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2 A Verdade segundo o cristianismo

HENRY, Michel. Eu Sou a Verdade. Por uma filosofia do cristianismo. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2015

  • A Verdade do cristianismo deve ser entendida no sentido fenomenológico puro, não se tratando de verdades como “os franceses tomaram a Bastilha em 14 de julho de 1789” nem “Cristo veio ao mundo para salvar os homens”, exemplos em que a atenção se fixa num conteúdo, num estado de coisas histórico
  • Perguntando-se que interesse acrescenta a fórmula “é verdade que”, responde-se que nada menos que a verdade do mundo, valendo o estado de coisas por si mesmo apenas sob condição de uma manifestação totalmente diferente do que ela torna manifesto, esse “fora de si” onde tudo se torna visível
  • A questão filosófica da Verdade pura não pode ser evitada, tornando-se patente quando o próprio estado de coisas empírico causa problema, como no caso da vinda de Cristo ao mundo, estando essa vinda subordinada à vinda do próprio mundo, a seu aparecimento como horizonte de visibilidade
  • As questões sobre a autenticidade histórica dos Evangelhos perdem seu caráter liminar por estarem subordinadas à questão prévia do aparecimento do mundo, essência mais originária que a própria verdade do cristianismo enquanto fato histórico
  • É decisivo observar que a Verdade do cristianismo difere por essência da verdade do mundo, concernindo não ao que se mostra mas ao fato de se mostrar, não ao fenômeno mas à fenomenalidade, sendo termos equivalentes “aparecimento”, “verdade”, “revelação”
  • Explica-se a diferença radical: como a verdade do mundo torna manifesto colocando cada coisa fora de si, produz-se aí a divisão entre a Verdade e o que é verdadeiro, divisão que só ocorre quando a verdade é compreendida como a do mundo
  • O primeiro traço decisivo da Verdade do cristianismo é não diferir em nada do que ela torna verdadeiro, não havendo nela separação entre o ver e o visto, entre a luz e o que ela ilumina, por não haver nela Ver nem visto, nenhuma Luz como a do mundo
  • Sendo esse conceito cristão irredutível ao conceito tradicional de verdade que domina o Ocidente da Grécia à fenomenologia contemporânea, pergunta-se o que é uma verdade que não difere do que é verdadeiro: sendo a fenomenalização da própria fenomenalidade, o que se manifesta é a própria manifestação, o que se revela é a própria revelação, uma autorrevelação
  • Deus é essa Revelação pura que não revela nada além de si, sendo a Revelação de Deus sua autorrevelação, não podendo, se endereçada aos homens, consistir senão na partilha dessa autorrevelação eterna, sendo o cristianismo nada além da teoria dessa doação
  • Onde vemos algo assim como uma autofenomenalização original: em lugar algum, estando aqui fora de questão o “ver”, que pressupõe sempre a formação prévia do horizonte do mundo, valendo isso tanto para o ver sensível quanto para o inteligível
  • Que a Revelação de Deus não deva nada à fenomenalidade do mundo, antes a rejeitando, ressalta com violência na oração de Cristo no Jardim das Oliveiras: “Não rogo pelo mundo” (João 17:9), e em “Meu reino não é deste mundo” (João 18:36), não se tratando de julgamento moral mas de proposição sobre a essência de Cristo: “eu não sou do mundo” (João 17:14)
  • Pergunta-se como teríamos acesso a essa Revelação que não se mostra no mundo, e mesmo como podemos pensá-la, sendo o pensamento sempre relação com o mundo, remetendo-se à irredutibilidade da Verdade cristã ao pensamento, tema maior do próprio cristianismo, citando-se Cristo: “ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos” (Mateus 11:25)
  • Superando-se a dificuldade principal, de que a fenomenalidade mundana é incapaz de manifestar a Revelação divina, resta uma única possibilidade: um acesso a Deus só pode se produzir ali onde e como se produz sua autorrevelação, sendo apenas quando falta o pensamento e a verdade do mundo que pode se cumprir a autorrevelação de Deus
  • Onde se cumpre tal autorrevelação: na Vida, essência do próprio autorrevelar-se, produzindo-se essa autorrevelação onde quer que haja Vida, enunciando-se assim a primeira equação fundamental do cristianismo: Deus é Vida, sabendo-se isso não pelo pensamento mas na e pela própria Vida
  • Cita-se a constância dessa afirmação no Novo Testamento: “Eu sou o Primeiro e o Último, o Vivente” (Apocalipse 1:17-18); “Deus Vivo” (Timóteo 3,15); “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo” (João 5:26); e do Verbo, no Prólogo joanino: “O que foi feito nele era a vida”
  • Opõem-se a essas definições pela Vida as referências ao Ser, como o nome de Javé, “Eu sou aquele que é”, ou o Apocalipse: “Eu sou o Alfa e o Omega… Aquele que é” (1,8), afastando-se desde já o contrassenso de reduzir a essência do Deus cristão ao Ser grego, pertencendo o conceito de Ser, remetido a seu fundamento fenomenológico, à verdade do mundo
  • Explica-se que a palavra “ser” pertence à linguagem dos homens, linguagem do mundo, encontrando-se a cada passo mesmo quando Deus se designa aos homens nessa linguagem, ao passo que a Palavra referida a Deus mesmo se dá invariavelmente como Palavra da Vida, jamais como “palavra do Ser”
  • Citam-se novos textos: “As palavras que vos disse são espírito e vida” (João 6:63); “anunciai… tudo o que se refere àquela Vida” (Atos 5:20); “o pão de vida” (João 14:28); e as metáforas do fogo, da água — “a água da vida” — e da árvore — “árvores da vida” (Apocalipse 22:2)
  • O próprio da Vida enquanto autorrevelação é revelar-se a si mesma, dissociando-se duas significações: que a Vida cumpre a revelação, e que o que ela revela é ela mesma, diferindo essencialmente do mundo, que lança cada coisa fora de si, tornando-a duplamente exterior — exterior ao poder que a manifesta e exterior a si mesma
  • A Vida, ao contrário, não lança para fora o que revela, retendo-o num estreitamento tão íntimo que o que retém e revela é ela mesma, podendo por isso experimentar-se sem distância, sendo ela mesma o que experimenta e o que é experimentado
  • Na autorrevelação da Vida nasce toda realidade possível, sendo por isso que se deve rejeitar desde já, remetendo-se a Hegel e ao marxismo como sua expressão mais tenaz, a ideia de que o cristianismo seria fuga da realidade por ser fuga do mundo, dissolvendo-se essa censura em nonsense se a realidade reside apenas na Vida
  • A realidade reside na Vida porque o que ela experimenta, sem distância nem diferença, é ainda ela mesma, remetendo essa identidade a uma condição mais fundamental, a essência mesma do “viver”, modo de revelação cuja fenomenalidade específica é a carne de um pathos, matéria afetiva pura da qual está excluída toda cisão
  • Interroga-se se afirmar que o que revela é o mesmo que o que é revelado não pressuporia já a distinção que pretende superar, respondendo-se que tais diferenciações potenciais pertencem à morfologia da linguagem, enraizada no mundo, sendo experimentar-se, tal como o faz a Vida, fruir de si, matéria fenomenológica homogênea, carne afetiva monolítica cuja fenomenalidade é a afetividade como tal
  • A autorrevelação da Vida é assim sua fruição, a autofruição primordial que define a essência do viver e a do próprio Deus, sendo, segundo o cristianismo, Deus Amor, não sendo o Amor senão essa autorrevelação em sua essência patética, a autofruição da Vida absoluta, amando-se Deus eternamente a si mesmo nesse Amor infinito
  • Colocam-se então questões urgentes: que relação essa Vida absoluta mantém com o que correntemente se chama vida, objeto da biologia e de seus progressos metodológicos contemporâneos? Que interesse resta ao discurso arcaico do cristianismo para o homem de hoje? Como pensar o próprio homem à luz dessa concepção da Vida, sendo a definição grega do homem como animal dotado de logos insuficiente e mesmo perigosa por não reconhecer nele nada além de um vivente
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