17 Questão do ser
XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Subjetividad radical y descomposicíon del ser: Una aproximación a la ontología de Martin Heidegger. México: Plaza y Valdés, 2007.
§ 17. Outro acesso à pergunta pelo ser
1. A pergunta pelo ser não pode ser entendida simplesmente a partir de um quadro teórico-cognoscitivo determinado, mas, em seu caráter fenomenológico de execução, deve situar-se num nível anterior à determinação cognoscitiva, o que permite falar de um ponto de partida no caráter indeterminado da pergunta, já que o perguntar não é inocente e há uma diferença central entre um perguntar que se apoia simplesmente no perguntado e um perguntar que parte daquilo que possibilita a própria pergunta.
2. O primeiro é um perguntar ingênuo, que se esgota no perguntado e se dirige a algo que o satisfaça, em geral uma resposta, enquanto o segundo é o perguntar como busca, no qual o perguntado reconhece sua origem no buscado ou posto em questão, de modo que o perguntar ingênuo se move em termos de determinação, ao passo que a busca não é determinacional, pois a pergunta não determina a resposta, mas parte do buscado, sendo a passagem do buscado ao perguntado um esclarecimento dependente do modo de ser do buscado, no qual a resposta não se opõe à pergunta.
3. Uma pergunta verdadeira nasce do desejo de saber algo, e no modo de formulá-la já está decidido o método, como ao perguntar pela idade de alguém, em que não satisfaria responder com um nome ou uma profissão, pois a pergunta foi lançada numa direção determinada e delimita o âmbito da resposta, evidenciando também que, para o senso comum, pergunta e resposta são coisas distintas e opostas, satisfazendo-se e anulando-se o não-saber da pergunta no saber da resposta.
4. Essa consideração da pergunta como não-saber que aponta uma direção apoia-se no fato de que o não-saber é precisamente o perguntado, como quando se ignora a idade de alguém e se espera sabê-la por meio de uma resposta numérica.
5. A ingenuidade do perguntar que se apoia simplesmente no perguntado pode ser tematizada mediante uma análise do próprio perguntar, com consequências fundamentais para uma interpretação fenomenológica.
6. Perguntar indica que não se sabe algo e que se pergunta para sabê-lo, transformação do não-saber em saber que se realiza mediante uma busca, pois todo perguntar é um buscar guiado previamente pelo buscado, nexo que se torna transparente em português e espanhol na palavra questionar, derivada de quaerere, buscar, ao contrário de línguas como o alemão, em que perguntar e buscar estão semanticamente separados, revelando-se assim a estrutura do perguntar, ocultada quando ele é nivelado como simples ação humana entre outras.
7. Pensado como buscar, o questionar mostra que se busca quando se perdeu algo ou não se tem algo, buscando-se ali onde se perdeu ou onde se crê encontrar, de modo que a busca só é possível pela pressuposição do buscado e parte dele, e não de si mesma, como ao procurar sob a mesa uma caneta caída, cuja busca só é possível porque ela está perdida, sendo o encontrar apenas uma mudança de atitude, da busca à confirmação, e a resposta um corresponder ao buscado, confirmação da pergunta e não algo diferente dela.
8. Se a busca só ganha sentido a partir do buscado, toda questão contém, como mostrou Sócrates, dois saberes, um não-saber a ser correspondido e o reconhecimento desse não-saber, isto é, um saber do não-saber pelo qual se torna possível aproximar-se de um saber em sentido estrito, diferença que separa o saber filosófico do não filosófico, já que quem pergunta ingenuamente apenas espera uma resposta que o satisfaça e permanece na oposição entre não-saber e saber, estrutura da curiositas, ao passo que no perguntar socrático o perguntar é ao mesmo tempo não-saber e saber.
9. O saber do não-saber não foi uniforme na tradição ocidental, pois o caráter de busca varia conforme a apreensão do não-saber, sendo o mero não-saber como negatio entendido como ignorantia desde Platão, para quem a pergunta pelo quê busca saber, de modo que a filosofia ocidental fez da passagem da ignorância ao saber da quididade ou essência das coisas o modo central do philein.
10. Na modernidade ocorre uma transformação fundamental do caráter de busca, que deixa de ser pensada como negatio ou ignorantia e passa a ser pensada como privatio, pois não se vive estritamente no não-saber, mas na experiência do erro, corrigível pelo método adequado, de modo que a passagem ao saber já não vai da ignorância à sapiência, mas se realiza pela intervenção do método e chega ao saber como certitudo.
11. O perguntar que se apoia meramente no perguntado é ingênuo por não ver a origem do perguntado no buscado, permanecendo num não-saber que, mediante o ato de perguntar, obtém um saber determinado pela própria pergunta e anulável pelo método correto, sem perceber o caráter determinacional que a direção da pergunta assume nem as possibilidades dadas ao perguntado a partir do próprio buscado.
12. A busca como saber do não-saber feito questão mostra um âmbito em que ela se executa e em que algo é posto em questão, como a idade no exemplo, que é mencionada num saber do não-saber e é busca porque se sabe que o perguntar pode chegar a determiná-la, mas, se o perguntar se rege não pelo perguntado como conteúdo, e sim pela correlação entre o buscado e o respondido, pode-se falar de um perguntar não determinado, em que a busca assume o papel de esclarecimento do buscado.
13. A finalidade do perguntar é determinar o indeterminado do posto em questão, mas o determinado que se estabelece no perguntado como conteúdo deita raízes no indeterminado do buscado, havendo no perguntar uma diferença entre o posto em questão e o perguntado, defasagem fundamental descoberta desde o início do filosofar e expressa por Aristóteles ao dizer, no livro II da Metafísica, que o estudo da verdade é em certo sentido fácil, pois ninguém erra totalmente, e em certo sentido difícil, pois ninguém a alcança plenamente.
14. A defasagem constitutiva do ser humano em relação ao que há é o que possibilita o perguntar como busca, pois sem ela não haveria necessidade de perguntar, por estar-se em contato permanente com a verdade, nem possibilidade de perguntar, se o buscado não guiasse o próprio perguntar.
15. Se essa defasagem constitui o ser humano, o perguntar não é uma caracterização arbitrária, mas o próprio ser humano, como se indica no início de Ser e tempo ao afirmar que o perguntar, enquanto comportamento de um ente, aquele que pergunta, tem seu próprio caráter de ser.
16. A passagem do perguntar como caráter de ser do ente que pergunta à pergunta expressa pelo ser não é um abismo, mas uma gradação, pois perguntar pelo ser não é perguntar por algo diferente do próprio perguntar, mas radicalizá-lo, sendo a pergunta pelo ser, conforme o final do § 4, a radicalização de uma tendência essencial de ser pertencente ao próprio Dasein, a compreensão pré-ontológica do ser.
17. Pensar a pergunta pelo ser como busca, e não como determinação teórico-cognoscitiva, implica reconhecer que o perguntar tem o caráter de ser do ente que pergunta, o Dasein, que não é um ente simplesmente presente, mas cujo ser consiste em abrir seu ser com seu ser, em ser relação de ser, tendo sempre de haver-se com seu ser ao já estar sendo, de modo que o posto em questão que guia o perguntar só pode encontrar-se na existência, modo de ser e caráter ontológico desse ente.
18. O perguntar é, no fundo, uma maneira de expor o caráter ontológico do Dasein como existência, e, como toda pergunta põe em jogo a existência, a diferença entre uma pergunta qualquer e a pergunta pelo ser não pode residir no setor de entes ou no objeto perguntado, o que tomaria a determinação como ponto de partida, mas no fato de que esta radicaliza o perguntar ao dirigir a tematização à copertença entre o estar sendo do ente que pergunta e o posto em questão.
19. Perguntar pela idade de alguém pode ser visto externamente como pergunta determinada que espera resposta, mas é também, enquanto exercício do perguntar, um modo em que o Dasein existente se destaca, dirigindo-se o determinado da pergunta à resposta teórico-cognoscitiva e permanecendo o indeterminado no perguntar como expressão da facticidade da existência, de modo que não há duas classes de perguntas, vulgares e filosóficas, mas dois modos de enfatizar o perguntar, na resposta ou na própria pergunta, diferença que separa a filosofia da ciência pela direção do olhar, para o outro do perguntar ou para o próprio perguntar.
20. A pergunta pelo ser é indeterminada em dois sentidos, por não ser determinada a partir de uma dimensão teórico-cognoscitiva posterior e por ser, como âmbito do próprio perguntar, aquilo que possibilita toda origem do âmbito determinacional, indicando seu caráter indeterminado não a oposição ao determinado do distanciamento teórico, mas o pré-determinado presente na experiência do perguntar, com base na diferença entre o pré-teorético e o teorético destacada desde o semestre de emergência de guerra e que em Ser e tempo toma forma de pergunta pelo ser.
21. A radicalização do perguntar que constitui a pergunta pelo ser só pode ser tematizada a partir daquilo que constitui o perguntar, pensando-o como busca guiada pelo buscado, o que significa partir daquilo em que já se está.
22. Para mostrar que a pergunta pelo ser é apenas a radicalização de uma tendência essencial do Dasein, Ser e tempo inicia a tematização a partir dos preconceitos sobre o ser, caminho pertinente por aproximar-se da radicalização em que já se está.
