User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:nancy:2010:6

6 Consensos

Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.

Quem?

1. A proposta governamental de um debate ou consulta sobre a identidade francesa encontra um consenso e suscita outro: o primeiro é o consenso dos modos de pensamento ligados à distinção de uma realidade nacional como genérica, nativa ou natal, segundo a origem da palavra nação, dessa comunidade consistente, senão substancial, que a população de um país supostamente constitui, seja essa realidade representada como natureza ou espírito; o segundo é o consenso de um modo de pensar há muito educado no cosmopolitismo e no internacional, termos que não devem ser reduzidos às suas conotações históricas, pois esses pensamentos nascem com a consciência de que a humanidade é multiplamente idêntica a si mesma e, numa palavra, de que já não há mais selvagens, sem que isso permita determinar melhor o que é o civilizado.

2. Não concordo com nenhum dos dois: ser francês não é para mim uma expressão vazia, mas sempre ouço nela algo do apelo proletários de todos os países, sobretudo agora que sabemos muito melhor que Marx como os superricos de todos os países são unha e carne, indicando identidade uma propriedade do ser, sem que eu esqueça que eu é outro, e esse outro também está no ser.

3. O pertencimento a uma forma ou outra de comunidade, talvez até o pertencimento simultâneo a várias comunidades, é de fato dado com o nascimento, o que não significa que seja mera constrição imutável, sendo antes ocasião e acidente, duas palavras para dizer que se cai ali, pela razão muito simples de que não se pode cair em lugar algum, o que não faria sentido, sendo ao contrário nesse ali fortuito e imprevisível que pode começar um traçado de sentido.

4. Além disso, o pertencimento a essa comunidade original delineia, por isso mesmo, ao menos as bordas, as fronteiras mais ou menos próximas e tangíveis, de outras comunidades e a possibilidade de ir de uma a outra, talvez de escolher outra, ou várias outras, ou até nenhuma, sendo esse duplo princípio de queda e plasticidade a maneira como o que se chama uma identidade se anuncia, mudando muito pouco se ela é abordada como pessoal ou como nacional, já que as duas se entrelaçam e podem sustentar-se ou desfazer-se mutuamente.

5. Não se trata, portanto, aqui de abraçar nenhum dos dois lemas, identidade! ou não-identidade!, ou uma mistura, mescla ou processo, tratando-se antes de entrar na fenda e na deiscência que uma identidade abre de si mesma dentro de si mesma.

6. A identidade é o ponto de chegada, ou o ponto de inscrição, poder-se-ia dizer, de onde um caminho pode começar a ser traçado, não tendo o ponto, por definição, nenhuma dimensão, podendo o traçado, por sua vez, abrir os caminhos mais distantes, contornados, emaranhados, até turvos, sendo contudo sempre traçado a partir do ponto, traçado a partir desse mesmo ponto.

7. Um ponto e um labirinto, tal é o segredo de uma identidade, havendo entre um e outro contato permanente e deiscência permanente, estando-se então fadado a perder-se num ou noutro, não faltando certamente alguns marcadores que indicam uma continuidade e que permitem falar de uma identidade, ainda que se entenda a priori que jamais se poderia reduzir o caráter infinitesimal do ponto ou o caráter rigorosamente infigurável do caminho.

8. Estas são verdades básicas, que conhecemos desde que prestemos atenção a tudo o que prolifera em torno da pergunta quem?

9. Quem eram, por exemplo, os francos sálios? Basta uma entonação diferente para deslocar-se de um pedido de informação, datas, lugares, costumes desse povo, para um questionamento do ser: mas quem eram eles, na verdade? Como podemos compreendê-los? Onde estava o coração ou núcleo de sua identidade? Deslocando-se assim de uma questão sobre os dados usados para identificação para uma questão de identidade.

10. Quem, outro exemplo, levanta a questão da identidade francesa? Quem é aquele que faz isso? Não falo aqui apenas de um nome, mas de um ministro, um governo, um movimento, que aliás parece perturbado, embaraçado e hesitante quanto à própria iniciativa, cabendo perguntar quem se encontra ali, se já é a própria identidade nacional, como ela se identificou, pelo fato de ocupar o poder executivo, mas será que o poder tem controle último sobre a identidade, dispondo ele de alguns mapas para isso, sem falar de outras coordenadas, marcas, imagens, mas será isso mais que meros dados identificatórios?

11. Ora, se cada francês é um quem, como qualquer outro sujeito humano, e se esse quem jamais pudesse ser reduzido a um o quê, a própria França é outra espécie de quem, irredutível a quaisquer características, população, situação, PIB, vinhos, queijo e aviões, complicando as coisas o fato de que cada quem de cada francês inclui algo do quem da França, e reciprocamente.

12. Contudo, não se acede a essa zona extremamente remota onde os diversos quens emergem, deslizam, multiplicam-se, onde sou francês mas também outra coisa, quem sabe, em parte alemão, em parte cão, em parte apátrida, em parte oceano lambendo a duna, jamais se acedendo a esse ponto de fuga, esse ponto de recolhimento e dispersão infinitos, não se acedendo tampouco à zona muito mais profunda que Lutécia, Bibracte e Karlsruhe onde modos de falar, gestos, signos e insígnias, desejos e aparências fomentam sem que se saiba novos modos de ser um povo, uma população e uma comunidade.

estudos/nancy/2010/6.txt · Last modified: by 127.0.0.1