Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:ricoeur:si-mesmo:pessoa
Pessoa
RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Editions du Seuil, 1990.
A pessoa e a referência identificante
Abordagem semântica
-
A investigação parte do sentido mais pobre da noção de identificação, entendida como a capacidade de fazer conhecer a outrem, dentro de uma gama de coisas particulares do mesmo tipo, aquela de que se pretende falar, sendo nesse trajeto da referência identificante que se encontra pela primeira vez a pessoa, em sentido ainda pobre que a distingue globalmente dos corpos físicos, identificar não sendo ainda identificar-se a si mesmo, mas identificar algo
1. Indivíduo e individualização
-
Estabelece-se que a pessoa é antes uma das coisas distinguidas por referência identificante, mediante inquérito prévio sobre os procedimentos pelos quais se individualiza um algo em geral e se o toma por amostra indivisível dentro de uma espécie
-
A linguagem não deixa o falante preso à alternativa longamente professada por Bergson entre o conceitual e o inefável, pois comporta montagens específicas que permitem designar indivíduos
-
Prefere-se falar de individualização, e não de indivíduo, para marcar que a atribuição de individualidades parte, conforme os recursos lexicais das línguas naturais, de graus muito variáveis de especificação, sendo comum a todas apenas a operação de individualizar
A individualização caracteriza-se, grosso modo, como o processo inverso ao da classificação, que abole as singularidades em proveito do conceito-
Insistir apenas no caráter inverso sublinharia dois traços negativos do indivíduo — amostra não repetível e não indivisível sem alteração — que remeteriam ao inefável, mas a visada individualizante começa onde param classificação e predicação, apoiando-se nelas e relançando-as, só se individualizando quando já se conceptualizou tendo em vista descrever mais
Lógicos e epistemólogos reagrupam sob o título comum de operadores de individualização procedimentos tão diferentes quanto as descrições definidas, os nomes próprios e os indicadores-
Como exemplos de descrições definidas citam-se o primeiro homem que pisou na Lua e o inventor da imprensa, como nomes próprios citam-se Sócrates, Paris e a Lua, e como indicadores citam-se eu, tu, isto, aqui, agora
-
O indivíduo humano não tem privilégio em nenhuma das três classes de operadores, nem mesmo na dos indicadores, e o privilégio que lhe é dado na escolha dos exemplos decorre do interesse particular em individualizar os agentes do discurso e das ações
A descrição definida consiste em criar uma classe de um único membro por interseção de classes bem escolhidas-
Os lógicos interessaram-se por esse procedimento por sua continuidade com a classificação e a predicação e por encorajar a construção de uma linguagem sem nomes próprios nem indicadores, tentativa empreendida por Quine e outros
-
Pariente afirma com força que essa não é uma língua que possa ser falada numa situação concreta de interlocução, mas uma língua artificial que só pode ser escrita e lida, sendo a visada das descrições definidas ostensiva, ainda que o procedimento permaneça predicativo, ao opor um membro de uma classe a todos os outros
Os nomes próprios limitam-se a singularizar uma entidade não repetível e indivisível sem caracterizá-la nem dar sobre ela nenhuma informação, fazendo corresponder uma designação permanente ao caráter não repetível de uma entidade mediante a atribuição da mesma cadeia fônica ao mesmo indivíduo em todas as suas ocorrências-
O nome próprio, quase insignificante segundo Pariente, admite todos os predicados e reclama determinação ulterior, sendo o privilégio dos nomes próprios atribuídos a humanos devido a seu papel posterior de confirmação de identidade e de ipseidade destes
A terceira categoria de operadores, a dos indicadores, contém os pronomes pessoais eu e tu, os dêiticos — demonstrativos como isto e aquilo, advérbios de lugar como aqui, ali, lá, e de tempo como agora, ontem, amanhã — além dos tempos verbais-
Diferentemente dos nomes próprios, são indicadores intermitentes que designam cada vez coisas diferentes, sendo determinante apenas a relação da enunciação tomada como referencial fixo, e o eu e o tu emergem como interlocutores da enunciação, ainda tratada como evento do mundo
-
Russell tentou, numa fase de sua obra, ordenar os indicadores em função de isto, contrariamente à sua caracterização como particulares egocêntricos, mas Pariente tem razão ao dizer que isto e ego só exercem sua função de referência em ligação com a enunciação
Da análise preparatória extraem-se três conclusões: a individualização repousa em procedimentos específicos de designação distintos da predicação, visando um único exemplar com exclusão de todos os outros da mesma classe; esses procedimentos não têm unidade fora dessa visada; e, entre os operadores de identificação, somente os indicadores visam o eu e o tu, sem privilégio sobre os demais dêiticos, já que mantêm como ponto de referência a enunciação ainda entendida como evento do mundo2. A pessoa como particular de base
-
Coloca-se a questão de como passar do indivíduo qualquer ao indivíduo que cada um é, retomando-se em Les Individus a estratégia de P. F. Strawson, adotada como quadro geral para determinações posteriores mais ricas e concretas do si
-
A estratégia consiste em isolar, entre todos os particulares a que se pode referir para identificá-los, particulares privilegiados que Strawson chama particulares de base, sendo os corpos físicos e as pessoas tais particulares de base, pois nada pode ser identificado sem remeter, em última instância, a um desses dois tipos
Se fosse preciso dar um ancestral a essa estratégia, seria certamente Kant, não o da segunda Crítica, mas o da Crítica da razão pura, procedendo-se a uma espécie de dedução transcendental da noção de pessoaEsse tratamento da pessoa como particular de base não enfatiza a capacidade de a pessoa se designar a si mesma ao falar, tratando-a antes como uma das coisas de que se fala do que como um sujeito falante, ainda que as duas abordagens — por referência identificante e por autodesignação — se cruzem desde o início-
O cruzamento ocorre primeiro numa situação de interlocução, em que um sujeito falante designa a seu interlocutor qual particular escolhe numa gama de particulares do mesmo tipo, assegurando-se por perguntas e respostas de que o parceiro visa o mesmo particular de base
-
A teoria dos particulares de base cruza-se de novo com a da autorreferência quanto ao papel atribuído aos demonstrativos, entre eles os pronomes pessoais e os adjetivos e pronomes possessivos, tratados aqui como indicadores de particularidade
Não se preocupa, na abordagem referencial, se a referência a si implicada na situação de interlocução ou no uso dos demonstrativos faz parte da significação da coisa a que se refere a título de pessoa, importando antes a espécie de predicados que caracteriza a espécie de particulares chamados pessoas, permanecendo a pessoa do lado da coisa de que se falaO uso da palavra coisa para falar das pessoas como particulares de base serve apenas para marcar a pertença da primeira investigação da noção de pessoa à problemática geral da referência identificante, sendo coisa aquilo de que se fala, e falando-se de pessoas ao falar das entidades que compõem o mundoPergunta-se se é possível avançar na determinação do conceito de pessoa sem recorrer, em algum momento, ao poder de autodesignação que faz da pessoa não apenas uma coisa de tipo único, mas um si-
Na estratégia de Strawson, o recurso à autodesignação é interceptado desde a origem pela tese central que decide os critérios de identificação de qualquer coisa como particular de base — a pertença dos indivíduos a um único esquema espaço-temporal que os contém, no qual nós mesmos tomamos lugar, esquema em que o si é mencionado mas imediatamente neutralizado por essa inclusão
-
Em Les Individus, a questão do si é ocultada, por princípio, pela questão do mesmo no sentido de idem, importando à identificação não ambígua que os interlocutores designem a mesma coisa, definindo-se a identidade como mesmidade e não como ipseidade
-
Ao privilegiar o quê dos particulares de que se fala em vez do quem de quem fala, situa-se toda a análise da pessoa como particular de base no plano público da localização em relação ao esquema espaço-temporal que a contém
O primado do mesmo sobre o si é particularmente sublinhado pela noção cardinal de reidentificação, que exige não apenas assegurar-se de que se fala da mesma coisa, mas poder identificá-la como a mesma coisa na multiplicidade de suas ocorrências, o que só se faz por localização espaço-temporal-
A mesmidade fundamental é a do próprio quadro espaço-temporal, utilizado o mesmo quadro para ocasiões diferentes, como afirma Strawson em Les Individus: “para ocasiões diferentes, utilizamos o mesmo quadro”
-
A maneira como cada um faz parte desse quadro não é erigida em problema próprio, embora seja imenso o problema de compreender como o próprio corpo é simultaneamente um corpo qualquer, situado objetivamente entre os corpos, e um aspecto do si, sua maneira de estar no mundo, podendo-se dizer que, numa problemática da referência identificante, a mesmidade do corpo próprio oculta sua ipseidade, o que persistirá enquanto os traços ligados aos pronomes e adjetivos possessivos — meu, o meu — não forem ligados à problemática explícita do si, o que só começará a ocorrer no quadro da pragmática da linguagem
3. Os corpos e as pessoas
-
A segunda grande tese de Strawson em Les Individus é que os primeiros particulares de base são os corpos, por satisfazerem primariamente aos critérios de localização no único esquema espaço-temporal, havendo entre o critério e o que o satisfaz tal conveniência mútua que se pode dizer que o mesmo que resolve o problema é o que permite colocá-lo, eleição mútua que caracteriza os verdadeiros argumentos transcendentais
-
Essa prioridade reconhecida aos corpos é da maior importância para a noção de pessoa, pois, sendo o conceito de pessoa tão primitivo quanto o de corpo, não se tratará de um segundo referente distinto do corpo, como a alma cartesiana, mas de um único referente dotado de duas séries de predicados, físicos e psíquicos, possuir um corpo sendo o que as pessoas fazem, ou antes o que são
-
A noção primitiva de corpo reforça o primado da categoria de mesmidade, sendo os corpos, por excelência, o que é identificável e reidentificável como sendo o mesmo
-
A vantagem dessa decisão estratégica é eliminar, como candidatos, os eventos mentais — representações, pensamentos —, cujo defeito, para esse tipo de análise, é serem entidades privadas e não públicas, adiando-se seu destino como predicados específicos das pessoas, mas sendo necessário primeiro destituí-los da posição dominante de referentes últimos que ocupam num idealismo subjetivista
-
O primeiro corolário desse rebaixamento dos eventos mentais é que a pessoa não poderá ser tida por uma consciência pura à qual se acrescentaria secundariamente um corpo, como nos dualismos da alma e do corpo, podendo os eventos mentais e a consciência figurar apenas entre os predicados especiais atribuídos à pessoa, dissociação de grande importância para as análises seguintes
-
Um segundo corolário é que a pessoa a quem se atribuem predicados mentais e uma consciência não é exclusivamente expressa pelos pronomes de primeira e segunda pessoa do singular, podendo tais predicados ser atribuídos também a uma terceira pessoa, admitindo-se falar, numa situação de interlocução, da dor sentida por um terceiro que não é um dos interlocutores
-
Numerosas perplexidades resultam dessa decisão de atacar o problema da pessoa pelo dos corpos objetivos situados num único quadro espaço-temporal
-
A primeira perplexidade traz de volta a questão do corpo próprio, não apenas quanto à pertença ao esquema espaço-temporal único, mas quanto à relação do corpo próprio com o mundo objetivo dos corpos, não havendo, numa problemática puramente referencial sem autodesignação explícita, problema do corpo próprio, restando apenas a constatação de Strawson em Les Individus: “O que chamo meu corpo é ao menos um corpo, uma coisa material”
-
A segunda perplexidade é que o rebaixamento dos eventos mentais e da consciência da posição de particular de base tem por contrapartida um ocultamento acrescido da questão do si, perplexidade ligada à anterior na medida em que os eventos mentais colocam o mesmo problema que o corpo próprio quanto à ligação estreita entre posse e ipseidade, não se vendo como a propriedade da ipseidade poderia figurar numa lista de predicados atribuídos a uma entidade, parecendo antes residir do lado da autodesignação ligada à enunciação
-
O problema será compreender como o si pode ser ao mesmo tempo uma pessoa de quem se fala e um sujeito que se designa na primeira pessoa dirigindo-se a uma segunda pessoa, sem que uma teoria da reflexividade faça perder o benefício de visar a pessoa como terceira pessoa e não apenas como eu e tu, sendo a dificuldade compreender como uma terceira pessoa pode ser designada no discurso como alguém que se designa a si mesmo como primeira pessoa
-
Essa possibilidade de reportar a autodesignação em primeira pessoa sobre a terceira é essencial ao sentido dado à consciência ligada à noção de evento mental, pois não se podem atribuir estados mentais a uma terceira pessoa sem supor que esse terceiro os sente, e sentir parece caracterizar uma experiência em primeira pessoa, reconhecendo-se não haver, nesse estágio da análise, meio de explicar essa estrutura insólita dos eventos mentais, ao mesmo tempo predicáveis a pessoas e autodesignativos
4. O conceito primitivo de pessoa
-
Aborda-se a demonstração do caráter primitivo da noção de pessoa, retendo-se três pontos
-
Primeiramente, a determinação da noção de pessoa faz-se por meio dos predicados que lhe são atribuídos, mantendo-se a teoria da pessoa no quadro geral de uma teoria da predicação dos sujeitos lógicos, estando a pessoa em posição de sujeito lógico em relação aos predicados que lhe são atribuídos
-
Strawson não se surpreende com o que pode haver de insólito, em relação a uma teoria geral da predicação, no enunciado “We ascribe to ourselves certain things” — nós nos atribuímos certas coisas —, sendo o nós tão pouco acentuado que equivale a um on, one em inglês, fazendo a ascrição o que qualquer um, cada um, faz em relação a qualquer outro, devendo-se preservar a força desse cada um, de designação distributiva mais que anônima, numa análise do si derivada da teoria da enunciação
O segundo ponto forte é que a estranheza ligada à noção primitiva de pessoa consiste em ser ela a mesma coisa à qual se atribuem duas espécies de predicados, os físicos, comuns aos corpos, e os psíquicos, que a distinguem dos corpos-
Strawson escreve: “Os estados de consciência de alguém, seus pensamentos e sensações são atribuídos à mesmíssima coisa à qual são atribuídas essas características físicas, essa situação física”, observando-se a habilidade com que a forma passiva da proposição consolida a neutralidade do one's e a insignificância do sujeito da ascrição enquanto enunciação e ato de discurso
-
Omitido o si da ascrição, resta livre o campo para a mesmidade da mesmíssima coisa a que se atribuem predicados físicos e mentais, força do argumento que explica em parte a estranheza do conceito de pessoa
-
A vantagem maior dessa identidade de atribuição é eliminar, por simples análise gramatical do discurso sobre a pessoa, a hipótese de uma atribuição dupla — à alma ou consciência, de um lado, ao corpo, de outro — das duas séries de predicados, sendo a mesma coisa que pesa sessenta quilos e que tem tal ou qual pensamento, colocando-se então mesmidade e ipseidade como duas problemáticas que se ocultam mutuamente
-
Coloca-se a questão do fundamento dessa mesmidade, perguntando-se se não seria possível justificar essa estrutura do pensamento e da linguagem por uma análise fenomenológica da constituição da pessoa em sua unidade psicofísica, questão que remete inevitavelmente ao corpo próprio
-
A resposta de Strawson deixa perplexo ao tratar a relação de dependência — evocada no argumento paradoxal segundo o qual três corpos distintos estariam implicados na visão, um para abrir os olhos, outro para orientá-los, um terceiro para situar o lugar de onde se vê — como caso ordinário de ligação causal, argumento pouco satisfatório quando se fala do corpo de alguém e menos ainda quando se introduzem os adjetivos possessivos da primeira pessoa, como em this body as mine — este corpo como meu
-
A posse implicada pelo adjetivo meu não é da mesma natureza que a posse de um predicado por um sujeito lógico, havendo continuidade semântica entre próprio, proprietário e posse, pertinente apenas dentro da neutralidade de one's own, mesmo sob essa neutralização a posse do corpo por alguém ou por cada um coloca o enigma de uma propriedade não transferível, contradizendo a ideia usual de propriedade
O terceiro ponto forte, o que mais embaraçaria uma teoria do si derivada unicamente das propriedades reflexivas da enunciação, concerne a outra espécie de mesmidade assumida pela linguagem quando se caracteriza uma coisa particular como pessoa-
Trata-se dos predicados psíquicos, com exclusão dos físicos, consistindo em que os eventos mentais, antes rebaixados de entidades de base a predicados, guardam o mesmo sentido quer sejam atribuídos a si mesmo quer a outrem — a qualquer outro —, dizendo Strawson: “As frases de ascrição são usadas exatamente no mesmo sentido quando o sujeito é outro e quando o sujeito é si mesmo”
-
Trata-se de um novo caso de mesmidade, não mais a mesma coisa recebendo duas espécies de predicados, mas o mesmo sentido atribuído aos predicados psíquicos, seja a atribuição feita a si ou a outrem, eclipsando de novo a força lógica do mesmo a do si, embora se fale de sujeito e de si mesmo
-
No contexto da referência identificante, o estatuto de sujeito não é especificado senão pela natureza do que lhe é atribuído, dispensando-se a menção aos pronomes eu e tu, bastando oneself, substituível por alguém e qualquer outro
-
Essa dupla ascrição a alguém e a qualquer outro permite formar o conceito de espírito, repertório dos predicados psíquicos atribuíveis a cada um, sendo o caráter distributivo do termo cada um essencial à compreensão do psíquico, pois os estados mentais são sempre de alguém, podendo esse alguém ser eu, tu, ele, quem quer que seja
-
Essa correlação entre alguém e qualquer outro impõe desde o início uma restrição tão inelutável quanto a de tratar a pessoa como uma coisa que possui um corpo — não havendo consciência pura de partida, nem eu sozinho de partida, sendo a atribuição a outrem tão primitiva quanto a atribuição a si mesmo, não podendo falar-se significativamente de meus pensamentos sem poder atribuí-los potencialmente a um outro que não eu, como resume Strawson: “Em suma, só se pode atribuir estados de consciência a si mesmo se se pode atribuí-los a outros. Só se pode atribuí-los a outros se se pode identificar outros sujeitos de experiência. E não se pode identificar outros se só se pode identificá-los como sujeitos de experiência, possuidores de estados de consciência”
-
Pode-se perguntar se a restrição dessa ascrição idêntica deve ser tomada como simples fato, condição inexplicável do discurso, ou se é possível explicá-la a partir de uma elucidação dos termos si mesmo e outro que si, indagando-se se a expressão minhas experiências equivale a experiências de alguém, e correlativamente se tuas experiências equivale a experiências de qualquer outro
-
A análise puramente referencial do conceito de pessoa pode evitar por bastante tempo a menção ao eu-tu própria da análise reflexiva da enunciação, mas não pode evitá-la até o fim, sendo obrigada a evocá-la ao menos marginalmente ao interrogar-se sobre os critérios de atribuição — atribuído a si mesmo, um estado de consciência é sentido; atribuído a outro, é observado
-
Essa dissimetria nos critérios de atribuição desloca o acento para o sufixo mesmo em si mesmo, pois dizer que um estado de consciência é sentido é dizer que é ascritível a si mesmo, não se podendo deixar de incluir nessa noção a autodesignação de um sujeito que se designa como possuidor de seus estados de consciência, e, correlativamente, ao explicitar a fórmula ascritível a um outro, não se pode deixar de acentuar a alteridade do outro, com todos os paradoxos de atribuir a esse outro o poder de se autodesignar com base na observação externa, se é verdade, como concede Strawson, que esse outro deve também ser tido por um selfascriber, alguém capaz de ascrição a si mesmo
-
A tese da mesmidade de ascrição a si mesmo e a um outro que si exige explicar a equivalência entre os critérios de ascrição — sentidos e observados — e, além dessa equivalência, a reciprocidade entre alguém que é eu e um outro que é tu, sendo preciso adquirir simultaneamente a ideia de reflexividade e a de alteridade, para passar de uma correlação fraca entre alguém e qualquer outro a uma correlação forte entre a si, no sentido de meu, e a outrem, no sentido de teu
A tarefa não é fácil, pois o enriquecimento que a noção de pessoa pode receber de uma teoria reflexiva da enunciação não pode resultar da substituição da teoria da referência identificante pela teoria da enunciação, sob pena de cair nas aporias do solipsismo e nos impasses da experiência privada-
A tarefa será antes preservar a restrição inicial de pensar o psíquico como atribuível a cada um, respeitando a força lógica do cada um, mesmo ao recorrer à oposição entre eu e tu para dar força à oposição entre si e outro que si, de modo que a abordagem puramente referencial, que trata a pessoa como particular de base, deva ser completada por outra abordagem, sem ser abolida, mas conservada nessa própria superação
estudos/ricoeur/si-mesmo/pessoa.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
