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Distanciamento
RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.
A função hermenêutica da distanciação
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O ponto de partida é a antinomia identificada como mola essencial da obra de Gadamer, entre distanciação alienante e pertencimento, que suscita a alternativa insustentável do próprio título Verdade e Método: ou se pratica a atitude metodológica e se perde a densidade ontológica, ou se pratica a atitude de verdade e se renuncia à objetividade das ciências humanas.
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A tentativa de superar essa alternativa parte da escolha da problemática do texto, que reintroduz uma noção positiva e produtiva da distanciação, sendo o texto o paradigma da distanciação na comunicação e revelando que a historicidade da experiência humana é uma comunicação na e pela distância.
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A problemática do texto se organiza em torno de cinco temas — a efetuação da linguagem como discurso, a efetuação do discurso como obra estruturada, a relação da palavra com a escrita, a obra de discurso como projeção de um mundo, e o discurso como mediação da compreensão de si —, que constituem os critérios da textualidade, sem que a escrita, embora central, esgote sozinha a problemática do texto.
I. A efetuação da linguagem como discurso
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O discurso, mesmo oral, apresenta um traço primitivo de distanciação sob o título da dialética do acontecimento e da significação, distinção que remonta a Ferdinand de Saussure e Louis Hjelmslev e é levada mais longe por Émile Benveniste, para quem a linguística do discurso se apoia na frase como unidade, distinta do signo próprio à linguística da língua.
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O discurso é acontecimento em quatro sentidos: realiza-se temporalmente no presente por oposição à virtualidade da língua; remete a seu locutor por indicadores como os pronomes pessoais, sendo autorreferencial; refere-se a um mundo que pretende descrever, exprimir ou representar; e constitui o fenômeno temporal da troca entre interlocutores no diálogo.
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Todo discurso, efetuado como acontecimento, é compreendido como significação, sendo esse ultrapassamento do acontecimento na significação o núcleo do problema hermenêutico e a primeira distanciação, a do dizer no dito.
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Para esclarecer o que é dito, a hermenêutica recorre também à teoria do Speech-Act de Austin e Searle, que distingue o ato locucionário (dizer), o ato ilocucionário (o que se faz ao dizer) e o ato perlocucionário (o que se faz pelo fato de falar), sendo esses três níveis aptos, em ordem decrescente, à exteriorização intencional que torna possível a inscrição pela escrita, o que leva a entender por significação do ato de discurso não apenas o correlato proposicional, mas também a força ilocucionária e a ação perlocucionária.
II. O discurso como obra
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Três traços distinguem a noção de obra: ser uma sequência mais longa que a frase, suscitando problema de compreensão relativo à totalidade fechada da obra; submeter-se a uma codificação de gênero literário; e receber uma configuração única chamada estilo, sendo composição, pertencimento a um gênero e estilo individual categorias da produção e do trabalho, como ilustra a observação de Aristóteles de que toda prática e produção incidem sobre o indivíduo, e como desenvolve G. G. Granger em seu Essai d'une philosophie du style.
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A noção de obra situa-se como mediação prática entre a irracionalidade do acontecimento e a racionalidade do sentido, pois a estilização advém no seio de uma situação estruturada mas aberta, cumulando o estilo os dois caracteres de acontecimento e sentido, como observa W. K. Wimsatt em The Verbal Icon.
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A noção de sujeito do discurso recebe estatuto novo quando o discurso se torna obra: a categoria de autor, exemplificada pelo modelo do artesão e pela construção do objeto matemático conforme G. G. Granger, corresponde à individualidade da obra, sendo autor e obra estritamente correlativos, e a categoria de autor pertence à interpretação por ser contemporânea da significação da obra como um todo.
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A objetivação do discurso na obra estruturada obriga a repensar inteiramente a oposição diltheyana entre compreender e explicar, pois a explicação torna-se o caminho obrigatório da compreensão sem eliminá-la, permanecendo a hermenêutica a arte de discernir o discurso na obra, e a interpretação a réplica dessa distanciação fundamental que é a objetivação do homem em suas obras de discurso.
III. A relação da palavra e da escrita
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A passagem da palavra à escrita não introduz apenas a fixação do acontecimento de discurso, mas torna o texto autônomo em relação à intenção do autor, de modo que a significação verbal do texto e a significação mental do autor seguem destinos diferentes, permitindo reconhecer à Verfremdung um sentido positivo distinto da conotação de decadência que lhe dá Gadamer, pois a “coisa” do texto pode se subtrair ao horizonte intencional finito do autor.
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A obra literária deve poder se descontextualizar tanto do ponto de vista psicológico quanto sociológico para se deixar recontextualizar em nova situação, e o discurso escrito suscita um público virtualmente ilimitado, diferentemente da situação dialogal, de modo que a distanciação, longe de ser produto da metodologia, é constitutiva do fenômeno do texto como escrita e condição da própria interpretação.
IV. O mundo do texto
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Diferentemente da hermenêutica romântica e de Dilthey, centradas na compreensão de uma vida estranha através das objetivações da escrita, e também às antípodas do estruturalismo, a tarefa hermenêutica principal está ligada à noção de mundo do texto, prolongando a distinção fregeana entre sentido e referência da proposição.
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A referência se transforma quando o discurso se torna texto: enquanto no discurso oral a referência se resolve na função ostensiva compartilhada pelos interlocutores, a escrita abole essa situação comum, tornando possível o fenômeno da literatura, na qual a ficção e a poesia abolem uma referência de primeiro grau para liberar uma referência de segundo grau, que atinge o mundo no nível que Husserl designava como Lebenswelt e Heidegger como ser-no-mundo.
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Essa dimensão referencial original da obra de ficção e de poesia coloca o problema hermenêutico mais fundamental: interpretar é explicitar o tipo de ser-no-mundo desdobrado diante do texto, retomando a sugestão heideggeriana de Sein und Zeit segundo a qual o compreender é a projeção dos possíveis mais próprios, aplicada aqui à noção de mundo do texto como proposição de um mundo que se pode habitar.
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O mundo do texto constitui uma nova distanciação, a do real consigo mesmo, pois ficção e poesia visam o ser sob a modalidade do poder-ser, e não do ser-dado, metamorfoseando a realidade cotidiana pelas variações imaginativas que a literatura opera sobre o real, sendo a linguagem metafórico o caminho privilegiado dessa redescrição, análoga à mimèsis aristotélica da tragédia.
V. Compreender-se diante da obra
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A quarta dimensão do texto é a mediação pela qual nos compreendemos a nós mesmos, marcando a entrada em cena da subjetividade do leitor, a quem a obra se destina não por situação dialogal dada, mas por um vis-à-vis instaurado pela própria obra.
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A apropriação (Aneignung) está dialeticamente ligada tanto à distanciação própria da escrita, sendo compreensão à distância e não afinidade afetiva com a intenção do autor, quanto à objetivação própria da obra, respondendo ao sentido e não ao autor, de modo que não nos compreendemos senão pelo grande desvio dos signos de humanidade depositados nas obras de cultura.
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A apropriação tem por correlato aquilo que Gadamer chama a coisa do texto e que aqui se chama o mundo da obra, de modo que compreender é compreender-se diante do texto, recebendo dele um si mesmo mais vasto, sendo o si constituído pela coisa do texto e não o texto constituído pelo sujeito.
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Assim como o mundo do texto só é real na medida em que é fictício, a subjetividade do leitor só advém a si mesma na medida em que é suspensa e potencializada pelas variações imaginativas do ego, o que exige uma crítica interna do conceito de apropriação, já que a metamorfose do ego implica um momento de distanciação no próprio rapport de si a si, tornando a compreensão tanto desapropriação quanto apropriação e incorporando a crítica das ideologias, de matriz marxista e freudiana, à compreensão de si.
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A dialética da objetivação e da compreensão, primeiro identificada no nível do texto, de suas estruturas, de seu sentido e de sua referência, deve ser reportada ao cerne mesmo da compreensão de si, sendo a distanciação, em todos os níveis da análise, a condição da compreensão.
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