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estudos:merleau-ponty:1945:1

1 Corpo

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

1. A percepção termina em objetos, e o objeto, uma vez constituído, aparece como razão de todas as experiências possíveis dele. Assim, a casa em si seria, segundo Leibniz, o geometral (géométral) de todas as perspectivas, a casa vista de lugar nenhum. Mas ver é sempre ver de algum lugar, e o “olhar” é um acesso ao objeto tão indubitável quanto o próprio pensamento; cabe compreender como a visão pode fazer-se de algum lugar sem ficar encerrada em sua perspectiva.

2. Ver um objeto é fixá-lo, fechando a paisagem e abrindo o objeto num mesmo movimento, porque os objetos formam um sistema em que um só se mostra ocultando outros. O horizonte assegura a identidade do objeto durante a exploração, e cada objeto se torna espelho de todos os outros. A casa, portanto, não é vista de lugar nenhum, mas de toda parte, e o objeto acabado é translúcido, penetrado por uma infinidade atual de olhares.

  • Não são as contingências da organização corporal que obrigam a ver o entorno desfocado: olhar o objeto é mergulhar nele, e seu horizonte interior só se torna objeto quando os objetos circundantes se tornam horizonte.
  • No cinema, o primeiro plano não permite identificar efetivamente o objeto, porque a tela não tem horizontes; na visão, os objetos marginais adormecem sem deixar de estar ali, e nenhuma lembrança expressa ou conjectura daria mais que uma síntese provável.
  • A estrutura objeto-horizonte, isto é, a perspectiva, é tanto o meio pelo qual os objetos se dissimulam quanto o meio pelo qual se desvelam: as costas da lâmpada são apenas a face que ela “mostra” à lareira.

3. A perspectiva temporal tem a mesma estrutura de horizonte: o objeto é visto de todos os tempos como é visto de toda parte. Pelo duplo horizonte de retenção e protensão, o presente retoma o passado imediato e antecipa o futuro iminente, deixando de ser um presente de fato arrastado pela duração para tornar-se um ponto fixo e identificável num tempo objetivo.

  • A casa contemplada sem pensamento tem um ar de eternidade: mesmo que desabe amanhã, permanecerá verdadeiro para sempre que ela existiu hoje, e cada momento toma todos os outros por testemunhas.

4. O olhar humano só põe uma face do objeto e só se confronta com as visões passadas ou alheias por meio do tempo e da linguagem, de modo que a síntese dos horizontes é apenas presuntiva e deixa o objeto inacabado e aberto. Posto como objeto absoluto, porém, ele exige uma infinidade de perspectivas contraídas numa coexistência rigorosa. Essa exigência leva a experiência a ultrapassar seus próprios limites num ser estranho, e é esse êxtase da experiência que faz de toda percepção percepção de algo.

  • O presente só possui o passado e o futuro em intenção: o passado que se crê recuperar é o passado tal como é visto agora, talvez alterado, e o entorno distante é um horizonte anônimo que não oferece testemunho preciso.
  • Atribui-se à casa canos, piso e fissuras que nunca se veem, e apoia-se a memória numa imensa Memória do mundo onde a casa figuraria tal como realmente era.

5. Obcecada pelo ser e esquecida do perspectivismo da experiência, a consciência trata o corpo, seu ponto de vista sobre o mundo, como um objeto entre outros, e o presente, seu ponto de vista sobre o tempo, como um momento do tempo universal. Passa assim do mundo, multiplicidade aberta de implicações recíprocas, ao universo, totalidade explícita de determinações recíprocas. Forma-se o pensamento “objetivo”, no sentido de Kierkegaard, que perde contato com a experiência perceptiva da qual é resultado: toda a vida da consciência tende a pôr objetos, mas a posição absoluta de um único objeto é a morte da consciência.

  • Os olhos passam a ser fragmentos de matéria situados no espaço objetivo, e a perspectiva percebida é atribuída à projeção dos objetos na retina.
  • A posição plena de um só objeto exige a composição de todas as experiências num único ato politético (acte polythétique), que excede a síntese de horizontes e conduz à ideia, válida para todos os tempos e lugares.
  • Essa posição fixa toda a experiência como um cristal introduzido numa solução a faz cristalizar de uma vez.

6. Para escapar à alternativa de nada compreender do sujeito ou nada compreender do objeto, é preciso reencontrar a origem do objeto no coração da experiência e compreender como há, paradoxalmente, um em si para nós. O pensamento objetivo será tomado ao pé da letra na constituição do corpo como objeto, momento decisivo da gênese do mundo objetivo. O corpo próprio se furta, na própria ciência, a esse tratamento e, ao retirar-se do mundo objetivo, arrasta consigo os fios intencionais que o ligam ao entorno, revelando tanto o sujeito que percebe quanto o mundo percebido.

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