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estudos:xolocotzi:2012:volpi

Franco Volpi

XOLOCOTZI, Ángel; TAMAYO, Luis. Los demonios de Heidegger: eros y manía en el maestro de la Selva Negra. Madrid: Trotta, 2012.

Prólogo de Franco Volpi

Ser e coração

1. A inteligência torna-se particularmente vulnerável quando a vida desmente suas pretensões, e a história dos filósofos evidencia a instabilidade da fronteira entre sabedoria e insensatez, impedindo qualquer certeza definitiva de permanecer do lado correto.

2. A queda de Tales em um poço enquanto contemplava o céu, seguida pelo riso de uma serva trácia diante de sua inabilidade prática, apresenta desde o início da filosofia ocidental o contraste entre elevação teórica e desatenção à vida imediata, suscitando também a questão do papel atribuído ao feminino nessa exposição dos limites da inteligência.

3. A oposição entre filósofos e mulheres atravessa a história cultural e se sedimenta em lugares-comuns resistentes às tentativas contemporâneas de transformação do discurso, revelando uma persistente tensão entre a imagem da sabedoria filosófica e a experiência das relações entre os sexos.

4. A vida amorosa de Heidegger oferece um exemplo particularmente expressivo do poder de Eros sobre a inteligência filosófica, mostrando como a sutileza do pensamento pode coexistir com a submissão aos caprichos, às ousadias e aos desvarios da paixão.

5. A investigação da vida sentimental e emocional de Heidegger revela uma sucessão de paixões e relações clandestinas, acompanhadas por uma profunda crise nervosa, tornando visível um fundo biográfico atormentado cuja complexidade contrasta com a imagem exclusivamente especulativa do pensador do ser.

6. O carisma de Heidegger e sua capacidade de fascinar estudantes adquirem uma dimensão concreta na relação com Hannah Arendt, iniciada em encontros clandestinos e sustentada por uma intensa correspondência amorosa, cuja afinidade entre experiência afetiva e pensamento acompanha um período de extraordinária produtividade filosófica em Marburgo.

7. A coexistência entre domínio da elaboração filosófica e dependência de uma vida amorosa obstinada desfaz a expectativa de que a grandeza intelectual assegure o governo das paixões, revelando uma distância entre a força do pensamento e a condução da experiência sentimental.

8. A documentação epistolar e arquivística permite reconstruir tanto as relações amorosas quanto a crise psíquica de Heidegger, incluindo a interpretação controversa de que teria se aproximado da ideia de suicídio, sustentada por Otto Pöggeler e contestada por Hermann Heidegger.

9. Sob a aparência de severa respeitabilidade desenvolve-se um drama existencial marcado pela recusa das convenções conjugais pequeno-burguesas e pela busca de relações intensas e decisivas, nas quais a exigência de uma vida extraordinária parece transformar cada momento em uma situação em que tudo está em jogo.

10. Elfride emerge como uma figura mais complexa do que a guardiã severa da rotina do filósofo, pois sua relação extraconjugal, da qual nasce Hermann, é acolhida por Martin em nome de um vínculo maduro e livre, enquanto a continuidade do casamento preserva seu papel de referência familiar e interlocutora em momentos difíceis, apesar das tensões que acompanham décadas de convivência.

11. A aceitação da liberdade concedida a Elfride transforma-se posteriormente em reivindicação equivalente por Heidegger, cujas repetidas aventuras clandestinas invertem a situação conjugal e evidenciam a persistência das paixões em sua própria conduta.

12. A manutenção do casamento convive com uma distribuição desigual das responsabilidades, pois Elfride abandona os estudos para dedicar-se à família enquanto Martin preserva a centralidade de sua missão filosófica e interpreta a paixão erótica como condição de inspiração, de voz e de fecundidade criadora.

13. A relação com Hannah Arendt ocupa uma posição decisiva na experiência erótica do filósofo e coincide com as reflexões desenvolvidas junto a Bultmann sobre a tendência humana a perder-se, estabelecendo uma proximidade entre a elaboração da existência e as ambiguidades de sua realização biográfica.

14. A resistência de Elfride às relações extraconjugais manifesta-se tanto no sofrimento quanto na intervenção direta junto às outras mulheres, procurando afastá-las ou convertê-las em aliadas contra as duplicidades de Martin, em uma dinâmica recorrente de ciúme, conflito e tentativas frágeis de reconciliação.

15. A reconstrução das relações de Heidegger abrange o vínculo juvenil com Marguerite Weninger, a proximidade prolongada com Elisabeth Blochmann e os envolvimentos com Margot von Sachsen-Meiningen, Sophie Dorothee von Podewils, Marielene Putscher, Andrea von Harbou e Dory Vietta, revelando a extensão e a continuidade de uma vida amorosa que atravessa diferentes períodos de sua trajetória intelectual.

16. A única carta de Elfride então publicada torna visível um sofrimento afetivo extremo, no qual a preservação do casamento e a tentativa de compreender as necessidades criadoras do marido convivem com o esgotamento de sua própria estabilidade emocional.

17. A centralidade do trabalho na vida de Martin contrasta com o deslocamento sofrido por Elfride, cuja disposição para compreender aquilo que o faz feliz não impede a experiência de desespero diante das mentiras e do uso reiterado de sua confiança.

18. A gravidade dessa experiência pode ser explicitada pela inversão das posições, exigindo que Martin considere como suportaria ser traído por uma mulher à qual estivesse ligado por intenso amor.

19. A repetição das traições durante quatro décadas torna problemática a afirmação de um vínculo conjugal que já não parece sustentado por amor ou confiança, enquanto a busca de uma pátria afetiva em outras mulheres aprofunda a solidão de Elfride e sua convicção de que o marido permanece incapaz de escutá-la.

20. O sofrimento de Elfride exige acompanhamento psiquiátrico com Medard Boss e uso de medicamentos, enquanto as justificativas de Martin não interrompem a reincidência amorosa, em torno da qual circulam também relatos de aproximações às companheiras de alunos e de solicitações íntimas dirigidas a mulheres cortejadas.

21. O episódio cardíaco sofrido por Heidegger em Augsburgo, em abril de 1970, durante um encontro amoroso, conduz ao retorno a Friburgo e aos cuidados de Elfride, inaugurando um período final de convivência contínua e de reparação de uma relação conjugal longamente desgastada.

22. A multiplicidade dos envolvimentos amorosos desfaz o mito de uma biografia inteiramente resumida à concentração na pergunta pelo ser, revelando que a experiência do feminino também atravessou intensamente seus dias e noites, de maneira que a simplificação pública da imagem filosófica encobriu uma vida cada vez mais complicada.

23. A investigação biográfica permite compreender as relações entre vida e filosofia mediante o enraizamento emocional do pensamento, ultrapassando a repetição doutrinária e mostrando como a ampliação da documentação abre novas possibilidades de compreensão e imaginação histórica.

24. A reconstrução da vida de Heidegger abrange também seus ritmos de trabalho, leituras, relações acadêmicas, avaliações de Husserl e Löwith, experiências ligadas à cabana de Todtnauberg e ambiguidades de sua adesão ao nazismo, incluindo o antissemitismo de Elfride, de modo que a vida amorosa se insere em um quadro biográfico mais amplo.

25. A documentação restitui Heidegger em seu ambiente e em sua humanidade complexa, fazendo coexistir a singularidade de seu pensamento com aspectos comuns e contraditórios de sua existência.

26. A amplitude das descobertas biográficas recoloca a questão da importância efetiva da vida de um filósofo para a compreensão de seu pensamento, exigindo distinguir o interesse pelas circunstâncias pessoais da investigação de sua relevância filosófica.

27. A tradição doxográfica, iniciada na escola aristotélica e exemplificada pelas Vidas dos filósofos de Diógenes Laércio, reconhece na coleta de opiniões, informações e anedotas um recurso legítimo para contextualizar as doutrinas e esclarecer o ambiente em que foram elaboradas.

28. A tradição representada por Hegel recusa reduzir a história da filosofia a opiniões ou acontecimentos contingentes, compreendendo-a como desenvolvimento necessário do espírito, e encontra uma posição convergente em Heidegger, cuja apresentação da vida de Aristóteles se limitava aos acontecimentos de nascer, trabalhar e morrer.

29. A proposta de um período em que todos os livros fossem publicados anonimamente, associada a Foucault, procura suspender a identificação dos autores para que a leitura não seja previamente orientada pela busca de motivos biográficos.

30. O anonimato permitiria avaliar o que se lê por sua verdade ou falsidade e por sua capacidade de despertar adesão ou recusa, diminuindo a tentação de substituir a consideração das ideias pela investigação das razões pessoais de quem as escreveu.

31. A possibilidade de aplicar esse princípio a Heidegger permanece como uma exigência crítica de leitura, preservando a consideração de seu pensamento diante da força de atração e das ambiguidades de sua biografia.

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