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JUÍZO (1945/2006:40-44)
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 60-63
Intelectualismo, juízo e a perda do fenômeno perceptivo
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Projeto intelectualista e crítica ao empirismo
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O intelectualismo pretende descobrir a estrutura da percepção por reflexão.
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Rejeita a explicação associacionista baseada em forças e atenção.
Contudo, seu acesso à percepção permanece indireto.-
Ele não alcança as operações efetivas da consciência.
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Função do juízo na análise intelectualista
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O juízo é introduzido como aquilo que falta à sensação para haver percepção.
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A sensação deixa de ser tomada como elemento real da consciência.
Apesar disso, a estrutura da percepção é reconstruída a partir do esquema sensorial.-
A análise permanece dominada por um resíduo empirista.
A sensação é admitida apenas como limite da consciência.-
Serve para manifestar uma potência de ligação que lhe é oposta.
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Juízo como refutação do empirismo
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O intelectualismo vive da refutação do empirismo.
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O juízo anula a dispersão possível das sensações.
A análise reflexiva leva as teses empiristas ao absurdo.-
Demonstra sua insuficiência por redução.
Porém, essa redução não garante contato com a experiência efetiva.-
O risco permanece de trocar uma intuição cega por um conceito vazio.
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Esvaziamento da função do juízo
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O juízo torna-se uma função geral de ligação.
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Indiferente aos objetos.
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Reduzido a força psíquica ou operação lógica.
Ele deixa de ser atividade constituinte.-
Passa a ser fator explicativo entre outros.
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Exemplo da cera e perda da estrutura perceptiva
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A análise clássica elimina as qualidades sensíveis da cera.
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Odor, cor, sabor desaparecem.
Resta apenas a potência abstrata de variações geométricas.-
Definição científica do objeto.
A cera percebida é perdida.-
Sua permanência perceptiva.
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Seu horizonte interior de variação.
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Suas antecipações sensíveis implícitas.
A estrutura perceptiva do objeto é ignorada.-
Em favor de determinações predicativas fechadas.
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Percepção como juízo interpretativo
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O que não se fixa na retina é declarado não visto.
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É apenas julgado como presente.
A percepção é redefinida como interpretação de signos sensoriais.-
Hipótese explicativa do espírito.
A visão torna-se construção intelectual.-
O excesso perceptivo vira prova de juízo.
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Regressão do juízo a função lógica
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O juízo explica o que o corpo não fornece.
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Não constitui o fenômeno.
Ele não é mais atividade transcendental.-
Torna-se inferência lógica.
A reflexão abandona o fenômeno.-
Constrói a percepção em vez de revelá-la.
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Perda da operação primordial
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Escapa a operação que dá sentido ao sensível.
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Aquela que precede mediações lógicas.
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Aquela que precede causalidades psicológicas.
A análise intelectualista torna incompreensíveis os fenômenos.-
Justamente os que deveria esclarecer.
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Dissolução da distinção entre sentir e julgar
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O juízo invade todo o campo perceptivo.
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Onde não há sensação pura, há juízo.
Termos como ver, ouvir, sentir perdem sentido próprio.A experiência comum distingue claramente:-
Sentir: acolher a aparência.
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Julgar: tomar posição válida universalmente.
O intelectualismo apaga essa distinção.-
Recusa sistemática do testemunho fenomenal
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Fenômenos são reinterpretados contra sua evidência.
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Peso aparente é julgado, não sentido.
Onde não há estímulo físico, não há sentir.-
Tudo se reduz a juízo.
A ilusão sensível é negada como sensível.-
Caso das figuras ambíguas
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O saber não força a mudança perceptiva.
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A realização intuitiva é necessária.
Isso mostra que julgar não é perceber.Contudo, o intelectualismo conclui o oposto.-
A concepção comandaria a percepção.
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Consequências paradoxais
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Se ver é julgar:
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Como distinguir percepção verdadeira e falsa?
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Como diferenciar ver de crer que se vê?
A distinção reaparece implicitamente.-
Juízo motivado versus juízo vazio.
A diferença reside no sensível.-
Não na forma do juízo.
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Conclusão fenomenológica
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Perceber não é julgar.
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É apreender um sentido imanente ao sensível.
O juízo é expressão facultativa.-
Não fundamento da percepção.
O intelectualismo falha:-
Em compreender a percepção verdadeira.
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Em compreender a ilusão que a imita.
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