User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:sloterdijk:1999:start

Esferas II

SLOTERDIJK, Peter. Sphären II: Globen (Makrosphärologie). Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1999.

Prólogo: Idílios intensos

1. À pergunta sobre a razão de ter vindo ao mundo, Anaxágoras responde que veio para observar o sol, a lua e o céu, segundo o relato de Diógenes Laércio, fazendo da contemplação do cosmos a própria finalidade da existência.
2. A alma é também saudade, e essa saudade eterna dirige-se sempre ao espaço, conforme a formulação de Max Bense em Espaço e eu.

3. Sete homens de idade avançada aparecem numa paisagem idealizada, não longe de uma cidade grega, talvez Acrocorinto, talvez Atenas, certamente não Esparta.

4. Os senhores, todos barbados, estão reunidos em conversa sob uma árvore, perto de um bosque sagrado cuja entrada é marcada por colunas, com oferendas em vasos atarracados sobre a trave.

5. A cena evoca uma situação excepcional, um lugar e uma conversa fora do comum, animada por um argumento sutil e pungente, em que o da esquerda acaba de concluir sua exposição, o presidente responde laconicamente apontando a esfera com seu bastão, e um assombro se espalha entre os reunidos, como se uma ideia ousada, jamais pensada nem tida por possível, se apoderasse deles com a violência da primeira vez, transformando o palavrório em pensamento e fazendo alçar voo ideias cosmovisivas sob uma evidência sem precedentes.

6. As barbas tipicamente filosóficas e os rolos de pergaminho nas mãos de alguns indicam uma conversa de sábios, e a presença de um objeto que constitui com segurança o motivo da reunião e do entusiasmo comum revela tratar-se de uma situação excepcional do pensar.

7. O mais velho, sentado diante da árvore, aponta com o radius, a vareta própria do docente, para a figura que repousa no chão dentro de uma pequena caixa da qual sobressai em três quartos, diante dos sábios dispostos em semicírculo: uma bola azul-clara revestida de uma rede de linhas avermelhadas que se cruzam, uma sphaira, globo do mundo e do céu, símbolo de totalidade venerado e investigado por geômetras e metafísicos desde Empédocles e Parmênides, que basta para explicar a perplexa admiração dos sete.

8. A aparente contradição de uma investigação veneradora desfaz-se ao recordar que, para os antigos, sobretudo após a reforma platônica que converteu a sabedoria aforística em filosofia argumentativa, a esfera simbolizava o envolvente, o periéchon, que abrange todos os gêneros físicos e espirituais do existente e entrelaça também as inteligências inclinadas sobre ela, de modo que percorre os reunidos o arrepio da certeza, excitante e tranquilizadora, recuperada em livre reflexão e no entanto gerada como pela primeira vez, de que os mortais reflexivos jamais poderão afastar-se dessa esfera-espaço, mesmo quando a contemplam como objeto inanimado ou signo arbitrário.

9. A reunião em torno da sphaira marca um dos raros instantes da história do pensamento em que culto e discurso se misturam sem se estorvar, pois assim como os oficiantes religiosos erguem estátuas a suas divindades, esses sábios colocaram diante de si a figura da bola do ser e do cosmos para venerá-la com discussões apropriadas, sendo a esfera a imagem de Deus dos pensadores, a caixinha seu altar portátil, o bosque diante das portas da cidade o recinto de seu templo e os homens de túnicas coloridas ao mesmo tempo comunidade e ofício sagrados.

10. A sphaira, o uno como forma, é o Deus que dá a pensar, acessível não por orações e imprecações, mas por análises, medições e argumentos, num culto feito de ponderações precisas de suas propriedades em que a devoção do pensar consiste em contemplar a construção formal a partir de seu fundamento, de modo que a inteligência se revela elasticidade esférica, a inspectio do imenso converte-se em circumspectio, e na comoção da evidência, ponto de interseção entre proposições e êxtase numa época em que a bênção ainda vem do alto também no trabalho do conceito, o divino se mostra aos que pensam corretamente como unidade de circunscrever e ser circunscrito, aproximando o espírito divino do humano.

11. Os sete tremem diante da esfera sob um sopro espiritual comum porque estão imersos no acontecimento pentecostal da história do pensar, na efusão da evidência em línguas de fogo lógicas, ao mesmo tempo íntima e pública, que não instaura nenhum feitiço hipnótico sobre o grupo, mas permite que cada um se relacione a seu modo, em reflexão emancipada, com o envolvente, sendo esse pensamento logicamente maduro da esfera única o que possibilitou o que mais tarde se chamará individualidade, já que só é indivíduo, em sentido refinado, quem como vida singular cognoscente se relaciona com o uno, como a gota revela a nuvem de que cai, e deixa falar através de si o envolvente.

12. O surgimento de indivíduos sob um novo motivo de individualização inaugura também uma nova dimensão de socialização, uma comunidade sem precedente nas relações étnicas e familiares, unida por uma consciência problemática e por uma camaradagem cujo motivo não é a autoconservação política nem a procriação, mas a investigação ascética e solidária da verdade sobre o todo redondo, de modo que quem dela participa deixa de ser simples membro de sua tribo para integrar uma contrassociedade lógica, ideia de comuna abissalmente antinatural, antecipadora das ordens religiosas, que Platão, fundador do mundus academicus, conservou, já que os primeiros adeptos do bíos theoretikós sabem que a liberdade para a teoria só se realiza em ruptura com a cidade e com a comunidade do povo.

13. Com a invenção do jogo teórico chamado filosofia, as sociedades posteriores, sejam cidades, reinos ou impérios, dividem-se internamente, pois surge um pensamento que se define como exemplo máximo do que vale e do que é, do qual a maioria, inclusive os poderosos da política, da economia e do jornalismo, só obtém vistas exteriores, agravo que toda sociedade que não impeça o pensar precisa enfrentar, seja refugiando-se na admiração, como preferiu a Antiguidade, seja evadindo-se num ceticismo que permite aos vitalistas modernos viver sem pensar em nada sem se sentirem privados de soberania.

14. A imagem de Torre Annunziata remete claramente à ruptura entre saber e sociedade, com uma cena de espírito pós-socrático, de escola livre e secessionista, situada não na cidade, mas diante de suas portas, nem tão longe que torne eremitas os participantes, nem tão perto que o fedor e o ruído dos mercados invadam o bosque da ontologia, sem esgares partidários nos rostos, apenas o belo esforço do conceito, perfume agradável, sossego, rigor amistoso e as cigarras enchendo com um segundo canto o ar enriquecido de argumentos.

15. Nenhum intelectual deveria esquecer essa cena do pacifismo acadêmico, sete sábios diante de uma esfera ornada de fitas, numa serenidade cujo motivo nenhum estranho adivinha, afastados da cidade, entregues a uma dissidência sutil e ligados por intuições lógicas comuns numa pergunta sem fim, em que felicidade e imensidão aparecem lado a lado, pois nenhuma teoria futura existirá sem a vontade desse idílio, sem ócio não há escola e sem desenraizamento da vulgaridade não há liberdade de investigação, reclamando tal teoria os privilégios da vida suprema, já que para a filosofia nascente o imenso na ordem vai além do imenso ou terrível na tragédia e a atração da esfera divina supera em categoria o teatro dionisíaco.

16. A reconstrução do texto e do curso da argumentação esbarra no silêncio da tradição sobre as legendas da imagem, cabendo ao intérprete fazer falar a cena apenas por seus elementos icônicos, pois a datação do mosaico dos filósofos de Torre Annunziata, hoje no Museo Nazionale de Nápoles, no século I a.C., pouco esclarece, e a existência de um equivalente na Villa Albani de Roma indica um modelo comum esquecido, do qual nada se sabe, situando-se a cena, por sua linguagem formal, no helenismo, na época do idílio bucólico-acadêmico e do otium, embora o que fala numa imagem significativa não seja a época inerte, mas o acontecimento inerente à própria imagem.

17. O número sete dos sábios oferece um primeiro acesso ao espaço linguístico interior da cena, remetendo aos mitos numerológicos e fundadores da cultura grega e sobretudo helenística, como a lenda dos sete sábios, e também aos sete convivas do banquete platônico, mas a singularidade do mosaico está em não representar uma faculdade alegórica de filosofia com tipos escolásticos, como num esboço helenístico de A escola de Atenas, e sim o instante de compromisso comum com um único tema, como se o observador testemunhasse um debate constitutivo da filosofia, a efusão da própria questão primordial caída aos pés dos reunidos numa bola que interpela com dois imperativos categóricos: vem, pensa-me, e deixa-te absorver em mim.

18. Houve um pentecostes que foi uma discussão, sem fim possível por causa de seu tema, de modo que a evidência dos filósofos se expandiu por toda uma era de comoção dos pensadores pela luz intelectual da suprema ideia de espaço, restando apenas a dúvida sobre se os sábios pensam só no Uno da esfera ou também no relógio solar que vigia a cena sobre uma coluna atrás deles, já que relógio e esfera se dispõem quase na mesma vertical como para acentuar sua correspondência e oposição, o relógio remetendo ao tempo que passa e é medido, a esfera representando em repouso o todo do mundo captado em medidas e conceitos, ambos transportando à época inicial da razão medidora e objetivante.

19. O tema da conversa decorre da compostura dos personagens, cujas intenções convergem indivisas no objeto diante deles, e o artista do mosaico, ao captá-los no instante da iluminação pelo Uno-Esfera, envolve a cena numa ideia óptica com a dignidade de um teorema: filósofo é quem tem um relógio às costas e uma esfera à frente, pois os pensadores helenísticos e seus herdeiros existem sob a lei do tempo como inteligências que refletem sobre algo diferente do temporal, e compreender o ser e o tempo e esclarecer a constelação que formam é a essência e o tema da filosofia primeira.

20. O mosaico não deixa dúvida sobre como deve soar a resposta acerca da constelação de ser e tempo, pois os sete se mostram partidários decididos do ser e do espaço transfigurado, dando as costas ao relógio e ao reino do que cresce e murcha no tempo para voltar-se à bola, reconhecendo a possibilidade de separar-se no tempo do tempo e penetrar no espaço absoluto, na imanência divina e na plenitude esférica, aposta sublime segundo a qual é preciso olhar a esfera para integrar-se em seu reino de serenidade e observá-la pacientemente colocando-a diante de si, de modo que o mundo se faz conceito, espacialização do espaço, conformação da forma e medição da medida, numa bola em que está contido tudo o que preocupa o conceituar posterior, a ponto de Hegel ter sido, sem saber, comentador do mosaico, de Heidegger regressar a essa bola em sua fase tardia e de pós e anti-hegelianos disputarem o legado de uma esfera tida por explodida, da qual os humanos expulsos existem como em queda livre.

21. Nunca mais se percebeu com tão pouca cifra e pretexto o que importa na atividade metafísica de cientistas e filósofos ocidentais, que consiste em representar em todos os sentidos da palavra, exibindo a esfera como modelo presente e, ao tentar ver nela a totalidade do existente e o Deus que se revela, o fundamento superbom e o ser supraessencial, pondo nas mãos do pensamento que aspira ao Uno um instrumento sólido e sutil para objetivar a totalidade do existente.

22. Com a introdução do motivo da esfera no debate sobre o fundamento do mundo, o Deus dos filósofos deixa de ser apenas um entorno invisível e magicamente animado, um Outro nebuloso para o qual se volta o olhar absorto e a súplica da miséria, e torna-se um englobante e absoluto preciso que desperta matemáticos e provoca cosmógrafos, de modo que, pela navegação panorâmica num espaço amplo que atrai inteligência e alma, o próprio intelecto se torna filosófico e participa de uma exata jovialidade antes atribuída só ao Deus panóptico em sua autorreferência fundadora do mundo.

23. Com esse triunfo do representar inicia-se a carreira secular da teologia filosófica, racional e colegial, que fala de esferas para, por cumplicidade interinteligente com a esfera maior e mais real, entrar em conexão simpática com o Uno que envolve esta e qualquer outra vida, pois pensar a esfera significa alienar-se na imensidão como função local dela.

24. As palavras que ressoam no espaço idílico do mosaico só podem tratar do sensível simbolicamente concreto e noeticamente atual que os oradores têm diante de si, que é também o motivo mais forte para o otimismo, pois tendo colocado diante de si a figura do melhor, os filósofos convencem-se de que não podem estar excluídos dela nem de seu original, já que a bola que tudo contém abrange e sustenta também seus intérpretes, contribui ela mesma para todo enunciado verdadeiro sobre ela e faz quem compreende isso reconhecer-se como função local do optimum global.

25. Em réplica ao orador da esquerda, o portador do radius, em quem se concentram os direitos magisteriais de fala, parece declarar que os presentes são de certo modo deuses e filhos do ótimo, companheiros de esfera contidos no anel do ser, não ausentes do todo, embora a ilusão de estar diante da sphaira como independentes engane, pois participam intimamente do ótimo mesmo puxados por misérias terrenas, são cúmplices do redondo e do uno mesmo quando, sob o domínio do tempo, parecem percorrer apenas retas tristes e curvas emaranhadas, e estão abrigados e a salvo mesmo quando se sentem à mercê da penúria.

26. A centelha tética salta nesse instante, todo é graça, tudo está no círculo, eíso pánta, e uma evidência transforma e transfigura os presentes, para a qual, embora como vizinhos de suas cidades e discípulos de sábios já suspeitassem que o sangue e o palavrório cívico não esgotam o horizonte humano, dificilmente estariam preparados, pois não podiam prever que seriam transladados de seus laços tribais e políticos para o sistema familiar de uma completude mortífera, para uma bola que fez mais por eles que pai e mãe e que permaneceria em torno deles como anjo da guarda geométrico, de modo que o intelecto comovido pela ideia das esferas fica incuravelmente enfermo de um pathos nem claro nem escuro: o assombro.

27. Sob o choque estimulante trava-se entre os pensadores da esfera um diálogo em que a análise rivaliza com o panegírico, e esse elogio analítico inaugura o tom da teologia racional ou cosmoteologia europeia, que se impõe porque diante do pentecostes da esfera qualquer linguagem teórica não jubilosa indicaria que o raio da evidência não atingiu o candidato, sendo o não entusiasmado alguém que não entendeu onde está em relação a si e ao todo, o não otimista alguém que ainda não deu o salto ao unânime, já que otimismo não é questão de caráter, mas entrega no pensar aos melhores motivos, de modo que diante da esfera o pensador está condenado ao otimismo e o criticismo habitual passa a sugerir uma inteligência diminuída que não domou seus impulsos de segunda ordem.

28. O estilo do otimismo metafísico só pode ser superlativista em sua primeira fase, porque compreender a esfera significa dizer dela o melhor e adorná-la com uma condecoração ontológica, de modo que a teologia racional, que até a virada de Epicuro permanecerá ligada à cosmologia, nasceu da invenção de uma forma de fala exclusivamente sua, o superlativo exato, só significativo e necessário em união com o otimismo exato.

29. O otimismo exato constitui a substância da ontoteologia posterior, também chamada simplesmente ontologia, cuja base é que o Ser Uno é a riqueza por excelência, riqueza sempre em diferenças, de modo que a doutrina do ente em sua totalidade só pode ser uma hermenêutica da abundância desdobrada em cascata infinita de diferenciações, começando sempre pelo Uno a que nada falta, embora de fato só se comece a pensar por espoliações e castrações, premissas que se tornaram profundamente estranhas aos modernos queixosos que fundamentam tudo na carência e acionam o alarme diante de qualquer pensamento proveniente da riqueza, a ponto de o chamado fim da metafísica ser muitas vezes o começo da licença teórica ao ressentimento, como nas versões filosoficamente lúbricas da psicanálise que fundam a verdade do sujeito na castração e no reconhecimento da falta.

30. Instaurar a abundância no começo lança uma luz aristocrática sobre tudo o que é o caso, pois o real tem infinitamente mais do que o necessário para satisfazer necessidades e compensações, caracterizando-se não pelo demasiado pouco, mas pelo demasiado muito, de modo que ser e abundância são duas palavras para o mesmo e, na ontologia clássica, o real é sempre o não espoliado, completo, envolvente e transbordante, o não quebrado nem castrado, que se manifesta como riqueza da cornucópia, inclusividade divina e dimensões celestes, além de outras para as quais, presos à física cotidiana, ainda não há nome nem conceito.

31. O princípio de abundância reflete-se também no discurso filosófico sobre o todo, que ao falar do ótimo só pode festejar ou cofestejar, como no Timeu, em que Platão faz o cosmos, deus sensível, ser declarado o maior, melhor, mais belo e mais perfeito, já que aqui o tom é a própria mensagem e o superlativo é a própria coisa, pouco importando que os grandes críticos do folhetim acompanhem tais exaltações a contragosto, como convidados rabugentos de festas bem-sucedidas, embora também o otimismo caia sob a entropia e as teses da ontologia entusiasta se pulverizem com o tempo, mas antes que os discursos entrópicos se academizassem, os amigos do espaço tiveram a palavra na escola de Platão durante quase uma era, ensinando o que Gaston Bachelard, topófilo tardio, repetiria como pela última vez: que o grande espaço é amigo do ser e que em seu elemento toda vida é bem-estar.

32. Para saber como festejar analiticamente a esfera divina, Otto Brendel propõe interpretar o mosaico como uma schola reunida em torno do protofilósofo Tales, um Tales fortemente platonizado pela tradição posterior, descrito como cosmoteólogo por excelência em quem a filosofia da origem, segundo a qual tudo vem da água, e a filosofia da figura, segundo a qual o todo é uma esfera perfeita, chegariam a uma síntese memorável, e para reconstruir a conversa recorre, de modo sugestivo se os anacronismos forem tomados como interpolações posteriores, ao Banquete dos sete sábios de Plutarco e às anedotas de Tales em Diógenes Laércio, que compõem uma ladainha cosmológica dos predicados esféricos ad maiorem gloriam globi.

33. Se esse objeto só pode ser tratado em tom elogioso de análise, as máximas de Tales transmitidas por Laércio e Plutarco oferecem um modelo esplêndido de como um pensador antigo poderia cumprir a tarefa de compreender a esfera do ser louvando-a, ainda que tal tarefa excedesse o Tales histórico, convertendo-se a filosofia numa presunção exata e num artifício engenhoso para falar de coisas imponentes com alma serena.

34. Sete são as propriedades repetidas do superobjeto esfera do ente em sua totalidade, sete as respostas a enigmas da ontologia e sete os predicados em tom máximo, que mantêm, porém, sua fibra argumentativa porque cada enunciado muda o aspecto lógico, como uma ladainha que seguisse uma tábua de categorias, e seus giros superlativos confirmam que pertencem às hipérboles exatas, cuja função possibilitadora da teologia é inestimável, pois toda teologia, também a filosófica, é proclamação de ardor máximo na aposta em favor dos deuses aliados de seus panegiristas.

35. O primeiro elogio afirma que a esfera não é senão o Deus e, como tal, o mais antigo, presbýtaton, de modo que, assim como perguntar além ou antes de Deus é logicamente pouco significativo e moralmente pouco admissível, seria insensato remontar a causas mais antigas e profundas que a esfera, sendo Deus e esfera igualmente imemoriais.

36. Como o mais antigo, a esfera é o não devindo, sem pais, ingênito, que tem por si mesmo ser e consistência, e como origem e forma originária de todas as coisas que contém é fundamento necessário, suficiente e excedente de si e de seus conteúdos, sem o abismo moderno do regresso infinito, porque mesmo uma reflexão potencialmente interminável foi introduzida na órbita edificante.

37. A segunda propriedade faz da esfera o mais belo, kálliston, porque tudo o que lhe é inerente manifesta o esplendor do primeiro fundamento aos olhos sensíveis e ao olho do espírito, chamando-se kósmos ou céu onienvolvente e mostrando uma presença mais bela que a qual nada se pode pensar ou ver, já que para os antigos belo é sobretudo o que se refere e se assemelha a si mesmo de modo perfeito, condição que nenhum objeto cumpre melhor que a esfera, animada por toda parte a partir do centro, entrelaçada por simetrias mágicas e capaz de girar espontaneamente sobre si.

38. À antiguidade e à beleza acrescenta-se a grandeza, sendo a esfera o maior, mégiston, porque forma o espaço coerente mais extremo, o tópos que tudo envolve sem deixar fora nem um grão de pó, o máximo diante do qual nada antagônico, estranho ou distinto pode ser pensado, o receptáculo de tudo, o continens que tudo contém sem ser contido por nada, integrando todo o existente em sua vitória perpétua, ainda que, se por muito tempo isso foi dito só da esfera tridimensional, o século XX tenha começado a pensar o espaço como matriz de todas as geometrias e diversidades possíveis.

39. Essas dignidades só podem crescer espiritualizando-se, ao declarar-se que a esfera do ser é também o mais sábio, sophótaton, pois somente a vida interior, a sabedoria, o saber ou, modernamente, a reflexão, pode conferir honras ainda maiores ao mais antigo, mais belo e maior, e o saber do ótimo, de forma circular, quer proceder em círculo, o que só é possível porque nessa interpretação também o tempo, chrónos, possui forma esférica.

40. O tempo também tem a forma de algo que, avançando sem fim, retorna a si mesmo, e todo futuro está unido por um grande laço à origem, de modo que o tempo, como o espaço, tudo contém, e os receptáculos ideais só podem ser representados como redondos, sendo a esfera, como o mais sábio, ao mesmo tempo memória, previsão e presença de espírito, louvor em que se pressente a ideia de espírito do mundo, e como tempo abobadado imagina e desenvolve as coisas, mantém-nas na existência e conserva-as na memória.

41. O quinto apóstrofo celebra a esfera como plena do mais veloz, táchiston, o espírito, noûs, que atravessa num instante qualquer distância e liga sem demora todos os pontos no interior da abóbada do ser, porque, distribuído homogeneamente, vivifica endogenamente a esfera e lhe confere a propriedade divina da onipresença do centro, sendo a esfera eterna, onisciente e veloz de pensamento, a casa do espírito do mundo.

42. Atribuídos à esfera em grau máximo antiguidade, beleza, grandeza, sabedoria e rapidez, não lhe pode faltar o predicado coroador da majestade e da força, chamando-se então o mais forte, ischyrótaton, por estar inteiramente dominada pela força universal da necessidade, anánke, cujo efeito principal é integrar o universo nos limites esféricos da abóbada, onde se materializam beleza, brilho, determinação e gravidade legais, de modo que a esfera é um corpo de ordem mantenedor e mantido, uma cúpula de força sobre a qual matemáticos e filósofos traçaram a aráchne, aranha e rede ao mesmo tempo, símbolo da sinopse divina e da necessidade imperiosa capaz de entretecer por leis estritas mesmo o mais distante e estranho.

43. O mais forte é forte o bastante para manter unido o maior pela força do limite, e por isso a esfera deve ser considerada não como figura geométrica imóvel, mas como manifestação energética, quase imperial, de poder, alcançando com ela o pensamento do ser sua forma majestática, razão pela qual a sphaira exige dos poderosos do mundo que a sustentem e se torna, como símbolo do limite bom e forte do mundo, imprescindível aos integradores e teólogos imperiais posteriores.

44. O sétimo elogio, síntese que caberia ao docente central, ao Tales idealizado e talvez assimilado a Platão, que com o radius tomado de empréstimo à musa Urânia concentra a atenção no corpo redondo do ser, assume forma linguística mais modesta, renunciando ao superlativo gramatical para chamar seu objeto simplesmente o divino, theion, aquilo que não tem princípio nem fim, expressões que encobrem um superlativo semântico, já que seria contrassenso formar superlativo do divino, e realizam a passagem da teologia elogiosa e afirmativa para a teologia negativa, apofática, quase muda, que cerca o objeto místico Deus com uma guirlanda de determinações superadas até que ele escape da rede do pensamento representativo e ascenda a uma magnificência supraconceitual, abandonando-se a ostentação afirmativa, embora tudo indique que a ostentação abandonada seja a mais forte.

45. Os sete sábios no jardim da teoria são otimistas também porque, com seus retratistas, esperam que a posteridade conserve a memória de seu diálogo e transmita o impulso do acontecimento pentecostal, esperança justificada ao menos enquanto a equivalência entre ontologia e otimismo se sustentou, pois em nenhum outro lugar se expôs com tanta amplitude e simplicidade a doutrina da otimidade e perfeição do ser, a ontologia do mundo concluso, a ideia de que a vida dos mortais é supérflua porque seu acesso ao perfeito não pode enriquecê-lo, o que equivale a dizer que o espaço é mais profundo que o tempo e o antigo mais profundo que o novo, e a ideia de que o maior feito da sabedoria humana consiste em incorporar-se, em gratidão contemplativa, à abundância originária do ser.

46. A ontologia da esfera assinala aos mortais um lugar num mundo perfeito em que o novo só poderia surgir sob o signo da piora, declarando aos filhos de uma cultura cronólatra, dominada pelo devir, pela inovação e pelo acontecimento, o limite do pensar e do existir na antiga esfera essencial, pois quando o ser quer ser tudo, toda curiosidade deve repousar no primeiro, no mais antigo e no melhor, ao passo que os modernos são impelidos por um pensamento projetivo que foge da origem rumo ao não atado e ainda não acontecido, de modo que a relação entre ser e tempo não se deixou encerrar nos limites do mosaico, infiltrando-se o tempo na esfera, seja na forma hegeliana do tempo como conceito existente, seja na heideggeriana do ser como tempo, proposições que, como brinquedos gigantescos, zombam de seus pequenos descobridores ordenando que continuem jogando.

47. A história das ideias e símbolos da velha Europa confirmou esmagadoramente as pretensões cosmológicas da antiga devoção à esfera, permanecendo toda uma era à sombra do diálogo testemunhado pelo mosaico, como mostra Constantino, que em 11 de maio de 330, nas cerimônias de fundação do novo palácio de Bizâncio, futura Constantinopla, cavalgou em desfile solene com uma esfera na mão, atributo estereotipado dos césares havia séculos, pose em que sua estátua sobre a coluna de Constantino o exibiu durante um milênio.

48. Nos milênios seguintes a esfera recebeu uma cruz e passou, nas coroações, das mãos sacerdotais às dos reis e imperadores consagrados, perpetuando o jogo da esfera no coração da história universal europeia, pois o ser humano, como bem entenderam pensadores da era cristã, é o ser a quem se põe um globo do mundo na mão, o animal extático que deve responder a qualquer momento se percebeu sua dignidade régia, se se tornou o que se torna quem segura o globo, se estava presente quando se quis entregar-lhe a esfera e, se não estava, que motivos lhe pareceram mais importantes que o chamado ao jogo da esfera e por que não tomou a bola dourada.

49. Toda a filosofia inovadora, com as exceções de Nietzsche, Kojève, Bense, Foucault, Deleuze e seus amigos, não passa de uma lista de desculpas pelas quais os teóricos julgam não poder tomar a bola do ser, pois os modernos nunca foram tímidos em argumentar a indigência humana, perguntando como um ser deficiente enfrentaria o ser, como alienados enfrentariam a abundância se na vida falsa nada é correto, como explorados e despedaçados dialogariam com o todo, como seres hipotecados à utilidade se entregariam ao luxo absurdo de existir, por que se preocupar com o ser após a preeminência da democracia sobre a ontologia e com um todo que os espíritos analíticos reduzem a conceito formal ou fantasma narcisista.

50. No ocaso da época da esfera, Goethe instalou em abril de 1777, no terreno do pavilhão de seu jardim às margens do Ilm, diante das portas de Weimar, uma grande bola de pedra sobre um pedestal cúbico, seu altar da boa sorte, gesto de devoção panteísta contra os sentimentos de um presente vazio e insatisfeito, recorrendo duplamente a símbolos geométricos de totalidade que mediam entre repouso e movimento, evocando como pela última vez o demonismo branco de uma vida íntegra num mundo completo e legando à posteridade um enigma que, à luz da tradição das esferas, pode formular-se assim: o que será do globo numa época sem reis, ou o que será dos reis numa época sem globo.

estudos/sloterdijk/1999/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1