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6 Consumo

VAN REETH, Adèle; NANCY, Jean-Luc. La Jouissance. Québec: Librairie Plon, 2014.

Do Lucro ao Consumo: Pode-se Gozar de Tudo?

  • A genealogia comunitária: da ecclesia cristã ao desvio do lema de Maio de 68
    • Adèle Van Reeth abre a interlocução indagando sobre o descompasso moderno entre o indivíduo isolado e a totalidade política coletiva, destacando o perigo de a experiência íntima do gozo ser capturada e convertida em palavras de ordem alienantes, como a célebre divisa pichada em Maio de 68: “gozai sem entraves”.
    • Jean-Luc Nancy refuta a ideia de que o ímpeto coletivo tenha nascido na modernidade, situando a gênese da comunidade no judaísmo e na ecclesia cristã primitiva; a Antiguidade clássica grega reduzia a sociabilidade à organização cívica da pólis, ao passo que a Idade Média concebia a cristandade sob a forma de um corpo místico compartilhado.
    • A palavra comunismo deriva do próprio solo histórico-teológico do cristianismo europeu: com o colapso das instituições comunitárias da fé e o surgimento do Estado moderno monárquico, o ideal comunista despontou no final do século XVIII como a tentativa secularizada de reconstituir um laço fraterno universal fraturado.
    • Os levantes de 1968 não refletiam uma mera volúpia hedonista; resultavam do abismo institucional entre o modelo arcaico das universidades e o estágio tecnológico produtivo da época, somado ao desgaste irreversível do projeto comunista burocrático.
    • O lema “gozai sem entraves” visava originalmente denunciar o aprisionamento da vida pelo aparato mecanicista da sociedade de classes; o projeto comunista — sintetizado nos versos do professor Pierre Juquin sobre “mais de tudo para todos” — concebera a emancipação como consumo igualitário de bens materiais, oscilando confusamente entre o espasmo desapropriador da volúpia e a repleção estéril da barriga cheia.
  • A mutação do capital: da monumentalidade sacra à acumulação infinita
    • Nancy elucida a clivagem ontológica que separa a suntuosidade medieval do mecanismo capitalista moderno: a riqueza feudal era entesourada para ser vertida na celebração e na monumentalidade espiritual, como atesta a construção da Catedral de Estrasburgo, obra que exigiu formidável mobilização de pedras, artesãos e tributos sem qualquer preocupação funcional com cálculo contábil de amortização financeira.
    • O surgimento do capitalismo, capitaneado pela expansão dos banqueiros lombardos e pela institucionalização da moeda fiduciária escritural, converteu a riqueza em capital operacional autônomo, estruturado para gerar permanentemente novo capital através de ciclos expansivos ininterruptos.
    • Instaurou-se um modo civilizatório inédito no qual o imperativo da produção governa o comportamento social: produz-se compulsivamente para forçar o consumo em massa, e amplia-se o consumo para sustentar novos patamares de manufatura mercantil.
    • O privilégio desmedido, que na Antiguidade e no Antigo Regime pertencia à glória soberana do monarca, foi rebaixado à condição de regra de conduta burguesa geral; Immanuel Kant, já na Crítica da Faculdade de Julgar, lamentava que contingentes imensos de trabalhadores consumissem suas vidas em fadiga exaustiva para produzir artigos supérfluos desfrutados por uma minoria insignificante.
  • A degradação da posse: a captura do excesso pelo mau infinito quantitativo
    • Opera-se uma confusão conceitual perversa na modernidade avançada entre o evento do gozo e a dinâmica do lucro econômico: o gozo passou a subordinar-se à titularidade da propriedade privada, sufocando a vocação do excesso exubera-dor.
    • Quando a propriedade se apropria do próprio excesso, fecha-se a abertura desinteressada do sentido; o desmedido converte-se no mau infinito da métrica hegeliana, no qual o valor da existência é reduzido ao acúmulo contábil indefinido e à posse do maior número possível de objetos fungíveis.
    • O conceito moderno de fruição abandonou a exultação sublime do céu e o arrebatamento carnal para retroceder à sua raiz jurídica arcaica: o direito patrimonial de um proprietário sobre as coisas que lhe pertencem.
    • Essa deriva obscurece os velhos pecados capitais do léxico teológico — a cupidez, a avareza e a concupiscência —, substituindo a transgressão emancipadora pelo assujeitamento cego à maquinaria produtiva.
  • O declínio dos impulsos libertários e o advento da sociedade aditiva
    • A busca por amor livre nascida nos albores revolucionários soviéticos e o descarrilamento sensorial proclamado na lírica de Charles Baudelaire e Arthur Rimbaud desembocaram, a partir dos anos 1960, em uma confusão generalizada entre liberação somática e experimentação narcótica desregulada.
    • O horizonte do prazer desvirtuou-se na passagem histórica da tendência à dependência: o étimo latino adictum designava originalmente uma mera inclinação ou preferência afetiva, passando a nomear, a partir do consumo de ópio no século XIX, a escravização patológica da vontade.
    • A juventude de Maio de 68 desprezava ingenuamente os perigos do cativeiro químico e psíquico; a sociedade contemporânea converteu-se na mais vasta estrutura aditiva da história ocidental, invertendo a energia afirmativa do fruir em autodestruição paralisante.
    • A adicção funciona como a contrafação destrutiva do gozo: ao buscar repetidamente a supressão do desprazer por meio do consumo compulsivo, anula a vulnerabilidade ontológica perante o mundo e confina o indivíduo em um circuito fechado de servidão.
  • A engenharia do consumo, a aceleração técnica e a biopolítica sanitária
    • A expansão contemporânea de regulamentações estatais e profiláticas não brota de um mero preconceito moralista abstrato, correspondendo àquilo que Michel Foucault conceituou como biopolítica: a administração técnica e minuciosa da vida biológica das populações em um planeta integrado por redes tentaculares.
    • Nancy narra sua própria vivência histórica durante a introdução compulsória do cinto de segurança veicular para evidenciar o choque existencial gerado quando o controle sanitário da máquina passou a cercear a sensação libertária e embriagadora da condução veloz.
    • O culto moderno da aceleração — celebrado literariamente em Françoise Sagan pelo prazer sensorial de pisar no acelerador com a mão engatada na alavanca de marchas — decorre primariamente do imperativo mercantil de assegurar o trânsito veloz de mercadorias para viabilizar a realização rápida da mais-valia.
    • Para sustentar o fluxo vertiginoso do capital, o aparato produtivo não se contenta em suprir carências prévias: a manufatura moderna fabrica ativamente as próprias necessidades que se propõe a satisfazer, capturando o apetite humano em um circuito de demandas artificiais que empobrece a experiência sensível do presente.
  • Os novos mercados da vertigem e o mal-estar por déficit de gozo
    • Nos setores hegemônicos das finanças globais e do capitalismo cognitivo de ponta (corporações do Vale do Silício e fundos de investimento de alto risco), emerge uma nova modalidade de fruição articulada à audácia, à volatilidade monetária e à assunção de perigos vertiginosos.
    • Em contrapartida, a expansão das tecnologias interativas, como o universo bilionário dos jogos eletrônicos, desvia a carência lúdica fundamental do ser humano para ambientes virtuais codificados, correndo o risco constante de decair na anestesia e na dependência psíquica.
    • Nancy rejeita as análises moralizantes que acusam o presente de sucumbir a um excesso hipertrofiado de volúpia e narcisismo: o diagnóstico epocal rigoroso aponta para um déficit de gozo real, um empobrecimento desolador da capacidade afirmativa dos corpos.
    • Ao passo que as décadas de 1970 e 1980 eram animadas pela convicção prospectiva de transformar a tessitura coletiva pela práxis e pelo refinamento das sensibilidades, o horizonte contemporâneo esvaziou a crença em ideais emancipatórios, abandonando o sujeito à desorientação e à melancolia.
  • A urgência ontológica do instante e o abandono da ilusão de domínio
    • O gozo puro exige a atenção aguda ao instante fugaz da existência, estruturando-se como presença esquiva que recusa a fixação em objeto substantivo, mantendo-se unicamente como abertura doadora de sentido.
    • O pensamento filosófico ocidental bateu-se reiteradamente contra a esfinge do presente: Søren Kierkegaard concebeu o instante em relação direta com o absoluto da fé, Friedrich Nietzsche postulou a redenção temporal através do eterno retorno e do amor à eternidade, e os mestres da suspeita franceses procuraram fraturar os dogmas historicistas em busca do acontecimento pontual.
    • O impasse civilizatório radica na submissão universal da vida à equivalência generalizada da mercadoria; para reencontrar o vigor afirmativo da existência, torna-se imperativo abdicar do delírio da posse e aprender a fruir da renúncia ao domínio controlador.
    • A verdadeira atenção ao presente prescinde da angústia acumulativa e do pavor da perda, demandando uma tensão interna desprovida de cobiça e a coragem receptiva de acolher a contingência do real sem reduzi-la à utilidade prática imediata.
  • A aporia do conceito e o sentir da vida no horizonte filosófico
    • Recuperando o dito de Albert Camus em O Verão em Argel sobre a rara vocação necessária para ser um verdadeiro fruidor, Nancy diferencia o mero acumulador insaciável de bens daquele indivíduo singularmente dotado da coragem de expor-se ao estremecimento do viver.
    • O discurso filosófico sistemático recua atônito perante o acontecimento do gozo por duas limitações estruturais: a dificuldade de conceber a plenitude finita sem aprisioná-la na imobilidade ontológica, e a insuficiência categorial para forjar um conceito abstrato capaz de nomear uma força que rompe as fronteiras do eu e esvanece no momento mesmo da sua emergência.
    • Como advertira Immanuel Kant na Antropologia, sentir a própria vida e vivenciar uma fruição radical consiste em ser arremessado continuamente para fora do estado presente, movimento vertiginoso que traz em sua esteira a sombra tangencial da dor.
    • O gozo recusa a domesticação discursiva e resiste à quantificação econômica: impagável e incomensurável, afirma-se em última instância como a maneira mais incandescente, desarmada e corajosa de sentir a própria vida em sua plenitude corpórea.
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