User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:ricoeur:metafora:semantica-palavra

Semântica da Palavra

RICOEUR, Paul. La métaphore vive. Paris: Seuil, 1975.

  • O objetivo desta estudo é duplo: por um lado, estabelecer o pano de fundo teórico e empírico sobre o qual se destaca o grupo de trabalhos que a próxima estudo colocará sob o título de “A nova retórica”; por outro, destacar e eventualmente reservar certos conceitos e descrições da semântica do nome que não passam inteiramente para esses trabalhos posteriores, de caráter mais deliberadamente formalista, mas que se deixam coordenar com os conceitos e descrições da semântica da frase expostos na terceira estudo mais facilmente do que o fará o aparato conceitual de “A nova retórica”.
  • O espanto que toma o leitor ao comparar os trabalhos mais recentes sobre a metáfora, oriundos da semântica dos linguistas de língua francesa, com os trabalhos em língua inglesa expostos na estudo anterior, decorre do fato de que nos primeiros a hipótese de base é identicamente a mesma da retórica clássica, qual seja, a de que a metáfora é uma figura em um só nome, elevando apenas a um mais alto grau de cientificidade a teoria da metáfora-substituição e encadrando-a em uma ciência geral dos desvios e das reduções de desvios.
  • A permanência da tese da metáfora-nome e a fidelidade da nova retórica à teoria da substituição se explicam pela diferença dos contextos históricos, pois a análise dos anglo-saxões deve infinitamente menos à linguística dos linguistas do que à lógica proposicional, que impõe desde o início o nível de consideração da frase, enquanto a nova retórica se edifica sobre as bases de uma linguística que, sob a influência principalmente do Curso de Linguística Geral de F. de Saussure, conduzia a reforçar o elo entre metáfora e nome e, corolariamente, a consolidar a tese da substituição.
  • A orientação fundamental para um monismo semiótico é a razão mais decisiva da divergência na explicação da metáfora, pois enquanto as análises da escola anglo-saxônica apresentavam grande parentesco com uma teoria da linguagem como a de Émile Benveniste, para quem a linguagem repousa sobre dois tipos de unidades, as unidades de discurso ou frases e as unidades de língua ou signos, a semântica estrutural se edificou progressivamente sobre o postulado da homogeneidade de todas as unidades da linguagem enquanto signos.
  • O monismo semiótico, que ainda tinha em Saussure seus limites e diversas contrapartidas, não cessou de se radicalizar depois dele, e a oposição no plano da metáfora entre uma teoria da substituição e uma teoria da interação reflete a oposição mais fundamental no plano dos postulados de base da linguística entre um monismo semiótico, ao qual se subordina a semântica do nome e da frase, e um dualismo do semiótico e do semântico, onde a semântica da frase se constitui sobre princípios distintos de todas as operações sobre os signos.
  • A essa orientação geral se soma uma motivação segunda, que precede a definição saussuriana do signo e mesmo a comanda amplamente, a saber, que a semântica se define a si mesma, desde a época de Bréal e Darmesteter, como ciência da significação dos nomes e das mudanças de significação dos nomes, de modo que o pacto entre a semântica e o nome é tão forte que ninguém pensa em colocar a metáfora em outro quadro que não o das mudanças de sentido aplicadas aos nomes.
  • Se se aproximam essas duas grandes tendências, o monismo do signo e o primado do nome, aparece que o Curso de Linguística Geral não constitui apenas uma ruptura, mas também um relé no interior de uma disciplina cujos contornos foram desenhados antes dele, e cuja preocupação fundamentalmente lexical ele reforçará ainda mais, instituindo as grandes dicotomias que o comandam unicamente em benefício do nome, de modo que o Curso tende finalmente a identificar semântica geral e semântica lexical, sendo o nível do nome o nível charneira do edifício das unidades de linguagem.
  • O estudo de Hedwig Konrad sobre a metáfora, fundado sobre considerações lógico-linguísticas, interessa por reforço que a linguística recebe da lógica para consolidar o primado do nome e conter a teoria da metáfora no recinto da denominação, e a autora, polemizando contra qualquer concepção que oporia o vago das significações à precisão do conceito, sustenta que a função do conceito é distinguir, delimitar, atribuindo ao objeto de referência uma ordem, uma estrutura, e que o problema da abstração é o problema central da denominação metafórica.
  • A denominação metafórica repousa sobre um funcionamento diferente da abstração, que consiste não em apreender a ordem de uma estrutura, mas em “esquecer”, em eliminar vários atributos que o termo metaforizado evoca em seu emprego normal, de modo que, pela abstração, o nome perde sua referência a um objeto individual para revestir um valor geral, o que se pode chamar de generalização metafórica, mas o termo metafórico não se torna o símbolo de uma espécie lógica, pois se tornou o nome do portador de um atributo geral e pode assim se aplicar a todos os objetos possuindo a qualidade geral expressa.
  • A contrapartida desse tratamento lógico-linguístico da denominação metafórica é a disjunção que daí resulta entre metáfora linguística e metáfora estética, e o caso da metáfora-adjetivo e da metáfora-verbo, que fazem eclodir o quadro estreito da denominação, coloca o problema da interação, pois quando se diz que a metáfora denomina um objeto com a ajuda do representante mais típico de seus atributos, “denominar” pode significar tanto dar um nome novo quanto chamar X enquanto Y, e é a este segundo sentido que se prende o ato de denominar quando a classificação não se absorve mais na denominação, mas se articula sobre a predicação.
  • A semântica de Stephen Ullmann, que figura a metáfora entre as mudanças de significação, portanto na parte histórica de um tratado cujo eixo central é fornecido pela constituição sincrônica dos estados de língua, elege o nome como portador do sentido e se mantém nos limites de um fenômeno a duas faces, significante-significado, acentuando desse modo o fenômeno da denominação, e a teoria das mudanças de sentido se apoiará essencialmente sobre a descrição da polissemia, que significa que para um nome há mais de um sentido e que nas línguas naturais a identidade de um nome em relação aos outros admite ao mesmo tempo uma heterogeneidade interna.
  • A polissemia não é um fenômeno patológico, mas um traço de saúde das línguas, pois uma língua sem polissemia violaria o princípio de economia e a regra de comunicação, e é a tarefa dos contextos de peneirar as variantes de sentido apropriadas e fazer, com nomes polissêmicos, discursos recebidos como relativamente unívocos, sendo que a teoria das mudanças de sentido encontra um novo apoio no traço descritivo da adjunção a cada sentido e a cada nome de campos associativos que permitem deslizamentos e substituições por contiguidade ou por semelhança.
  • O recurso a uma explicação psicológica no interior de uma teoria semântica, que permite derivar de uma explicação puramente psicológica uma explicação dos fenômenos semânticos que reencontra as grandes categorias retóricas, tem o benefício de lançar uma ponte entre a atividade individual de fala e o caráter social da língua, mas o casamento com a psicologia associacionista não vai sem graves inconvenientes, pois, ao bloquear as relações de inclusão e exclusão sob o título da contiguidade, o princípio associacionista empobrece tanto as operações quanto as figuras que delas resultam, reduzindo a sinédoque à metonímia.
  • A análise da metáfora também padece da explicação psicológica, pois o recurso ao processo da associação tende a consolidar os limites da denominação, na medida em que o associacionismo, operando apenas com elementos, os sentidos e os nomes, nunca encontra a operação propriamente predicativa, e tem rapidamente o cuidado de reduzir a comparação à substituição, que, com efeito, se faz entre termos, elementos, átomos psíquicos.
  • O tratamento pós-saussuriano da metáfora faz aparecer que o Curso de Linguística Geral constituía tanto um relé quanto uma ruptura no programa da semântica do nome, e que a metáfora, confinada à semântica lexical, permanece uma boa pedra de toque para as perplexidades deixadas pelas dicotomias saussurianas, pois ela se mantém sobre a maioria das fraturas instituídas por Saussure.
  • A metáfora é um magnífico exemplo de troca entre código e mensagem, pois a metáfora viva é fala, a metáfora de uso é o retorno da fala à língua, e a polissemia ulterior é língua, ilustrando perfeitamente a impossibilidade de se ater à dicotomia saussuriana entre língua e fala.
  • A polissemia, como tal, tomada fora da consideração de suas fontes, remete a possibilidades de caráter diacrônico, sendo a própria possibilidade de acrescentar um sentido novo às acepções anteriores do nome sem que estas desapareçam, de modo que a estrutura aberta do nome já faz alusão ao fenômeno da mudança de sentido, e a própria distinção entre sincronia e diacronia se mostra demasiado bruta, exigindo uma mediação que a noção de ponto de vista pancrônico parece oferecer.
  • A exclusão da relação signo-coisa, ao fundar a autonomia da linguística e assegurar a homogeneidade de seu objeto, torna muito difícil, senão impossível, dar conta da função denotativa da linguagem no quadro de uma teoria do signo que só conhece a diferença interna do significante e do significado, ao passo que a inovação semântica, como fato de fala, é uma maneira de responder de forma criadora a uma questão colocada pelas coisas, cujo horizonte é uma nova descrição do universo das representações.
  • A aplicação à metáfora dos princípios de base da linguística saussuriana faz aparecer, no coração mesmo da semântica do nome, uma incerteza, um espaço de jogo, à fava do qual se torna novamente possível lançar uma ponte entre a semântica da frase e a semântica do nome e, corolariamente, entre as duas teorias da metáfora-substituição e da metáfora-interação.
  • Os aspectos não sistemáticos do sistema lexical, como o caráter vago do nome, a indecisão de suas fronteiras, o jogo combinado da polissemia e da sinonímia, e sobretudo o poder cumulativo do nome que lhe permite adquirir um sentido novo sem perder os sentidos anteriores, convidam a dizer que o vocabulário de uma língua é uma estrutura instável, na qual os nomes individuais podem adquirir e perder significações com a mais extrema facilidade.
  • A dependência da significação de nome em relação à significação de frase se torna mais manifesta quando, cessando de considerar o nome isolado, se considera seu funcionamento efetivo, atual, no discurso, pois tomado isoladamente, o nome tem ainda apenas uma significação potencial, e é apenas em uma frase dada, em uma instância de discurso, que ele tem uma significação atual, cuja função referencial, que se prende à frase tomada como um todo, se reparte de algum modo entre os nomes da frase.
  • O que se chama de polissemia é apenas a soma institucionalizada das valores contextuais, sempre instantâneas, aptas continuamente a se enriquecer e a desaparecer, sem permanência e sem valor constante, e é do contexto que o nome recebe a determinação que reduz sua imprecisão, sendo que a ação do contexto, como redução de polissemia, é a chave do problema da metáfora, pois no caso da metáfora, nenhuma das acepções já codificadas convém, e é necessário então reter todas as acepções admitidas mais uma, aquela que salvará o sentido do enunciado inteiro.
  • A teoria da metáfora-enunciado remete à metáfora-nome por um traço essencial que a estudo anterior pôs em relevo e que se pode chamar de focalização sobre o nome, na medida em que a dinâmica da metáfora-enunciado se condensa ou se cristaliza em um efeito de sentido que tem por foco o nome, mas a recíproca não é menos verdadeira, pois as mudanças de sentido cuja semântica do nome tenta dar conta exigem a mediação de uma enunciação completa.
  • A interpretação psicologizante das figuras é responsável pela falsa simetria entre metáfora e metonímia, pois enquanto a metonímia pode ser tratada puramente como um fenômeno de denominação, a metáfora difere dela pelo fato de que joga sobre dois registros, o da predicação e o da denominação, e só joga sobre o segundo porque joga sobre o primeiro, sendo que a produção de uma equivalência metafórica põe em jogo operações predicativas que a metonímia ignora.
  • Uma vez levantado esse obstáculo, torna-se novamente possível fazer jogar, para explicar a metáfora, o mesmo mecanismo de troca entre o nome e a frase que se viu em ação no caso da polissemia, e as duas análises se tornam não apenas complementares, mas recíprocas, de modo que, no ponto em que convergem a terceira e a quarta estudos, se pode escrever que a metáfora é o desfecho de um debate entre predicação e denominação, e seu lugar na linguagem é entre os nomes e as frases.
estudos/ricoeur/metafora/semantica-palavra.txt · Last modified: by 127.0.0.1