| |
| estudos:agamben:agamben-2015-263-265-decadencia-e-facticidade [15/01/2026 20:13] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:agamben:agamben-2015-263-265-decadencia-e-facticidade [17/01/2026 13:25] (current) – mccastro |
|---|
| A Grundbewegung da vida é chamada por Heidegger de Ruinanz (do latim ruina, desmoronamento, queda): é a primeira ocorrência do que virá a ser, em Sein und Zeit, die Verfallenheit. A Ruinanz apresenta o mesmo entrelaçamento do próprio e do impróprio, do spontaneus e do facticius, que constitui também a Geworfenheit do Dasein: “Um movimento que se produz a si mesmo e que no entanto não se produz a si mesmo, mas que produz o vazio no qual se move: seu vazio é sua própria possibilidade de movimento” (Phän Int., 131). E, na medida em que exprime a estrutura fundamental da vida, Heidegger aproxima a facticidade do conceito de Kinesis em Aristóteles.((“Problem der Faktizität, Kinesis-Problem” (Phän. Int., 117). Se recordarmos o papel fundamental que, segundo Heidegger, a kinesis desempenhava no pensamento de Aristóteles (ainda nos seminários de Le Thor, ele apresentava a kinesis como a experiência fundamental do pensamento de Aristóteles), podemos avaliar também o lugar central que o conceito de facticidade ocupa no pensamento do primeiro Heidegger.)) | A Grundbewegung da vida é chamada por Heidegger de Ruinanz (do latim ruina, desmoronamento, queda): é a primeira ocorrência do que virá a ser, em Sein und Zeit, die Verfallenheit. A Ruinanz apresenta o mesmo entrelaçamento do próprio e do impróprio, do spontaneus e do facticius, que constitui também a Geworfenheit do Dasein: “Um movimento que se produz a si mesmo e que no entanto não se produz a si mesmo, mas que produz o vazio no qual se move: seu vazio é sua própria possibilidade de movimento” (Phän Int., 131). E, na medida em que exprime a estrutura fundamental da vida, Heidegger aproxima a facticidade do conceito de Kinesis em Aristóteles.((“Problem der Faktizität, Kinesis-Problem” (Phän. Int., 117). Se recordarmos o papel fundamental que, segundo Heidegger, a kinesis desempenhava no pensamento de Aristóteles (ainda nos seminários de Le Thor, ele apresentava a kinesis como a experiência fundamental do pensamento de Aristóteles), podemos avaliar também o lugar central que o conceito de facticidade ocupa no pensamento do primeiro Heidegger.)) |
| |
| Aquilo que procurava ainda o seu vocabulário no curso dos anos 1920 encontra, com Sein und Zeit, o dispositivo teórico que nos é familiar. Já no [parágrafo 12->ET12], no momento de definir a Grundverfassung do Dasein, Heidegger introduz o conceito de facticidade. Para situar concretamente esse conceito, é preciso antes de tudo inseri-lo no contexto de uma distinção dos modos de ser. In-der-Welt-Sein, diz Heidegger, não significa a propriedade de um ente disponível (Vorhandenes), por exemplo, de uma coisa corpórea (Körperding), que se encontraria em outro ente do mesmo modo que a água se encontra no vidro ou o vestido, no armário. In-Sein exprime antes a estrutura própria do Dasein. Trata-se de um Existenzial, e não de um Kategorial. Dois entes sem mundo (weltlos) podem, de fato, estar um ao lado do outro (assim, pode-se dizer que a cadeira está junto à parede), pode-se até dizer que um toca no outro. Mas para que se possa falar de um tocar no sentido próprio da palavra, para que a cadeira possa estar verdadeiramente junto à parede (no sentido de Sein-bei-der-Welt), é preciso em primeiro lugar que a parede seja para a cadeira algo que esta possa encontrar. | Aquilo que procurava ainda o seu vocabulário no curso dos anos 1920 encontra, com Sein und Zeit, o dispositivo teórico que nos é familiar. Já no parágrafo 12, no momento de definir a Grundverfassung do Dasein, Heidegger introduz o conceito de facticidade. Para situar concretamente esse conceito, é preciso antes de tudo inseri-lo no contexto de uma distinção dos modos de ser. In-der-Welt-Sein, diz Heidegger, não significa a propriedade de um ente disponível (Vorhandenes), por exemplo, de uma coisa corpórea (Körperding), que se encontraria em outro ente do mesmo modo que a água se encontra no vidro ou o vestido, no armário. In-Sein exprime antes a estrutura própria do Dasein. Trata-se de um Existenzial, e não de um Kategorial. Dois entes sem mundo (weltlos) podem, de fato, estar um ao lado do outro (assim, pode-se dizer que a cadeira está junto à parede), pode-se até dizer que um toca no outro. Mas para que se possa falar de um tocar no sentido próprio da palavra, para que a cadeira possa estar verdadeiramente junto à parede (no sentido de Sein-bei-der-Welt), é preciso em primeiro lugar que a parede seja para a cadeira algo que esta possa encontrar. |
| |
| O que acontece com o Dasein, que não é, quanto a ele, privado de mundo (weltlos)? E preciso não subestimar a dificuldade conceitual que está aqui em questão. Se o Dasein fosse um simples ente intramundano, não poderia jamais encontrar o ente que ele próprio é, nem os outros entes; mas, por outro lado, se ele fosse desprovido de todas as dimensões do fato, como poderia encontrar qualquer coisa? Para estar junto ao ente, para ter um mundo, o Dasein deve, digamos assim, ser um Faktum sem ser factual, deve ser um Faktum e, ao mesmo tempo, ter um mundo. É aqui que intervém a noção de facticidade: | O que acontece com o Dasein, que não é, quanto a ele, privado de mundo (weltlos)? E preciso não subestimar a dificuldade conceitual que está aqui em questão. Se o Dasein fosse um simples ente intramundano, não poderia jamais encontrar o ente que ele próprio é, nem os outros entes; mas, por outro lado, se ele fosse desprovido de todas as dimensões do fato, como poderia encontrar qualquer coisa? Para estar junto ao ente, para ter um mundo, o Dasein deve, digamos assim, ser um Faktum sem ser factual, deve ser um Faktum e, ao mesmo tempo, ter um mundo. É aqui que intervém a noção de facticidade: |