Arte
Carlo Saviani. El Oriente de Heidegger. Barcelona: Herder, 2004
MARTIN HEIDEGGER - HÖSEKI SHIN'ICHI HISAMATSU: O ARTE E O PENSAMENTO
1. O diálogo entre Heidegger e Hisamatsu inicia-se com a pergunta sobre se existe no Japão um termo para “arte”, e Hisamatsu responde que “arte” no sentido moderno ocidental-estético existe no Japão há cerca de setenta anos como uma tradução, sendo que “Gei” significa originariamente “arte” como “capacidade” ou “habilidade”, e o composto “Gei-jitsu” é a tradução do conceito ocidental-estético de “arte”, mas existe outro termo antigo japonês, não influenciado pelo europeu, que é “Gei-dō”: a via da arte, onde “Dō” é o chinês “Tao”, que não significa apenas “via” como método, mas guarda uma relação profunda e intrínseca com a vida e com o ser, de modo que o arte tem um significado decisivo para a própria vida.
-
Hisamatsu explica que no arte zen a capacidade tem um duplo significado: primeiramente, o homem é conduzido da realidade ao origem da realidade, sendo o arte uma via pela qual o homem é introduzido no origem; em segundo lugar, o arte encontra sentido no fato de que o homem, uma vez introduzido no origem, retorna à realidade, e a essência autêntica do arte zen consiste neste retorno, que é o obrar, o pôr-se-a-obra da verdade zen mesma, sendo o origem da realidade a verdadeira vida originária, o Si mesmo, que é ao mesmo tempo o abandono divino de todo vínculo e o ser livre de todo vínculo formal, denominado também Nada [ Nichts ].
-
Heidegger observa que o ser do arte europeu se distingue pelo caráter da apresentação, do “Eidos”, do fazer visível, enquanto no mundo asiático a apresentação é um obstáculo, mas Hisamatsu esclarece que, até que o homem se encontre na via do origem, o arte como apresentação da imagem constitui um obstáculo, porém, uma vez introduzido no origem, fazer visível o eidético já não constitui um impedimento, mas o aparecer da verdade originária mesma, e Heidegger completa que o escrito, o desenhado, não é unicamente impedimento, mas “sem impedimento” [ Ent-hinderung ], a ocasião do movimento do Si mesmo para o origem.
2. Hisamatsu afirma que uma obra de arte zen é bela se fala desde ela, de forma viva, o fundo originário, e então também para o observador se faz possível que emerja dito fundo, e Heidegger acrescenta que no arte asiático não se produz nada objetual que opere sobre o espectador, e a imagem não é um símbolo ou um emblema, mas ele segue no color, por escrito, o movimento para o Si mesmo, e Hisamatsu concorda que na ação, a essência de uma linha traçada não reside no caráter-símbolo, mas no movimento, e a obra de arte não é um objeto detrás do qual há um significado ou um sentido, mas um obrar imediato, movimento, embora enquanto se fale do perdurar no movimento do origem mesmo, já não se está mais, ou não se está ainda, no origem, e se se está no origem, então o movimento se move a si mesmo.
-
Max Müller recapitula que o verdadeiro arte não nasce do movimento que leva ao origem, mas do movimento que o origem cumpre em seu aparecer, e Hisamatsu distingue que em Occidente o origem é em algum modo um ente, eidético, enquanto no zen o origem é informe, o não-ente [nicht-Seiende], e este “não” não é uma mera negação, pois esta Nada carece de toda forma, e sendo totalmente informe, pode mover-se totalmente livre, sempre e por todas partes, e neste movimento livre consiste o movimento pelo qual a obra de arte é produzida.
-
Heidegger, por alusão, diz que este Vazio não é a Nada negativa, e se o vazio for entendido como um conceito espacial, deve-se dizer que o Vazio deste espaço é aquilo que cria espaço [das Einräumende ], aquilo que recolhe todas as coisas, e Hisamatsu concorda plenamente, acrescentando que este criar espaço deve estar sempre livre de toda atadura, desligado da objetividade e da validade, sendo o livre obrar da vida próprio da verdade zen, e a beleza de uma obra de arte no zen consiste no fato de que o informe se apresenta em algo figurativo, e sem este apresentar-se do Si mesmo informe no formal, a obra de arte zen é impossível, devendo a beleza no zen ser pensada sempre junto à liberdade do Si mesmo originário.
3. Siegfried Bröse observa que o que foi dito também é, por assim dizer, o que tenta o arte figurativo atual em Occidente, onde a obra de arte não é um símbolo, mas o movimento mesmo que põe em manifesto o que está detrás das coisas mesmas, e o arte moderno quer abandonar todo significado, toda sentido, sendo a meta não algo que tenha um significado, mas o espaço que acolhe, que cria espaço, não uma coisa no espaço, e que nesse sentido Klee é ainda um simbolista com uma instância objetivista, não o mero pôr-se-a-obra do artista, mas Heidegger contesta essa interpretação de Klee e questiona o que resta onde o simbólico é superado, e que tipo de mundo é esse, observando que aquilo que em Occidente talvez ainda se busca, no Japão já existe.
-
Hisamatsu diferencia a pintura abstrata ocidental, cuja essência da abstração consiste no fato de o pintor se encaminhar na direção da negação formal, um movimento que, por ainda buscar ir além das formas, está ainda ligado ao formal, enquanto a pintura zen se move exatamente na direção oposta, tratando-se da aparição do Si mesmo informe, e quando perguntado sobre os critérios para julgar se uma obra de arte vem ou não do origem, Hisamatsu responde que isso só pode ser examinado desde o origem mesmo, e que a beleza mais elevada se encontra mesmo ali onde não aparece nenhuma forma ou estrutura, de modo que o arte do zen não está limitado a âmbitos particulares, pois tal movimento pode aparecer por todas partes, e onde vive o zen, há arte.
4. Heidegger conclui o seminário afirmando que ficou claro que, com as representações ocidentais de uma via direta e contínua, não se pode chegar onde os japoneses já estão, e conclui com um kōan, o kōan preferido do mestre Hakuin, levantando uma mão e dizendo: “Escuta o som do aplauso de uma só mão!”.
