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Filosofia das Estórias

SCHAPP, Wilhelm. Philosophie der Geschichten. 3. Auflage 2015 ed. Frankfurt am Main: Klostermann, 2015.

Prefácio

1. No prefácio à segunda edição da “Crítica da Razão Pura” (1787), Kant aponta três revoluções do modo de pensar estreitamente relacionadas entre si: a fundação da matemática como ciência entre os gregos, a fundação da ciência natural, na qual se atribui a Bacon grande mérito, e a fundação da metafísica como ciência, feito do próprio Kant, associado a uma fundamentação definitiva da matemática e da ciência natural.

2. Com essas três revoluções, Kant circunda o mundo por meio de alguns conceitos fundamentais — espaço e tempo, sensibilidade, entendimento e razão — e de sua doutrina do a priori, de modo que a ciência ganha nele maior peso que a própria filosofia, a qual, e a metafísica com ela, precisaria antes tornar-se ciência para chegar a si mesma, ainda que reste em aberto a questão do sentido dessas revoluções, sugerida por números como 1789, 1792, 1794, 1830, 1848, 1905, 1917 e 1949.

3. Números semelhantes poderiam também documentar as revoluções científicas e técnicas da modernidade desde Bacon, indicando relações entre a ciência e seus fundadores e as revoluções na técnica e na política.

4. Terá sido nesse sentimento que Kant reteve inalterado, para a segunda edição da “Crítica da Razão Pura”, o prefácio de Bacon escrito cerca de cento e cinquenta anos antes, no qual se destacam três pensamentos: o silêncio sobre si mesmos, a recusa em fundar uma seita ou um capricho qualquer em favor do bem-estar e da dignidade humanos, e a compreensão da Instauratio como fim e limite natural do erro infinito.

5. Esse prefácio baconiano aproxima-se mais do sentido de revolução aqui pretendido, na medida em que Bacon vê a ciência natural sobretudo como instrumento de domínio da natureza, a serviço do bem-estar e da dignidade humanos e da eliminação da superstição, lançando assim, ao menos em parte, o fundamento das revoluções posteriores.

  • É inquietante a serenidade com que Kant fala de revoluções no reino do espírito num momento em que a realeza já havia sido abolida em Paris, sem que ele refletisse sobre tais conexões, ainda que as tenha, talvez, pressentido.
  • Em certo sentido, poder-se-ia dizer, no espírito do próprio Kant, que desde Tales, desde Bacon ou desde Kant vive-se em revolução permanente até os dias de hoje e para um futuro imprevisível.

6. Essa revolução configurou-se, contudo, de modo diverso do imaginado por Bacon e Kant: a superstição, tal como entendida pela ciência, parece ter sido mais ou menos radicalmente eliminada, embora ainda faltem, aqui e ali, o bem-estar e a dignidade humanos, sem que se possa aqui averiguar em que medida a filosofia participou desse processo.

7. Buscando inserir-se no grande nexo visado por Kant, encontra-se em Bacon um ponto de acesso: a frase “de nós mesmos calamos” permite reconhecer que, tanto na matemática, na ciência natural quanto na metafísica kantiana, pouco se fala de “nós mesmos”, pois as coisas ali tratadas parecem não ter absolutamente nenhum si mesmo (Selbst), de sorte que a aproximação ao próprio si mesmo não se dá pelas ciências nem pelos estados de coisas (Sachverhalte), mas somente pelas histórias.

  • Nós mesmos não somos pontos de referência fantasmagóricos e exangues que apenas intencionam estados de coisas, mas heróis, reis, cavaleiros, sacerdotes, videntes, santos, profetas, poetas ou homens do povo enredados em histórias, cada qual com suas histórias particulares.
  • Todas essas histórias, desde o início dos tempos até hoje, encontram-se interligadas, formando uma unidade na qual o mais humilde tem lugar tão legítimo quanto o profeta e o fundador de religião.

8. Essa conexão constitui apenas um fio entre milhares que aqui poderiam ser perseguidos.

9. Em trabalho preparatório anterior — a saber, “Em Histórias Enredado. Sobre o Ser do Homem e da Coisa” —, buscou-se abrir caminho a essa filosofia das histórias, que se designa como quarta revolução no sentido de uma busca ainda em curso pelo que seja a filosofia, a qual certamente não é uma ciência como a matemática ou a ciência natural.

  • Investiga-se como a filosofia ocidental, a despeito de fortes tendências contrárias, buscou seu prestígio em tratar seu tema à maneira matemática, desde os Sete Sábios.
  • Reconhece-se em Kant, cujo peso filosófico repousa sobretudo na “Crítica da Razão Pura”, a justificativa para inserir a filosofia nesse contexto, malgrado relações mais amistosas se pudessem estabelecer com o Kant da razão prática e, sobretudo, da faculdade de julgar.

10. Manifesta-se aqui o revolucionário e o titã Kant, cuja aparição constitui, ela mesma, uma história, interessando no momento não essa história, mas o conteúdo dela numa direção determinada: a pretensa condição de fim de todas as histórias, enquanto razão pura.

11. As histórias são, nesta perspectiva, fenômenos originários (Urphänomene), figuras originárias (Urgebilde), mais originárias que as figuras da ciência, não consistindo de modo algum em proposições, nem aquilo que por proposições se poderia tomar consiste em palavras; não têm começo nem fim, tampouco são objetos de conhecimento, mas nelas estamos enredados ou co-enredados (mitverstrickt), de sorte que as histórias só se abrem ao co-enredado, permanecendo em aberto a questão sobre o que sejam as proposições, palavras e figuras das ciências e sua relação com os conceitos, as figuras e os estados de coisas.

12. Cabe perguntar, à semelhança de Kant no início da terceira revolução, se a próxima revolução deve necessariamente conduzir ao si mesmo do homem e, portanto, às suas histórias, podendo-se até indagar se Bacon já pressentira isso na segunda revolução.

  • O respeito pela ciência, pela construção matemática, pelo experimento na ciência natural e, em sentido amplo, pela verificabilidade de toda afirmação, bem como pela fronteira entre saber e crer, não é exclusivo, mas compartilhado com todos os eruditos formados há séculos nas universidades, entre os quais Bacon.
  • Permanece, todavia, legítima a pergunta sobre o que sejam, cada um por si, “saber” e “crer”, e o que os separa e os une, questão já respondida quando se reconhece que os ditos dos Sete Sábios, compreendidos e valorizados também na Índia e na China, nada têm a ver com essa distinção.
  • Enquanto Husserl teria talvez buscado, por meio de sua doutrina dos valores, anexar esse domínio ao grande edifício das ciências, opta-se pelo caminho inverso: partir do fenômeno seguro das histórias, em que se está enredado, para conferir a esse âmbito o lugar devido tanto às ciências rigorosas quanto às sentenças dos Sete Sábios e de seus sucessores, sem com isso pretender vincular-se diretamente a eles, mas antes conferir a tais sentenças um fundamento firme nas histórias, defendendo-as contra a soberba dos titãs da filosofia que tomam de assalto o céu com o raio das ciências rigorosas e da verdade, e reconduzindo as pretensões destes últimos, definitiva ou provisoriamente, a uma medida modesta.
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