FORMA E SENTIDO DA OUSIA ARISTOTÉLICA
MARX, Werner. Heidegger and the tradition. Theodore Kisiel. Evanston: Northwestern Univ. Pr, 1971.
Heidegger quer pensar a essência do Ser e a essência de maneira diferente da tradição. Como quase todas as variantes da doutrina da substância na filosofia ocidental permaneceram orientadas para a ousia aristotélica, parece-nos adequado refletir sobre a forma e o significado da ousia de Aristóteles, a fim de, à luz dela, podermos pensar junto com ele o problema da forma e do significado do Ser e da essência em Heidegger como inimigo da ousia.
Tal reflexão sobre o significado da essência é, em si mesma, totalmente “não aristotélica”. Pois a questão de Aristóteles não se dirige precisamente ao significado do Ser e da essência. A direção de sua questão é voltada para o ser particular como tal. Ele queria saber, como explicou no primeiro capítulo do Livro IV da Metafísica, o que é um ser na medida em que é — on hei on. Ele se concentrou apenas nesse ser particular e, então, passou dele para o seu Ser e essência.
Heidegger caracterizou essa direção aristotélica da questão como “metafísica”, pois, para apreender o ser particular como um ser, ela ultrapassou1 o ser particular — meta ta physika — em direção ao “Ser”, razão pela qual Heidegger denominou a “seridade”2, como Aristóteles a via, de “ultrapassagem” [überstieg] ou “transcendência”. ”3 Estamos convencidos, com Heidegger, de que Aristóteles, como consequência dessa direção de sua questão, foi capaz de ver apenas um “lado” particular do Ser. A questão citada anteriormente — ti to on — o que é “Ser”, dizia respeito apenas à constituição do Ser do ser divino, humano e não humano. Ela não questionava a ocorrência do Ser em si. Não questionava, em primeiro lugar, sobre a “essência” e muito menos sobre o “sentido” do Ser; questionava, antes, sobre o “o quê” daquilo que havia sido possibilitado pelo Ser e pela essência, o “o quê” do ser particular. No presente capítulo, o significado de ousia será considerado por meio de uma elaboração de algumas de suas características básicas padrão, contra as quais serão então destacadas as características básicas do outro significado de “Ser e essência”, que Heidegger procura revelar. As características básicas de ousia — “eternidade”, necessidade, identidade e inteligibilidade — serão tratadas. Reconheceremos novamente essas características fundamentais no “Ser” de Hegel, embora de forma alterada após uma história de dois mil anos de pensamento.
No decorrer desta reflexão sobre o significado de ousia, no entanto, desenvolveremos apenas os problemas que permaneceram significativos para Heidegger em uma situação problemática radicalmente alterada. Nossa discussão das “respostas” aristotélicas a esses problemas buscará preparar o caminho para a compreensão desses outros tipos de “respostas” em Heidegger.
A ousia aristotélica só pode obter a forma viva necessária para um pensamento ativo — junto com Heidegger — quando a apresentação se restringe a esboçar os contornos da ousia em poucos traços, ao mesmo tempo em que renuncia expressamente a qualquer tentativa de justificar os pontos de vista aqui apresentados.4 Ao fazer isso, trataremos apenas das estruturas que estão vivas no conceito de essência ainda atual para nós hoje.
