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Intruso
NANCY, Jean-Luc. L’intrus. Nouvelle édition augmentée ed. Paris: Galilée, 2000.
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O intruso se introduz à força, por surpresa ou astúcia, sem direito nem admissão prévia, sendo essa condição de invasão inseparável da própria estranheza do estrangeiro, de modo que reconhecer nele um direito de entrada plena equivaleria a dissolver, ao mesmo tempo, tanto sua condição de intruso quanto sua condição de estrangeiro.
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Uma vez instalado, o estrangeiro que permanece estrangeiro não cessa de chegar, e sua chegada continua a configurar uma intrusão sem familiaridade, um distúrbio permanente na intimidade que a simples naturalização nunca chega a apaziguar.
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Impõe-se pensar e praticar essa persistência da intrusão, pois o acolhimento do estrangeiro implica necessariamente experimentar sua invasão, ainda que a correção moral e o politicamente correto insistam em apagar essa estranheza no próprio limiar, traindo assim a verdade do que se pretende acolher.
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Anuncia-se o recebimento do coração de outrem por meio de um transplante, dez anos antes da escrita, ocasião em que o próprio coração, tornado inutilizável por razão nunca esclarecida, exige, para que a vida continue, a substituição por um coração alheio, e em que o sujeito que enuncia esse relato já se revela estranho a si mesmo.
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Observa-se, entre parênteses, que a possibilidade da cirurgia depende do cruzamento contingente entre uma história pessoal e uma história das técnicas médicas, de sorte que o mesmo destino individual, deslocado no tempo, teria resultado em morte anterior ou em sobrevivência por outros meios, tornando vão o debate entre quem vê no episódio uma aventura metafísica e quem nele vê apenas uma performance técnica.
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A partir do instante em que se comunica a necessidade do enxerto, todos os signos e referências pessoais vacilam sem que nenhuma reflexão ou identificação de ato consiga nomear o que se abre, produzindo uma sensação física de vazio no peito e uma espécie de apneia em que não se consegue distinguir o orgânico, o simbólico e o imaginário.
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Questiona-se em que medida o próprio coração, ao falhar, ainda poderia ser chamado de próprio ou mesmo de órgão, uma vez que sua existência anterior se dava apenas sob a forma de dados clínicos abstratos, como a fração de ejeção, e nunca como massa muscular sensível ou presente à consciência.
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O coração se torna estrangeiro por defecção, quase por rejeição, produzindo um mal-estar suave e um deslizamento doce que separa o sujeito de si mesmo, como se algo se destacasse do próprio corpo ou nele irrompesse a partir de um vazio antes inexistente.
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O coração se converte no próprio estrangeiro justamente por estar dentro, evidenciando que a estranheza precisa primeiro emergir do interior para depois parecer vir de fora, e o anúncio da necessidade de transplante abre um vazio equivalente no peito e na alma, diante do qual o pensamento se choca com um objeto nulo, sem nada a saber, compreender ou sentir.
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Um coração que bate apenas pela metade só é meio próprio, de modo que o sujeito já não estava inteiramente em si mesmo, e a enunciação do “eu sou” passa a depender da doença, entendida não como infecção mas como enferrujamento e bloqueio, sendo o coração doente aquele outro que precisa ser extirpado.
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A realização do transplante depende de um acordo entre múltiplas instâncias estranhas ao próprio sujeito, revelando a complexidade de uma decisão que jamais se reduz a uma vontade individual isolada.
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Exige-se que familiares, equipe médica e o próprio paciente, agora duplicado em seu julgamento sobre si mesmo, concordem que vale a pena prolongar aquela vida específica.
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Cabe aos médicos julgar a indicação do enxerto e apenas propô-lo, nunca impô-lo, mencionando um acompanhamento futuro rigoroso cujas consequências, incluindo um câncer provocado pelo próprio tratamento anos depois, não poderiam ser inteiramente garantidas de antemão.
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A inscrição em lista de espera envolve escolhas que excluem outros candidatos potenciais, como alguém incapaz de suportar o acompanhamento médico posterior, e depende ainda de compatibilidade sanguínea restrita ao grupo 0+.
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Permanece sem resposta a pergunta sobre quem decide e como, quando um mesmo órgão disponível poderia beneficiar mais de um receptor potencial, evidenciando que a demanda supera a oferta e que a sobrevivência se inscreve, desde o início, num processo tecido de estranhos e estranhezas.
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Interroga-se sobre o fundamento de justeza e justiça que sustentaria a decisão de prolongar aquela vida, uma vez que tal sobrevivência não decorre de necessidade pura, levantando questões sobre o sentido de sobreviver, sobre a legitimidade do próprio termo e sobre a inexistência, nas sociedades desenvolvidas contemporâneas, de um tempo justo para morrer, tal como sugerido pela observação médica de que aquele coração estava programado para durar até os cinquenta anos.
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Reconhece-se que tudo, nesse processo, provém de alhures e de fora, tal como o próprio coração e o próprio corpo vieram de outro lugar e constituem, eles mesmos, um alhures instalado no interior do sujeito.
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Recusa-se tratar com desprezo a quantidade de vida em nome exclusivo de sua qualidade, admitindo que mesmo expressões triviais sobre o valor de continuar vivo escondem mais segredos do que aparentam, e questiona-se por que a vida, que empurra para a vida, também conduziria à morte justamente naquele ponto do coração.
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Afirma-se que jamais se deve isolar a morte da vida, mantendo-as sempre entrelaçadas, cada uma fazendo intrusão no coração da outra.
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Reconhece-se ter ouvido e repetido inúmeras vezes, ao longo de oito anos, a frase segundo a qual, sem o tratamento, já não se estaria mais presente, o que suscita a dificuldade de pensar a quase-necessidade ou o caráter desejável de uma presença cuja ausência poderia simplesmente ter configurado de outro modo o mundo de algumas pessoas, questão antiga que a técnica contemporânea exacerba a um grau para o qual a humanidade permanece despreparada.
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Situa-se, desde Descartes, a vontade moderna de sobrevivência e imortalidade dentro de um programa geral de domínio e posse da natureza, que reaviva a estranheza absoluta entre mortalidade e imortalidade, transformando o que antes pertencia às religiões numa potência técnica que, ao adiar o fim, acaba por expor sua ausência de sentido.
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Constata-se que a humanidade jamais esteve preparada para essa questão, e que seu despreparo diante da morte constitui, ele mesmo, o golpe e a injustiça da morte.
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Identifica-se o intruso múltiplo que faz intrusão na vida do sujeito com a própria morte, ou antes com a vida-morte, entendida como suspensão do contínuo de ser diante da qual tanto a revolta quanto a aceitação permanecem igualmente estranhas.
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Descreve-se o próprio meio de sobrevivência como de estranheza completa, excedendo qualquer possibilidade de representação.
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Menciona-se a abertura de todo o tórax, a manutenção artificial do enxerto, a circulação extracorpórea do sangue e a sutura dos vasos como elementos que impõem a imagem de uma passagem pelo nada ou, inversamente, da intrusão em si mesmo de todo um espaço de tubos, pinças, suturas e sondas.
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Questiona-se em que consistiria essa vida própria que se busca salvar, constatando que tal propriedade não reside em nenhum órgão específico do corpo.
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Observa-se, entre parênteses, que a ideia de transplante cerebral permanece hipotética, já que o cérebro atualmente não sobrevive sem o restante do corpo, embora pudesse eventualmente subsistir apoiado num sistema inteiro de corpos estranhos enxertados.
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Conclui-se que a vida própria não habita nenhum órgão isolado e que, sem eles, nada seria, encontrando-se sob tripla dominação estrangeira exercida pela decisão médica, pelo órgão transplantado e pelas consequências do próprio enxerto.
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Descreve-se o enxerto inicialmente como uma restitutio ad integrum, restauração de um coração pulsante, ainda que a simbologia duvidosa de intimidade fantasmática entre doador e receptor se dissolva rapidamente.
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Observa-se o desaparecimento progressivo, na consciência dos transplantados, dessa simbologia antes difundida para incentivar a doação de órgãos.
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Reconhece-se no discurso de solidariedade e fraternidade entre doadores e receptores uma obrigação elementar da humanidade, que institui uma rede sem limites sexuais ou étnicos, restrita apenas pela compatibilidade sanguínea, na qual a vida-morte se compartilha e o incomunicável passa a comunicar.
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Manifesta-se rapidamente o outro como estrangeiro não em termos de sexo, raça ou origem, mas como o outro imunitário, insubstituível ainda que substituído, fenômeno denominado rejeição, que não consiste literalmente em vomitar o coração, mas expressa o que há de intolerável na intrusão do intruso, podendo ser mortal se não tratado.
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Instala-se, com a possibilidade da rejeição, uma dupla estranheza: a do coração enxertado, identificado e atacado pelo organismo como estrangeiro, e a do estado induzido pela medicina, que rebaixa a imunidade para tolerar o intruso, tornando o próprio sujeito estranho à sua identidade imunitária.
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Reconhece-se a presença do intruso no interior de si mesmo e a consequente estranheza do sujeito a si próprio, tratada, em casos de rejeição forte, com imunoglobulina anti-humana extraída de coelho, cujos efeitos convulsivos são lembrados, evidenciando uma lei geral segundo a qual a intrusão nunca ocorre isoladamente, multiplicando-se e diferenciando-se internamente.
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Relata-se o reaparecimento, em diversas ocasiões, do vírus da zona e do citomegalovírus, estrangeiros adormecidos desde sempre no organismo e reativados pela imunodepressão necessária ao tratamento.
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Constata-se que identidade equivale a imunidade, de modo que rebaixar uma implica rebaixar a outra, tornando a estranheza cotidiana e comum, exigindo medições, controles e testes constantes.
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Recomenda-se cautela diante de multidões, lojas, piscinas, crianças pequenas e doentes, ainda que os inimigos mais ativos permaneçam internos, nos vírus antigos abrigados desde sempre na sombra da imunidade.
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Reconhece-se a inexistência de prevenção possível contra esses vírus internos, restando apenas tratamentos que provocam novas estranhezas, como fadiga, danos estomacais ou a dor aguda da zona.
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Exclama-se sobre a estranheza radical desse próprio eu.
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Compreende-se que não se trata de ter sido aberto para trocar de coração, mas de uma abertura que jamais se fecha completamente, evidenciada em cada radiografia pelos fios de arame que recosturam o esterno, de modo que o sujeito permanece aberto-fechado, atravessado por um fluxo incessante de estranheza.
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Enumeram-se os medicamentos imunodepressores, os remédios destinados a combater efeitos secundários, os efeitos ainda sem tratamento eficaz, como a degradação renal, e os controles renovados que reorganizam toda a existência.
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Descreve-se a vida como escaneada e registrada em múltiplos planos, cada um inscrevendo novas possibilidades de morte.
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Conclui-se que o próprio sujeito se torna seu próprio intruso, por todas essas formas acumuladas e contraditórias.
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Reconhece-se que jamais a estranheza da própria identidade, sempre viva, atingiu tal acuidade, de modo que o “eu” se converte no índice formal de um encadeamento inverificável e impalpável, havendo agora, entre si e si mesmo, além do espaço-tempo habitual, a abertura de uma incisão e o irreconciliável de uma imunidade perturbada.
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Relata-se o surgimento de um câncer, um linfoma decorrente do rebaixamento imunitário, figura mastigada, ganchosa e devastadora do intruso, cujo tratamento exige nova intrusão violenta por meio de quimioterapia e radioterapia.
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Descreve-se a dor como a relação entre uma intrusão e sua recusa, agravada pelo próprio linfoma que corrói e esgota o corpo enquanto os tratamentos o atacam.
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Observa-se que até a morfina, destinada a acalmar as dores, provoca outra forma de sofrimento, de embrutecimento e desorientação.
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Detalha-se o tratamento mais elaborado, denominado autoenxerto ou transplante de células-tronco, como procedimento de extrema complexidade e estranheza corporal.
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Descreve-se a coleta de glóbulos brancos ao longo de cinco dias, mediante circulação extracorpórea completa do sangue, seguida de congelamento.
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Relata-se o confinamento em câmara estéril por três semanas, durante o qual uma quimioterapia intensa zera a produção da medula óssea antes de sua reativação por reinjeção das células-tronco congeladas, acompanhada de um odor peculiar de alho.
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Menciona-se o extremo rebaixamento imunitário resultante, causador de febres altas, micoses e distúrbios diversos, antes da retomada da produção linfocitária.
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Descreve-se o estado de desorientação posterior à experiência, em que o próprio reconhecimento de si perde sentido, reduzindo o sujeito a uma flutuação e suspensão de estranheza entre estados mal identificados, dores e impotências.
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Constata-se que a identidade vazia de um “eu” não pode mais repousar em simples autoadequação ao se enunciar, de modo que a frase “eu sofro” implica dois “eus” mutuamente estranhos que se tocam, assim como “eu gozo” implica outra relação entre dois “eus”, uma marcada pela rejeição, outra pelo excesso.
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Descreve-se a redução progressiva a um fio tênue de dor e estranheza sucessivas, instaurando um regime permanente e contínuo de intrusão que atravessa toda a existência.
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Somam-se às tomadas quase diárias de medicamentos e aos controles hospitalares as sequelas dentárias da radioterapia, a perda de saliva, o controle da alimentação e dos contatos contagiosos, o enfraquecimento muscular e renal, a diminuição da memória e da força de trabalho.
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Incluem-se o retorno insidioso da mucosite, da candidíase e da polineurite, além da leitura constante de exames, produzindo a sensação geral de indissociabilidade em relação a uma rede permanente de medidas, observações e conexões químicas, institucionais e simbólicas que jamais se deixam esquecer.
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Aproxima-se essa condição da vida tradicionalmente atribuída a doentes e idosos, sem coincidir exatamente com nenhuma delas, uma vez que aquilo que cura também afeta ou infecta, e aquilo que mantém vivo também envelhece prematuramente, de modo que o coração se torna vinte anos mais jovem enquanto o restante do corpo se torna mais de uma década mais velho, resultando na perda de idade própria, de profissão própria e de qualquer papel social exercido sem a condição geral da intrusão.
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Descreve-se o movimento simultâneo pelo qual o “eu” mais absolutamente próprio se afasta a uma distância infinita e, ao mesmo tempo, se aprofunda numa intimidade mais profunda que qualquer interioridade, articulando corpus meum et interior intimo meo como expressão exata, numa configuração completa da morte de deus, da verdade do sujeito enquanto exterioridade e excessividade.
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Afirma-se que o intruso expõe excessivamente, extrói, exporta e expropria o sujeito.
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Enumera-se a identificação simultânea com a doença e a medicina, com a célula cancerosa e o órgão enxertado, com os agentes imunodepressores e seus paliativos, com os fios de arame que sustentam o esterno, com o local de injeção sob a clavícula e com os parafusos e a placa metálica implantados anteriormente no quadril e na virilha, comparando-se essa condição à de um andróide de ficção científica ou a um morto-vivo, expressão empregada pelo filho mais novo.
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Situa-se essa experiência, compartilhada com número crescente de semelhantes, como início de uma mutação pela qual o homem recomeça a ultrapassar infinitamente o próprio homem, sentido último da morte de deus, tornando-se o técnico mais aterrorizante e perturbador já designado por Sófocles vinte e cinco séculos antes, aquele que desnatura e refaz a natureza, capaz tanto da origem quanto do fim.
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Conclui-se que o intruso não é outro senão o próprio sujeito e o homem mesmo, o mesmo que não cessa de se alterar, ao mesmo tempo aguçado e esgotado, desnudado e superequipado, intruso no mundo tanto quanto em si mesmo, impulso inquietante do estranho, conatus infinitamente excrescente.
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