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estudos:merleau-ponty:ideia-vi
IDEIA (2003:146-150)
MERLEAU-PONTY, Maurice. O visível e o invisível. José Artur Gianotti. São Paulo: Perspectiva, 1992.
O ENTRELAÇAMENTO - O QUIASMA
As ideias musicais ou sensíveis, exatamente porque são negatividade ou ausência circunscrita, não são possuídas por nós, possuem-nos. Já não é o executante que produz ou reproduz a sonata; ele se sente e os outros sentem-se a serviço da sonata, é ela que através dele canta ou grita tão bruscamente que ele precisa “precipitar-se sobre seu arco” para poder segui-la.
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A experiência inaugural como abertura de uma dimensão irreversível
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O primeiro contato sensível não consiste na simples apreensão de um conteúdo determinado.
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Ele inaugura uma dimensão que permanece aberta e irredutível a fechamento posterior.
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Essa abertura institui um nível que passa a funcionar como referência para todas as experiências subsequentes.
A ideia é identificada com esse nível inaugurado.-
Não se trata de um invisível factual, oculto atrás do visível.
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Trata-se do invisível próprio deste mundo, que o habita, o sustenta e torna possível sua visibilidade.
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Esse invisível é a possibilidade interior do ente, o seu Ser.
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Consistência da experiência sensível e primazia sobre o pensamento positivo
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A experiência sensível plena não contém lacunas subjetivas.
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O vivido é consistente e explícito, comparável ou superior a um pensamento positivo.
O pensamento positivo é limitado por sua fixidez.-
Ele é apenas o que é e, por isso, não possui poder de retenção.
As ideias sensíveis e musicais, por serem negatividade ou ausência circunscrita, não são possuídas pelo sujeito.-
Elas possuem o sujeito.
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O executante não produz a obra, mas se coloca a seu serviço.
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A obra se manifesta através dele, impondo-lhe um ritmo e uma exigência próprios.
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Unidade dinâmica das ideias sensíveis
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As ideias sensíveis organizam-se em turbilhões que se soldam numa unidade.
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Essa unidade não é conceitual, mas estrutural.
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Há uma coesão sem conceito entre os momentos da experiência.
Essa coesão é comparável àquela que une as partes do corpo ou o corpo ao mundo.-
Trata-se de uma aderência pré-reflexiva e operante.
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Idealidade rigorosa das experiências da carne
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As experiências da carne comportam uma idealidade própria.
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Essa idealidade não é estranha ao sensível.
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Ela confere profundidade, eixos e dimensões à experiência.
O corpo não é nem coisa nem ideia.-
Ele é o mensurador de todas as coisas.
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Ele institui a medida e o campo de aparecimento do sentido.
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Reversibilidade entre visível e invisível
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O visível empírico contém uma reserva invisível que o sustenta.
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O invisível não é sombra nem acréscimo conceitual.
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Ele é princípio de visibilidade.
O visível se dobra sobre si mesmo.-
Esse dobramento manifesta uma visibilidade potencial.
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O visível atual é apenas uma compartimentação provisória.
O invisível funciona como horizonte interior e exterior.-
Ele abre indefinidamente para outros visíveis.
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Superação do dualismo entre extensão e pensamento
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A oposição imediata entre visível e invisível é rejeitada.
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Não porque um se reduza ao outro.
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Mas porque se relacionam como avesso e direito.
A dificuldade persiste quanto à gênese da idealidade pura.-
Como se passa da idealidade de horizonte à idealidade cultural?
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Como emerge a generalidade criada do conhecimento?
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Inserção da idealidade cultural na carne do mundo
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A idealidade cultural brota das articulações do corpo estesiológico.
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Ela emerge nos contornos das coisas sensíveis.
Embora nova, ela percorre vias já abertas.-
Serve-se de noções sem equivalente, adivinhadas no mundo visível.
A idealidade pura não existe sem carne.-
Ela depende de estruturas de horizonte.
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Vive de outra carne e de outros horizontes.
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Metamorfose da visibilidade na linguagem
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A visibilidade do mundo sensível emigra para outro corpo.
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Um corpo mais leve, mais transparente.
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A carne da linguagem.
A linguagem sustenta o sentido por seus próprios arranjos.-
Ela captura o sentido em suas malhas.
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Isso ocorre quando a linguagem é operante, criadora.
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Relação entre linguagem operante e sistemas objetivos
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A notação musical e a gramática são produtos secundários.
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São fac-símiles abstratos da experiência operante.
As ideias adquiridas são tomadas numa vida segunda.-
Elas permitem o acesso a entidades ainda não vistas.
As ideias são o outro lado da linguagem e do cálculo.-
Pensamento como possessão da palavra pela ideia
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As ideias animam a palavra interior.
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Possuem-na como a frase musical possui o músico.
Elas excedem as palavras.-
Não por transcendência oculta.
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Mas por serem diferenciação incessante entre signos.
A carne é definida como deiscência.-
Do vidente no visível.
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Do visível no vidente.
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Reversibilidade entre fala e significação
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A significação reúne os meios da elocução.
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Contraindo-os num ato único.
Ela anexa a fala a si mesma.-
Torna-se objeto de ciência.
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Antecede-se retroativamente.
Todo locutor torna-se alocutório e delocutório.-
Institui-se numa Palavra universal.
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Passagem do mundo mudo ao mundo falante
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Não há destruição nem conservação do silêncio.
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Há metamorfose.
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A visão cai na fala.
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A fala reconfigura o visível.
A fala torna-se olhar do espírito.-
Intuitus mentis.
O fenômeno fundamental é a reversibilidade.-
Sustenta percepção e linguagem.
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Manifesta-se na existência carnal da ideia.
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Linguagem como reversibilidade última
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As possibilidades da linguagem já estão inscritas no corpo.
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Na visibilidade.
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Na sonoridade.
Compreender uma frase é acolhê-la em seu ser sonoro.-
O sentido não é camada adicional.
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É a totalidade diferenciada da cadeia verbal.
A paisagem é uma variedade da fala.-
O mundo é expressivo.
Filosofia e linguagem são dois aspectos da mesma reversibilidade.-
Potência de significar.
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Voz das coisas.
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