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estudos:henry:em:1.8

§8 Fenômeno

HENRY, Michel. L’essence de la manifestation. Paris: PUF, 1963.

§8 - A elucidação da essência do fenômeno, tarefa central da fenomenologia

  • A fenomenologia é a ciência dos fenômenos, descrição anterior a toda teoria e independente de toda pressuposição de tudo o que se propõe a nós, a título de existente, em qualquer domínio, implicando a recusa de toda hipótese ou princípio unificador que forneceria regra de inteligibilidade ou condição necessária de existência a um setor da realidade
    • a ciência preocupa-se em ir além dos fatos e coordená-los em sistemas explicativos, mas o elemento científico remete sempre a um dado fenomenológico sem o qual não teria sentido, existindo esses elementos e sistemas para nós apenas a título de dados que se justapõem no meio fenomenológico à própria realidade que pretendem explicar
    • a desconfiança da fenomenologia diante das concepções filosóficas ou científicas deve-se ao fato de que estas mascaram uma realidade cujo sentido esquecem ou travestem ao pretender explicá-la, sendo essa desconfiança na verdade indício de um trabalho positivo de preservação da significação dos conjuntos constituídos como princípios explicativos
    • é a fenomenologia que defende a ciência contra a tentação de ser uma nova metafísica, proibindo-a de se constituir como realidade absoluta e inserindo os edifícios abstratos no contexto da experiência humana, sendo o objeto científico também um objeto de experiência
  • Se o conceito de fenomenologia é fácil de apreender em sua significação negativa, como colocação entre parênteses das construções que a pensamento teórico superpõe ao real, sua determinação positiva reclama análise centrada na ideia de fenômeno, pois a fenomenologia pretende ater-se exclusivamente ao que se manifesta tal como se manifesta
    • Husserl afirmava serem os fenomenólogos os verdadeiros positivistas, reconhecendo como fonte de direito para o conhecimento não apenas a visão empírica mas a visão em geral como consciência doadora originária sob todas as suas formas, servindo o elemento teórico de fundamento quando se limita a exprimir o dado intuitivo em significações que lhe correspondem
    • o enunciado fenomenológico pretende ter valor absoluto porque repousa sobre o que se mostra em si mesmo tal como é, sendo absoluta a aparência a que remete, o que apparece sendo o que não se pode recusar, escapando à redução, o que permite a Scheler restituir à metafísica, ao ser e à vida seu antigo direito como dados absolutos, afirmando que o ser absoluto é conhecível de modo evidente e adequado em toda esfera do mundo exterior e interior
  • Uma filosofia apoiada no dado não elude o problema da não-verdade, mas substitui a problemática tradicional do erro pela mais radical da ilusão, que justifica a aparência cujo conteúdo é sempre verdadeiro, resultando a ilusão do transporte inadequado de um Sachverhalt para outra camada de ser que não a sua
    • o erro, caso particular da ilusão, consiste no estabelecimento de uma relação inadequada entre um Sachverhalt pensado no juízo e o Sachverhalt correspondente presente na intuição, remetendo o fenômeno do conhecimento sempre a um dado, uma aparência que serve de fundamento último a ser compreendido em seu sentido próprio
  • A significação absoluta da fenomenologia funda-se na presença da coisa, isto é, em sua aparência, traduzindo-se, numa filosofia da consciência, em dogmatismo da intencionalidade capaz de fornecer ao argumento ontológico um fundamento real, embora a significação desse absoluto revele-se rapidamente relativa, pois toda aparência se cerca de uma zona de sombra
    • o dado fenomenológico encerra implicações que remetem sempre a algo que não está ali, sendo a significação da fenomenologia como método justamente prosseguir a elucidação do que é implicado pelo sentido do cogitatum sem ser intuitivamente dado, ampliando o reino da aparência e da racionalidade
    • o cumprimento do trabalho fenomenológico não pode dissipar totalmente a sombra que envolve a aparência e coloca em causa seu caráter absoluto, não havendo totalidade intuitiva, pois a elucidação do implicado no dado aparente só prossegue se este sacrifica sua presença ao desenrolar ulterior do processo, permanecendo em aberto se aquilo a que a aparência remete pode se dar por sua vez como aparência
  • A lei que prescreve relacionar a aparência a um processo fenomenológico de explicitação permanece estranha à consciência natural e também à fenomenologia enquanto esta se compreende apenas como positivismo, mesmo num sentido ampliado, pois essa lei é a da essência, não considerada enquanto o pensamento se atém ao que aparece como absoluto
    • tal pensamento permanece numa interpretação ingênua e pré-crítica da fenomenologia, fazendo uso de um conceito de fenômeno não elaborado, sendo o que funda a presença do que aparece o próprio ato de aparecer, a essência do fenômeno e da presença como tal
    • enquanto a consciência natural se lamenta diante do destino temporal do ser que lhe advém, o pensamento que se preocupa com a essência compreende a necessidade de remontar à lei que comanda esse destino, sendo essa mesma razão, a mesma lei, que funda e que suprime
  • A dependência fundamental do que aparece em relação ao ato de aparecer exige que este se torne tema da problemática, cujo objeto é o modo de manifestação do que se manifesta, a simples manifestação de que já falava Hegel comentando as religiões da luz
    • a crítica do positivismo significa que a fenomenologia não pode se confundir com uma descrição de ordem ôntica, adquirindo sua significação propriamente filosófica apenas quando se compreende em seu desígnio ontológico de ultrapassamento do existente rumo à essência que o funda em seu ser
    • a redução fenomenológica não busca salvar certos conteúdos considerados certos enquanto outros seriam suspensos, sendo a realidade que ela extrai a essência onipresente e universal de todo fenômeno como tal, de modo que a redução fenomenológica é una com a redução eidética entendida em sentido último, introduzindo-nos na esfera do absoluto
    • essa verdade transcendental à que nos introduz a redução não é uma realidade misteriosa, mas a própria verdade identificada com o ser, sendo ser e verdade contemporâneos, como diz Heidegger, podendo essa verdade transcendental ser chamada de Forma, elemento formal ontológico ao qual pertence todo fenômeno enquanto fenômeno
  • Enquanto se atém à essência do fenômeno, a problemática instituída pela fenomenologia deve ser entendida em sua significação absolutamente universal, encontrando a reflexão sobre a essência, no exame da simples aparência, confirmação de seu caráter absoluto, pois erro, ilusão e verdade são co-determinados por um fundamento comum
    • é a verdade absoluta que permite à ilusão manifestar-se, fundando-a assim em seu ser, o que permite responder à pergunta de Hegel sobre como o saber verdadeiro pode provar sua verdade contra o saber não verdadeiro, já que faltaria a este apenas compreender o sentido de sua afirmação para ser também saber verdadeiro e real
    • o saber é a manifestação e, como tal, a essência, de modo que o saber não verdadeiro, por ser saber, também se manifesta e porta em si o ato de manifestar-se, elevando-se assim a problemática da essência à ideia da igualdade entre saber verdadeiro e saber não verdadeiro perante o saber absoluto, sendo essa verdade absoluta a realidade absoluta, origem que ilumina toda coisa
  • A consciência natural esquece o mais das vezes a essência que lhe faz o dom da presença, podendo-se chamar de saber verdadeiro ou real aquele que reconhece a obra da essência, sendo a fenomenologia justamente esse saber verdadeiro enquanto vise ser o saber da essência, e assim a ciência do ser, ou seja, a ontologia, como pôde dizer Heidegger
    • convém distinguir os problemas últimos da fenomenologia, que definem o campo de uma fenomenologia primeira, de uma fenomenologia segunda voltada à elucidação do sentido do ser nas diferentes regiões, sendo expressões como fenomenologia do ser, do ego ou do tempo ambíguas, pois podem se justapor a uma fenomenologia das formas sociais ou do objeto matemático
    • coloca-se o problema de saber se a fenomenologia do ego ou do tempo não pertenceria antes à fenomenologia em sentido primeiro, caso em que ego e tempo não seriam realidades da mesma ordem que a sociedade ou a matemática, mas antes elementos constitutivos da definição imanente da verdade absoluta
  • O objeto da fenomenologia primeira não pode lhe ser exterior, sendo antes tão interior a ela que nela se funda e encontra seu princípio, esse objeto sendo a essência do fenômeno, e a fenomenologia nada mais é que a colocação em obra dessa essência visando uma elucidação, uma promoção e realização na presença
    • a compreensão do vínculo que une a fenomenologia, como fenomenologia primeira, a seu objeto revela-se difícil, sendo a fenomenologia o modo de tratamento que se quer fazer a realidade sofrer, isto é, à essência, o Como que indica a maneira de tratar o que deve ser debatido, sendo porém esse próprio Como o que deve ser debatido
    • como afirma Heidegger, ontologia e fenomenologia não são duas disciplinas lado a lado, mas caracterizam a filosofia mesma segundo o objeto e o modo de tratamento, sendo aqui porém o objeto o próprio modo de tratamento, dando a fenomenologia acesso ao fenômeno cuja via de acesso é o próprio fenômeno, buscando a Parusia do absoluto sobre o fundamento do absoluto compreendido como Parusia
  • Enquanto aplicação do método fenomenológico ao problema da essência do fenômeno, a fenomenologia move-se em círculo, signo de seu caráter absoluto, admitindo uma pressuposição fundamental que é o próprio fundamento, o absoluto, sendo a fenomenologia uma pesquisa que visa elucidar seu próprio fundamento, uma reflexão sobre si mesma, seu próprio objeto
  • Os problemas últimos da fenomenologia referem-se à sua reflexão sobre si mesma e sobre seu fundamento, decidindo-se aí o sentido da fenomenologia conforme a natureza desse fundamento, sendo o Como de sua abordagem subordinado ao Como da realidade da qual se aproxima
    • o modo como essa realidade vem ao nosso encontro deveria comandar o modo como a acolhemos, sendo o olho pelo qual o absoluto nos olha o mesmo pelo qual olhamos o absoluto, restando saber a natureza dessa visão e a essência do fenômeno
  • A todos esses problemas da fenomenologia primeira permanece suspensa a compreensão do vínculo entre ontologia e fenomenologia, indeterminada enquanto o pensamento não alcança o interior da estrutura da essência, não devendo a objeção do círculo deter o trabalho de elucidação, que se confia à essência na expectativa de que esta se torne enfim transparente a si mesma
    • a menos que seja vontade da própria essência recusar essa transparência final e manter-se definitivamente no mistério, devendo então essa vontade ser esclarecida e a essência trazida diante de si mesma, questão que permanece em aberto quanto ao modo como se deve operar tal colocação da essência em presença de si
    • a essência compreendida como poder ontológico que funda toda presença não é estranha à consciência natural, à qual o saber absoluto é imanente enquanto consciência, mas resta saber se a apreensão temática da essência consiste na representação da essência, o que só ocorreria se a própria essência consistisse em representação
  • Husserl afirma que na esfera do psíquico não há diferença entre ser e aparência, afirmação que permanece indicação vaga enquanto não se define o que se deve entender pelo fato de aparecer, permanecendo igualmente indeterminado o que não aparece enquanto a simples manifestação não for apreendida rigorosamente em sua essência
    • o fato de não aparecer pode ter significação apenas limitada e negativa se ligado a um conceito não elaborado da essência fenomenal, podendo o que é dado como não aparecendo sê-lo apenas ante uma concepção unilateral e abstrata da essência, sendo possível que levar a determinação da essência até o fim revele uma Forma mais fundamental que confira presença ao que era primitivamente pensado como não aparecendo
  • A determinação da essência deve também fornecer o quadro ontológico para discutir a relação dessa essência com o existente que nela encontra seu fundamento, podendo apenas essa determinação dizer se o ultrapassamento do positivismo é definitivo e se a essência adquirida nessa transgressão pode fechar-se sobre si, abstrair-se da determinação ôntica e absolutizar-se preservando sua autonomia
  • A determinação da estrutura interna da essência é a única capaz de delimitar o campo dos problemas últimos da fenomenologia e de dizer se a fenomenologia do ego pertence a esse campo dos problemas primeiros, e em que sentido
  • A tarefa de determinar a essência do fenômeno impõe-se como tarefa central da fenomenologia de modo tanto mais urgente quanto é sobre o fundamento de uma concepção inexplicitada do fenômeno que a filosofia sempre colocou e resolveu seus problemas, mostrando a elucidação dessa essência que, quando finalmente tematizada, apenas ratificou, elevando-as ao absoluto, as pressuposições ontológicas que desde a origem guiaram, mas sobretudo extraviaram, a pesquisa e o pensamento filosóficos
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