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SENTIDO TEMPORAL DA MODIFICAÇÃO DO CUIDAR CIRCUNSPECTIVO EM DESCOBERTA TEÓRICA DE ENTES SIMPLESMENTE PRESENTES

KING, Magda; LLEWELYN, John. A guide to Heidegger’s Being and time. New York, NY: State Univ. of New York Press, 2001.

  • A questão não histórico-cronológica, mas ontológica, da gênese do comportamento teórico
    • O problema é formulado como gênese ontológica de uma abordagem teórico-científica das coisas, isto é, como explicitação da constituição que torna possível a um ser-aí fático existir no modo da investigação científica.
    • A passagem decisiva consiste no perder-se do caráter de manualidade, pelo qual os entes se mostram como meras substâncias simplesmente presentes, e essa passagem não é tratada como evolução empírica das ciências a partir da prática cotidiana.
    • O foco incide sobre o modo de ser pelo qual a ciência é possível, e não sobre a sua história externa, pois a questão é a estrutura existencial que sustenta o pesquisar como modo de ser-no-mundo.
    • A transição para o teórico é compreendida como modificação do modo de desvelamento dos entes, o que exige investigar, antes de tudo, as condições ontológicas do descobrir em geral.
  • Distinção entre conceito lógico e conceito existencial de ciência
    • O conceito lógico define a ciência a partir de seus resultados como nexo sistemático de fundamentação de proposições verdadeiras e válidas, isto é, como encadeamento demonstrativo.
    • O conceito existencial define a ciência como modo de existir, logo como modo de ser-no-mundo que descobre entes ou mesmo o ser, deslocando a questão do âmbito do produto para o âmbito do acontecer existencial.
    • Uma interpretação existencial plenamente adequada é adiada, pois ela dependeria de uma clarificação do sentido do ser e do nexo entre ser e verdade a partir da temporalidade da existência.
    • O objetivo imediato é preparatório e restrito: esclarecer o movimento pelo qual o descobrir circunspectivo do à mão se transforma no puro olhar característico do descobrir teórico do simplesmente presente.
  • Pressupostos retomados: visão formalizada, compreensão e interpretação
    • Todo ver, intuir e apreender é reafirmado como fundado primariamente no projeto desvelador da compreensão, que constitui o poder-ser do ser-aí em referência ao para-o-bem-de sua existência.
    • A compreensão, ao referir o ser-aí a entes como relevantes para fins provisórios, funda o modo cotidiano de descoberta dos utensílios como à mão.
    • A compreensão toma posse explícita de si na interpretação, entendida como apropriação do compreendido, pela qual algo se torna expresso como algo, sem exigir necessariamente formulação proposicional.
    • O exemplo do utensílio nomeado como faca indica que a explicitação pode ser verbal ou demonstrativa, mas em ambos os casos ela expõe o utensílio junto com seu para-que, mantendo-o no horizonte da relevância.
  • Reanálise da circunvisão: a guia de uma visão de conjunto
    • A descrição anterior da circunvisão é apresentada como incompleta, pois agora se afirma que ela é guiada por uma visão global que abarca o mundo utensiliar como um todo juntamente com o mundo público a ele pertencente.
    • Essa visão de conjunto ilumina o cuidar cotidiano ao fornecer o horizonte no qual os utensílios podem ser aproximados e tornados explícitos em sua significatividade.
    • A visão global recebe sua própria luz da possibilidade de ser do ser-aí, para cujo bem o cuidado existe como cuidado, de modo que o horizonte do trabalho e do uso se enraíza no para-o-bem-de do existir.
    • O iluminar circunspectivo não é verificação de propriedades subsistentes, mas explicitação da situação fática do ser-aí em seu mundo circundante tomado em cuidado.
  • Deliberação como trazer-perto interpretativo e o esquema if-then
    • O trazer-perto interpretativo dos utensílios já descobertos é denominado deliberação, e sua tarefa é tornar mais claro e mais explícito o contexto de uso em que o ser-aí já se move.
    • A estrutura da deliberação é caracterizada pelo esquema if-then, no qual o if aponta para algo a ser produzido, utilizado, evitado ou impedido, e o then indica os meios, caminhos, circunstâncias e ocasiões requeridos.
    • A deliberação não confirma a mera presença objetiva de algo nem se restringe ao que está visivelmente presente, pois ela alcança o que é necessário mesmo quando não está à mão na proximidade imediata.
    • O trazer-perto do mundo circundante na deliberação possui sentido existencial de fazer-presente, do qual a representação é apenas um modo, e essa representação não se relaciona a meras ideias, mas a coisas mesmas em sua acessibilidade mundana.
  • O fazer-presente deliberativo e sua referência direta ao mundo
    • O fazer-presente na deliberação é explicitado como forma de trazer algo face a face consigo em pensamento, sem que isso implique recolhimento em processos imanentes.
    • Pensar é interpretado como modo de ser-no-mundo no qual o ser-aí se estende e atravessa distâncias, removendo-se em direção ao que pensa, e por isso o distante pode ser trazido ao âmbito de um lidar efetivo.
    • O caráter decisivo do fazer-presente deliberativo é que ele mantém o ente no horizonte da relevância, mesmo quando o ente não está corporalmente presente, pois o que se faz presente é o necessário no interior de um contexto de preocupação.
    • Essa estrutura impede reduzir a deliberação à contemplação interna, pois ela é precisamente um modo existencial de proximidade com o mundo.
  • Enraizamento do fazer-presente na unidade extática e o lugar da retenção
    • O fazer-presente deliberativo pertence à unidade extática completa da temporalidade, pois ele se funda numa retenção do contexto de utensílios de que se cuida ao aguardar uma possibilidade.
    • O que já foi desvelado no aguardar que retém é trazido para mais perto pelo fazer-presente deliberativo, indicando que o presente deliberativo não se autonomiza, mas depende de futuro e ter-sido.
    • A deliberação só pode operar no esquema if-then porque o cuidado já compreende, em visão de conjunto, um contexto de relevância no qual o if já é entendido como isto ou aquilo.
    • Essa inteligibilidade pré-predicativa do if exige a pré-figuração do esquema algo como algo, de modo que a estrutura do as não nasce da proposição, mas já está inscrita no compreender cotidiano.
  • A estrutura do as como fundada na temporalidade da compreensão
    • O esquema algo como algo é dito já pré-figurado na compreensão pré-predicativa e ontologicamente fundado na temporalidade da compreensão, de modo que a explicitação interpretativa depende do modo como a existência temporaliza seu compreender.
    • O if é compreendido como possibilidade projetada em aguardar, isto é, como possibilidade desejada ou temida, e essa projeção inautêntica do futuro torna possível o compreender cotidiano do algo como algo.
    • O as está já implicado no if-then, pois deliberar sobre uma casa pressupõe compreender a casa como lugar de morar, e morar é possibilidade desvelada da própria existência para cujo bem a casa é construída.
    • A estrutura do as expressa, assim, a pertença do entendimento prático a um horizonte no qual o ente é captado segundo sua relevância para o poder-ser do ser-aí.
  • O possível reverso do movimento interpretativo e a primazia preservada do futuro
    • A explicitação interpretativa pode seguir um percurso inverso ao do desvelamento originário, pois pode começar no que já está retido e avançar até as possibilidades relevantes, em vez de partir diretamente do possível projetado.
    • Essa reversibilidade não elimina a primazia do futuro, pois somente sobre o solo do aguardar uma possibilidade é que a interpretação pode tomar como ponto de partida um para-isto retido e reconduzi-lo ao para-que.
    • A menção do reverso, embora pareça deslocada, sugere uma oscilação efetiva da deliberação dentro do esquema if-then, que atravessa o nexo tanto no sentido do possível para os meios quanto no sentido dos meios para o possível.
    • A sugestão de uma futura modificação do if-then em esquema causal é insinuada como possibilidade distante, ainda que não tematizada no exame posterior da investigação teórica, o que acentua a tensão entre a preparação analítica e sua execução incompleta.
  • Conformidade do trazer-perto com o modo de ser do ente e o as como esquema de apresentação
    • Deliberar ao trazer algo para perto exige conformar-se ao modo de ser do que é trazido, isto é, medir-se por ele e adequar-se à sua maneira de aparecer.
    • A relevância do à mão não é primeiramente descoberta pela deliberação, mas apenas aproximada e tornada visível como tal, de modo que a deliberação deixa o que é relevante ser visto como isto, dentro do contexto já compreendido.
    • O as funciona como esquema de apresentação pelo qual o fazer-presente corresponde ao como do ser do utensílio, trazendo-o para perto precisamente como ele se mostra em suas relações de relevância.
    • Essa conformidade contém uma afinidade estrutural com a ideia tradicional de correspondência, mas só é possível porque o ente já está descoberto e compreendido em seu como, isto é, em sua manualidade.
  • Resumo da conexão ontológica entre as-estrutura e temporalidade extática
    • O modo como o presente se enraíza no futuro e no ter-sido é apresentado como condição existencial da possibilidade de que o projetado na compreensão circunspectiva seja trazido para perto num fazer-presente que deve adaptar-se ao que é encontrado no horizonte do aguardar que retém.
    • O fazer-presente deliberativo interpreta-se no esquema do as porque o encontro com o à mão ocorre no interior de um horizonte que já compreende relevâncias, e por isso o trazer-perto é necessariamente interpretativo.
    • A questão de saber se o as está ontologicamente conectado ao projetar recebe resposta afirmativa, pois o as é fundamentado na unidade extática e horizonal da temporalidade.
    • A insistência no caráter extático e horizonal anuncia que o problema do esquema se deslocará para a constituição temporal do mundo, sem que a interpretação final de esquema seja fornecida aqui.
  • A promessa não cumprida de definir existencialmente o esquema e a ampliação do problema do is
    • A definição existencial do esquema e a retomada temática do fenômeno do as são explicitamente adiadas para uma análise fundamental do ser, em conexão com a interpretação do is como cópula que exprime o endereçamento de algo como algo.
    • A ausência dessa análise é particularmente grave porque a noção de esquema é tratada como chave para iluminar a obscuridade da doutrina kantiana do esquematismo, sugerindo uma intenção crítica que permanece incompleta.
    • A exigência de que o esquema de fazer-presente se conforme ao modo de ser do ente indica que, mesmo se a forma do esquema permanecer constante, seu sentido deve ser modificável segundo as variações do compreender do ser.
    • Segue-se que o is que exprime algo como algo também deve variar de sentido conforme o modo de ser em jogo, de modo que o is cotidiano não pode ter o mesmo alcance que o is científico.
  • O Umschlag: do utensílio ao corpo submetido a leis e o esvaziamento do caráter intramundano
    • A mudança do circunspectivo para o teórico é caracterizada como um volteio abrupto, no qual o mesmo enunciado pode deslocar-se do horizonte da relevância para o horizonte da substancialidade.
    • No enunciado o martelo é pesado, o is pode apresentar o utensílio como demasiado pesado para uma tarefa, alcançando implicitamente o complexo de relevância do mundo de trabalho e, por meio dele, a preocupação com o sustento cotidiano.
    • O mesmo enunciado pode, porém, apresentar o ente como corpo com massa, submetido à gravidade, e então o discurso já não está no horizonte do aguardar que retém um todo de utensílios, pois o ente não fornece mais nada em relação ao qual pudesse ser considerado demasiado pesado ou demasiado leve.
    • O que se perde nesse deslocamento é o caráter intramundano do ente, e o utensílio cai fora do mundo, isto é, sofre uma desmundanização que não é produzida pela frase, mas por uma transformação do compreender do ser que guia o modo de descobrir.
  • Natureza como ente intramundano e não como mundo em si
    • A transformação em direção à natureza física não é descrita como modificação do mundo em natureza, mas como modo de descobrir um ente intramundano que só é acessível dentro e através de um mundo previamente desvelado.
    • A passagem mostra que o teórico não se origina fora do ser-no-mundo, mas é uma modificação interna dele, ainda que com deslocamento radical do horizonte de inteligibilidade.
    • Assim, o teórico se mostra como transição que atravessa o mundo e nele se apoia, mesmo ao nivelar suas determinações significativas.
    • A tematização da natureza como domínio de entes simplesmente presentes ocorre, portanto, como modificação do modo de ser-no-mundo, não como abandono completo do mundo.
  • Nivelamento de lugares em posições e liberação do total do simplesmente presente
    • O olhar teórico não apenas negligencia o caráter de utensílio, mas também neutraliza o lugar próprio do utensílio, convertendo a pluralidade de lugares significativos do mundo circundante em uma pluralidade indiferente de posições espaço-temporais.
    • O lugar torna-se ponto no mundo, não distinguido de qualquer outro, e com isso a multiplicidade de lugares definidores do entorno é nivelada em uma espacialidade uniforme.
    • Essa nivelação não significa perda total de localização, mas transformação do lugar em posição, acompanhada pela liberação dos entes do mundo circundante, isto é, pelo desprendimento de suas amarrações de relevância.
    • O resultado é que a totalidade do simplesmente presente se torna temática, e o campo é positivamente delimitado como região de substâncias, medida pelo compreender dominante do ser como realidade substancial.
  • O projeto matemático da natureza como a priori e o sentido ontológico do fundamento científico
    • O surgimento paradigmático da física matemática é tomado como exemplo de gênese ontológica, e o decisivo não é maior observação nem mera aplicação de matemática, mas o projeto matemático da natureza.
    • Esse projeto é entendido como um projeto antecipador que descobre previamente algo constantemente presente e abre o horizonte para determinar quantitativamente seus momentos constitutivos, como movimento, força, localização e tempo.
    • A luz desse projeto é condição de possibilidade para encontrar algo como fato e para organizar experimento, pois o fato só pode aparecer dentro do horizonte previamente projetado, o que sustenta a tese de que não há fatos nus.
    • A crítica ao positivismo decorre disso, pois a crença em fatos sem conceitos ignora que o próprio encontrar do fato depende de um a priori projetado que determina o campo, os conceitos e a forma do questionar.
  • O conceito existencial completo de ciência como totalidade de determinações derivadas do projeto do ser
    • O caráter filosófico do projeto científico reside em que ele desvela um a priori, isto é, explicita o modo de ser implicitamente compreendido que torna possível o descobrir de entes.
    • Ao serem trabalhados os conceitos básicos do compreender do ser que guia o campo, determinam-se métodos, estrutura conceitual, possibilidades de verdade e certeza, modos de fundamentação e prova, caráter vinculante e modos de comunicação.
    • Essa totalidade de momentos constitui o conceito existencial completo de ciência, deslocando a questão do conteúdo factual para a estrutura ontológica que define o tipo de verdade buscado e os modos de acesso permitidos.
    • O trabalho científico fundamental é descrito como circunscrição do campo, fixação de princípios e definição de conceitos básicos, isto é, como articulação teórica da constituição ontológica do domínio, ainda que o estatuto exato dessa fundamentação em relação a uma ontologia regional permaneça não demarcado com precisão.
  • A tematização como objetificação e o fazer-presente distinguido do olhar puro
    • O projeto científico dos entes já de algum modo encontrados torna explicitamente compreensível seu modo de ser e torna evidentes os modos possíveis de descoberta pura dos entes intramundanos.
    • A articulação do compreender do ser, a definição do domínio de assunto e a pré-figuração dos conceitos adequados integram a totalidade do projetar denominada tematização.
    • A tematização objetiva ao liberar os entes para que se tornem sujeitos a questionamento e definição, não os pondo originalmente, mas deixando-os livres para aparecerem como objetos.
    • O olhar objetificante é interpretado como modo de ser-near às coisas cujo caráter temporal primário é fazer-presente, mas agora como fazer-presente distinguido que aguarda pura e exclusivamente a descobertidade do ente substancialmente presente.
  • A origem existencial do aguardar da verdade e a surpresa do vínculo com a autenticidade
    • O aguardar da descobertidade é dito fundado existencialmente numa resolução pela qual o ser-aí se projeta em sua possibilidade de ser-na-verdade.
    • A ciência é, nesse ponto, vinculada a uma origem em existência apropriada, não sendo perseguido aqui como se dá tal origem, o que introduz tensão com a caracterização do teórico como derivado e degenerativo em relação ao circunspectivo.
    • A distinção sugerida é que, em seu aguardar puro da verdade do ente, a ciência se eleva acima do descobrir circunspectivo que brota da desapropriação na queda, ainda que a primazia do circunspectivo permaneça afirmada no plano fenomenológico.
    • A unidade extática do fazer-presente distinguido é sugerida como possuindo também um ter-sido correlato, provavelmente na forma de retenção, por constituir um modo determinado de proximidade objetificante, mas essa determinação não é tematizada.
  • Transcendência como condição de possibilidade da objetificação e retorno ao problema do mundo
    • A tematização do simplesmente presente exige que o ser-aí transcenda os entes tematizados, e por isso a transcendência é dita pressuposta pela objetificação, não consistindo nela.
    • A crítica às teorias do conhecimento que absolutizam a relação sujeito-objeto decorre da recusa de um sujeito sem mundo que sairia de sua esfera imanente para um objeto externo, pois tal concepção ignora o ser-no-mundo como estrutura originária.
    • O problema central se recoloca como questão de como o ser, enquanto transcendens, pode ser desvelado por um ser-aí transcendente, e essa questão é trazida ao primeiro plano pela modificação do compreender cotidiano do ser em compreender teórico do ser como realidade substancial.
    • A transcendência é reconduzida ao ser-no-mundo e, em última instância, à estrutura temporal extática do ser-aí, pois é na remoção a si e no vir-a-si e voltar-a-si que se funda a remoção a um vis-à-vis e a formação do horizonte de face-a-faceidade no qual entes podem mostrar sua presença, conduzindo novamente ao problema da constituição temporal do mundo e de sua transcendência.
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