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Fenomenologia do Materialismo Histórico

“Contributions to a Phenomenology of Historical Materialism”, in MARCUSE, Herbert; WOLIN, Richard; ABROMEIT, John. Heideggerian Marxism. Lincoln: UNP - Nebraska, 2005.

1. Introdução

  • O marxismo não se apresenta como teoria científica pura, mas como teoria da ação social e do ato histórico, constituindo ao mesmo tempo teoria da revolução proletária e crítica revolucionária da sociedade burguesa.
    • A ciência, no interior do marxismo, existe apenas na medida em que a ação revolucionária requer compreensão de sua própria necessidade histórica.
    • O marxismo vive na unidade inseparável de teoria e práxis, de ciência e ação, e toda investigação marxiana deve manter essa unidade como componente central e dominante.
    • As verdades do marxismo não são verdades do conhecer, mas verdades do acontecer – Erkennens vs. Geschehen.
  • A questão crítica que se pode colocar ao marxismo é se o quadro de conceitos teóricos do qual ele deriva a verdade emerge de uma apreensão plena dos fenômenos da historicidade.
  • O materialismo histórico refere-se, dentro do marxismo, ao domínio inteiro do conhecimento relacionado à historicidade – ao ser, à estrutura e à motilidade do acontecer.
  • Uma fenomenologia do materialismo histórico parte da abertura da situação fundamental do marxismo, através da qual uma nova e revolucionária atitude fundamental obtém uma nova visão do conjunto do ser social ao tomar conhecimento da historicidade.
    • A descoberta da historicidade como determinação fundamental do Dasein humano abre, por meio de uma nova compreensão da realidade, a possibilidade de uma ação radicalmente transformadora.
    • A análise fundacional de Heidegger em Ser e Tempo (1927) é utilizada como base para uma interpretação fenomenológica da historicidade.
    • A historicidade do Dasein exige que a fenomenologia se reoriente segundo os rumos do método dialético – método que se mostra adequado a todos os objetos históricos.

2. A Situação Fundamental do Marxismo

  • A situação fundamental de um ser humano é aquela em que ele tem visão clara e pode determinar sua relação singular com o entorno e a tarefa que emerge dessa relação.
    • As determinações são intencionadas fenomenologicamente, não psicologicamente – não se trata de explicar a obra de Marx por seus motivos pessoais, mas de tomar suas investigações como material histórico pelo qual se efetua a determinação da situação fundamental.
  • A situação fundamental marxiana pode ser “corretamente” interpretada quando sua posição histórica e o significado dessa posição são verificados, o que é possível porque o Dasein humano é um modo histórico de ser.
    • O objeto do conhecimento não “se opõe” ao cognoscente como algo estranho – ao contrário, “vive com ele” e possui o mesmo modo de ser, pois seres humanos são ao mesmo tempo sujeitos e objetos da história.
  • Mesmo restringindo as fontes aos escritos de Marx e Engels como expressão histórica original do marxismo, a ideia de uma situação fundamental unificadora parece pressupor dogmaticamente a “unidade” – mas a divisão histórica do sujeito, para não ser meramente cronológica, deve relacionar as diferentes fases dos escritos à situação fundamental.
    • Diferenciar, na obra de Marx, períodos jovem-hegeliano, democrático-radical e comunista-científico pressupõe uma orientação de valor e de meta que emana de uma posição fundamental, sob pena de fragmentar abstratamente a totalidade histórica.
    • A exibição da situação fundamental não pretende fixar de uma vez por todas o sentido do marxismo, mas apenas demarcar o terreno no qual tal empreendimento deve prosseguir.
  • A situação fundamental marxista tem como preocupação central a possibilidade histórica do ato radical – ato que deve abrir caminho para uma realidade nova e necessária ao efetivar a pessoa inteira, tendo como porta-estandarte o ser humano autoconsciente de sua historicidade.
  • A questão da ação radical só pode ser posta com sentido no momento em que o ato é apreendido como realização decisiva da essência humana e, ao mesmo tempo, essa realização aparece como uma impossibilidade fática – ou seja, em uma situação revolucionária.
    • A visão marxiana corta até a existência da sociedade capitalista, alcançando por trás das formas econômicas e ideológicas a “realidade de uma existência desumana” e convocando a existência humana em sua realidade por meio da exigência do ato radical.
    • “Ser radical é apreender uma questão pela raiz. A raiz da humanidade é, porém, a própria humanidade.”
    • “A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que induzem a teoria ao misticismo encontram sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis.”
    • “A transformação das circunstâncias e a transformação da ação humana coincidem apenas quando essa transformação é enquadrada como práxis revolucionária e é entendida como racional.”
  • A ação radical é, por essência, necessária tanto para o ator quanto para o entorno em que é realizada, e essa necessidade é imanente ao ato radical – o executor deve cometê-lo agora porque o ato é dado junto com a própria existência do executor.
    • Todas as determinações do ato radical se unem em sua determinação fundacional como historicidade.
  • Com a descoberta da história como categoria fundamental da existência humana, Marx estabelece o conceito de existência histórica como a existência “autêntica”, “significativa” e “verdadeira”.
    • “Conhecemos apenas uma única ciência, a ciência da história.”
    • “Como pessoa determinada, como pessoa efetiva, você tem uma determinação, uma tarefa, quer seja consciente disso ou não.”
    • Existe a “existência não-histórica” do indivíduo isolado e das massas inconscientes, que podem mal-compreender sua situação histórica – mas nesse caso sua existência careceria da necessidade que sozinha pode fornecer a base para o ato radical.
  • O ato radical só possui necessidade imanente se for histórico, porque o Dasein humano se cumpre essencialmente na história e é determinado através dela – tanto o executor quanto o campo de ação e a meta do ato radical devem provir da história e afetar a existência histórica.
  • A exploração da questão em A Ideologia Alemã começa com a consciência do significado fundamental da historicidade, com método puramente fenomenológico.
    • “As pressuposições com que começamos não são arbitrárias nem dogmáticas – são antes as pressuposições reais das quais só se pode abstrair pela fantasia imaginativa. Essas pressuposições incluem os verdadeiros indivíduos, sua ação e suas condições materiais. […] Essas suposições são, portanto, verificáveis por meios puramente empíricos.”
  • A humanidade histórica não aparece como indivíduo isolado, mas como ser humano entre outros seres humanos em um entorno, como “dependente”, “como pertencente a um todo maior” – a sociedade se revela como o que é historicamente concreto.
    • “O primeiro ato histórico […] é a produção da própria vida material.”
    • “A produção de ideias, representações e consciência está inicialmente imediatamente ligada à atividade material e ao intercâmbio material do homem.”
    • “Os homens são os produtores de suas representações, ideias etc.; por 'homens' entende-se homens reais e atuantes, tal como são determinados por um desenvolvimento específico de suas forças produtivas e das formas de intercâmbio correspondentes.”
  • O Dasein humano, como algo que é histórico em seu ser, não precisa de impulso transcendente nem de meta predefinida, porque só pode ser como acontecer.
    • “Não é, por exemplo, a 'história' que precisa de pessoas como seu meio para abrir caminho até seus fins – como se a história fosse algum tipo de pessoa especial e distinta; ao contrário, a história nada mais é do que a atividade de seres humanos perseguindo seus próprios fins.”
  • O Dasein histórico é a “sucessão de […] gerações” – cada geração toma a anterior como fundamento, recebe seus “materiais” como herança (forças e relações de produção) e deve desenvolvê-los, modificá-los ou destruí-los segundo as circunstâncias transformadas.
  • Com a expansão da reprodução social e a divisão do trabalho, a classe surge como força unificadora que impulsiona a história, e o desenvolvimento das forças de produção converte a divisão nacional do trabalho em internacional, tornando visível o caráter universal da classe além de todas as particularidades nacionais.
    • A “dependência abrangente” do indivíduo em sua reprodução transforma sua existência histórica em uma existência histórico-mundial: a “transformação da história em história mundial” está completa.
  • A classe universal – o proletariado – é o portador concreto do ato radical que está no centro da situação fundamental marxiana, condenado a essa ação por sua existência histórica.
    • “Não é uma questão do que o proletariado imagina ser seu objetivo em um determinado momento. É antes uma questão do que o proletariado é e do que, de acordo com esse ser, ele será historicamente compelido a fazer. Seu objetivo e sua ação histórica estão irrevogavelmente prefigurados em sua própria situação de vida.”
  • O conhecimento não conduz o Dasein humano para fora da imanência da historicidade – todo conhecimento genuíno é, no sentido mais profundo, conhecimento “prático”, pois coloca um Dasein humano “na verdade”.
    • A existência histórica só se torna completa no conhecimento científico dessa existência, no conhecimento de sua situação histórica, de suas possibilidades e de sua tarefa.
    • Na consciência de classe, a classe escolhida se eleva a portadora do ato histórico – só a classe consciente de sua situação histórica pode aproveitar a situação revolucionária quando esta se apresenta.
  • A necessidade histórica se realiza através da ação humana, e é tarefa da teoria libertar a práxis pelo conhecimento da necessidade.
    • “A ciência” torna-se, nos pontos de virada revolucionários da história, “produto consciente do movimento da história; deixando de ser doutrinária, ela […] torna-se revolucionária.”
    • “Os filósofos apenas interpretaram o mundo; o ponto é transformá-lo.”
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