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PENSAR LINGUAGEM POESIA
MACQUARRIE, John. Heidegger and Christianity: the Hensley Henson Lectures 1993-94. New York: Continuum, 1994.
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Pensamento como questão histórica e não como faculdade psicológica
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O pensamento não é introduzido como uma capacidade natural do ser humano nem como operação cognitiva universal, mas como um acontecimento histórico que assume formas distintas conforme a relação entre o ser humano e o Ser em cada época.
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A ausência de uma teoria geral do pensamento nos escritos iniciais de Heidegger não indica negligência, mas reflete a recusa de tratar o pensar como objeto entre outros, já que o pensar é ele próprio o modo de acesso ao Ser.
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A fenomenologia, tal como herdada de Husserl, é assumida como disciplina rigorosa de descrição, porém reinterpretada como meditação receptiva, isto é, como modo de pensar que se deixa conduzir pelo que se mostra, em vez de impor categorias prévias.
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A distinção entre pensamento calculador e pensamento meditativo
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A famosa afirmação de que a ciência não pensa não constitui uma negação da validade científica, mas uma delimitação ontológica do seu alcance.
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O pensamento científico é caracterizado como pensamento calculador, orientado pela previsão, pela mensuração e pela eficácia, permanecendo sempre no âmbito dos entes enquanto manipuláveis.
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O pensamento propriamente dito é definido como aquele que se volta para o Ser, não como objeto, mas como aquilo que convoca e sustenta toda manifestação dos entes.
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Essa distinção não é hierárquica em sentido moral, mas ontológica, indicando diferentes modos de relação com a verdade como desvelamento.
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O chamado ao pensar e a pergunta Was heisst Denken
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A pergunta pelo pensar é desdobrada em quatro sentidos, culminando naquele que se revela decisivo: o pensar como resposta a um chamado.
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O pensar não se inicia na autonomia do sujeito, mas na provocação exercida por aquilo que é digno de ser pensado.
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A tese de que ainda não se pensa exprime um diagnóstico histórico da era técnico-científica, na qual o pensamento foi reduzido à operacionalidade.
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Pensar exige aprendizagem, e essa aprendizagem implica reconhecer a própria incapacidade inicial de pensar autenticamente.
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A virada e a superação do primado metodológico da fenomenologia
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A transição do projeto de Ser e Tempo para o pensamento tardio não representa abandono, mas radicalização da questão do Ser.
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A investigação fenomenológica do Dasein cede lugar a um pensar meditativo que já não parte do ser humano, mas do próprio Ser enquanto aquilo que se doa.
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O fim da filosofia não significa o fim do pensamento, mas o esgotamento de uma forma histórica específica de pensar fundada na metafísica.
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O pensamento permanece como tarefa, agora desvinculada da pretensão sistemática e aberta ao caráter acontecimental do Ser.
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Pensamento, memória e agradecimento como unidade originária
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A análise etimológica de pensar, memória e agradecer não é meramente filológica, mas visa recuperar um sentido originário do pensar como recordação do dom do Ser.
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Pensar é lembrar-se do que sustenta o próprio pensar, mantendo-se fiel àquilo a que se está entregue.
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O agradecimento não é emoção subjetiva, mas reconhecimento ontológico da dependência do ser humano em relação ao Ser.
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O pensamento assume assim uma tonalidade próxima da piedade, entendida como atenção reverente ao que se manifesta.
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Gelassenheit e o abandono da vontade dominadora
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O conceito de Gelassenheit exprime a exigência de desprendimento em relação à vontade de controle característica da modernidade.
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O pensar meditativo não é produzido pelo querer humano, mas acolhido como possibilidade concedida.
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A serenidade não resulta de decisão voluntarista, mas de abertura àquilo que se deixa aproximar.
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Essa estrutura aproxima o pensamento heideggeriano de motivos teológicos ligados à graça, sem, contudo, assumir linguagem confessional.
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Linguagem como acontecimento do Ser
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A linguagem deixa de ser compreendida como instrumento de comunicação para ser pensada como o lugar onde o Ser se diz.
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O ser humano não cria a linguagem, mas é por ela apropriado, tornando-se capaz de habitar o mundo.
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Falar autenticamente pressupõe escuta prévia, pois a palavra nasce da interpelação do Ser.
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A definição da linguagem como casa do Ser exprime essa co-pertença entre dizer e manifestar-se.
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Limites e riscos do procedimento etimológico
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A confiança de Heidegger na linguagem como portadora de verdade originária levanta problemas metodológicos.
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As variações interpretativas do logos revelam a plasticidade, mas também a fragilidade do argumento etimológico.
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A centralidade do grego e do alemão coloca em questão a pretensão de universalidade da análise.
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A linguagem pode tanto desvelar quanto ocultar, exigindo cautela na sua elevação a critério ontológico decisivo.
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Poesia como fundação histórica do sentido
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A poesia é pensada como forma originária da linguagem, anterior à conceitualização lógica.
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O dizer poético não descreve o mundo, mas o instaura como mundo.
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A historicidade do Dasein depende da palavra poética que preserva o início e o projeta como possibilidade futura.
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A poesia rompe a linearidade do tempo cronológico e inaugura a temporalidade extática.
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Hölderlin e a mediação entre deuses e homens
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Hölderlin é interpretado como poeta que tematiza a própria essência da poesia.
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O poeta é concebido como intermediário que suporta a distância entre o divino e o humano.
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A poesia expõe o poeta ao risco, pois lida com o excesso do sagrado.
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A função reveladora do poeta substitui, em parte, a mediação religiosa tradicional.
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Retirada dos deuses e experiência histórica da ausência
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A modernidade é caracterizada pela ausência dos deuses, entendida como retraimento e não como morte.
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O divino permanece operante, mas fora do horizonte imediato da experiência cotidiana.
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Essa ausência funda o caráter indigente do tempo presente.
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A poesia mantém aberta a possibilidade de um novo advento do sagrado.
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O sagrado como mais originário que o divino
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O sagrado é pensado como condição de possibilidade do aparecimento dos deuses.
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O divino não funda o sagrado, mas recebe dele sua determinação.
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Essa hierarquia aproxima Heidegger de tradições místicas e apofáticas.
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A compatibilidade desse pensamento com o cristianismo permanece uma questão aberta e não resolvida.
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Suspensão final da questão de Deus
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O pensamento conduz-se deliberadamente ao limiar entre filosofia, poesia e teologia.
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Não se afirma nem se nega Deus, mas prepara-se um espaço onde a questão possa novamente emergir.
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A célebre afirmação de que somente um Deus pode salvar não é doutrina, mas reconhecimento do limite do pensar humano.
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O capítulo encerra-se na espera, não como passividade, mas como vigília pensante.
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