Prólogo
Jean-Luc Nancy, Demande: Philosophie, littérature, Paris: Éditions Galilée, 2015
Uma Espécie de Prólogo
Menstruum Universale
Dissolução Literária
1. Este ensaio busca abordar o estudo de um objeto quase perdido na história da literatura e da filosofia, o espírito, ou em alemão, língua onde mais se sente à vontade, Witz, não podendo este ser considerado parte da literatura senão da pior maneira ou apenas indiretamente, não sendo gênero nem estilo, nem sequer figura retórica, e tampouco pertencendo à filosofia por não ser conceito, juízo ou argumento, sendo contudo capaz de desempenhar todos esses papéis, mas zombeteiramente.
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Dize-me, ó dize! que espécie de coisa é o Espírito, tu que és seu Mestre.
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O Witz, como princípio de afinidades, é ao mesmo tempo o menstruum universale.
2. O Witz é capaz também de assumir as posições mais decisivas com a maior seriedade, fazendo ao longo da história um punhado de aparições notáveis em posições-chave, argumentando Sterne, no prefácio de Tristram Shandy, contra Locke e em favor do espírito, atribuindo-lhe a propriedade essencial de todo gênero filosófico, sendo o Witz, para os fundadores do romantismo alemão, Schlegel, Novalis, Bernhardi, Jean-Paul e depois Solger, conceito-chave, senão o princípio de uma teoria que se pretende ao mesmo tempo estética, literária, metafísica, até social e política, tendo Freud escrito sobre o Witz em sua primeira obra dedicada à estética, na qual constrói o princípio daquilo que, ao longo de sua carreira, definirá o prazer estético para ele.
3. Contudo, a natureza dessas aparições é tal que o que nelas é notável é seu desaparecimento, sendo o debate de Sterne com Locke, por confissão própria, tão desprovido de seriedade que nem a filosofia nem a teoria dos românticos de Jena conseguem verdadeiramente dar-lhe conta, sendo o Witz, mais ainda que outras figuras, relegado a uma existência efêmera que caracteriza o momento teórico, limitado a um punhado de escritos fragmentários que não produziram obra literária alguma e logo foram substituídos pelo que passamos a chamar romantismo, jamais tendo Freud, apesar da importância de várias questões tratadas em Der Witz, voltado ao tema depois de 1905, ao contrário das frequentes reavaliações de A Interpretação dos Sonhos e Três Ensaios sobre a Sexualidade.
4. O Witz não ocupa as posições que a teoria, seja qual for, gostaria de lhe atribuir, ocupando-as sim, e no romantismo até assumindo subitamente a posição de um Absoluto metafísico, mas não se instalando ali, não criando, ou quase não criando, sistema nem escola, retirando-se de certo modo tanto da obra quanto do pensamento, sendo as estruturas do Witz tão instáveis quanto deslumbrantes.
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A essência da verdade é ser Witz, pois toda ciência é um Witz do intelecto, toda arte é um Witz da fantasia, e toda dita espirituosa só é witzig na medida em que evoca o Witz da verdade.
5. Por que então tentar apreender um objeto mais ou menos esquecido, esmaecido, negligenciável? Por que interessar-se por essa categoria minimalista, mal uma categoria, imprecisa e lábil, reduzida na maioria das vezes à do bon mot? Certamente não é pelo prazer modista de resgatar mais uma Cinderela da história e demonstrar brilhantemente a grande importância daquilo que todos julgavam insignificante.
6. A intenção segue menos essa linha, uma vez que hoje quase todos reconhecem a importância decisiva do Witz, sendo esse quase consenso, jamais articulado em si mesmo, marcado pelo respeito, às vezes até veneração, dedicado ao Witz como elemento essencial da psicanálise e não menos essencial de uma literatura resolutamente moderna, beirando esse reconhecimento o religioso: entende-se tacitamente que o Witz possui virtudes estéticas e teóricas sem igual em qualquer outro lugar.
7. A questão a colocar é, portanto, extremamente simples: como pode o insignificante assumir tal importância, e o que essa operação implica? Quanto a este primeiro aspecto, não é a insignificância do Witz mas sua plenitude de sentido que devemos abordar através de sua história literária e filosófica.
8. Ao mesmo tempo, isso levanta uma segunda questão: se a plenitude de sentido do Witz jamais gruda, se está sempre se desmaterializando ou dissolvendo-se, de que modo estamos nós envolvidos ou arrastados pelo Witz? É por esse caminho que devemos abordar, por assim dizer, a insignificância do Witz, não sendo então mais possível simplesmente identificar e reconhecer a questão como se fez até aqui.
9. Em outras palavras, se o Witz, por razões e num contexto ainda por estabelecer, pôde ser chamado por Novalis de menstruum universale, o solvente universal no léxico da alquimia, é finalmente, mas que finalidade poderia isso trazer, a própria dissolução no e do Witz que se deve abordar, não havendo contudo nada a fazer quanto à dissolução, sendo até possível que nada se possa dizer sobre ela.
10. Mas também aqui não há nada a fazer, pois não podemos determinar, antecipar, querer ou controlar o fato de que nosso próprio discurso possa se dissolver, sendo assim em princípio, mesmo que todo discurso, este como qualquer outro, não possa assumir outra forma senão a da intenção e determinação de tal controle, devendo por isso interromper esta introdução tão abruptamente quanto possível: meu argumento não pode ser senão uma tentativa de controlar tão completamente quanto possível um objeto designado pelo nome de Witz.
II
11. O que entendemos por um Witz? Várias coisas, às vezes combinadas, às vezes separadas, dependendo da época ou do contexto, sendo o Witz, ao mesmo tempo e separadamente, o tipo específico de enunciado chamado jogo de palavras ou dito espirituoso em toda a variedade que a categoria compreende, uma operação desse tipo estendida a um processo literário ou artístico diferente do enunciado mesmo, a faculdade psicológica capaz de tais produções, e o conceito mais geral abarcado por essas produções, envolvendo este sempre uma associação ou combinação inesperada ou surpreendente, ou não autorizada pelas regras ordinárias.
12. Não se trata de escolher entre esses sentidos nem de organizá-los para estudá-los individualmente, não sendo sentidos distintos ou sucessivos de um dado termo, sendo cada um deles, até certo ponto, inseparável dos outros: o Witz é a estrutura de uma produção chamada Witz, que requer uma capacidade também chamada Witz, o que significa que Witz é de certo modo inseparável, mesmo em sua determinação semântica, da expressão fazer um Witz.
13. Isto é, o Witz em geral, se tal generalidade puder ser determinada, ou algum Witz particular é inseparável da forma e natureza do enunciado, sendo um enunciado por sua vez inseparável de quem o enuncia, do Witz do falante e, portanto, também do enunciado e, por contiguidade inevitável, do contexto, ocasião ou situação do enunciado, sendo o Witz inextricavelmente um conceito lógico, semiótico, semântico, psicológico, filosófico, sociológico e pragmático.
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Poucas pessoas de distinção se preocupam com o nome do Espírito, menos ainda o compreendem, e quase nenhuma o honrou com seu exemplo.
14. Para nos orientarmos no espaço ou jogo dessa palavra, começarei com o que a história básica da palavra sugere, sua história alemã, embora a história do wit inglês seja semelhante em muitos aspectos, tendo Witz adquirido seus significados atuais apenas recentemente, referindo-se Witzi, em alto-alemão antigo e médio, a uma capacidade intelectual, senão à própria inteligência, então inteligência como sagacidade, o poder natural de discernimento.
15. Ao traçar sua etimologia, entraríamos em contato com toda a família primitiva do saber concebido como ver: o veda sânscrito, o eidos grego, a Ideia platônica, a evidentia latina cartesiana, mas em vez de revelar-se como crescimento orgânico de uma raiz primal, a história dessa família, com seu Witz, obscureceu qualquer sentido associado ao saber, sendo Witzi um conhecimento de habilidade, cálculo, estratagema, distinguindo-se nesse sentido de Wissen, o conhecimento que possuímos e que pode ser racionalizado e a partir do qual um sistema pode ser construído, permanecendo mais próximo de seu outro gêmeo, Wise, conceito baseado na cultura aristocrática e cortesã, forma de conhecimento entendida como refinamento.
16. Weisheit, que apareceu mais tarde, refere-se à sabedoria, estando o Witz sempre associado à sagacidade, à perspicácia de uma mente engenhosa, informada e ágil e, consequentemente, a uma inteligência que se supõe fornecida pela natureza e não pode ser ensinada: o ingenium latino, talento de mente inato mais que adquirido, sendo assim o primeiro Witz um conhecimento que não pode ser adquirido nem demonstrado, mathemata, mas um conhecimento que vê, que apreende imediatamente a ideia e que pode fazer distinções com lucidez.
17. A palavra reteve esse sentido dessa capacidade até o século dezessete, tendo sido até então substantivo feminino, tornando-se masculino e deslocando seu sentido, não o transformando mas investindo-o de nova posição e função, não tendo essa mudança de gênero ocorrido simplesmente de dentro da língua alemã, tendo exigido, singularmente, a intervenção de duas línguas estrangeiras.
18. O wit inglês, como veremos, já ocupava parte do futuro escopo de Witz, mas no continente, por um efeito de privilégio cultural assumido pela língua francesa, e por um mal-entendido do estrangeiro daí decorrente, foi esprit que assumiu esse papel, estando esprit, no sentido da expressão avoir de l'esprit, na verdade bem longe de abarcar o campo semântico de wit, sendo contudo essa a palavra que os alemães não conseguiram traduzir, dizendo-se em alemão esprit, como dizem os franceses, e ouvindo-se, e lendo-se, na França, que os alemães carecem de esprit.
19. Em resposta, um poeta alemão, Christian Wernicke, descobriu que Witz fazia parte da língua alemã, sendo contudo a mãe do poeta inglesa, sendo Witz, rigorosamente falando, na língua em que revelaria todo seu alcance conceitual, resultado de uma singular disputa nacionalista, retratando-se culturas e línguas como identidades, atribuindo a si mesmas um ingenium, glorificando-se por ter Witz ou desprezando-se por sua falta.
20. Aqueles que não o têm não podem simplesmente importá-lo, não sendo o Witz transportável, sendo intraduzível, mas acontece, por acaso ou benevolência do Destino, que o têm sem saber, tendo Kant podido escrever, em sua Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático, que a língua alemã tinha a vantagem de distinguir dois termos, Witz e Geist, enquanto o francês, menos rico, tinha apenas a palavra esprit, cabendo perguntar de onde vinha esprit.
III
21. Gostaria agora de descrever a proveniência do esprit, do Witz, ou mais precisamente o que se deveria chamar a geração do Witz, em dois sentidos da palavra: a gênese ou engendramento do Witz e, algo semelhante à beat generation, aquilo que se poderia chamar a geração do Witz, surgindo o Witz e marcando toda uma era, quase por surpresa ao que parece, correspondendo ao mesmo tempo a um processo de engendramento contínuo na história da literatura e da filosofia.
22. Nem pura gênese nem puro evento, o Witz nasce e renasce sempre como seu herói, Tristram Shandy, cuja identidade é a identidade de um Witz: Tristram é de fato resultado do processo natural de geração mas, como resultado de um acidente, sua mãe perturbando seu pai no momento decisivo ao lembrá-lo de dar corda ao relógio, isto é, como Tristram explica, por uma infeliz associação de ideias que não têm conexão na natureza.
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Uma infeliz associação de ideias que não têm conexão na natureza.
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Que estranha combinação de ideias, o sagaz Locke, que certamente entendia a natureza dessas coisas melhor que a maioria dos homens, afirma ter produzido mais ações tortas do que todas as outras fontes de preconceito.
23. O nascimento de Tristram é o nascimento incontrolável do wit, de um wit, o nascimento paródico do herói que zomba ou parodia a filosofia, o nascimento da literatura na filosofia, da literatura como um Witz da filosofia, ou de um Witz literário e filosófico, ou ainda a união deliquescente dessas heterogeneidades.
24. Tais expressões só podem ser provisórias e sujeitas a questionamento uma vez estabelecida a geração do Witz, indicando contudo o nascimento de Tristram de imediato a dificuldade inerente a tal posição, pois teríamos de começar nossa investigação simultaneamente a partir de uma divisão entre literatura e filosofia sempre já existente na história do Ocidente, e a partir do surgimento, dentro da filosofia, da geração da literatura, isto é, da era de Tristram, nossa era.
25. A primeira direção exigiria que retornássemos às primeiras formas conhecidas de literatura grotesca ou fantástica, incluindo a satura latina e sua mistura de gêneros e prosódias, os textos fragmentários dos cínicos com seus bons ditos e paródias da filosofia, os jogos de palavras espalhados pelos diálogos de Platão, e o próprio gênero do diálogo, gênero sofisticado e sítio preferido do dito espirituoso, e assim aos primeiros mimos e ao nascimento da comédia, e ao nascimento imperceptível da comédia e da tragédia, e ao Witz de sua estranha combinação.
26. A lição é clara: em tal empreendimento, jamais alcançaremos uma origem, ou a alcançaremos como Witz, através de uma espécie de gênese circular, um círculo vicioso, mas ao mesmo tempo teríamos perdido o Witz, confundindo sua especificidade moderna com todas as formas de literatura e filosofia.
27. Nesse sentido, esta é a lição do Witz: o nascimento incontrolado e incontrolável da mistura de gêneros ou daquilo que se seria tentado a chamar o gênero ocidental, literatura e filosofia, nem literatura nem filosofia, literatura ou filosofia, em suma, dissolução literária, onde literário se refere apenas ao domínio do texto, da escrita em geral, o Ocidente escritural.
28. Mas tal dissolução literária já ocorreu antes na história, tendo o Witz ocorrido, tendo a dissolução se repetido sob o nome e a forma estritamente modernos de Witz, não tendo Witz equivalente algum nas línguas antigas, sendo essa repetição e esse ocorrer o que se deve identificar, encontrando-se isso na filosofia, no renascimento filosófico da dissolução literária.
29. Para começar, devemos perguntar: de onde vem o esprit, tal como entendido no francês do século dezessete? Resumindo tanto quanto possível sem distorcer a situação, podemos dizer que o esprit é o produto especificamente moderno da crise filosófica do juízo.
30. Aquilo a que me refiro como crise filosófica do juízo é a repetição moderna de uma crise integral ao discurso filosófico, especificamente a crise da krisis grega, referindo-se krisis, krinein, juízo, apreciação, decisão, na filosofia, a começar pelo Poema de Parmênides, ao ato de escolha, de decisão e à execução da decisão, ato fora do logos e necessário para que o bom logos se mantenha, implicando krisis, além do logos, um tomos que a ele não se reduz, marcando assim krisis o elemento ou estrutura de indecidibilidade na própria decisão lógica.
31. Krisis e palavras relacionadas como judicium, base do julgamento inglês, são palavras de proveniência prática ou pragmática, encontradas nos campos da medicina, do direito e da política, dizendo-nos a semiologia estoica que krisis é a decisão que relaciona o signo à coisa, apresentando, se exata, o idioma da coisa, se falsa, apenas um fantasma perturbador ou perigoso.
32. O juízo é, então, o ato característico de composição, da combinação de signos com coisas e da combinação de signos com outros signos, havendo razão para proceder com compositio quando falta conceptio, isto é, quando não há autoadequação instantânea, ou produção simultânea, da coisa e de seu conceito, sendo compositio uma falta conceitual, um engendramento redirecionado ou adiado, um nascimento incerto de como veio a ser.
33. Muito antes de a escolástica formular uma disciplina especial do juízo sob o nome de critica, essa já se estabelecera como estudo ou disciplina específica, nem ciência nem arte, envolvendo o exame, comentário e julgamento de textos, sendo a primeira crítica literária o exercício do juízo no domínio mais apropriado: aquele das obras que não se baseiam em pura lógica, que não dão origem a pura conceptio.
34. A teoria do juízo e a crítica literária caminham juntas: partilham, e trocam indefinidamente, a ordem do signo, da combinação, do estabelecimento de relações e do ato que determina tais relações, partilhando assim, e cruzando-se, no sujeito indispensável desse ato, não devendo esse sujeito ser entendido como sub-jectum, substrato, o hypokeimenon aristotélico, mas antes como autor e agente da decisão, autor ou agente do idioma ou da fantasia.
35. Um sujeito semelhante, chamemo-lo o sujeito crítico, não é a universalidade impessoal do Sujeito, existindo ao contrário apenas na desigualdade dos sujeitos: se a razão é a mesma em todos, o juízo não o é, estando mais ou menos dotados, pela natureza, por Deus ou pelo acaso, de bom juízo.
36. É muito especificamente sobre a divisão já escolástica entre ratio e judicium que se baseia toda a metafísica moderna da subjetividade e da geração do Witz, consistindo a operação cartesiana em atribuir ser e verdade ao próprio sujeito da decisão, não como sujeito julgador mas como sujeito que se concebe, e se concebe concebendo, formulando de certo modo o cogito a (re)conquista da substancialidade pelo sujeito-agente da decisão, sendo, exceto pela única certeza do cogito, todo o resto juízo, que deve ser guiado, esclarecido, garantido ou retificado apenas pela certeza.
37. Contudo, o cogito é dobrado por seu próprio duplo, o homem de espírito, proliferando este duplo desde o início, ao contrário do cogito único e unitário, numa multiplicidade de figuras, formando o cortesão, o homem de gosto, o homem de salão, bem como a mulher, a mulher de gosto, a mulher de espírito, o caráter polimorfo do sujeito do juízo que encontra sua certeza em si mesmo.
38. Diferentemente de seu duplo, ele não encontra tal certeza na luz da intuição mas na sombra de um dom natural, não a descobre como verdade mas como segurança do olhar e do estratagema, não a transforma em substância mas a cultiva como exercício de um talento, não a associa às deduções da ciência mas dela extrai obras de cálculo político, estratégia amorosa e sabedoria astuta, e, por fim, não nos oferece Meditações mas miscelâneas, nas quais, através do diálogo, da fábula ou do aforismo, a sentença reina soberana.
39. O discurso desaparece, ou quer desaparecer, diante da verdade que apresenta, dizendo a sentença verdadeiro apenas pela marca de seu estilo e pela extensão de seu espírito, conduzindo o discurso à conceptio, brincando a sentença com o concetto, expondo o discurso a ordem metódica da ciência, tendendo a sentença, usando mistura e fragmentação, a irromper momentaneamente na máxima, a maxima sententia, o maior pensamento, pretendendo o homem do Discurso ser um intelecto, sabendo-se o homem de espírito ele mesmo o jogo da representação.
40. Que o primeiro esteja vinculado por necessidade à representação de sua substância e o segundo conceba suas ações como o próprio ser do sujeito é o que cada um sussurra a si mesmo mas só pode negar, reinventando o primeiro a filosofia, o segundo a literatura, o homem do pensamento e o homem de espírito, sendo os mesmos, mas sendo a história do juízo a história que os divide e os une irrevogavelmente um ao outro.
IV
41. Esprit, wit, Witz, que, dada a incessante modificação de suas figuras, seus sexos, seus gêneros, seu estilo, passaram a influenciar as belas letras e as belas artes, e a arte de sua crítica, são os duplos do juízo na medida em que o próprio juízo já está, dentro da lógica do discurso, excluído da conceptio, sendo os duplos da primeira falta do pensamento e, consequentemente, duplamente faltosos em relação ao pensamento.
42. Do século dezessete ao dezenove, no que dizia respeito à filosofia, nada era demasiado severo para o Witz, sendo incerto, perturbador, obscuro ou brilhante demais, flácido, efeminado, enganoso, oferecendo fantasias literárias como idiomas, tendo Hobbes e Locke, os primeiros a fazê-lo, decidido por sua exclusão, sem apelação: o Witz era perigoso.
43. Mas é precisamente essa exclusão que forneceu a ocasião para uma definição do Witz, tendo Locke escrito, em 1689, que o espírito consiste sobretudo na justaposição de ideias e em unir com rapidez e variedade aquelas em que se possa encontrar alguma semelhança de congruência, formando assim quadros agradáveis e visões amenas na fantasia, enquanto o juízo, ao contrário, consiste inteiramente do outro lado, em separar cuidadosamente uma ideia de outra onde possa haver a menor diferença.
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Pois o espírito consiste sobretudo na justaposição de ideias, colocando-as juntas com rapidez e variedade onde se possa encontrar alguma semelhança de congruência, para compor imagens agradáveis e visões amáveis na fantasia; o juízo, ao contrário, reside inteiramente do outro lado, em separar cuidadosamente uma ideia de outra onde se possa encontrar a menor diferença.
44. Assim, o conceito de Witz é fornecido pela filosofia, o conceito que une toda a diversidade e dispersão heterogêneas de suas manifestações, relacionando-o sempre as análises espirituosas do espírito à propriedade última de ter certo je ne sais quoi, expressão comum no século dezessete, enquanto seus analistas racionais lhe atribuem função específica: nada menos que a de compositio.
45. Pois o espírito de Locke apenas reúne coisas dissimilares, mas já em sua prática, e logo em sua teoria, o Witz consiste em estabelecer a semelhança de coisas dissimilares, isto é, o Witz produz uma síntese necessária onde o juízo de Locke se limita a identificar uma disparidade, recebendo assim o Witz, no momento de sua exclusão, a qualificação inicial de juízo, sendo o juízo tendencialmente definido como a organização de conceitos.
46. A filosofia baniu o Witz, e baniu com ele a literatura junto com elegância, charme, invenção, engenho, composição de figuras e imaginação, mas essa foi sua maneira de batizá-los, sendo além disso a filosofia, incapaz de romper com o juízo sem excluir-se do discurso, trazida de volta ao Witz no próprio momento de sua exclusão.
47. Toda a filosofia do século dezoito poderia de fato ser analisada, onde não se dedica a buscar uma língua bem-feita, a característica de Leibniz ou a língua de cálculo de Condillac, como tentativa de usar os recursos do Witz a serviço do conhecimento e da verdade, precisando agora a verdade ser adornada ou ornamentada para torná-la acessível, exigindo a assistência da retórica e da ficção de um lado, e a própria verdade do outro.
48. A verdade da humanidade, a verdade de um sujeito cujo cogito não durou mais que o momento cartesiano, devia também ser encontrada naquelas funções instáveis e inatribuíveis conhecidas como gosto, talento, engenhosidade, combinação e criatividade, nascendo a estética da filosofia como projeto de uma ciência do Witz, ciência da arte e da literatura, ciência do Outro que excluímos, e, sendo essa exclusão impossível, da mesmidade do Outro e do Mesmo que o exclui: a filosofia quer ser o Witz erudito de si mesma e do Witz.
49. Mas a literatura exige não menos, devendo o prefácio de Tristram Shandy, que reúne os elementos essenciais da defesa e ilustração do Witz em curso havia mais de um século, ser lido como paródia da filosofia e como debate com a filosofia, e como debate filosófico, insistindo Sterne no lugar, dignidade, brilho e necessidade do wit ao lado do juízo.
50. Em outras palavras, Sterne considera Tristram Shandy como um todo o suplemento indispensável de um tratado filosófico, fornecendo aquilo de que este carece e completando sua apresentação, destacando além disso este prefácio, alojado dentro do romance como em seu coração ou centro, a autoprodução literária da teoria literária e, portanto, significando pelo menos que é a teoria literária, ou crítica, que mais apropriadamente constitui suplemento à filosofia, e no máximo que a literatura, junto com sua própria teoria, é capaz de fornecer o conhecimento ou pensamento da identidade entre filosofia e literatura, podendo portanto prescindir da filosofia.
51. Assim, temos a possibilidade especificamente moderna de que a literatura e a teoria literária, crítica, poética etc., se considerem ou sejam consideradas o sítio da verdade, e reciprocamente, a possibilidade de que a filosofia se considere agora em termos de sua própria mise en scène da verdade, sua própria capacidade de combinar signos e figuras para coisas ou para a razão, em suma, sua aptidão para a composição literária e, portanto, para o Witz, dupla possibilidade surgida do cisma e do quiasma que o Witz simultaneamente encena, da crise do Witz.
V
52. Isso não significa, contudo, que estejamos lidando com uma simples troca de papéis, nem com a duplicação de uma identidade, tendo evidentemente o Witz recebido uma identidade por sua definição como combinação de elementos heterogêneos, e é, num sentido, essa identidade que a literatura quer produzir, ou ela mesma quer ser, assim como a filosofia quer ser, não sendo essa identidade outra senão a própria identidade, na medida em que só pode ser apresentada e concebida através da mediação da não-identidade: nisso se encontraria a definição da dialética fundamental de todo pensamento ocidental, tal como Heidegger a caracterizou.
53. Nesse sentido, o Witz não seria outro senão o pensamento dialético da identidade e, primariamente, o pensamento da identidade do próprio wit, dentro da dialética do je ne sais quoi e da razão, da fantasia e da demonstração, do dito espirituoso e do discurso, da compositio e da conceptio, devendo, rigorosamente falando, concluir-se até que a completa separação e oposição entre Witz e Razão apenas serviram para permitir melhor que essa dialética operasse, jamais tendo a literatura se oposto à filosofia senão para melhor assegurar o controle sobre sua separação.
54. De um ponto de vista, é o pensamento dessa identidade que é representado pelo Romantismo alemão do grupo de Jena, podendo dizer-se que o romantismo se considerava o pensamento do romance ou o romance como pensamento: pensamento na e como mistura de gêneros, uma Satura generalizada, e não apenas de gêneros literários mas de gêneros intelectuais em geral, o pensamento, portanto, de uma fusão superior de filosofia, arte, ciência, literatura e sociedade.
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O Witz é o princípio e órgão da filosofia universal, a ciência de todas as ciências perpetuamente se misturando e se separando, uma química lógica.
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A linguagem é poética, a escrita filosófica; o Witz as liga.
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O Witz supremo deveria ser a verdadeira lingua caracteristica universalis e, ao mesmo tempo, uma ars combinatoria.
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O Witz, talvez o princípio puro da filosofia, da ética e da poesia.
55. Para tal pensamento, o Witz deve também reconquistar a unidade espiritual e apagar a diferença entre intelecto e wit, perguntando Schlegel o que era originalmente o Witz senão a mistura e interpenetração mais íntimas de razão e fantasia, passando assim o Witz a ocupar o lugar supremo no intelecto tanto em relação à filosofia quanto à literatura, sendo o Witz o criador, fabricando semelhanças, segundo Novalis.
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O que era originalmente o Witz, senão a mistura mais íntima e a interpenetração de razão e fantasia?
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O Witz é o criador, fabrica semelhanças.
56. Seria demasiado fácil e ingênuo descartar essas expressões como exemplos de idealismo desenfreado ou romantismo desregrado, esperando ter mostrado até que ponto representam a culminação lógica de uma crise característica de toda a era moderna, sendo o romantismo, nesse sentido, o fechamento da crise, escrevendo Schlegel que o Witz é o ponto de indiferença onde tudo está saturado, transpondo ao Witz o primeiro princípio da metafísica de Schelling.
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O Witz é o ponto de indiferença, onde tudo está saturado.
57. É preciso, contudo, considerar também como esse mesmo romantismo constitui a radicalização dessa mesma crise, podendo esta ser caracterizada, muito esquematicamente, por três traços.
58. Considerada do ponto de vista do Witz, a obra dos românticos de Jena caracteriza-se primariamente por sua ausência de obra, podendo a teoria do Witz, como teoria, resumir-se à platitude da afirmação absoluta do Witz e ao círculo que condena o Witz a ser apresentado, explicado e justificado apenas pelo Witz ou pelo Witz.
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A linguagem e o Witz pertencem à metafísica; uma metafísica que não é witzig é inútil.
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A essência mais íntima do Witz só pode ser explicada pela magia das ideias.
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Uma teoria do romance deve ela mesma ser um romance.
59. Ao fim das contas, tudo se resume à magia de uma palavra, ficando o Witz, como teoria da literatura, autorizando nada além do Witz, que permanece no estado de desejo, e, como literatura, o Witz romântico limita-se mais ou menos aos dois romances incompletos produzidos por Novalis e Schlegel.
60. Embora, em princípio, haja apenas um Witz, sendo o Witz o princípio do romance, da mitologia e da enciclopédia, segundo Schlegel, há contudo uma multiplicidade irredutível e, sobretudo, hierarquia de Witze, repetindo aqui os românticos um gesto crítico encontrado ao longo de toda a história do Witz e até então negligenciado: a condenação do Witz vulgar, do Witz baixo, do simples trocadilho.
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O Witz é o princípio do romance, da mitologia e da enciclopédia.
61. Desde o século dezesseis, celebrar o Witz sempre implicou separar o bom Witz do mau, e em particular criticar o Witz agressivo, cínico e obsceno, havendo uma espécie de Witz trivial contra o qual devemos nos proteger.
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Considerar o Witz um instrumento de vingança é tão vulgar quanto tratar a arte como meio de estimular os sentidos.
62. É por isso que as obras mais ricas do Witz, as de Sterne e Jean-Paul, só são reconhecidas pelos românticos com as precauções exigidas pela crítica de seu mau gosto, de sua dependência doentia do grotesco, devendo-se contudo ver também em Sterne e Jean-Paul como eles próprios insistem, mesmo até a autocrítica e a autoderrisão, em distinguir um grande Witz de um menor, inconsistente ou vulgar.
63. Há ainda um último aspecto não discutido: desde a célebre máxima de Shakespeare em Hamlet, repetida sem fim até Freud, o único gênero ou a única forma sempre reconhecida como típica do Witz, e reconhecida como típica de todo Witz, é a concisão, a rapidez do enunciado que carrega o ponto essencial.
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A brevidade é a alma do espírito.
64. Quanto ao Witz alemão, os românticos, usando expressão desde então muitas vezes repetida, disseram que Witz ist ein Blitz, o Witz é um relâmpago, expressando brilho, deslumbramento, explosão a forma do duplo do cogito quando este é instantâneo, mas, com a mesma frequência com que a rapidez do Witz é reconhecida como essencial a seu ser e ao prazer do qual não se pode separar, essa mesma velocidade igualmente perturba ou desvia o pensamento do Witz.
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No Witz há uma petrificação, susto e súbita coagulação.
65. O relâmpago cega, a explosão ensurdece, o prazer nos paralisa, hipnotizando o Witz o pensamento do Witz, e ao mesmo tempo fazendo esse pensamento escapar da unidade suprema em que era retido.
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O Witz é a forma característica de nossa consciência enquanto seres orgânicos potenciais, caóticos.
66. Este último traço ajuda a compreender os três juntos: o Witz, de acordo com a dissociação de que surge, jamais corresponde à necessária organicidade de uma síntese ou obra completada, muito menos ao organismo superior de uma síntese da síntese, filosófica, e da obra, literária, fazendo antes com que tal síntese seja deslumbrante como se fosse uma forma de caos, sendo por isso que Novalis se referiu ao menstruum universale como um princípio de afinidades.
67. Este fragmento é, evidentemente, ele próprio a síntese de um Witz: a afinidade total é a mesma coisa que a dissolução total, permanecendo obstinadamente, no coração petrificado do romantismo, a necessidade de que o enunciado dessa síntese se dissolva em si mesmo, incapaz de controlar a síntese que enuncia senão pelo Witz que enuncia.
68. Mas o Witz não pode controlar, sendo por isso que a filosofia começou com sua exclusão, encenando combinações sem conhecimento, permanecendo heterogêneo mesmo após combinar as heterogeneidades que produz, seduzindo sem tentar, acasalando sem fecundar, permanecendo temerosos dele enquanto nossas expectativas permanecerem altas, podendo ele literalmente fazer qualquer coisa.
69. A elegância literária, que permanece sempre elegância, mesmo quando desce à vulgaridade, uma vez que um projeto ou proposta literária venha a existir, torna-se protesto contra esse qualquer coisa, contra o caos, assim como o raciocínio filosófico permanece sempre raciocínio, mesmo quando usa os recursos de um Witz brilhante.
70. A trivialidade, a tagarelice verbal, a feminilidade e a falta de consistência do bon mot sempre preocuparam e ameaçaram por baixo as obras do Witz, ainda que essas obras também tenham extraído delas seus recursos e justificações, sendo evidentemente sempre possível controlar o Witz, atrelando-o à produção de conhecimento e de obras que sempre tiveram a finalidade do juízo.
71. Mas, por terem atingido o auge desse controle, os românticos viram-no subitamente desintegrar-se em suas mãos, tendo sua tentativa de usar o Witz para engendrar tudo visto o retorno daquilo que era mais característico do Witz, ou antes, daquilo que nunca cria o Witz mas um Witz, mas que não pode ser apropriado, não pode ser introduzido em nenhuma obra, nem mesmo, e sobretudo, em Tristram Shandy: seu nascimento incontrolado.
72. A busca romântica pelo Witz em sua totalidade, e sua crise, pode ser resumida neste fragmento de Friedrich Schlegel: deve-se ter Witz, mas não querer tê-lo, senão acabamos com uma Witzelei, a versão preciosa e erudita do Witz.
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Deve-se ter Witz, mas não querer tê-lo, senão acabamos com uma Witzelei, a versão preciosa e erudita do Witz.
73. Se todas as diferenças fossem eliminadas entre cogito e esprit no Witz especulativo, restaria apenas isto: não podemos querer o Witz, jamais tendo a filosofia sido capaz de nos dizer o que não podemos querer e o que significa não querer, nem tendo a literatura jamais posto isso em prática.
74. Fora da filosofia, fora da literatura, fora também da psicanálise, fora da mistura ou união de ambas, ou das três, o Witz nada nos fornece, e nada nos concede, apontando, em sua insistência, e quase a despeito de si mesmo, para a dissolução de longa data de nossa vontade de filosofia, de literatura, de psicanálise, e de nossa vontade de misturar e nos responsabilizarmos por todos os nossos gêneros.
75. Deixa atrás de si apenas algo que ainda não tem nome, nem em filosofia nem em literatura, que não poderia ter nome sem rir, nem mesmo o nome derrisório de Witz, algo que teria a forma e natureza inatribuíveis deste fragmento póstumo de Novalis, que não é fragmento intencional mas nota esboçada para a continuação inacabada de seu romance, nota suficiente, mesmo em seu estado fragmentário, para realizar a parte do programa que anota, o programa que deveria ser o do menstruum universale, se isso pudesse jamais ser ou criar um programa, mas que, incapaz disso, apenas pode resolver-se ou dissolver-se nesta observação, que deve permanecer inacabada.
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Dissolução de um poeta em seu canto: ele será sacrificado entre selvagens.
