneira marginal —, fala da “voz de um amigo que todo Dasein [existência humana] traz consigo” [Ibidem, n° 34, p. 163]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | A CONSCIÊNCIA exige que o homem aceite essa “dívida”, e aceitação significa que o Eu consegue uma espécie de “ação” (handeln), entendida polemicamente como o oposto das ações “audíveis” e visíveis da vida pública — a simples espuma daquilo que verdadeiramente é. Esse agir é silencioso, é um “deixar o próprio eu agir em sua dívida”, e essa “ação” completamente interior, na qual o homem se abre para a autêntica realidade de ser lançado [Ibidem, n° 59-60, pp. 294-295], só pode existir na atividade do pensamento. Essa é provavelmente a razão pela qual Heidegger, por toda sua obra, “evitou propositalmente” [Ibidem, n° 60, p. 300] lidar com a ação. O que mais surpreende em sua interpretação da CONSCIÊNCIA é a veemente denúncia da “interpretação comum da CONSCIÊNCIA”, que sempre concebeu como uma espécie de solilóquio, “o diálogo sem som de mim comigo mesmo”. Tal diálogo, sustenta Heidegger, só pode ser explicado como uma tentativa inautêntica de autojustificação contra as alegações do “Eles”. E isso é ainda mais impressionante porque Heidegger, em um contexto diferente — e, é verdade, apenas de maneira marginal —, fala da “voz de um amigo que todo Dasein [existência humana] traz consigo” [Ibidem, n° 34, p. 163]. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Por mais estranha e, em última análise, inexplicável que a análise da **CONSCIÊNCIA** em Heidegger possa se mostrar pela evidência fenomenológica, a ligação com os simples fatos da existência humana, implícitos no conceito de uma dívida primordial, certamente contém a primeira pista para a identificação que posteriormente ele faz entre pensar e agradecer. O que o chamado da **CONSCIÊNCIA** realiza, na verdade, é a recuperação do eu individualizado (vereinzeltes), de seu envolvimento nos acontecimentos que determinam as atividades cotidianas do homem e no curso do registro histórico — l’écume des choses. Intimado novamente, o eu dirige-se agora para um pensamento que expressa gratidão por “aquilo nu” ter sido dado. Confrontado com o Ser, a atitude do homem deve ser a do agradecimento. E cumpre que isso seja visto como uma variante do thaumazein de Platão, o princípio iniciador da filosofia. Lidamos com aquele espanto admirativo; e encontrá-lo em um contexto moderno não impressiona nem surpreende; basta pensar na exaltação “daqueles que dizem Sim” de Nietzsche ou desviar a atenção das especulações acadêmicas para alguns dos grandes poetas deste século. Eles mostram pelo menos como pode ser sugestiva uma afirmação como esta na solução para a aparente falta de sentido em um mundo completamente secularizado. Aqui estão duas linhas do russo Osip Mandelstam, escritas em 1918: We will remember in Lethe’s cold waters / The earth for us has been worth a thousand heavens. [Lembraremos nas águas frias do Lethe/ Que a terra valeu para nós por mil céus. (N. T.)] Esses versos podem ser facilmente comparados com algumas linhas de Rainer Maria Rilke nas Elegias de Duíno, escritas mais ou menos na mesma época; cito algumas delas: Erde du liebe, ich will. Oh glaub es bedürfte / Nicht deiner Frühlinge mehr, mich dir zu gewinnem, / Einer, ach ein einziger ist schon dem Blute zu viel. / Namenlos bin ich zu dir entschlossen von weit her, / Immer warst du im recht.(...) [Terra, tu querida, és o que desejo. Oh! acredita-me, não precisas/ Mais de tuas primaveras para ganhar-me; uma única,/ Só uma, já é mais do que meu sangue pode resistir./ Fui agora indizivelmente teu por tempos e tempos./ Estiveste sempre certa. (Nona Elegia). (N. T.)] E, finalmente, como um lembrete, cito novamente o que W. H. Auden escreveu mais ou menos vinte anos mais tarde: That singular command / I do not understand, / Bless what there is for being, / Which has to be obeyed, for / What else am I made for, / Agreeing or disagreeing? [Aquela ordem singular/ que eu não compreendo:/ abençoai tudo o que é, por si/ A qual tem de ser obedecida, pois/ Para que outra coisa eu fui feito/ Concordando ou divergindo? (N. T.)] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Por mais estranha e, em última análise, inexplicável que a análise da CONSCIÊNCIA em Heidegger possa se mostrar pela evidência fenomenológica, a ligação com os simples fatos da existência humana, implícitos no conceito de uma dívida primordial, certamente contém a primeira pista para a identificação que posteriormente ele faz entre pensar e agradecer. O que o chamado da CONSCIÊNCIA realiza, na verdade, é a recuperação do eu individualizado (vereinzeltes), de seu envolvimento nos acontecimentos que determinam as atividades cotidianas do homem e no curso do registro histórico — l’écume des choses. Intimado novamente, o eu dirige-se agora para um pensamento que expressa gratidão por “aquilo nu” ter sido dado. Confrontado com o Ser, a atitude do homem deve ser a do agradecimento. E cumpre que isso seja visto como uma variante do thaumazein de Platão, o princípio iniciador da filosofia. Lidamos com aquele espanto admirativo; e encontrá-lo em um contexto moderno não impressiona nem surpreende; basta pensar na exaltação “daqueles que dizem Sim” de Nietzsche ou desviar a atenção das especulações acadêmicas para alguns dos grandes poetas deste século. Eles mostram pelo menos como pode ser sugestiva uma afirmação como esta na solução para a aparente falta de sentido em um mundo completamente secularizado. Aqui estão duas linhas do russo Osip Mandelstam, escritas em 1918: We will remember in Lethe’s cold waters / The earth for us has been worth a thousand heavens. [Lembraremos nas águas frias do Lethe/ Que a terra valeu para nós por mil céus. (N. T.)] Esses versos podem ser facilmente comparados com algumas linhas de Rainer Maria Rilke nas Elegias de Duíno, escritas mais ou menos na mesma época; cito algumas delas: Erde du liebe, ich will. Oh glaub es bedürfte / Nicht deiner Frühlinge mehr, mich dir zu gewinnem, / Einer, ach ein einziger ist schon dem Blute zu viel. / Namenlos bin ich zu dir entschlossen von weit her, / Immer warst du im recht.(...) [Terra, tu querida, és o que desejo. Oh! acredita-me, não precisas/ Mais de tuas primaveras para ganhar-me; uma única,/ Só uma, já é mais do que meu sangue pode resistir./ Fui agora indizivelmente teu por tempos e tempos./ Estiveste sempre certa. (Nona Elegia). (N. T.)] E, finalmente, como um lembrete, cito novamente o que W. H. Auden escreveu mais ou menos vinte anos mais tarde: That singular command / I do not understand, / Bless what there is for being, / Which has to be obeyed, for / What else am I made for, / Agreeing or disagreeing? [Aquela ordem singular/ que eu não compreendo:/ abençoai tudo o que é, por si/ A qual tem de ser obedecida, pois/ Para que outra coisa eu fui feito/ Concordando ou divergindo? (N. T.)] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Esse Alguém, o pensador que se desabituou de querer, passando a “deixar-ser”, é, na verdade, o “autêntico Eu” de Ser e Tempo, que agora ouve o chamado do Ser, em lugar do chamado da **CONSCIÊNCIA**. Diferente do Eu, o pensador não é convocado por si mesmo a seu Eu; contudo “ouvir o chamado autenticamente significa mais uma vez persuadir-se a agir factualmente” (“sich in das faktische Handeln bringen”) [Ibidem, nº 59, p. 294]. Nesse contexto, a “reviravolta” significa que o Eu não atua mais em si mesmo (o que se abandonou foi o In-sich-handeln-lassen des eigensten Selbst) [Ibidem, n° 59-60, p. 295], mas, obediente ao Ser, desempenha pelo pensamento puro o papel de contracorrente de Ser que subjaz à “espuma” dos seres — as meras aparências cuja corrente é conduzida pela vontade de potência. O “Eles” reaparece aqui, mas sua principal característica não é mais o “palavrório” (Gerede); é a destrutividade inerente ao querer. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Esse Alguém, o pensador que se desabituou de querer, passando a “deixar-ser”, é, na verdade, o “autêntico Eu” de Ser e Tempo, que agora ouve o chamado do Ser, em lugar do chamado da CONSCIÊNCIA. Diferente do Eu, o pensador não é convocado por si mesmo a seu Eu; contudo “ouvir o chamado autenticamente significa mais uma vez persuadir-se a agir factualmente” (“sich in das faktische Handeln bringen”) [Ibidem, nº 59, p. 294]. Nesse contexto, a “reviravolta” significa que o Eu não atua mais em si mesmo (o que se abandonou foi o In-sich-handeln-lassen des eigensten Selbst) [Ibidem, n° 59-60, p. 295], mas, obediente ao Ser, desempenha pelo pensamento puro o papel de contracorrente de Ser que subjaz à “espuma” dos seres — as meras aparências cuja corrente é conduzida pela vontade de potência. O “Eles” reaparece aqui, mas sua principal característica não é mais o “palavrório” (Gerede); é a destrutividade inerente ao querer. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Esses enunciados trazem-nos de volta a território familiar, como fica evidente quando lemos aí que a desordem é “trágica” e não uma coisa pela qual se pode responsabilizar o homem. Com certeza, não há mais qualquer “chamado da **CONSCIÊNCIA**” convocando o homem de volta ao seu eu autêntico, ao insight de que, não importa o que tenha feito ou se omitido de fazer, era já schuldig (“culpado”), já que sua existência era algo que ele “devia”, depois de ter sido lançado no mundo. Mas, assim como em Ser e Tempo este eu “culpado” podia salvar-se antecipando sua morte, aqui também o Dasein “errante”, enquanto “demora-se um pouco” no reino da errância, pode, através da atividade do pensamento, juntar-se ao que está ausente. Há entretanto a diferença de que aqui o ausente (o Ser em sua permanente retirada) não tem história no reino da errância, e de que pensar e agir não coincidem. Agir é errar, perder-se. Deveríamos considerar também de que modo a definição inicial do ser-culpado como traço primordial do Dasein, independentemente de qualquer ato específico, foi substituída por “errar” como a marca decisiva de toda a história humana. (Ambas as formulações, a propósito, lembrarão curiosamente para quem lê alemão o “Der Handelnde wird immer schuldig” e o “Es irrt der Mensch solang er strebt” de Goethe.) [Para evitar equívocos: ambas as citações são tão famosas que já fazem parte da língua alemã. Todo falante de alemão pensa geralmente nesses termos sem necessariamente ter sido influenciado por Goethe.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] | Esses enunciados trazem-nos de volta a território familiar, como fica evidente quando lemos aí que a desordem é “trágica” e não uma coisa pela qual se pode responsabilizar o homem. Com certeza, não há mais qualquer “chamado da CONSCIÊNCIA” convocando o homem de volta ao seu eu autêntico, ao insight de que, não importa o que tenha feito ou se omitido de fazer, era já schuldig (“culpado”), já que sua existência era algo que ele “devia”, depois de ter sido lançado no mundo. Mas, assim como em Ser e Tempo este eu “culpado” podia salvar-se antecipando sua morte, aqui também o Dasein “errante”, enquanto “demora-se um pouco” no reino da errância, pode, através da atividade do pensamento, juntar-se ao que está ausente. Há entretanto a diferença de que aqui o ausente (o Ser em sua permanente retirada) não tem história no reino da errância, e de que pensar e agir não coincidem. Agir é errar, perder-se. Deveríamos considerar também de que modo a definição inicial do ser-culpado como traço primordial do Dasein, independentemente de qualquer ato específico, foi substituída por “errar” como a marca decisiva de toda a história humana. (Ambas as formulações, a propósito, lembrarão curiosamente para quem lê alemão o “Der Handelnde wird immer schuldig” e o “Es irrt der Mensch solang er strebt” de Goethe.) [Para evitar equívocos: ambas as citações são tão famosas que já fazem parte da língua alemã. Todo falante de alemão pensa geralmente nesses termos sem necessariamente ter sido influenciado por Goethe.] [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 15] |
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| Parece somente natural que essa geração de fundadores, em cujas descobertas a ciência moderna se baseou e cujas reflexões acerca do que estavam fazendo produziram a “crise nos fundamentos”, fosse seguida por muitas gerações de epígonos menos eminentes que acham mais fácil responder a questões irrespondíveis por terem menos **CONSCIÊNCIA** da linha que separa suas atividades habituais de suas reflexões sobre elas. Falei da orgia de pensamento especulativo que se seguiu à liberação kantiana da necessidade da razão de pensar além da capacidade cognitiva do intelecto, os jogos que os idealistas alemães fizeram com os conceitos personificados e as alegações feitas para a validade científica — algo que muito se distancia da “crítica” de Kant. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | Parece somente natural que essa geração de fundadores, em cujas descobertas a ciência moderna se baseou e cujas reflexões acerca do que estavam fazendo produziram a “crise nos fundamentos”, fosse seguida por muitas gerações de epígonos menos eminentes que acham mais fácil responder a questões irrespondíveis por terem menos CONSCIÊNCIA da linha que separa suas atividades habituais de suas reflexões sobre elas. Falei da orgia de pensamento especulativo que se seguiu à liberação kantiana da necessidade da razão de pensar além da capacidade cognitiva do intelecto, os jogos que os idealistas alemães fizeram com os conceitos personificados e as alegações feitas para a validade científica — algo que muito se distancia da “crítica” de Kant. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| A ênfase aqui está claramente no Poder, no sentido do eu-posso; para Montesquieu, assim como para os antigos, era óbvio que não se poderia mais dizer que um agente era livre quando lhe faltasse a capacidade de fazer o que quisesse fazer, quer por circunstâncias exteriores, quer pelas interiores. Além disso, as Leis que segundo Montesquieu transformam indivíduos livres e sem lei em cidadãos não são os Dez Mandamentos de Deus, ou a voz da **CONSCIÊNCIA**, ou o lumen rationale da razão, iluminando igualmente todos os homens, mas sim rapports feitos pelos homens, “relações” que, envolvendo os assuntos inconstantes do homem mortal — diferentes da eternidade de Deus ou da imortalidade do cosmo —, devem estar “submetidas a todos os acidentes que podem acontecer e variar à proporção que a vontade do homem muda” [Ibidem, livro I, cap. I, livro XXVI, cap. 1 e 2]. Para Montesquieu, bem como para a Antiguidade pré-cristã e para os homens que, no final do século, fundaram a República norte-americana, as palavras “poder” e “liberdade” eram praticamente sinônimas. A liberdade de movimento, o poder de se movimentar sem o impedimento da doença ou de um senhor, foi originalmente a mais elementar de todas as liberdades, justamente o seu pré-requisito. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] | A ênfase aqui está claramente no Poder, no sentido do eu-posso; para Montesquieu, assim como para os antigos, era óbvio que não se poderia mais dizer que um agente era livre quando lhe faltasse a capacidade de fazer o que quisesse fazer, quer por circunstâncias exteriores, quer pelas interiores. Além disso, as Leis que segundo Montesquieu transformam indivíduos livres e sem lei em cidadãos não são os Dez Mandamentos de Deus, ou a voz da CONSCIÊNCIA, ou o lumen rationale da razão, iluminando igualmente todos os homens, mas sim rapports feitos pelos homens, “relações” que, envolvendo os assuntos inconstantes do homem mortal — diferentes da eternidade de Deus ou da imortalidade do cosmo —, devem estar “submetidas a todos os acidentes que podem acontecer e variar à proporção que a vontade do homem muda” [Ibidem, livro I, cap. I, livro XXVI, cap. 1 e 2]. Para Montesquieu, bem como para a Antiguidade pré-cristã e para os homens que, no final do século, fundaram a República norte-americana, as palavras “poder” e “liberdade” eram praticamente sinônimas. A liberdade de movimento, o poder de se movimentar sem o impedimento da doença ou de um senhor, foi originalmente a mais elementar de todas as liberdades, justamente o seu pré-requisito. [Arendt, Vida do Espírito II O Querer 16] |
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| E 2) senso comum: Kant muito cedo se deu conta de que havia algo de não-subjetivo no que parecia ser o sentido mais privado e subjetivo; essa **CONSCIÊNCIA** é expressa da seguinte forma: há o fato de que as questões de gosto, “o belo, interessam somente em sociedade... Um homem que se deixe abandonar numa ilha deserta não enfeitaria sua casa ou a si mesmo... [O homem] não se contenta com um objeto se não pode satisfazer-se com ele, em comum com os outros”, ao passo que nos desprezamos quando trapaceamos em um jogo, mas nos envergonhamos somente quando somos pegos. Ou: “em questões de gosto devemos renunciar a nós mesmos em favor dos outros”, ou com a finalidade de agradar aos outros (Wir müssen uns gleichsam anderen zu gefallen entsagen). Finalmente, e do modo mais radical: “No gosto supera-se o egoísmo”, temos consideração, no sentido original da palavra. Temos que superar nossas condições subjetivas especiais em proveito dos outros. Em outras palavras, o elemento não subjetivo nos sentidos não objetivos é a intersubjetividade. (Deve-se estar só para poder pensar; é preciso companhia para desfrutar uma refeição.) [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar ] | E 2) senso comum: Kant muito cedo se deu conta de que havia algo de não-subjetivo no que parecia ser o sentido mais privado e subjetivo; essa CONSCIÊNCIA é expressa da seguinte forma: há o fato de que as questões de gosto, “o belo, interessam somente em sociedade... Um homem que se deixe abandonar numa ilha deserta não enfeitaria sua casa ou a si mesmo... [O homem] não se contenta com um objeto se não pode satisfazer-se com ele, em comum com os outros”, ao passo que nos desprezamos quando trapaceamos em um jogo, mas nos envergonhamos somente quando somos pegos. Ou: “em questões de gosto devemos renunciar a nós mesmos em favor dos outros”, ou com a finalidade de agradar aos outros (Wir müssen uns gleichsam anderen zu gefallen entsagen). Finalmente, e do modo mais radical: “No gosto supera-se o egoísmo”, temos consideração, no sentido original da palavra. Temos que superar nossas condições subjetivas especiais em proveito dos outros. Em outras palavras, o elemento não subjetivo nos sentidos não objetivos é a intersubjetividade. (Deve-se estar só para poder pensar; é preciso companhia para desfrutar uma refeição.) [Arendt, Vida do Espírito Apêndice O Julgar ] |
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