Floresta metafísica
(MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001:53-55)
1. Não se está desprovido de fio condutor diante do extravio no seio da floresta metafísica, pois a orientação de Heidegger jamais variou desde o parágrafo 7 de Sein und Zeit, onde já se opunha nitidamente a “questão diretriz do sentido do ser” (Leitfrage), que comanda toda a démarche metafísica, à “questão fundamental da filosofia em geral” (Grundfrage), que conduzirá à superação da metafísica, permanecendo essa orientação constante a despeito da “viravolta” (Kehre) e da distinção que os intérpretes endureceram entre Heidegger I e Heidegger II, conforme já advertira o próprio autor na Carta a Richardson: só a partir do que é pensado em I se torna acessível o que é pensado em II, mas o I só se torna possível se contido em II.
2. Heidegger voltou por três vezes à direção metafísica de seu caminho de pensamento em raros textos autobiográficos, sendo a primeira indicação, breve, a Homenagem a Hermann Niemeyer de 1963, na qual relata que, desde o semestre de inverno de 1909-1910, ao iniciar teologia em Friburgo, estudou também filosofia através das Investigações Lógicas de Husserl, mas já fora despertado à filosofia, antes mesmo da universidade, pela dissertação de juventude de Franz Brentano sobre A Diversidade das Acepções do Ser segundo Aristóteles (1862), seu “único apoio” desde o liceu de Friburgo em 1907, precisando a questão que o pôs em caminho: se o ente se diz em significação múltipla, qual é então a significação diretriz e fundamental?
3. Um ano antes, em abril de 1962, a Carta a Richardson mostrava-se mais explícita quanto à obra que abrira essa interrogação, reconhecendo a dissertação sobre Aristóteles como o “primeiro escrito filosófico” sobre o qual jamais deixara de trabalhar a fundo, citando a fórmula de Aristóteles posta em epígrafe por Brentano — τὸ ὄν λέγεται πολλαχῶς — e nela abrigando a questão que decidiu o caminho de seu pensamento: qual é a determinação simples e unitária do ser que rege todas essas múltiplas significações?
4. Heidegger vai além de Brentano e do próprio Aristóteles ao mostrar que essa questão inicial desperta duas outras questões estreitamente imbricadas, jamais problematizadas por nenhum dos dois: a questão fundamental — que quer dizer ser? —, à qual se submete toda a metafísica, e a questão diretriz da metafísica, subordinada à primeira, que se revela mais estranha em razão da dupla cisão que a atravessa: em que medida, por quê e como, o ser do ente se desdobra segundo os quatro modos que Aristóteles sempre constatou, deixando indeterminada sua proveniência comum?
5. Essa questão da quadratura do ente já não se refere apenas a Aristóteles, mas a toda a tradição metafísica sob a égide de um ente de significação quádrupla, cuja unidade se revela desde logo misteriosa, ao nomear os quatro modos — o ser como propriamente ser, o ser como possibilidade e atualidade, o ser como verdade, o ser como figura das categorias — cuja incompatibilidade aparente suscita a pergunta por que sentido de ser fala nessas quatro acepções e como podem entrar numa harmonia compreensível, questão que Heidegger novamente elude, voltando apenas à questão primeira do ser enquanto ser, sem examinar a necessidade desse quádruplo sentido do ente enquanto ente.
6. Antes de abordar essas quatro modalidades do ente reveladas pela leitura brentaniana de Aristóteles, recorda-se a terceira confidência do pensador, esboçada discretamente em O Caminho de Campo (Der Feldweg) de 1948, alusão à leitura, no banco de madeira, dos escritos dos grandes pensadores cujos enigmas se apertavam sem saída, resolvida pelo caminho de campo, permitindo supor que o escrito era a dissertação de Brentano ou a Metafísica de Aristóteles, e que os enigmas eram as quatro énigmas do ente que nenhum laço aparente reunia, mas que o caminho de campo, em trajeto circular, resolveria numa “harmonia compreensível”.
7. A quádrupla marca do ser determina todo o campo metafísico, o que não significa apenas que a metafísica é de origem aristotélica, mas que está submetida a um quadriculado secreto que se impôs a Aristóteles sem que este compreendesse sua necessidade nem sua proveniência, instaurando-se esse quadriculado com a obra sem nome de Aristóteles que a tradição, desde Andrônico de Rodes, chamará Metafísica — não a tentativa platônica de ultrapassar o sensível rumo ao inteligível, mas a instalação invisível do ente em sua quádrupla dimensão, resultando na identidade entre a Metafísica de Aristóteles e as quatro modalidades una do ente expressas nos livros Γ, 2 e E, 2.
8. Tal é a interpretação que se impõe da leitura heideggeriana do livro de Brentano, cuja obra, tendo por epígrafe a fórmula do Estagirita que abre o livro Ζ — τὸ ὄν λέγεται πολλαχῶς —, centra toda a análise na discussão da significação plural do ente, “limiar da metafísica aristotélica”, operando Brentano em dois tempos.
9. Em primeiro momento, Brentano mostra que a pluralidade de acepções do ente se subordina à “quádrupla distinção” entre o ser por acidente, o ser como verdadeiro, o ser das categorias e o ser como potência e ato, reduzindo a enumeração complexa e rapsódica do livro Γ, 2 a quatro modalidades distintas.
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um ente ao qual não pode ser atribuída nenhuma existência fora do entendimento
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o ser do movimento, bem como da geração e da corrupção
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um ente que possui existência acabada, mas não autônoma
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o ser das substâncias
10. Em segundo momento, Brentano abandona essa primeira distribuição quadripartite para propor a mais conhecida, situada no início do capítulo 2 do livro Ε — o ser por acidente, o ser como verdadeiro, as figuras da categoria e o ser em potência e em ato —, reconhecendo, embora Aristóteles nunca mencione o número quatro, que essa partição não coincide exatamente com a do livro Γ, 2, havendo dificuldade de correspondência termo a termo entre os dois classamentos, sobretudo quanto ao “ser como verdadeiro”.
11. Não há em Brentano classificação sistemática ou equilibrada, pois o ser por acidente e o ser como verdadeiro ocupam capítulos breves, o ser como potência e ato um capítulo intermediário, e o ser como figura das categorias domina esmagadoramente o conjunto, de modo que a aparente duplicidade do πολλαχῶς parece dissimular a ordem decupla das categorias, cuja lista tampouco é sistemática.
12. A leitura heideggeriana, original por não se inspirar no primeiro classamento de Brentano (Γ, 2) e referir-se sistematicamente à partição canônica (E, 2), introduz três inovações essenciais em relação a Brentano e ao próprio Aristóteles.
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retém a segunda partição do livro E, 2, mas lhe acrescenta uma nova partição quádrupla, curiosamente ausente em Brentano, embora reine sobre todo o livro A da Metafísica: o classamento das quatro causas
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estabelece implicitamente que ambas as partições — os quatro modos do ente e as quatro espécies da causa — se articulam a partir de uma origem única, fundando-se na intuição aristotélica de que as múltiplas acepções do ente remetem a um único foco (πρὸς ἓν), a “uma mesma natureza” e “um mesmo princípio”, aprofundando, diferentemente de Brentano, a unidade quadripartite do ente que se impõe a toda a metafísica sem jamais ser questionada, a não ser por Aristóteles e seu eco tardio em Brentano
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após quadricular pacientemente o terreno da metafísica, tenta o “salto” (Sprung) para fora dela, abandonando a quadratura regrada do ente em direção à questão fundamental do ser, que revelará uma partição mais originária já não ligada ao ente, mas ao ser — o que se nomeará o esquartejamento do ser, ao qual responderá a quadratura do ente
13. Pensar, nesse outro começo, não é entregar-se ao que Adorno denunciará como “a quimera da origem”, mas manter-se à escuta e à distância do ser, mantendo-o em retraimento diante dessa quadratura metafísica do ente na qual se inscreveu, desde Aristóteles, a causa da razão.
