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estudos:nancy:2006:8

8 "Expeausition"

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.

Expeausition (exibição da pele)

63. Os corpos estão sempre de partida, na iminência de um movimento, de uma queda, de um afastamento, de um deslocamento, sendo uma partida, mesmo a mais simples, aquele instante em que tal corpo já não está ali onde estava, cedendo lugar apenas ao vão do espaçamento que ele mesmo é, levando o corpo que se vai seu espaçamento consigo, retrincheirando-se em si, mas ao mesmo tempo deixando esse mesmo espaçamento “atrás de si”, em seu lugar, absolutamente intacto e absolutamente abandonado ao mesmo tempo.

  • “Hoc est enim absentia corporis et tamen corpus ipse” (pois isto é a ausência do corpo e, no entanto, o próprio corpo).

64. Esse espaçamento, essa partida, é sua própria intimidade, a extremidade de seu retrincheiramento (ou de sua distinção, de sua singularidade, mesmo de sua subjetividade): o corpo é si no partir, enquanto parte, enquanto se afasta aqui mesmo do aqui, expondo a intimidade do corpo a aseidade pura como o afastamento e a partida que ela é, não existindo a aseidade — o a-si, o por-si do Sujeito — senão como o afastamento e a partida desse à parte de si que é o lugar próprio de sua presença, de sua autenticidade, de seu sentido.

65. A “exposição” não significa que a intimidade seja extraída de seu retrincheiramento e trazida para fora à vista: o corpo seria então uma exposição do “si” no sentido de uma tradução ou encenação; a “exposição” significa ao contrário que a expressão é ela mesma a intimidade e o retrincheiramento, não se traduzindo aí o à-parte-de-si nem se encarnando, sendo ali o que é: esse vertiginoso retrincheiramento de si necessário para abrir o infinito do retrincheiramento até si mesmo — o corpo é essa partida de si, a si.

66. Exposto, portanto, mas não colocado à vista o que, primeiro, teria sido escondido: aqui a exposição é o próprio ser (isso se diz o ex-istir), ou melhor ainda, se o ser, enquanto sujeito, tem por essência a autoposição, aqui a autoposição é ela mesma, enquanto tal, por essência e por estrutura, a exposição: auto = ex = corpo — o corpo é o ser-exposto do ser.

67. A exposição está longe de ter lugar apenas como a extensão de uma superfície, expondo essa mesma extensão outras, por exemplo o modo do partes extra partes que é o singular desmontagem dos “cinco sentidos”, só sendo um corpo corpo sensível nesse afastamento, essa partilha dos sentidos que não é nem o fenômeno nem o resíduo de uma “auto-estesia” profunda, mas que faz ao contrário toda a propriedade do corpo estético.

68. Umas sobre as outras, dentro umas das outras, a partir umas das outras se expõem assim todas as estéticas de que o corpo é reunião discreta, múltipla, proliferante — seus membros (falos e céfalos), suas partes (células, membranas, tecidos, excrescências, parasitas), seus tegumentos, seus suores, seus traços, todas as suas cores locais, não terminando o racismo enquanto se lhe opuser uma fraternidade genérica dos homens em vez de lhe devolver, afirmada, confirmada, a deslocação de nossas raças e de nossos traços.

  • “Negros, amarelos, brancos, crespos, chatos, grossos, obtusos, peludos, gordurosos, puxados, achatados, roucos, franzinos, prognatas, adunco, enrugados, almiscarados…”

69. Por toda parte, de corpo em corpo, de lugar em lugar, dos lugares onde estão os corpos em zonas e pontos do corpo, o caprichoso desmontagem daquilo que faria a assunção de um corpo, propagando-se essa decomposição, que não se fecha sobre um si puro e não exposto (a morte), mas que propaga até na última podridão, insuportável como é, uma inverossímil liberdade material, que não deixa lugar a nenhum contínuo de tonalidades, sendo ao contrário a infração disseminada e renovada sem fim do agrupamento/desacoplamento inicial de células pelo qual vem a nascer “um corpo”.

70. Dessa infração, dessa partida dos corpos em todos os corpos, todos os corpos fazem parte, não sendo a liberdade material — a matéria como liberdade — a de um gesto ou de uma ação voluntária, mas também não deixando de ser a de duas nuances de mica, de milhões de conchas dessemelhantes, e da extensão indefinida de um principium individuationis (princípio de individuação) tal que os próprios indivíduos não cessam de se in-dividuar, sempre mais diferentes de si mesmos e, portanto, sempre mais semelhantes e substituíveis entre si, sem nunca se confundirem em substâncias, antes que a substância venha a ser exposta aqui: ao mundo.

  • “É preciso confessá-lo: toda a 'filosofia da natureza' está por refazer, se a 'natureza' deve ser pensada como a exposição dos corpos.”
  • “Isto é: a liberdade.”
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