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estudos:nancy:2010:start

Identidade

Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.

  • 0 Fragmentos
  • 1 Causas e Consequências
  • 2 Gros Rouge
  • 3 Identidade Não É uma Figura
  • 4 Francamente
  • 5 Absoluto
  • 6 Quem?
  • 7 Por Que Falar de Identidade?
  • 8 Povos
  • 9 Nações
  • 10 Impérios
  • 11 Identidades, Intimidades

Prefácio François Raffoul

1. Este livro foi escrito em circunstâncias determinadas por um contexto francês, sendo importante esclarecer a situação em que foi publicado, sobretudo para o leitor de língua inglesa cinco anos depois, não se circunscrevendo contudo a essa situação as apostas de seu tema, a identidade de um povo ou de uma nação, e a identidade em geral, estando-se imersos numa efervescência de reivindicações identitárias de todo tipo através das quais nada está mais em questão do que a própria noção e o pensamento da identidade, parecendo esse conceito ter perdido toda vitalidade, plasticidade, diferenciação e complexidade, sendo essa petrificação mais ou menos generalizada tal que uma reflexão sobre a identidade não pode limitar-se à situação francesa.

2. As páginas que seguem, seja livro, ensaio polêmico ou panfleto, nasceram de um sentimento de raiva, tendo o presidente da República Francesa, Nicolas Sarkozy, decidido em 2009 lançar um grande debate popular sobre a identidade francesa, devendo ser organizados conferências, encontros e debates por todo o país em torno dessa questão, tendo o próprio presidente dado a razão dessa iniciativa singular.

  • Como resultado de nossa negligência, chegamos a um ponto em que já não sabemos quem somos.

3. É ao mesmo tempo fácil e difícil responder a que negligência ele se referia: fácil se se pensa no discurso mais estereotipado da direita nostálgica, segundo o qual houve outrora uma França primordial e essencial, com uma história própria e inalienável e até uma substância, que teríamos acabado por esquecer expondo-nos ao multiculturalismo e à globalização; mas difícil também se se pensa que Sarkozy se apresentava igualmente como campeão de uma filosofia de livre mercado mais apta a apagar fronteiras, estender mercados e medir identidades em termos de contas bancárias.

4. Essa contradição flagrante foi a primeira causa da raiva, sendo outra razão fornecida pelos motivos políticos que levaram à invenção do debate sobre a identidade nacional: tratava-se de reconquistar terreno da extrema-direita, não para derrotá-la mas para tomar seu lugar mostrando que se poderia dar nova vida àquilo que o programa da Frente Nacional formulava deste modo.

  • A França é uma antiga terra humana, herdeira de várias das maiores civilizações da História, que unificou numa cultura original.

5. O ridículo dessa declaração, que poderia aplicar-se a outras nações, senão a todas, e que assim nada declara, deveria desqualificá-la de saída, remetendo contudo a negligência lamentada por Sarkozy justamente ao espírito, senão à letra, dessa declaração, sendo necessário, para apropriar-se dos tons grandiosos e ridículos da celebração de extrema-direita, entregar-se também à denúncia de uma perda, abandono, esquecimento, traição e degradação daquilo que se supõe que a França deveria ter sido.

6. É preciso, com efeito, supor que algo como a França existiu um dia se se deseja que ela exista de novo, envolvendo sempre a lógica da renovação, do renascimento ou da restauração uma lógica fantasística ou imaginária, tendo alguns franceses, no século dezenove, fantasiado que a língua gaulesa fosse a língua original da humanidade, sendo a própria noção de uma língua original já em si mesma um fantasma, tendo contudo as nacionalidades se formado na Europa de maneira bastante ambivalente.

7. De um lado tratava-se de libertar-se dos poderes imperiais e pós-feudais em nome de ideais democráticos, e de outro era preciso dar um conteúdo político, no sentido do Estado soberano, a configurações geoculturais que até então não se constituíam segundo figuras nacionais, tendo além disso as entidades nacionais frequentemente permitido a subsistência de importantes diversidades culturais e econômicas em seu interior, trazendo mais de um país europeu hoje as marcas disso, ressurgidas pelo enfraquecimento geral dos Estados-nação e da soberania tecno-financeira.

8. Os Estados Unidos da América foram fundados sobre uma identidade que consistia inteiramente, ao menos do ponto de vista moral e jurídico, em sua própria declaração, ela mesma extraída de uma fonte divina, sendo isso sem dúvida o que permitiu ao mesmo tempo a identificação com o Estado federal, através de quatro anos de guerra civil e setecentos mil mortos e do apagamento progressivo das identidades, existências, presenças ou chances dos nativos americanos, e a preocupação tipicamente americana com uma representação de si, com uma figura americana, bem como seu questionamento e sua paródia.

9. Dessa forma, porém, a identidade americana tornou-se indissociável de uma capacidade de representar-se como identidade supranacional de uma democracia destinada a dominar o mundo, testemunhando sem dúvida a preocupação europeia em recuperar identidades supostamente perdidas seja o medo de perder uma posição dominante, seja o desejo de adquirir tal posição, podendo tal região da Europa desejar sua independência para dar estatuto simbólico às suas capacidades econômicas, ao passo que uma nação como a França lamenta a fraqueza econômica que danifica e degrada a imagem prestigiosa que se acostumara a apresentar ao mundo.

10. Em todo caso, a identidade que se reivindica, seja supostamente perdida, ignorada ou autodeclarada, implica uma espécie de distração fundamental, senão de negação, em relação à diferença consigo mesma que uma identidade não pode eliminar sem tornar-se um bloco monolítico.

11. O idêntico é o mesmo que si mesmo e, para sê-lo, deve reduzir ao mesmo a diversidade indefinida, a heterogeneidade e a alteridade nas quais e através das quais esse mesmo existe, não bastando à autoconsciência hegeliana sair de si para retornar a si, podendo uma leitura atenta do próprio Hegel mostrar que esse retorno a si é necessariamente infinito, infinito esse também entrelaçado com a finitude, não chegando o idêntico nunca a si mesmo, podendo sempre pressupor-se, mas lançando sua pressuposição sempre mais para trás ou mais para adiante, além de seu duplo fim.

12. A ipseidade de um povo é ainda mais problemática, se assim se pode dizer, que a de um indivíduo, se pudermos confiar nessa noção de indivíduo, operativa apenas no contexto de uma cultura particular, sendo por isso que as palavras povo, nação, país e comunidade têm os sentidos complexos, indeterminados ou mesmo contraditórios que conhecemos, sendo tão perigosas de usar quanto difíceis de simplesmente dispensar.

13. A instância do Eu que se enuncia não falha, mesmo que esteja vazia e se saiba vazia, não podendo o nós ignorar que só se instancia por projeção ou procuração, exigindo sua enunciação, seu falar, uma situação em que projeção, procuração, delegação ou representação sejam, por assim dizer, suspensas por um instante, podendo esse instante ser chamado soberano com boa razão, sendo justamente dessa perspectiva que a soberania política moderna teria sido ou poderia ter sido concebida.

14. É em tal instante que o Preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos foi pronunciado, segundo a sintaxe bastante singular e talvez insustentável que diz nós, o Povo dos Estados Unidos, podendo contudo, nesse momento fundador, a vacuidade do instante, ou mais exatamente a distância interna ao instante pela qual o enunciado difere da enunciação, apenas fazer tremer aquilo mesmo que está sendo afirmado.

  • Nós, o Povo dos Estados Unidos.

15. Voltando ao contexto francês mencionado acima, o resultado é que, quando um Estado decide organizar um debate sobre identidade nacional, ele se coloca em posição perigosa, propondo administrar uma discussão geral sobre a natureza e as características do povo ou da nação enquanto é seu representante institucional, colocando-se talvez em perigo, pois o povo poderia desintegrar-se no debate e solapar a razão de ser do Estado, pressupondo talvez também, pressuposição sobre a pressuposição nacional, que não haverá desintegração mas apenas a exclusão de alguns elementos julgados não conformes à identidade recuperada.

16. Nada disso ocorreu formalmente, pois os franceses não acolheram calorosamente a iniciativa de Sarkozy, tendo muitos deles percebido sem dúvida seu caráter grotesco ou patético, incluindo talvez até mesmo os mais nacionalistas e obcecados por identidade, pois todos sabem ou sentem que uma identidade não debate sobre si mesma e que, quando sente necessidade de se afirmar, já está necessariamente em desacordo consigo mesma.

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