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| estudos:agamben:agamben-2015-265-269-facticidade [15/01/2026 20:13] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:agamben:agamben-2015-265-269-facticidade [17/01/2026 13:25] (current) – mccastro |
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| //Data: 2024-10-12 09:27// | //Data: 2024-10-12 09:27// |
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| A explicitação mais clara das características da facticidade se encontra no [parágrafo 29->ET29], que é consagrado à análise da Befindlichkeit e da Stimmung. Na Stimmung tem lugar uma abertura que precede todo conhecimento e toda Erlebnis. Ela é die primäre Entdeckung der Welt, o desvelamento original do mundo. Mas o que caracteriza esse desvelamento não é a plena luz da origem, mas precisamente uma facticidade e uma opacidade irredutíveis. O Dasein é levado pelas Stimmungen para diante dos outros entes e, sobretudo, para diante do ente que ele mesmo é; mas, na medida em que não foi levado por si mesmo em seu Da, é irremediavelmente entregue ao que está agora diante dele e o olha como um enigma inexorável. | A explicitação mais clara das características da facticidade se encontra no parágrafo 29, que é consagrado à análise da Befindlichkeit e da Stimmung. Na Stimmung tem lugar uma abertura que precede todo conhecimento e toda Erlebnis. Ela é die primäre Entdeckung der Welt, o desvelamento original do mundo. Mas o que caracteriza esse desvelamento não é a plena luz da origem, mas precisamente uma facticidade e uma opacidade irredutíveis. O Dasein é levado pelas Stimmungen para diante dos outros entes e, sobretudo, para diante do ente que ele mesmo é; mas, na medida em que não foi levado por si mesmo em seu Da, é irremediavelmente entregue ao que está agora diante dele e o olha como um enigma inexorável. |
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| Na Gestimmtheit, o Dasein está desde sempre aberto segundo uma disposição dada como o ente ao qual o Dasein foi entregue no seu ser, como o ser que ele, existindo, tem de ser. Aberto não quer dizer reconhecido como tal [...] O puro “fato de que é” se mostra: o de onde e o para onde permanecem na obscuridade [...]. Esse caráter de ser do Dasein, encoberto em seu de onde e para onde, mas, nele mesmo, tanto mais aberto sem encobrimento, esse “fato de que é” nós o chamamos de ser-lançado desse ente em seu Da. A expressão “ser-lançado” deve dar a entender a facticidade do ser entregue a... A facticidade não é a factualidade do Factum brutum de um ente-aí-diante; ela é, pelo contrário, um caráter de ser do Dasein inerente à existência, ainda que ele comece por ser rejeitado [abgedrängte] (SuZ, 134-135). | Na Gestimmtheit, o Dasein está desde sempre aberto segundo uma disposição dada como o ente ao qual o Dasein foi entregue no seu ser, como o ser que ele, existindo, tem de ser. Aberto não quer dizer reconhecido como tal [...] O puro “fato de que é” se mostra: o de onde e o para onde permanecem na obscuridade [...]. Esse caráter de ser do Dasein, encoberto em seu de onde e para onde, mas, nele mesmo, tanto mais aberto sem encobrimento, esse “fato de que é” nós o chamamos de ser-lançado desse ente em seu Da. A expressão “ser-lançado” deve dar a entender a facticidade do ser entregue a... A facticidade não é a factualidade do Factum brutum de um ente-aí-diante; ela é, pelo contrário, um caráter de ser do Dasein inerente à existência, ainda que ele comece por ser rejeitado [abgedrängte] (SuZ, 134-135). |
| O traço mais essencial da facticidade, de onde todos os outros derivam, é expresso por Heidegger em uma forma que conhece numerosas variações, mas que permanece constante quanto a seu núcleo conceitual: “o Dasein é entregue ao ente que ele é e tem de ser”, “O Dasein é e tem de ser o seu Da”, “O Dasein é em cada momento sua possibilidade”, “Para o Dasein está em jogo, no seu ser, o seu próprio ser”. Que significam essas fórmulas como expressão da facticidade? As lições do semestre de verão de 1938, em Marburg, que contêm comentários muitas vezes preciosos de algumas passagens capitais de Sein und Zeit, explicam-no sem possibilidade de equívoco: “[Dasein] bezeichnet das Seiende, dem seine eigene Weise zu sein in einem bestimmten Sinne ungleichgultig ist”, “Dasein designa o ente para o qual seu modo de ser não é, em um sentido determinado, indiferente” (GA67:Met. Anf., 171). | O traço mais essencial da facticidade, de onde todos os outros derivam, é expresso por Heidegger em uma forma que conhece numerosas variações, mas que permanece constante quanto a seu núcleo conceitual: “o Dasein é entregue ao ente que ele é e tem de ser”, “O Dasein é e tem de ser o seu Da”, “O Dasein é em cada momento sua possibilidade”, “Para o Dasein está em jogo, no seu ser, o seu próprio ser”. Que significam essas fórmulas como expressão da facticidade? As lições do semestre de verão de 1938, em Marburg, que contêm comentários muitas vezes preciosos de algumas passagens capitais de Sein und Zeit, explicam-no sem possibilidade de equívoco: “[Dasein] bezeichnet das Seiende, dem seine eigene Weise zu sein in einem bestimmten Sinne ungleichgultig ist”, “Dasein designa o ente para o qual seu modo de ser não é, em um sentido determinado, indiferente” (GA67:Met. Anf., 171). |
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| O Dasein é e tem de ser seu modo de ser, sua maneira, sua “guisa”, para traduzirmos com uma palavra que corresponde etimológica e semanticamente ao termo alemão Weise.((A palavra Weise (da mesma raiz do alemão Wissen e do latim video) deve ser considerada um terminus technicus do pensamento de Heidegger. Nas lições do semestre de inverno de 1921-1922, Heidegger joga com todos os sentidos possíveis do verbo weisen e seus derivados: “Leben bekommt jeweils eine Grundweisung und es wächst in eine solche hinein [...] Bezugssinn je in einer Weise ist in sich ein Weisen und hat in sich eine Weisung, die das Leben sich gibt, die es erfährt: Unterweisung” (GA61:Phän. Int., 98).)) É preciso refletir sobre essa formulação paradoxal, que para Heidegger marca a experiência original do ser e sem a qual tanto a repetição da Seinsfrage como a relação entre essência e existência esboçada no [parágrafo 9->ET9] de Sein und Zeit permanecem estritamente ininteligíveis. As duas determinações fundamentais da ontologia clássica, a existentia e a essentia, o quod est e o quid est, o Daßsein e o Wassein se contraem uma na outra em uma constelação carregada de tensão. Para o Dasein (que é e tem de ser o seu Da) é válida a mesma indissociabilidade de //on// e //poion//, de ser e de ser-tal, de existência e essência que Platão, na Carta VII (342 b-c), afirma quanto à alma: | O Dasein é e tem de ser seu modo de ser, sua maneira, sua “guisa”, para traduzirmos com uma palavra que corresponde etimológica e semanticamente ao termo alemão Weise.((A palavra Weise (da mesma raiz do alemão Wissen e do latim video) deve ser considerada um terminus technicus do pensamento de Heidegger. Nas lições do semestre de inverno de 1921-1922, Heidegger joga com todos os sentidos possíveis do verbo weisen e seus derivados: “Leben bekommt jeweils eine Grundweisung und es wächst in eine solche hinein [...] Bezugssinn je in einer Weise ist in sich ein Weisen und hat in sich eine Weisung, die das Leben sich gibt, die es erfährt: Unterweisung” (GA61:Phän. Int., 98).)) É preciso refletir sobre essa formulação paradoxal, que para Heidegger marca a experiência original do ser e sem a qual tanto a repetição da Seinsfrage como a relação entre essência e existência esboçada no parágrafo 9 de Sein und Zeit permanecem estritamente ininteligíveis. As duas determinações fundamentais da ontologia clássica, a existentia e a essentia, o quod est e o quid est, o Daßsein e o Wassein se contraem uma na outra em uma constelação carregada de tensão. Para o Dasein (que é e tem de ser o seu Da) é válida a mesma indissociabilidade de //on// e //poion//, de ser e de ser-tal, de existência e essência que Platão, na Carta VII (342 b-c), afirma quanto à alma: |
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| Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz. Die an diesem Seienden herausstellbaren Charaktere sind daher nicht vorhandene “Eigenschaften” eines so und so “aussehenden” vorhandenen Seiende, sondern je mögliche Weisen zu sein und nur das. Alles Sosein dieses Seiende ist primär Sein (SuZ, 42). | Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz. Die an diesem Seienden herausstellbaren Charaktere sind daher nicht vorhandene “Eigenschaften” eines so und so “aussehenden” vorhandenen Seiende, sondern je mögliche Weisen zu sein und nur das. Alles Sosein dieses Seiende ist primär Sein (SuZ, 42). |