Desespero
(ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999:32)
O DESESPERO E O TERROR
a. — A passibilidade ao Evento e o sentimento
1. Não há Evento neutro, pois tudo o que sobrevém já se encontra carregado de alegria ou tristeza, de ansiedade, temor ou esperança, sendo o sentimento, em geral, o modo pelo qual o Adveniente se sente a si mesmo diante do que lhe acontece, nunca havendo pura passibilidade ao Evento que não esteja já modalizada afetadamente.
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O caráter reflexivo do sentimento como sentir-se pertence ao próprio modo de sua fenomenalidade, ainda que sentimentos como a insatisfação manifestem particular ausência de cuidado (cura; Sorge) para consigo mesmo.
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A alegria, segundo Schelling, só é possível a ignorar-se a si mesma, tal como a graça e a inocência deixam de sê-lo ao se saberem; onde é máxima, a alegria transborda e irradia para fora de si, sendo indissociável de um desejo de comunicação, ainda que nela persista uma reflexividade essencial pela qual o Si aparece implicado antes de toda reflexão temática.
2. O sentimento modaliza a abertura ao Evento em geral, ou passibilidade, determinando por meio dela a própria abertura ao mundo que o Evento possibiliza, sem que a referência a si do sentimento signifique retorno temático sobre si, mas apenas que em todo sentimento está em jogo a ipseidade como responsabilidade — o que se evidencia sobretudo em sentimentos de reflexividade exacerbada, como a morosidade, o tédio, a nostalgia, a melancolia ou a tristeza, e particularmente nesta última, que se opõe à expansão da alegria por seu abatimento que fecha sobre si mesmo.
3. A tristeza que atravessa o mais profundo de si, deixando desamparado e devastado, tem por traço próprio a alternância entre abatimento e revolta que a mantém ainda nossa, não nos despossuindo por completo dela, tal como Rilke descreve, numa das Cartas a um jovem poeta, essas grandes tristezas que transformam algo no ser mesmo daquele que as atravessa.
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A tristeza, enquanto permanece minha — abatimento e revolta, sofrimento e luta —, não é má, sendo antes, segundo Rilke, estado de tensão vivido como paralisia, ao qual a solidão e o recolhimento constituem simultaneamente expressão e principal remédio.
4. A tristeza, momento crítico da aventura humana em que abatimento e revolta se enfrentam, permanece um modo pelo qual o Evento nos toca segundo nosso destino único, sendo por isso, mesmo extrema, ainda um benefício na medida em que nela permanecemos presentes a nós mesmos — tal como a teologia cristã fala do dom das lágrimas —, ao passo que a essa apropriação do sentimento se opõem a apatia de certas psicoses e a impessoalidade do desespero.
b. — O desespero como sentimento de fundo
5. Enquanto a tristeza ainda é um modo de relacionar-se consigo mesmo padecendo a prova do que acontece, o desespero caracteriza-se por uma espécie de apatia dolorosa em que, incapaz de apropriar-se do que lhe advém, o Adveniente torna-se propriamente ninguém, afundando toda a aventura num anonimato sem fundo que constitui não apenas o desmoronamento dos possíveis, mas a impossibilidade de assumir o Evento que lhe sobrevém.
6. No grande calmo que se instaura nos verdadeiros momentos de desespero desvela-se uma lucidez impessoal em que as coisas passam a viver por conta própria e o mundo despojado de sentido se transforma em puro espetáculo, instaurando-se aí uma intimidade com a morte impessoal como Evento radicalmente impróprio e anônimo, tal como o descreve, em poucas frases, L'Éducation sentimentale de Flaubert.
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O desespero é, nos termos de Kierkegaard, essa morte continuada que não pode morrer e que, contudo, já está morta, incapaz de assumir a morte, pois a própria decisão do suicídio pressupõe a ipseidade e um projeto de mundo que justamente ruem no grande desespero.
7. O desespero manifesta assim a relação primeira com a morte, na qual o sujeito se prova como já morto, segundo as justas palavras de Kafka sobre o sobrevivente autêntico, provando-se decaído aquém de toda ipseidade e de todo projeto, e por isso incapaz de assumir a morte ou o suicídio, revelando ao mesmo tempo um vínculo originário com o Evento em geral em seu caráter impessoal, de modo que o desespero aparece como o contra-fenômeno e o negativo da ipseidade.
8. A única aventura consiste nessa insistência diante do que sobrevém pela qual o sujeito é duplamente mantido pela necessidade e pela impossibilidade de continuar, quiasma ao qual o Adveniente está irremissivelmente encadeado, insistência que só se revela verdadeiramente no desespero, no desmoronamento de um Si em desapossamento de si, tal como o exprime a fórmula de Beckett segundo a qual o fim está no começo e, contudo, continua-se.
9. Sentimento fundamental da perda do sentimento, o desespero não é uma tristeza extrema, mas a decadência aquém de toda ipseidade e de todo sentimento, sendo o aniquilamento de todo Si indissociável do desmoronamento do mundo, tal como o exprime Hölderlin ao dizer não ser mais nada e não mais gostar de viver, acarretando esse desmoronamento também o colapso de toda relação verdadeira com o outro.
10. É somente quando o Adveniente decai aquém de si mesmo, tocando o fundo do desespero, que também toca o fundo da angústia e do isolamento, distinguindo-se essa perda simultânea dos outros e de si mesmo de toda solidão propriamente dita, na qual a ipseidade ainda persiste mesmo em seu isolamento.
11. O fenômeno do desespero testemunha, para além de toda psicologia, um anonimato de fundo da aventura humana que faz ressaltar, negativamente, o sentido evental da ipseidade, sempre resposta diferida ao Evento, constituída pelo desnível entre a passibilidade como abertura primeira ao Evento e a capacidade de manter-se aberto a ele, sendo a ipseidade, por isso, mais originariamente ainda uma incondição.
12. Revela-se também o vínculo do desespero, sentimento de fundo, ao nascimento como não-fundo da aventura, no qual, atrás das coisas que assombram o mundo desertado, luz apenas o passivo de um nascimento inapropriável, tal como o exprimem as litanias de Beckett sobre a impossível apropriação do próprio nascimento.
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Esse não-fundo do Evento de nascer, absolutamente imemorial e inapropriável, é o que se dá a experimentar no desespero, não como modo privativo de uma esperança originária, mas como o próprio fundo da aventura, irredutível a toda facticidade e a todo poder-ser.
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Tornada sensível pelo desespero, a experiência do nascimento revela-se sempre já luto do ser, ruptura da presença, abandono e impossibilidade de recompor os pedaços, dispersão originária do ser, tal como o formula Beckett ao afirmar não haver senão o abandono.
c. — O terror e o trauma
13. O desmoronamento do mundo e do Si manifesto no desespero não tem nele seu único lugar, encontrando-se fenômenos análogos em certas psicoses ou neuroses em que o Evento, sob a forma de um trauma, desempenha papel essencial, tendo o colapso da ipseidade por correlato uma alteração profunda da passibilidade do Adveniente, de modo que o trauma se torna, segundo a expressão de Freud, um verdadeiro corpo estranho interno.
14. O trauma é um Evento que não se pode fazer próprio, expondo o sujeito como incapaz de fazer-lhe face; se a ipseidade é o poder-manter-se-em-face do que sobrevém, no terror não há mais face alguma, estando o Adveniente entregue sem reserva à alteridade anônima e sem rosto do terrível, distinguindo-se assim radicalmente do medo, cujo objeto se anuncia sempre desde uma região do mundo, conforme sublinha Heidegger.
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A proximidade absoluta do terrível anula toda distância e todo espaço, envolvendo o sujeito à maneira da obsessão, tal como o descreve Binswanger a propósito de Suzanne Urban, para quem o terror se tornou atmosfera, traduzida pelo olfato que pressente o perigo por toda parte.
15. Envolvendo o sujeito por todos os lados em sua proximidade sem distância, o terrível o deixa inerte e paralisa toda reação, inibindo inclusive o medo que ainda permitiria enfrentar o ameaçador, de modo que a estupefação resultante significa antes de tudo a impossibilidade de responder pelo que se passa, sendo Suzanne Urban descrita por Binswanger como um Si irresponsável, incapaz de resposta, e por isso já não mais propriamente um Si.
16. O terror difere do medo não apenas por despossuir toda possibilidade de resposta em primeira pessoa, mas por proceder também de uma ameaça interior na qual está em jogo a própria ipseidade, revelando o que o Evento terrível desvela do próprio sujeito, e não um conhecimento teórico da morte em geral, mas a morte como minha morte, evento em que se trata de mim mesmo em minha ipseidade insubstituível.
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Enquanto o Adveniente ameaçado por um perigo se relaciona com sua morte como possibilidade ainda sua, antecipável e dominável, a intimidade com a morte revelada no terror é tal que, tendo a ipseidade se desmoronado, o sujeito fica entregue por inteiro ao império anônimo do impessoal se-morre, sentido mais próprio da morte.
17. Na medida em que, no terror, já não se pode responder pelo que acontece, o sujeito reduz-se ao estatuto de puro sujeitado, fenômeno que se manifesta na fascinação, dupla atitude em que a impossibilidade de reconhecer-se no que sobrevém coexiste com a captação pelo Evento sob sua face puramente objetiva de acaso ou fatalidade destituída de sentido.
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A culpabilidade do sobrevivente é a única maneira pela qual o Adveniente pode responder pelo que rompe toda possibilidade de resposta, fazendo próprio o que não pode se apropriar, dando lugar a modalidades de suplência clínica em que a ênfase recai sobre os outros e não sobre si mesmo.
18. A incapacidade do Adveniente de advir-se livremente e sua submissão ao Evento que o esmaga acarretam a modificação de sua passibilidade, pois o Evento traumático, incessantemente relembrado e revivido, invade o presente e impede de antemão que qualquer outro Evento verdadeiro se manifeste, reduzindo o tempo do doente a um presente acrônico fechado a toda futuração, verdadeiro corpo estranho interno que impossibilita inclusive a verdadeira memória.
19. A derrota da ipseidade manifesta, mais uma vez em negativo, seu sentido propriamente evental, pois ao fazê-la sucumbir sob o peso de um Evento impossível de apropriar-se, o traumatismo põe em evidência a ipseidade como capacidade de apropriação, sendo poder apropriar-se do Evento que lhe sobrevém em próprio, para o Adveniente, precisamente ser si mesmo.
20. Disso decorre que a ipseidade, enquanto responsabilidade, designa sempre uma postura do Adveniente em sua relação com os Eventos, encontrando-se também implicada nos Eventos em que o outro se manifesta, como no encontro ou, inversamente, no luto, de modo que a alteridade do outro codetermina a ipseidade em seu sentido evental, jamais definida de maneira autárquica.
