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Sociedade

HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.

A Sociedade, a Classe, contra o indivíduo vivo

  • O indivíduo vivo difere do indivíduo definido pelo pensamento porque em sua relação consigo mesmo, que é justamente sua própria vida, não há pensamento algum no sentido de representação de objeto, nenhuma relação Sujeito/Objeto, sendo o próprio da representação essa colocação à distância, esse vir-diante do olhar do pensamento indicado pelo alemão Vorstellen, pôr-diante
  • Na vida, ao contrário, esse vir-diante um olhar a título de objeto jamais se produz, mostrando o exemplo de uma dor, uma fome ou um frio que o pensamento não tem como colocar à distância de si mesmo, pois se pudesse fazê-lo, ter-se-ia cessado de sofrer ou de sentir fome, podendo-se representar a fome de diversas maneiras — “puramente psicológica”, “bulimia”, “injustiça” — sem que essas representações mudem nada à pura impressão de fome, a essa subjetividade vivente e sofredora
    • essa impotência do pensamento a respeito da vida tem-se em razão da própria natureza dessa vida, no fato de não haver, entre ela e ela mesma, nenhuma distância, nenhuma relação a objeto possível, sendo por isso que o eu, o indivíduo vivo, é impotente para se desfazer de sua vida
  • Ilustra-se com a época da libertação sexual, quando mulheres diziam “meu corpo é meu, posso fazer dele o que quiser”, modo de falar improprio pois o corpo não é “propriedade” no sentido de Stirner, um objeto que o pensamento poderia representar como bem entendesse, sendo próprio de um objeto ser separado de mim e por isso alienável, o que não é o caso do corpo vivo com o qual me identifico, sem que eu possa “liquidá-lo”, como diz brutalmente Marx, o que explica por que o operário que vende sua força de trabalho vende, na verdade, a si mesmo, indo para a fábrica
  • Pergunta-se por que o operário vem a se vender a si mesmo, respondendo-se que é pela obrigação de satisfazer necessidades ditas materiais ou naturais, cujo sentido não se explica pela simples enumeração empírica mas pelo caráter irrepressível e contraignante de cada necessidade vivida como tal, compreensível apenas por sua subjetividade, por sua imersão na vida
    • fome, frio e libido são “insuportáveis” não por avaliação do pensamento mas porque sua natureza é subjetiva no âmago de seu ser, não podendo ser postos à distância nem escapar ao que seu ser tem de opressivo
  • Na vida o mal-estar engendrado pela necessidade cresce até se tornar sofrimento forte demais que aspira a se suprimir a si mesmo, sendo esse movimento a pulsão, cujo peso decorre não da intensidade da necessidade mas de sua subjetividade, dessa imersão do sofrimento em si mesmo sem saída, o que o empurra a se transformar em bem-estar
  • Nessa união originária do afeto e da ação reside o princípio da atividade incessante pela qual a vida transforma o mal-estar da necessidade insatisfeita em bem-estar da satisfação, sendo o corpo subjetivo do indivíduo vivo o lugar onde se exerce esse impulso, sendo tal trabalho da vida o trabalho tout court, aquele que atua na “economia”, sendo o indivíduo vivo, portador dessa essência sofredora e agente da vida, quem produz constantemente a sociedade como sua própria vida
  • Pôr o indivíduo vivo no princípio da sociedade e da história não é postular um indivíduo isolado à Robinson Crusoé, sendo tal abstração incompatível com o conceito de um indivíduo definido pela vida, pois na vida nascem indivíduos em número infinito porque cada experiência de si mesma é necessariamente singular e engendra um Si
  • Se o indivíduo vivo, sofredor e agente, pulsional e patético, está no princípio da sociedade e de suas leis, basta conceber uma situação em que os indivíduos não fazem mais nada e não querem mais fazer nada para que as condições da vida social sejam abaladas em seu âmago, comprometendo a própria existência dessa sociedade, situação que não é arbitrária mas a simples representação do que se passa nos países do Leste
  • Resta compreender por que os indivíduos não querem mais fazer nada, fornecendo o marxismo a primeira resposta teórica através da substituição dos indivíduos vivos por entidades abstratas — a Sociedade, a História, as classes sociais — a partir das quais pretende explicar a totalidade dos fenômenos, efetuando-se assim um extraordinário renversement em que o princípio, o indivíduo vivo, torna-se consequência das abstrações que tomaram seu lugar
    • essas abstrações são produtos do pensamento, objetos de pensamento que, enquanto tais, são coisas mortas em sentido rigoroso, não se sentindo nem sofrendo, não obedecendo à grande lei do prazer/desprazer
  • Convém precisar essa afirmação, remetendo-a à grande dicotomia entre vida e morte que domina o pensamento de Marx e o diferencia do marxismo, sendo um conceito, como o de sociedade, uma objetividade ideal desprovida de propriedade real, citando-se a proposição famosa de Spinoza segundo a qual o conceito de cão não ladra
    • há no marxismo, como nas ciências humanas que ele inspirou, a crença de que a realidade pensada no conceito é do mesmo tipo que o conceito, sendo assim a sociedade real compreendida ilusoriamente segundo o modelo do conceito de sociedade, tornando-se a Sociedade uma realidade una da qual os indivíduos são o reflexo, cada um espelhando-a como cada árvore reflete a Árvore
  • Descreve-se como o indivíduo se define pela Sociedade de seu tempo desde a infância e a escola, absorvendo uma língua e uma ideologia ao ponto de ser mais correto dizer que não é ele quem fala mas a língua que fala nele, determinando o lugar e a função que ocupará na sociedade
  • Para Marx, porém, a sociedade não existe, tese que se impõe irresistivelmente a partir da intuição de que a realidade reside apenas na vida, sob forma individual, tornando-se evidente que a sociedade é apenas uma palavra, um conceito para designar a realidade dos indivíduos vivos que constituem sua substância, o que ressalta da polêmica de Marx contra Stirner: “Por meio de algumas aspas Sancho [Stirner] transforma aqui 'todos' [todos os indivíduos] numa pessoa, a sociedade enquanto pessoa, enquanto sujeito”
  • Essa discussão tem dupla importância teórica e prática: no plano teórico, afirmar que a sociedade constitui realidade específica diferente da dos indivíduos implica leis sociais diferentes das leis do próprio psiquismo individual, tese de Durkheim e sua escola, princípio fundador da própria sociologia, acolhida com favor pelo marxismo em razão da similitude de suas hipóteses fundamentais
  • Dessa tese resulta uma dissimetria grave entre os sistemas de regulação social e individual, parecendo o indivíduo fragilíssimo diante do poder da sociedade, tendo os próprios psicólogos reconhecido a interiorização das normas coletivas no psiquismo individual, na origem do Superego freudiano
  • Marx rejeitara antecipadamente com violência inaudita essas teses, negando toda realidade à sociedade como entidade substancial autônoma e extraindo dessa negação sua consequência decisiva: se a realidade da sociedade se resolve inteiramente na subjetividade vivente dos indivíduos, as leis dessa sociedade só podem ser as leis dessas subjetividades vivas
    • na polêmica contra Proudhon, Marx rejeita como absurda a ideia de que a sociedade siga leis diferentes das que têm origem no indivíduo: “O Sr. Proudhon personifica a sociedade, faz dela uma sociedade-pessoa… que tem suas leis à parte, nada tendo em comum com as pessoas de que se compõe a sociedade”, acrescentando que “a vida dessa sociedade segue leis opostas às leis que fazem agir o homem como indivíduo”
  • Consideram-se os efeitos práticos dessa ilusão sociológico-marxista, consistindo num duplo movimento de elevação da sociedade e rebaixamento do indivíduo, ao termo do qual os indivíduos deixam de ser membros da totalidade social para se tornarem seus produtos, sendo a sociedade a realidade verdadeira, efetiva e eficaz, e os indivíduos meras rolhas flutuando na superfície do mar
  • Nessa ideologia prática, toda ação para modificar um estado de coisas deve incidir sobre a Sociedade, a causa verdadeira, seguindo-se naturalmente a modificação do comportamento individual, sendo os males dos indivíduos atribuídos à corrupção da sociedade
  • Um acaso benevolente permitiu a Marx ridicularizar essa tese ao ironizar os “verdadeiros socialistas”: “aprendemos que a sociedade é depravada e que por essa razão os indivíduos que formam essa sociedade sofrem toda sorte de males”, consistindo o absurdo dessa tese em hipostasiar a sociedade como realidade superior aos indivíduos: “A sociedade… separa-se desses indivíduos, autonomiza-se, deprava-se por conta própria, e é só em consequência dessa depravação que os indivíduos sofrem”
  • Essa teoria sociológico-marxista do primado da sociedade conduziu os regimes nela fundados a agir sempre sobre a totalidade abstrata, jamais sobre os indivíduos vivos que definem o único lugar e princípio de toda ação efetiva possível, gerando nos habitantes dos países socialistas atitude passiva de esperar tudo dessa sociedade tida como única realidade e único princípio de realização efetiva
  • Refletir sobre essa ideologia difusa permite cercar mais de perto o princípio do fracasso econômico do socialismo: se toda realidade reside na vida dos indivíduos e toda ação em seu esforço subjetivo e corporal, a “Sociedade”, diferente e exterior a eles, é incapaz por princípio de qualquer ação, não fazendo e não tendo jamais feito nada — quem já viu a sociedade cavar um buraco ou consertar uma torneira?
  • Todo regime em que a sociedade é reconhecida como única realidade e única potência eficaz está por princípio votado à paralisia e à penúria, agravando-se esta à medida que essa crença se reforça no espírito de quem define as opções políticas, econômicas e educacionais
  • A penúria não é lei no sentido objetivo que o marxismo e a ciência dão a essa palavra, sendo o objetivismo, ao pôr como objeto exterior ao indivíduo o que só tem realidade nele, a própria ação, uma visão totalmente errônea, não sendo as pretensas leis objetivas da sociedade senão representações das ações que a vida realiza e que só são possíveis como atualização de seus próprios poderes
  • É ilusão absoluta crer que normas comuns às ações tornam estas realidades de tipo objetivo, ou que leis objetivas possam suscitar por si mesmas a passagem ao ato de qualquer atividade, funcionando como causa das ações individuais, pois causas e efeitos situam-se apenas no plano da realidade, e dizer que a práxis social é subjetiva é confiar unicamente aos indivíduos a produção da riqueza de uma sociedade, e dizer que onde essa atividade cessa começa a penúria
  • Por só ter aparência de lei objetiva, a penúria enraíza-se na ação ou inação dos indivíduos, exercendo aí seus efeitos: falta e necessidade, fome, frio, ausência de produtos, medicamentos, livros, ideal, culminando na eliminação da esperança, caracterizando o desespero ligado à miséria material a situação imposta em todos os países socialistas
  • Hipostasiar a sociedade como objeto de pensamento e ciência, discutir infinitamente sobre sua estrutura dialética, não impede reencontrar os indivíduos vivos no princípio de todas essas construções, com suas necessidades intactas e urgentes, restando-lhes, quando a necessidade não encontra satisfação dentro da vida, satisfazer-se fora das normas sociais: pela violência, pelo saque
    • pilhar é apropriar-se de um bem de consumo sem tê-lo produzido, revelando o saque um estado social em que a produção é confiada à “sociedade”, tendendo a produção real a zero, sendo a “sociedade” obrigada a se apropriar do produto do trabalho dos indivíduos, que por sua vez se apropriam do que a sociedade lhes tomou, erguendo-se dois setores, público e privado, que só podem viver do saque mútuo, retornando assim a vida, eliminada em proveito das abstrações da sociedade, do povo, da história, sob forma selvagem
  • O marxismo, contudo, não se detém nessa abstração simples da sociedade, empreendendo análise mais fina de seus constituintes reais, os verdadeiros agentes: as classes sociais, tocando-se aqui em seu aspecto mais inquietante, o que propriamente o aproxima de uma teoria fascista
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