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Tempo Vivido
RICOEUR, Paul. Temps et récit III. Paris: Éd. du Seuil, 1985.
Entre le temps vécu et le temps universel : le temps historique
Entre o tempo vivido e o tempo universal: o tempo histórico
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Além da oposição entre a especulação sobre a história universal e a epistemologia da escrita da história, uma terceira via consiste em refletir sobre o lugar do tempo histórico entre o tempo fenomenológico e o tempo que a fenomenologia não consegue constituir, chamado tempo do mundo ou tempo objetivo.
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A história revela sua capacidade criadora de refiguração do tempo por meio de instrumentos de pensamento como o calendário, a ideia de sucessão das gerações e o triplo reino dos contemporâneos, predecessores e sucessores, e sobretudo pelo recurso a arquivos, documentos e traços, conectores entre o tempo vivido e o tempo universal cuja significação só se revela quando postos em relação com as aporias especulativas do tempo.
O tempo calendário
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O tempo calendário é a primeira ponte lançada pela prática historiadora entre o tempo vivido e o tempo cósmico, constituindo a invenção de um terceiro-tempo que é a sombra projetada, no plano da prática historiadora, de uma entidade mais vasta, o tempo mítico, presente já em filigrana no Timeu de Platão, na Física de Aristóteles e no fragmento de Anaximandro.
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O tempo mítico regula o tempo das sociedades sobre o tempo cósmico ao ordenar entre si ciclos de duração diferente, sendo pela mediação do rito que se revela raiz comum do tempo do mundo e do tempo dos homens, ao passo que o mito alarga o tempo ordinário e o rito aproxima o tempo mítico da esfera profana da ação.
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Seguindo Émile Benveniste, o “tempo crônico” comporta três traços comuns a todos os calendários: um acontecimento fundador que determina o momento axial a partir do qual todos os eventos são datados; a possibilidade de percorrer o tempo nas duas direções a partir desse eixo; e um repertório de unidades de medida — dia, ano, mês — que denominam os intervalos constantes entre recorrências cósmicas.
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O tempo calendário toma emprestado ao tempo físico suas propriedades de continuum uniforme, infinito, linear, segmentável à vontade, mas o princípio de sua divisão — o momento axial — escapa à física e à astronomia, remetendo à noção fenomenológica de presente, sem a qual não poderíamos dar sentido a um acontecimento novo que rompe com uma era anterior, nem à ideia de percurso bidirecional, que supõe a experiência viva da retenção e da protenção.
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O momento axial confere ao tempo calendário um caráter “exterior” tanto ao tempo físico quanto ao tempo vivido: todo instante é candidato igual ao papel de momento axial, e nenhuma data, tomada em si mesma, é passada, presente ou futura, a menos que se conheça a data da enunciação que a profere, de modo que o tempo calendário cosmologiza o tempo vivido e humaniza o tempo cósmico.
A sucessão das gerações: contemporâneos, predecessores e sucessores
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A segunda mediação proposta pela prática historiadora é a sucessão das gerações, cujo escoramento biológico sucede ao escoramento astronômico do calendário, encontrando sua projeção sociológica na relação anônima entre contemporâneos, predecessores e sucessores segundo a fórmula de Alfred Schutz, sendo essa sucessão a réplica, em outro nível, da antinomia heideggeriana entre tempo mortal e tempo público.
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Kant já recorria à ideia de geração na Ideia de uma história universal do ponto de vista cosmopolita, situando-a na articulação entre a teleologia da natureza e a tarefa ética, ao observar o estranho fato de que as gerações anteriores parecem trabalhar unicamente para o proveito das gerações posteriores.
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Dilthey distingue o pertencimento à mesma geração, marcado pelas mesmas influências e mudanças, da sucessão das gerações propriamente dita, um “encadeamento” nascido do entrecruzamento entre a transmissão do adquirido e a abertura de novas possibilidades, ao passo que Karl Mannheim acrescenta a esse pertencimento um critério sociológico disposicional, distinguindo o “aparentamento por localização” do simples pertencimento a um grupo social.
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Alfred Schutz, cruzando a fenomenologia genética e a fenomenologia da intersubjetividade, deriva do trio presente-passado-futuro, próprio da relação interpessoal direta, o trio do reino dos contemporâneos, dos predecessores e dos sucessores, sendo a simultaneidade dos contemporâneos — o “envelhecer juntos” — a base sobre a qual se edifica uma contemporaneidade anônima mediada por tipos-ideais weberianos.
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O mundo dos predecessores mantém, todavia, uma zona de recobrimento parcial com a memória individual, ilustrada pelo récit ancestral transmitido pelos avós, que serve de relé entre a memória e o passado histórico, concebido como tempo dos mortos e tempo anterior ao meu nascimento.
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Duas consequências decorrem desse papel conector: a primeira concerne à morte anônima na escrita da história, visada obliquamente pela substituição das gerações e ultrapassada de imediato pela atribuição incessante dos papéis a novos atores, sem que a história, contudo, possa jamais eliminar de todo a morte de seu campo de atenção sem perder sua qualidade histórica; a segunda, mais notável, concerne ao simbolismo opaco que reveste ancestrais e sucessores, ocupando o lugar de um Outro absoluto, como atesta o postulado kantiano de uma humanidade imortal composta de indivíduos mortais.
Arquivos, documento, traço
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A noção de traço constitui o derradeiro conector entre as perspectivas sobre o tempo dissociadas pela especulação, tornando-se pensável ao se seguir o percurso que, partindo da noção de arquivo, encontra a de documento e, deste, remonta à sua pressuposição epistemológica última, o traço.
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As definições enciclopédicas de arquivo isolam três características — o remisão à noção de documento, a relação a uma instituição e a finalidade de conservação —, sobre as quais uma sociologia pode legitimamente denunciar o caráter ideológico da discriminação que preside à conservação dos documentos.
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A crítica de primeiro grau da noção de documento observa que qualquer traço deixado pelo passado se torna documento desde que o historiador saiba interrogá-lo, alargando o campo do testemunho involuntário; uma crítica de segundo grau, contemporânea da história quantitativa, mostra, com Jacques Le Goff, que o próprio documento, uma vez desmistificado, revela-se também monumento.
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Renunciar às noções de traço e testemunho do passado em favor de uma nova ciência histórica fundada em bancos de dados equivaleria, contudo, a um suicídio da história, pois a ideia de uma dívida para com os mortos é o que dá à busca documental sua finalidade primeira, sem a qual o dado se torna propriamente insignificante.
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A fonte de autoridade do documento é, assim, a significância ligada ao traço, definido pelo senso comum como vestígio de uma passagem ou marca deixada por uma coisa, combinando uma relação de significância — o vestígio de uma passagem — e uma relação de causalidade inscrita na coisidade da marca, o que faz do traço um efeito-signo e um conector entre duas perspectivas sobre o tempo.
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É na medida em que o traço marca no espaço a passagem do objeto da busca que ele remete ao tempo do calendário e, além dele, ao tempo astral, tornando-se documento datado, o que permite retomar o problema, deixado em aberto por Heidegger, da relação entre a temporalidade do Cuidado e o tempo “vulgar”.
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Heidegger distingue o ente que já não existe (vergangen) do Dasein “que-foi-aí” (da-gewesen), transferindo o caráter historial dos restos do passado — utensílios, documentos — ao estatuto de historial-mundano (weltgeschichtlich), mas essa análise só progride se se admitir que a intra-temporalidade acrescenta um sobrecréscimo de sentido, e não uma diminuição, à historialidade.
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A significância do traço não pode, contudo, ser inteiramente dada conta sem recorrer também ao “tempo vulgar”, pois seguir um traço é contar com o tempo por meio da databilidade, decifrar sobre o espaço o estiramento do tempo por meio da medida do lapso temporal, e projetar a busca no tempo público que torna comensuráveis as durações privadas — três operações que Heidegger reduzia a um mero nivelamento decadente da intra-temporalidade.
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O traço ilustra assim, ao contrário do calendário, que exemplifica uma colisão negociada entre as duas perspectivas do tempo, uma forma de contaminação regrada entre elas, recobrimento entre o existencial e o empírico que a expressão “significância do traço”, tomada de empréstimo a Emmanuel Lévinas, capta com precisão, mesmo que a meditação levinasiana vise, para além de todo passado historiador, o passado imemorial do Outro, cujo traço, o rosto de outrem, significa sem jamais fazer aparecer.
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O traço permanece, assim, um dos instrumentos mais enigmáticos pelos quais o récit histórico refigura o tempo, construindo a junção que opera o recobrimento do existencial e do empírico — problema que já não é do historiador-sábio, mas do historiador-filósofo.
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