1 Questão metafísica
LUIJPEN, William. Phenomenology and Metaphysics. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1965
A QUESTÃO METAFÍSICA
1. Considerações Preliminares
1. Houve um tempo em que se julgava possível rir da fenomenologia sob o pretexto de existirem tantas fenomenologias quanto fenomenólogos, mas a breve história desse movimento mostrou quão prematuro era esse riso, pois as “muitas” fenomenologias revelaram uma notável unidade, cuja força se faz sentir hoje em todos os domínios do pensamento humano.
2. O mesmo vale, em certo sentido, para a metafísica, que, diferentemente da fenomenologia, possui venerável antiguidade e sempre teve seus zombadores, os quais esquecem que o pensamento metafísico, apesar de suas dificuldades, das objeções que suscita e das múltiplas formas que assume, revela tal unidade de inspiração que sem uma metafísica nem sequer é possível rir da metafísica.
Sentido e Falta de Sentido da Pergunta sobre a Metafísica
1. À pergunta sobre o que é a metafísica deve anteceder outra, frequentemente formulada em nosso tempo no contexto mais amplo de uma reflexão sobre o caráter da filosofia em geral: tem sentido tentar dizer o que é a metafísica, assim como tem sentido tentar definir a filosofia?
2. Há diversas maneiras de saber o que é a filosofia, e aquela que fala “sobre” ela a partir de um ponto de vista situado fora da própria filosofia produz apenas um “saber” superficial e exterior, incapaz de penetrar em sua realidade, de modo que somente no próprio filosofar a filosofia encontra sua essência e alcança um certo “saber” dessa essência, razão pela qual a pergunta sobre o que é a filosofia só pode ser respondida filosoficamente.
3. O mesmo se aplica à metafísica, pois a tentativa de defini-la de fora não pode caminhar junto com a pretensão de alcançar por essa via um conhecimento autêntico do que ela é, sendo tal combinação um empreendimento estéril, já que somente no próprio pensar metafísico a metafísica descobre sua essência e chega a um certo “saber” dela.
4. Essa verdade tem, contudo, seus limites, porque é possível indicar como o termo “metafísica” foi compreendido no passado, investigação que não pretende definir a metafísica nem alcança o “saber” autêntico que acompanha o pensar metafísico como autocompreensão, mas que não é necessariamente infrutífera.
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Quem investiga o uso histórico do termo descobre uma unidade de inspiração que explica por que certo modo de pensar é chamado “metafísico” enquanto outros não o são.
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Essa investigação revela também que o pensamento contemporâneo precisa satisfazer certas condições caso pretenda reivindicar para si o caráter metafísico.
5. Tão logo se atenta para a unidade de inspiração que caracteriza todo pensar metafísico, descobre-se que também os antimetafísicos se nutrem dessa mesma inspiração, pois sem metafísica não é possível rejeitar a metafísica, e é por isso que os estudos históricos podem convenientemente colocar metafísicos e antimetafísicos lado a lado.
6. Em seus últimos anos, Heidegger passou a recusar o qualificativo “metafísico” para seu pensamento, entendendo-o como uma superação da metafísica (Überwindung der Metaphysik) destinada a levar a cabo a destruição (Destruktion) da metafísica tradicional, embora sua obra revele a mesma unidade de inspiração, algo de que ele próprio parece estar ciente.
7. Essa unidade de inspiração constitui ponto de referência constante no estudo da metafísica, porque se pretende confrontar a fenomenologia contemporânea com a metafísica tradicional, confronto que seria inteiramente sem sentido se o termo “metafísica” pudesse designar qualquer modo de pensar.
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A inspiração metafísica assumiu muitas formas ao longo da história, mas em todas elas sempre esteve em questão a “metafísica”, o que torna possível o confronto.
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Quem deseja refletir sobre o futuro da metafísica precisa refletir também sobre o seu passado, pois sem continuidade entre passado e futuro não haveria razão para falar de um futuro da metafísica.
8. O próprio interesse em confrontar metafísica e fenomenologia manifesta um valor especial atribuído à metafísica tradicional, na convicção de que aquilo que os grandes pensadores do passado chamaram “metafísica” não é simples absurdo, já que ideias que revelaram sua grandeza e de algum modo se mantiveram até o presente não podem ser descartadas como entulho sem valor.
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Ao tentar compreender por que tais ideias conservaram algum valor, reconhece-se que os grandes metafísicos deram forma a uma possibilidade de pensar eternamente humana.
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A realidade dessa possibilidade está sempre, em alguma medida, desvelada até mesmo para quem não procura expressamente (ex professo) dar-lhe forma.
9. Seguindo o caminho da intencionalidade encarnada no uso do termo “metafísica”, chega-se à essência do homem como ser pensante, essência que, precisamente por ser o homem o que é, está sempre de algum modo desvelada para ele mesmo, que em sua autorrevelação se manifesta como aquele que dá testemunho do fato irrefutável de que “algo é”, nisso residindo tanto sua grandeza quanto seu fardo.
As Ciências e a Metafísica
1. O homem emprega de muitas maneiras a simples palavra “é”, e todo juízo das ciências positivas contém a cópula “é”, de modo que também a prática científica é um modo de exprimir o ser, desvelado ao homem ao menos o bastante para que ele possa fazer ciência, embora as ciências sejam, em certo sentido, formas de “ausência de pensamento” (thoughtlessness), porque pronunciam o “é” sem precisar perguntar o que ele significa, tarefa que pertence à metafísica.
2. Em sentido amplo, o termo “metafísica” é empregado por todos aqueles que reconhecem, ao lado dos modos de conhecer próprios das ciências positivas, um lugar para um modo de conhecer irredutível à ciência positiva, mas que conduz a intelecções necessárias e universais e deve, por isso, ser chamado “científico” num sentido inteiramente diverso.
3. Tornou-se quase lugar-comum afirmar que o pensamento contemporâneo retorna à metafísica, depois que o positivismo do século XIX sufocou o autêntico pensar metafísico e se percebeu que a absolutização das ciências positivas se fundava numa convicção enraizada não nas próprias ciências, mas numa metafísica de péssima qualidade.
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Como forma absolutizada da ciência positiva, o positivismo representa uma teoria implícita sobre o conhecimento e a realidade em geral, incapaz de justificar-se como intelecção apoiada na ciência positiva, mas que ainda assim pretende validade.
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Ao rejeitar toda metafísica, o positivismo revelou-se uma metafísica desprovida de reflexão, a ponto de não reconhecer sua própria natureza metafísica.
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Aos poucos tornou-se evidente que, se de qualquer modo é preciso aderir a uma metafísica, convém refletir sobre o que se está fazendo.
4. Em sentido amplo, “metafísica” é sinônimo de “filosofia”, de modo que a rejeição da metafísica por certos representantes das ciências positivas significa rejeição da filosofia, e o retorno contemporâneo à metafísica significa que a inevitabilidade da filosofia voltou a fazer-se sentir, havendo lugar, ao lado das ciências positivas do direito, da natureza e do homem, para uma metafísica do direito, da natureza e do homem, assim como se fala de uma metafísica da sociedade, da linguagem, da poesia, da consciência moral, dos valores e do mal.
O Pensar Metafísico como Implicação do Pensar Científico
1. A rigor, não basta dizer que há lugar para a metafísica “ao lado” das ciências positivas, pois esse “ao lado” pressupõe uma ciência e uma metafísica já constituídas e não penetra no âmago da questão, já que toda ciência exige reflexão metafísica por servir-se implicitamente de certa metafísica.
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O simples fato de a física formular leis pressupõe a convicção de que os entes de que ela fala podem ser abordados e expressos por essas leis, convicção que o físico pressupõe sem justificar e que ele “vive” no modo como pratica sua ciência.
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Psicólogos e psiquiatras tampouco desenvolvem uma metafísica do homem, mas o simples fato de considerarem certo tipo de lei adequado para falar do homem implica uma visão metafísica acerca do ente especial que o homem é.
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Ao seguirem o mais de perto possível o método das ciências físicas, os psicólogos e psiquiatras do passado revelaram sua convicção metafísica implícita de que o homem podia ser concebido como “mais uma coisa natural”.
2. Também a história das ciências mostra a presença de uma metafísica implícita, pois às vezes o próprio exercício de uma ciência indica que chegou o tempo de uma nova abordagem, quando os cientistas percebem que seu modo habitual de falar do objeto não lhes permite exprimir o que realmente deveriam exprimir.
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Psicólogos e psiquiatras concluíram que não se faz justiça ao aspecto humano do comportamento quando ele é concebido exclusivamente como resultado de causas unilaterais e deterministas, o que os levou a buscar novas abordagens e a rever os conceitos fundamentais de suas ciências.
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Quando isso ocorre, instala-se uma crise nas concepções metafísicas implícitas com que uma ciência considera a essência do ente que estuda, razão pela qual a metafísica não existe “ao lado” das ciências, mas, em certo sentido, “nelas”.
3. Isso não significa que a atitude interrogativa do sujeito existente-como-cogito na prática de uma ciência específica seja idêntica à do metafísico, pois, embora as diversas interrogações do sujeito não possam ser isoladas umas das outras em sua existência, podem e devem ser distinguidas, e sua identificação conduziu no passado à maior confusão.
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Quando as ciências positivas ampliaram com êxito seus domínios, alguns metafísicos temeram que nada restasse à metafísica, temor que teve a vantagem de obrigá-la a refletir explicitamente sobre suas possibilidades e aspirações e a restringir-se a seus próprios limites.
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Esse medo de ficar sem objeto de investigação procedia, na verdade, de uma forma sub-reptícia de positivismo, pois só pode ser nutrido na suposição de que metafísica e ciências positivas tratam das mesmas questões.
As Ciências e o Sujeito
1. Além de pressuporem uma visão metafísica sobre a essência do ente que desvelam, as ciências positivas exigem reflexão metafísica também porque, na prática da física, não apenas o objeto físico é inquestionavelmente real, mas também o sujeito que a pratica.
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Para quem leva a sério a realidade do sujeito, seria absurdo tentar explicar o criador da física pelas mesmas categorias com que se explica o objeto dessa ciência, pois nenhum objeto da física jamais criou uma física.
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A prática da física procede da convicção implícita de que o sujeito é capaz de criar uma física, convicção que a própria física não pode justificar, sendo ingênua e hipócrita toda tentativa de falar do sujeito da física como se fala de seus objetos.
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A física pressupõe uma metafísica do sujeito que a cria, e as ciências, sendo modos-de-ser do homem, não falam nem podem falar sobre esses modos de ser.
2. A metafísica em sentido amplo, identificada com a própria filosofia, distingue-se das ciências por ao menos duas razões.
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Em primeiro lugar, procura compreender as estruturas mais gerais da realidade, que toda ciência positiva pressupõe em certa medida sem tematizá-las, cabendo à metafísica essa tematização.
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Em segundo lugar, procura exprimir a realidade do sujeito que cria e pratica as ciências, o qual, no exercício científico, “sabe” de si ao menos o suficiente para dedicar-se à ciência, sem que esse saber limitado seja explicitamente assumido pelas ciências.
3. A prática das ciências positivas é, portanto, em certo sentido uma forma de “ausência de pensamento”, pois o cientista usa o termo “é” em cada juízo sem indagar o “ser” do objeto de sua ciência nem o “ser” do sujeito que formula as perguntas e as respostas científicas, cabendo ao metafísico assumir essas questões deixadas sem resposta, tarefa que nenhum progresso das ciências pode tornar supérflua.
A Metafísica em Sentido Estrito
1. A afirmação de que o metafísico busca compreender as estruturas mais gerais da realidade adquire seu pleno sentido no modo de perguntar e responder denominado metafísica em sentido estrito.
2. Todo modo humano de pensar instala explicitamente o pensador na “maravilha de todas as maravilhas” (Wunder aller Wunder), de que há algo para ver e algo para dizer, e quem pratica a ciência positiva também se demora (whiles) nessa maravilha, sem ter, contudo, a tarefa de maravilhar-se com ela.
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O metafísico admira-se da possibilidade de falar e do ser daquilo de que se fala, admirando-se de si mesmo, pois sua própria subjetividade existente-como-cogito é a maravilha graças à qual há algo para ver e algo para dizer.
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O fato metafísico em sentido amplo é o sujeito-como-cogito, razão pela qual todas as formas e fases do pensar metafísico são, por si mesmas, formas e fases de uma metafísica humana.
3. Para todos os grandes metafísicos do passado, o pensar metafísico sempre foi muito mais que ultrapassar os limites da ciência positiva e explicitar os modos de ser pressupostos pelas ciências, pois viam a metafísica como o ápice, a possibilidade última das perguntas e respostas humanas, a pergunta pelo sentido último do ser.
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A metafísica foi entendida como a pergunta sobre o que significa, em última instância, dizer de tudo o que é que ele é.
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Em regra, o homem não reflete ao pronunciar a palavra “é”, e na espontaneidade não questionada da vida, vivida nos mitos ou na cotidianidade de uma ordem tecnocrática, parece evidente que o ente é.
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Essa obviedade é enganosa, sendo uma forma de esquecimento (Vergessenheit) que elimina a metafísica, e o pensar metafísico em sentido estrito nasce quando o homem abandona essa esfera e pergunta o que significa afirmar que algo, seja o que for, é: por que há o ente e não antes o nada?
4. De início pode parecer que a metafísica se ocupa de uma palavra vazia ao dedicar-se ao ente, e para escapar desse “vazio” pode-se voltar aos domínios particulares dos entes, encontrando ferramentas, veículos, terras, mar, montanhas, rios, florestas, árvores, pássaros, insetos, a Terra, a Lua e os planetas, mas surge então a pergunta de como se sabe que todas essas coisas são “entes”, o que exige que já se saiba o que significam “é” e “ser”.
5. Não é possível constatar que um suposto ente não é sem distinguir de antemão com clareza entre ente e não-ente, e, uma vez que essa distinção é de fato feita, ninguém pode sustentar que “ente” seja palavra vazia, pois a dúvida sobre se algo é ou não é, num caso particular, não implica dúvida quanto à diferença entre ente e não-ente.
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Os entes concretos e individuais é que devem ser ditos indeterminados, pois se revelam em sua concretude ao serem comparados com outros entes, permanecendo indeterminados sob muitos aspectos.
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O ente, porém, não pode ser comparado com nada, já que fora do ente há somente o nada, sendo por isso o mais determinado, de modo que “é” e “ser” não são palavras vazias.
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Para ilustrar isso, Heidegger apresenta um exemplo de certo modo análogo ao que tem em vista na pergunta pelo ser, exemplo que, como qualquer outro nessa matéria, deve ser tomado com reservas.
6. Substituindo-se “ente” por “árvore” e supondo-se que “árvore” seja palavra vazia, a tentativa de evitar esse vazio voltando-se às espécies e aos exemplares de árvores parece fácil, mas não o é.
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Se a palavra “árvore” fosse realmente vazia, não se saberia onde procurar ao voltar-se para as árvores individuais, podendo-se acabar diante de automóveis ou coelhos.
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A única razão pela qual isso não ocorre é que o termo “árvore” diz algo sobre a essência “árvore”, permitindo identificar as árvores individuais como árvores, e quem não reconhece essa verdade já não vê a árvore por causa das árvores.
7. De modo análogo, só é possível voltar-se aos entes particulares porque se compreende o ente enquanto ente e, com base nessa compreensão, distingue-se o ente do nada.
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Quem declara “ente” uma palavra vazia e a elimina de sua linguagem não suprime apenas um verbo, mas abole a linguagem por completo, e o homem deixaria de ser o que é, pois ser homem é falar.
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O fato de o homem nomear o ente em sua fala não é um fato do mesmo tipo que ter este ou aquele formato de lóbulo da orelha, mas uma necessidade, já que o homem não existiria como homem se não pudesse compreender e exprimir o ser.
A Metafísica como Falar sobre “Tudo”
1. A metafísica em sentido estrito é a tentativa de exprimir o sentido do ente enquanto ente, que é seu tema próprio, pois dos entes particulares só se pode dizer que “são” porque se compreende o ente enquanto ente, de modo que ela não visa “este” ou “aquele” ente, mas aquilo que é o fundamento sobre o qual se afirma que os entes particulares são, tendo o alcance dessa pergunta seu limite apenas no nada, naquilo que simplesmente não é.
2. Torna-se assim evidente em que sentido a metafísica em sentido estrito fala de “tudo”, sendo a tentativa de reunir “tudo” numa apreensão racional, enquanto a metafísica em sentido amplo também busca uma com-preensão (com-prehending), mas limitada a ordenar objetos específicos numa região determinada do ser.
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A metafísica das coisas da natureza indaga o sentido da coisa natural enquanto coisa natural, fazendo desse sentido uma figura num horizonte interno e recortando toda uma região do ser de um horizonte externo de sentidos distintos, colocando-a em primeiro plano no campo de presença do sujeito existente-como-cogito.
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Essa pergunta abstrai de se a coisa natural é uma folha de grama ou uma camada de terra e constitui todas as coisas naturais, em harmonia umas com as outras, numa única região do ser distinta das demais.
3. De modo análogo deve ser entendida a afirmação de que a metafísica em sentido estrito fala de “tudo”, afirmação que à primeira vista pode parecer fantástica.
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A pergunta pela coisa natural enquanto tal indaga todas as coisas naturais sem que esse “todas” signifique a soma de todas as coisas naturais concretas.
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Falar de “tudo” em metafísica não significa deixar o olhar vaguear sobre plantas, planetas, pedras, máquinas, rios, montanhas, animais e homens para fazer afirmações sobre todos eles.
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Falar de “tudo” só é um modo inteligente de falar quando o sujeito ocupa um ponto de vista que torna possível uma com-preensão que apreende tudo o que é em harmonia com tudo o que é, excluindo apenas o nada.
1. Parmênides de Eleia figura na história como o primeiro a ver o ponto de vista a partir do qual o filósofo pode falar de “tudo” e a tematizar as intelecções que dele se manifestam, descrevendo num poema didático sua viagem e a verdade que lhe foi revelada.
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Um carro o conduziu até os portais etéreos onde se encontram os caminhos do dia e da noite.
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As donzelas que o acompanhavam conseguiram que os portões lhe fossem abertos.
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Uma deusa apareceu e revelou-lhe a verdade, composta de uma doutrina sobre o ente e uma doutrina sobre a aparência.
2. A verdade sobre o ente é que o ente é e que fora do ente nada é, sendo puro absurdo pensar que o não-ente seja, do que decorre imediatamente que o ente é “uno” e não tem vir-a-ser.
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O ente é “uno” porque a pluralidade pressupõe diferença, e os entes só poderiam diferir pelo ente ou pelo não-ente, mas não diferem pelo ente, no qual precisamente concordam, nem pelo não-ente, pois o que não é não pode fazer diferença.
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O ente não tem vir-a-ser porque o que vem a ser teria de provir do ente ou do não-ente, mas não provém do ente, que já é ente, nem do não-ente, que nada contribui para o ente.
3. A intelecção de que o ente é e o não-ente não é poderia facilmente parecer uma verdade sem importância, mas constitui o início do pensar metafísico em sentido estrito, a primeira vez em que o homem exerceu seu poder de falar sobre “tudo”, falando do ente não como árvore, máquina, planta, planeta ou animal, mas como ente, como não-nada.
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O próprio Parmênides concebeu o ente uno e não gerado como substância material, uma esfera perfeitamente redonda, concepção que os metafísicos posteriores não seguiram, embora permanecessem fiéis à sua inspiração.
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Para Aristóteles e Tomás de Aquino, a metafísica era o pensar sobre o ente enquanto ente, fórmula ainda usada exatamente por seus seguidores e também familiar a Heidegger.
Afirmação na Negação
1. A fórmula que descreve o caráter próprio da metafísica é aquela à qual se apega sobretudo a tradição escolástica, mas há metafísicos, dentro e fora da escolástica, que a rejeitam e até a desprezam, partindo, contudo, precisamente em sua negação, da convicção implícita de que não há outra possibilidade de pensar radicalmente e de falar sobre “tudo” senão situando-se no ponto de vista que Parmênides foi o primeiro a ver e ocupar, de modo que seu pensamento é de fato também uma exploração do ente enquanto ente.
2. O cientificismo é um dos exemplos mais notáveis dessa rejeição, pois nenhuma filosofia odeia mais a metafísica, considerando “nada” aquilo de que falam os metafísicos.
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Tal posição só pode significar que se pode falar de “algo” apenas quando se trata de uma realidade que as ciências podem desvelar, sendo o ente aquilo que as ciências podem afirmar, e o não-ente aquilo que elas não podem afirmar.
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Para o materialismo cientificista, o ente enquanto ente é o ente material, e o que não se deixa exprimir nas categorias das coisas é simplesmente não-ente, o que constitui uma tese metafísica em sentido estrito.
3. Também os filósofos analíticos só podem rejeitar a metafísica pressupondo-a implicitamente, como ocorre em Ayer, para quem todas as proposições metafísicas são absurdas porque pretendem descrever uma realidade para além da experiência, e uma proposição não verificável por nenhuma experiência não é proposição.
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O postulado fundamental da metafísica, “Existe uma realidade suprassensível”, não é, portanto, para Ayer, uma proposição.
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Abstraindo do que Ayer entende por experiência e verificação, ele impõe exigências a serem cumpridas para que uma proposição seja real, isto é, concernente à realidade, de modo que, sem elas, uma frase pode ter a forma de proposição sem tratar de realidade alguma.
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Manifesta-se aí a atitude típica do metafísico, pois também Ayer considera o ente enquanto ente e em oposição ao nada.
4. A rejeição da reflexão sobre o ente enquanto ente e em oposição ao nada só é possível apelando novamente ao pensar metafísico nos próprios argumentos que a justificam, pois quem rejeita a metafísica precisa começar dizendo o que, a seu ver, os metafísicos defendem, afirmando, por exemplo, com Ayer, que os resultados desse pensar são inverificáveis e concluindo que ele trata do nada, caminho pelo qual Hume rejeitou a metafísica em seu tempo e que ainda hoje é seguido.
5. Tal procedimento implica evidentemente uma metafísica, pois a motivação da rejeição contém tacitamente a condição sob a qual se aceita algo como algo, como não-nada.
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Afirma-se que o que não pode ser verificado, no sentido dos filósofos analíticos, é simplesmente nada, de modo que “algo” é o que pode ser verificado de certa maneira e “nada” o que não pode sê-lo.
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Há aqui uma doutrina implícita sobre “algo” enquanto “algo”, sobre o ente enquanto ente em oposição ao nada, e uma tentativa de pensar “radicalmente” do modo tradicionalmente chamado “metafísico”.
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A rejeição da metafísica é ela mesma uma metafísica, e por isso os mais violentos adversários da metafísica têm seu lugar nas fileiras dos metafísicos e figuram nos panoramas da metafísica com o mesmo direito que seus mais devotados defensores.
6. Toda filosofia inclui um aspecto metafísico nesse sentido, pois todo filósofo se serve de um “fato primitivo” como ponto central de referência destinado a iluminar a totalidade do real e ajudá-lo a com-preendê-la.
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Para Descartes, esse “fato primitivo” eram as “ideias claras e distintas”, e o que não pudesse ser apreendido nelas simplesmente não era, o que decidia sobre o ente enquanto ente.
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Tomás de Aquino, Marx e Bergson serviram-se de “fatos primitivos” diferentes, convictos de que seu princípio unificador faria justiça à totalidade do real sem obrigá-los a considerar não-ente algo que se impõe como ente.
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O uso de um “fato primitivo” implica uma visão sobre a universalidade do ente enquanto ente e em oposição ao nada, e não tem sentido rejeitar a reflexão sobre o ente enquanto ente se esse modo de pensar precisa ser reintroduzido sub-repticiamente na própria rejeição.
“O Metafísico” no Homem
1. A pergunta metafísica em sentido estrito não foi inventada pela metafísica enquanto sistema, mas está contida no sujeito existente-como-cogito, sendo um aspecto dele, um modo de ser-homem, pois o próprio sujeito-como-cogito é “consciência metafísica”, “experiência metafísica”.
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O sujeito existente-como-cogito é um certo “saber” de que uma planta, uma criança e um meteoro não pertencem à realidade, à ordem do ser, em virtude de seu ser-planta, ser-criança ou ser-meteoro.
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A consciência ou experiência metafísica é um certo “saber” do que significa que tudo aquilo de que se diz, se disse ou se dirá que é pertence à ordem do ser, consciência que a metafísica assume, explicita e desenvolve crítica e sistematicamente.
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A metafísica funda-se numa experiência metafísica, numa dimensão da presença imediata do sujeito à realidade em que ele habita o universo, a universalidade de todos os entes enquanto entes, pressupondo “o metafísico” no homem e, por isso, uma antropologia filosófica e uma criteriologia.
Duas Fases da Metafísica
1. A metafísica em sentido estrito é um pensar “radical” porque fala sobre “tudo”, e esse caráter radical manifesta-se na fórmula tradicional da pergunta metafísica, por que há algo e não antes o nada, pergunta que concerne à universalidade do ente enquanto ente.
2. O pensar metafísico pergunta pelo “porquê” do ente enquanto ente, buscando sua origem, fundamento e causa, pois o ente mostra-se tal que sua afirmação metafísica não pode ser sustentada se o metafísico se limitar a simplesmente afirmá-lo.
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Essa constatação, presente em todos os grandes metafísicos da história, conduz a uma segunda fase do pensar metafísico, em que a metafísica se torna radical buscando antes a profundidade que a amplitude do ente.
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A percepção de que o ente não contém em si mesmo o fundamento de seu ser levou os grandes metafísicos a buscar algo que pudesse servir de fundamento de todos os entes sem necessitar de fundamento e que, por isso, explicasse tudo.
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Esse princípio que tudo explica sempre foi chamado “o Absoluto”, no sentido mais estrito do termo.
