Mundo
(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:46-56)
O conceito evental de mundo: o evento como “transição fenomenológica”
1. A relação entre evento e mundo, e o modo como o sentido fenomenológico deste último se dá a ver a partir daquele, encontra em Hegel, na Fenomenologia do Espírito, a descrição do surgimento do novo como um abalo (Wanken) do mundo, comparado ao nascer do sol que, num relâmpago (ein Blitz), desenha de uma só vez a figura do novo mundo (das Gebilde der neuen Welt hinstellt), colocando-se a questão de saber se, sendo um único e mesmo mundo que vacila, desmorona e se edifica através desse abalo, não é o próprio sentido do mundo que aparece modificado.
2. Com o surgimento do evento o mundo desmorona como contexto, revelando-se subitamente insignificante, ante o que se anuncia, o horizonte significante a partir do qual todo fato intramundano pode se mostrar como tal, engastado na trama infinita de suas causas e no complexo articulado de fins à luz dos quais o adveniente o compreende.
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O evento retira ao contexto hermenêutico à luz do qual todo fato se explica sua significância, ao passo que significa, para quem o compreende, o advento de um novo mundo.
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Essa descrição do evento como irrupção de uma nova configuração de mundo, embora correta, permanece insuficiente, pois através dessa metamorfose se joga a passagem de um sentido a outro do mundo, do sentido eventual ao sentido evental, não mais como contexto factual de toda compreensão intramundana, mas como totalidade articulada de possibilidades a partir da qual o adveniente se determina a si mesmo em sua aventura, cabendo então perguntar em que o mundo como evental, a priori da aventura humana, difere do mundo como contexto.
3. O contexto significante à clareza do qual todo fato intramundano se torna interpretável é constituído pela multiplicidade de fatos concomitantes aos quais o fato remete como a suas circunstâncias, não havendo, nesse sentido, jamais fato isolado, distinguindo-se o fato, desprovido de designação específica e que se mantém como puro vis-à-vis (Gegenstand) de uma experiência, de seu contexto mundano, que se mantém igualmente diante de quem o considera numa interpretação, designando o mundo aqui o enxame de circunstâncias que esclarecem o fato sem dele fazer parte, o mundo ambiente (Umwelt) enquanto totalidade intrinsecamente inacabada, multiplicidade ou conjunto aberto, já que sempre podem se lhe acrescentar novos fatos e a etiologia explicativa pode sempre, em princípio, prosseguir mais adiante.
4. Não ocorre o mesmo com o segundo sentido do mundo, acessível a partir do evento em seu sentido evental, pois, diferentemente do simples fato que, embora modificando certos possíveis, permanece explicável a partir de um horizonte causal prévio, o evento, ao modificar certos possíveis, transtorna, a cada vez, o possível em totalidade.
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A totalidade aqui em questão não é multiplicidade indefinida de fatos à luz dos quais o evento seria explicável, nem coleção de possíveis desagregados, mas a unidade estrutural, hierárquica e significante que lhes confere sentido, como ilustra o evento de uma doença que, ao me atingir em minha integridade física, atinge a própria raiz do possível, inverte a ordem das prioridades e produz, ao arruinar projetos e transtornar hierarquias, novas constelações de sentido.
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O mundo em sentido evental não é, portanto, conjunto de possíveis independentes, mas a totalidade estrutural e hierárquica que os integra, cada possível só ganhando sentido em sua relação com o todo, sendo o evento justamente o que revela essa coesão dos possíveis, isto é, o mundo, condição única sob a qual pode reconfigurar o mundo em totalidade e alterá-lo de parte a parte em seu sentido.
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Essa totalidade em jogo no fenômeno evental de mundo preexiste, portanto, às suas partes, sendo a totalidade do mundo (Welt) não mais a ambiência (Umwelt) de um contexto explicativo enquanto multiplicidade aberta de fatos, mas globalidade que precede absolutamente toda multiplicidade dada, unidade indivisa e contudo articulada, precedendo toda adição ou soma de possíveis, unidade omnienglobante de sentido que constitui um a priori da compreensão só revelado, como tal, no a posteriori do evento.
5. O mundo não é, por conseguinte, verdadeiramente distinto do evento enquanto tal, mas antes um a priori deste, de modo que, enquanto o contexto é, por definição, independente do fato nele anunciado, mantendo-se este diante de quem o considera e o mundo por detrás como fundo significante sobre o qual se destaca, o evento e o mundo em sentido evental aparecem, ao contrário, interdependentes e solidários entre si, não se originando apenas o mundo no evento, mas não sendo, rigorosamente falando, diferente dele, pois o evento não é senão a metamorfose do mundo e de seu sentido, e o mundo não é senão o evento de seu próprio advento, sendo por ser modulação do mundo que o evento pode revelá-lo como tal, desvelando o Aberto em sua vacância pré-subjetiva e pré-objetiva, aquilo a partir de onde o próprio adveniente tem lugar.
6. O mundo em sentido evental não é, assim, nem objetivo nem subjetivo, não designando estrutura do sujeito nem determinação da subjetividade ontologicamente bem compreendida — o Dasein como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) —, mas aquilo a partir do qual a própria subjetividade do sujeito advém, sendo o evento, à diferença de todo fato empírico, o transcendental para todo sujeito, a condição sem condição a partir da qual a subjetividade se constitui no desvio de si a si constitutivo do Si mesmo, como resposta diferida ao que nos acontece — responsabilidade —, na qual reside somente a ipseidade do adveniente, sendo por isso o mundo em sentido evental neutro, pré-subjetivo e pré-individual, embora concirna cada adveniente em sua indeclinável ipseidade.
7. Com o evento não se opera apenas a passagem de um mundo a outro, mas também a transição fenomenológica de um sentido a outro do mundo, cedendo o mundo em sentido eventual, como contexto explicitante, lugar ao mundo como universo de possibilidades a partir das quais o adveniente tem de se compreender a si mesmo, nascendo o adveniente, de certo modo, dessa mutação de sentido, já que só na medida em que o evento tem lugar há também um adveniente, descobrindo-me sem base diante do que me advém e excede minha medida.
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Essa transição de um fenômeno do mundo a outro não resulta de procedimento subjetivo algum, tal como a redução fenomenológica em suas diversas modalidades — a epoché transcendental husserliana, mas também a redução fenomenológica a que se refere Heidegger nos Grundprobleme como reconduzimento do olhar do ente a seu ser.
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Enquanto em Sein und Zeit a passagem da Umwelt estruturada pela Bedeutsamkeit ao Welt desvelado originariamente pela angústia, embora inteiramente imotivada, permanecia ainda fato de um Dasein que se angustiava, aqui, ao contrário, a transição de um sentido do mundo a outro não é algo de que o sujeito, mesmo involuntariamente, seria ainda operador, nem sucede ao evento nem procede dele, sendo o evento em sua eventualidade essa própria transição, razão pela qual, numa hermenêutica evental, não há mais redução.
8. É somente por ocasião de um evento — um luto, um encontro, um acidente, uma doença —, no naufrágio dos possíveis que davam ao mundo sua figura, que o sentido evental do mundo pode se revelar, sendo esse universo de possibilidades redesenhado pelo evento aquilo a partir do qual o adveniente advém a si e do qual recebe o próprio sentido de adveniente, mutação de sentido decisiva a partir da qual o adveniente se torna pensável em sua aventura, não se abrindo o mundo senão para um adveniente que só advém a si por e a partir do mundo, de modo que o haver do mundo só tem lugar se há o adveniente, e de adveniente só há se o mundo tem lugar, aparecendo os dois fenômenos como inextricáveis.
9. O conceito evental de mundo só poderá receber elucidação completa a partir de uma análise fenomenológica do nascimento, evento insigne e fundador a partir do qual se decide o sentido do adveniente e de seu mundo, restando perguntar como o mundo advém a partir de um primeiro evento inaugural e sob qual modo o próprio adveniente está em jogo nesse evento.
