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Capitalismo

HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.

Vida e morte no regime capitalista

  • O capitalismo não se enganou ao apostar na única força que existe no mundo, a força da vida, a força de trabalho vivo, fazendo dela seu fundamento, sua exploração instintiva e sua decisão consciente, suscitando por essa razão metafísica e ontológica a maior revolução conhecida pela humanidade, ou melhor, a única
  • Distingue-se essa revolução total da revolução política, que corre sempre à superfície, e da revolução econômica, sempre parcial, que deixa intacta a própria realidade econômica, tendo o capitalismo se voltado deliberadamente para o fundamento mais profundo desta, produzindo em poucas décadas mudanças mais profundas que os milênios anteriores
  • Encontrar essa força de trabalho vivo disponível foi tanto sorte quanto acaso para o capitalismo nascente, pois no estado habitual das coisas a força da vida não está disponível, sendo o mundo um mundo-da-vida do qual ela é inseparável, apropriando-se dela o ar respirado, o solo pisado, o instrumento manejado, sendo essa coapropriação originária do indivíduo vivo e da Terra essencialmente prática
  • Para tornar disponível a força de trabalho foi preciso romper essa coapropriação primitiva, arrancar da vida as matérias-primas e instrumentos aos quais ela aderia, ruptura ontológica disfarçada de evento histórico: a expropriação camponesa e a vinda ao mercado como trabalhadores “livres”, isto é, despojados de todo meio de produção, tendo o gênio do capitalista sido perceber essa força tal como era — e comprá-la
  • O gênio de Marx foi perceber que essa troca capital/trabalho não era uma troca verdadeira, pois diante da valor de troca do salário não está outra valor de troca mas uma valor de uso, a valor de uso fundamental, o uso da força de trabalho vivo, obtendo o capitalista não outro valor mas a própria força criadora de valor
  • Fixado esse destino, o capitalismo deve fazer essa força trabalhar cada vez mais, produzindo mais valor do que custa, o que se cumpriu explorando homens, mulheres e crianças de dez a quinze horas por dia, sem respeito por fadiga, moradia ou dignidade, sugando o sangue do trabalho vivo como um vampiro, na expressão recorrente de Marx
    • assim como a produção de valores de uso resulta do “cadinho da produção” onde o trabalho vivo funde e reconfigura as matérias, a valor de troca resulta desse mesmo beijo ardente da vida, sendo apenas sua representação objetiva
  • Todo o universo econômico é essa representação objetiva do trabalho vivo, tendo os constituintes econômicos significação dupla, positiva e negativa: enquanto índice do trabalho vivo, a valor de troca designa sem equívoco o verdadeiro motor do sistema
  • Não se pode esquecer, contudo, o caráter objetivo e ideal desse índice, opondo-se ao trabalho vivo como o irreal ao real, não se retendo no trabalho social e abstrato as propriedades singulares — intensidade, tédio, satisfação — do trabalho real de cada indivíduo, mas apenas uma norma, o mesmo trabalho definido socialmente sendo vivido de modo sempre diferente por quem o executa
  • Encontra-se aqui o fundamento meta-econômico da aporia da justiça social: sendo justo pagar o mesmo salário pelo mesmo trabalho objetivo, mas diferindo radicalmente sua efetuação subjetiva real, citando-se Marx na Crítica ao programa de Gotha: “Este direito igual é um direito desigual para um trabalho desigual”
  • Sob a sombra dessa impossibilidade de medir o mérito de cada um esconde-se o fenômeno crucial da produção da mais-valia, a exploração, sendo precisamente por ser o salário incapaz de demonstrar sua equivalência ao trabalho real que se torna possível pagar o mesmo por trabalhos diferentes
  • Até agora se tomou o processo real como origem e o processo econômico como seu duplo representativo; o regime capitalista inverte essa relação fundadora, operando uma verdadeira subversão ontológica em que o resultado, a valor, o capital, se apresenta como motor de todo o sistema, enquanto a força que produz as determinações econômicas passa a ser tratada como uma delas, sob o nome impreciso de “trabalho”
  • Essa subversão se revela no nível da troca: na economia tradicional a fórmula é Mercadoria-Dinheiro-Mercadoria, visando o valor de uso; no capitalismo a fórmula se inverte em Dinheiro-Mercadoria-Dinheiro, tornando-se o dinheiro o único fim da produção, e o processo vital mero meio de produzi-lo
  • Submetido o processo vital ao processo econômico, sua estrutura interna se modifica profundamente: enquanto a produção visa satisfazer necessidades humanas, ela é limitada como elas, mas a produção de dinheiro, quantidade pura à qual sempre se pode acrescentar mais, é ilimitada, tornando-se o processo real mero servidor dessa produção indefinida
  • Isso significa que a peça passa a ser representada por dublês: os elementos de substituição do processo econômico funcionam no processo real como suas verdadeiras causas, submetendo-se o trabalho vivo a seu duplo irreal, tornando-se a valor, mero sinal posterior da ação da vida, o único motivo dela, conferindo a essa situação uma espécie de loucura
  • Deve-se mostrar, primeiro, que essa substituição é ilusória, pois abstrações e idealidades jamais foram capazes de produzir ação real nem, portanto, o que apenas a figura, sendo o capital, suposta valor autoacrescentável, desmascarado no princípio
  • O que vale para a valor de troca vale para toda realidade econômica, sendo o lucro, por exemplo, forma modificada da mais-valia, cuja produção se passa no plano da vida e do trabalho vivo, implicando toda análise do capital, produtivo ou financeiro, fixo ou variável, matematizável cada vez mais pela economia moderna, uma questão de sentido a esclarecer
  • O verdadeiro problema é saber se essas análises se limitam à mera morfologia dos fenômenos econômicos, explicando-se economicamente a si mesmos, sendo a intuição de Marx denunciar essa ilusão, tratando o conjunto dos fenômenos econômicos como aparência a ser explicada e não como princípio explicativo
  • Nenhuma análise morfológica dos conceitos econômicos — capital produtivo, comercial, financeiro, fixo, circulante — explica a formação das valores nem seu poder de acréscimo, traduzindo apenas um estado de fato pressuposto sem justificá-lo
  • Explicar o universo das valores exige, portanto, sair desse universo e retornar ao poder que as produz, remetendo as vicissitudes econômicas às vicissitudes da força de trabalho, à história da própria vida e a seu poder de ultrapassar suas necessidades, sendo essa a via de uma análise econômica autêntica: remontar a um fundamento meta ou extra-econômico
  • Essa análise meta-econômica mostra assim que no fundo do capitalismo, como princípio de seu triunfo, encontra-se em toda parte a vida
  • Encontra-se aí também a morte. A substituição dos elementos do processo real por equivalentes objetivos ideais não é inocente, pois com o capitalismo a finalidade da troca se inverteu, não se tratando mais de produzir valores de uso mas dinheiro, reagindo essa nova finalidade sobre o processo vital e bulversando sua estrutura interna
  • Produzir mais dinheiro é produzir mais mais-valia, havendo dois meios para isso: primeiro, aumentar o tempo de sobretrabalho às custas do tempo de trabalho necessário, alongando a jornada, como no século XIX, meio que tem limites; segundo, desenvolver a produtividade do trabalho real, encurtando o tempo necessário à manutenção do operário e liberando tempo de sobretrabalho cada vez maior, mantida a mesma duração da jornada
  • Com o desenvolvimento dessa produtividade chega-se ao cerne da história do capitalismo, que é também a do mundo, história não factual mas principial, assentada em “Arqui-fatos”, num poder supra-temporal sempre presente que precede e determina a priori a história, permitindo o capitalismo, mais que qualquer outro regime, reconhecer essa tendência
  • Essa tendência, enraizada na vida e determinada em última instância pela vontade de viver, sofre no capitalismo uma inversão: a teleologia vital que visa satisfazer o desejo se inverte, afetando a estrutura interna do processo real sob a forma de um desenvolvimento indefinido da produtividade — modificação apenas “técnica”, mas é com ela que a história do capitalismo se junta à do mundo para iluminá-la de luz trágica, sendo então que a tendência que habita a história basculará em seu contrário, tornando-se a tendência da morte
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